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Passo por uma banca de jornais e vejo um milhão de sorrisos descontraídos, de pares de peitos incríveis, de bundas perfeitas empinadas e penso: “se eu fosse homem eu tava brocha!” Tanta mulher gostosa de graça, em todos os ângulos, que sinceramente, sei que soa careta, mas acho que é por isso que os caras de 30 anos andam indo aos consultórios tratar de impotência. Tédio é o nome do negócio. Estímulo externo demais com pouco estofo interno dá nisso: tédio. Tédio brocha.
Eu sou cantora, há mais de vinte anos que subo em palco pra cantar. Vi platéias de todos os tipos, no Rio e fora do Rio e do Brasil. Vi platéia encantada, vi platéia blasé, vi gente adorando e achando um saco. Isso é normal, esse é o jogo.
Hoje fiz um show num local público, de graça. Nunca na vida eu vi um público com olhos tão vazios, com um desinteresse tão grave, com uma ausência tão absoluta. Vocês vão pensar, claro: “ah, o show devia estar horrível!”. Não estava. Essa não é a questão. Meia dúzia de gatos pingados estavam atentos, amando tudo, compraram o CD, pediram autógrafos. Normal. Mas a apatia da maioria me apavorou. A cara de desinteresse de quem passava e nem olhava, nem se coçava, como se nada estivesse acontecendo. Como se três pessoas não estivessem ali tocando lindos instrumentos e cantando lindas músicas. Como se aquilo não fosse nada. Será que a gratuidade do ingresso desvaloriza o show? É um ponto-de-vista, que não me basta.
E o que a mulher pelada tem a ver com os olhos vazios da platéia? Tudo a ver. Tédio é a palavra. A mídia, ops, com o perdão da má palavra, esqueceu de avisar que para desfrutar de um mundo de informações, imagens, sons, cores, cheiros e variedades é necessário usar os sentidos, é necessário ter vida interior, é necessário estar vivo. Hoje eu vi um bando de mortos-vivos. Eles podem não ter gostado do show. Eu não gostei foi da platéia.
tags: Rio de Janeiro RJ cultura-e-sociedade apatia publico plateia show desinteresse cultura artista cantora cantor de graca entrada-franca
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Esse é o retrato da cultura no Brasil, minha cara.
wiene · Cuiabá (MT) · 13/7/2007 13:30
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Andrea, vocês artistas devem mesmo captar essa falta de tesão nas coisas de um jeito diferente quando estão no palco. É um privilégio (meio torto, mas enfim...) que pode resultar em alguma reação, não? Deve dar vontade de dar um grito pra ver se o povo sai do transe... rs. Essa conversa dá muito pano pra manga.
Helena Aragão · Rio de Janeiro (RJ) · 13/7/2007 13:53
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é, wiene, é isso que eu temo concluir...
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 16/7/2007 01:41
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Helena, o mundo está todo preparado para induzir ao transe...
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 16/7/2007 01:42
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Andrea, voce tem razão. Estamos num mundo, num País, de multidão. Uma multidão sem identidade. Corpos sem alma. A alma dessa multidão está no que dita a mídia, a globo. A cartada jogada, estampada no patrocínio dos estádios de futebol.
- Estamos formando um povo sem opinião, sem poder de crítica e de dissernimento.
- A final, nunca o mundo foi tão gerido por velhos, com mentalidade de velhos. Pode parecer absurdo, mas é verdade.
Andre Pessego · São Paulo (SP) · 16/7/2007 18:01
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Sensacional, Andrea. Eu tenho sentido isso lecionando. Cadê a fome por informação, a sede de conhecimento dos alunos? Inexiste. Eu tenho platéias de alunos apáticos que não vêem graça em aprender nada, que cumprem a grade horária de estudo como se fosse um time de futebol num campeonato já perdido cumprindo tabela. Jovens! Jovens! O que está errado com esse panorama? Será que a vida como um todo se transformou em alguma coisa tão sem graça, tão sem tempero que nada faça com que as pessoas saiam da apatia? Viver ficou chato?
Tem alguma coisa errada mesmo e eu confesso que não sei de onde vem isso. Não sei se é porque a economia vai mal, se foi o Onze de Setembro ou se as novelas da TV estão uma chatisse. Dá pra tentar achar um culpado durante horas e desconfio que não acharemos nenhum, a não ser talvez o fato de que nada mais tem valor. O que é que tem valor hoje?
Valioso pra mim é a minha gatinha me dando bom dia de manhã e ronronando pra mim. É a minha sobrinha de 3 anos que num rompante de entusiasmo virou e falou pro pai dela, como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo: "pai, você sabia que a tia Dani tem uma cozinha dentro de um armário?"
É isso, a experança do fim da apatia é a minha sobrinha de 3 anos, que enxerga na situação econômica da tia professora falida que mora numa kitchinete com um armário-pia-cozinha um motivo pra assombro e admiração, achando que eu sou um ser especial, mágico e misterioso, porque ao invés de ter uma cozinha que é um ambiente completo, de capa de revista, com todas as utilidades de consumo, tenho um armário mágico, que você abre e tem uma cozinha dentro.
Está certa a minha sobrinha, que vê assim a kitchinete onde eu moro. Devíamos todos ver o mundo com esse olhar de 3 anos de idade. Viveríamos melhor.
DaniCast · São Paulo (SP) · 16/7/2007 18:55
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Cacilda, o que tem de erro de português no meu comentário não é bolinho. Desculpa aí o assassinato da flor do lácio, foi acidente.
DaniCast · São Paulo (SP) · 16/7/2007 18:56
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Emocionante, Dani, a história da sobrinha. Em que momento da história deixamos de ver as coisas dessa forma? Qdo começa a doer?
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 17/7/2007 05:04
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A. Pessego, será que é só no Brasil? É isso q eu me pergunto...
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 17/7/2007 05:07
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Andrea
Eu acho que o entusiasmo morre quando tudo é reduzido a valor econômico. Que valor financeiro tem a beleza de uma flor? A luz do sol no amanhecer? O sorriso de uma criança?
Mas vivemos hoje numa sociedade que tem até slogan pra isso "pra todas as coisas cartão de crédito" e o sorriso, não tem preço. Ou seja, o sorriso foi incorporado a necessidade de comprar coisas. Tudo hoje, pra ter valor, tem que ter dinheiro no meio.
É pernicioso.
DaniCast · São Paulo (SP) · 17/7/2007 15:48
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verdade. outro dia, conversando com uma galera mais nova, percebi que todo mundo só pensa em ser alguma coisa que dê "muito dinheiro". Acabaram os sonhos de ser alguma coisa e ter realização pessoal, uma vida bacana, um ambiente legal... Agora é ser pra ter status, pra ter coisas.
andrea dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 17/7/2007 18:23
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