O que muitas vezes conhecemos do índio brasileiro é uma figura folclórica que a mídia gosta de publicar. O índio vestido como nativo, vivendo da caça, agricultura de subsistência, no meio do mato, morando em ocas e praticando suas danças e rituais. Mas será que essa figura corresponde à realidade? Ao que indica, esse é um quadro do passado, em muitas etnias brasileiras, principalmente no Nordeste.
Eu e minha família conhecemos de perto, desde 2001, a realidade da etnia Xukuru, moradores da Serra do Ororubá, na cidade de Pesqueira-PE, e temos visto o quanto eles têm crescido como cidadãos, pessoas cientes dos seus direitos e deveres. Eles vivem numa comunidade altamente organizada, possuem conselhos próprios de lideranças indígenas, de professores e de agentes de saúde. O Conselho de Professores Indígenas Xukuru (Copixo) e o Conselho Indígena de Saúde Xukuru (Cisxo), são exemplos. Lutam por conseguir educação e saúde diferenciada, onde índio ensina e cuida da saúde do índio. Eles tem consciência do que é melhor para eles e tem lutado por isso.
A maioria mora em casas de alvenaria, nas 26 aldeias, onde vivem mais de 10 mil índios. A maioria tem acesso a luz elétrica, telefone público. Muitos possuem água encanada. Os Xukuru têm a sua roupa típica chamada tacó, que constitui saia e chapéu feitos de palha, pelerine, colares, brincos e pulseiras de sementes, cocares, que usam no ritual do toré, dança de fundo religioso e político praticada por eles, porém, no dia a dia vestem roupas “normais” (será que é essa palavra?) como os demais habitantes da cidade. Eles não usam indumentárias especiais para serem índios, eles são índios, pensam como índios, falam como índios, tem a cosmovisão de índios. Mas, como nós temos roupas especiais para ir a uma festa, casamento, igreja, eles têm roupas próprias para celebração dos rituais, retomadas de terras, apresentações.
Cada aldeia da etnia Xukuru possui escola onde os próprios índios ensinam. Muitos professores têm feito graduação em educação. Só neste ano, duas índias concluíram o curso de Pedagogia, juntamente com meu marido. Em Pesqueira, já existe um curso superior diferenciado para professores indígenas. Há também índios estudando em universidades em outras cidades. Tem índio estudando Direito, Medicina, e tantos outros cursos.
A escritora Ana Lígia Lira, durante o tempo em que morou em Pesqueira, escreveu um livro sobre a realidade indígena atual intitulado Eu vi um índio de jeans e celular. Sim, os índios do nordeste usam jeans e celular. Muitos têm acesso a internet. Uma ONG ofereceu uma oficina de vídeo, e hoje podemos ver os próprios índios filmando e editando seus eventos.
Os Xukuru têm uma história sofrida desde o seu reconhecimento como índios até hoje. Donos, desde sempre, da terra, os Xukuru deram origem à cidade de Pesqueira, que nasceu na aldeia Vila de Cimbres. Com o tempo, seu território foi invadido por grandes e pequenos produtores agrícolas e rurais, que forjaram documentos, tomando posse da terra dos índios, que passaram a trabalhar em suas fazendas como empregados. A luta pela retomada e homologação de suas terras começou com o Cacique Xicão, que foi assassinado em maio de 1998, por tentar reaver o que sempre foi por direito dos índios. A morte do Mandaru, como hoje é chamado, não enfraqueceu a etnia, eles continuaram lutando, e hoje eles possuem 95% de seu território homologado. Por este caminho, ocorreram ainda muitos assassinatos de indígenas por causa da luta pela terra. Mas eles não desistem. O cacique atual, Marcos Luidson, filho do cacique Xicão, mesmo sob ameaça de morte, continua buscando os direitos do seu povo.
Todos os anos ocorre uma assembléia Xukuru, que teve início em 1986, sob a liderança do cacique Xicão, onde os índios discutem sobre a organização do processo de retomada das terras e outros assuntos relacionados à realidade indígena. Nesta ocasião se fazem presentes tanto os índios Xukuru, como representantes de diversas etnias indígenas brasileiras, ONGs, imprensa, acadêmicos, representantes do Ministério Público e Poder Legislativo. Hoje, sem Xicão, os índios debatem na assembléia os projetos futuros para o desenvolvimento sustentável da etnia, a política indigenista brasileira e a questão da criminalização dos movimentos indígenas. Em maio deste ano, os Xukuru tiveram, na assembléia, a presença do Governador do Estado de Pernambuco Eduardo Campos, onde houve a doação de quatro resfriadores de leite para os índios conseguirem estocar e revender leite de qualidade e mais barato na cidade. Também foi instalado pelo Governo do Estado o Conselho Estadual Escolar Indígena, que irá representar 640 professores e 8.458 alunos e estabelecer ações referentes à política de Educação Escolar Indígena.
Os índios brasileiros de hoje não são como aqueles pintados em quadros, na época do “descobrimento” do Brasil, aquela figura inocente e sem alma, um animal exótico que precisa ser preservado no seu habitat natural e tantos outros absurdos proclamados, pasmem, ainda nos dias de hoje, por estudiosos e acadêmicos. Ao contrário, são pessoas atuantes na sociedade, cientes do seu papel como cidadãos. Afinal, por que nós, não-índios, temos direito a uma vida confortável, cheia de toda parafernália tecnológica, e os índios devem viver somente dos próprios recursos para não deixar de ser índios? Por que podemos ter liberdade de conhecimento de mundo, cultural e religioso, e o índio não pode, por que corre o grande risco de deixar de ser índio? Nós perdemos a identidade de brasileiros mesmo vivendo num mundo globalizado?
Índio não deixa de sê-lo porque é cidadão, ele é cidadão porque é índio.
Oi Pessoal, mt obrg pelas sugestões, realmente o texto ficou mais legível. Só não pude colocar mais fotos desta vez...
Adriana Leal · Pesqueira, PE 11/7/2008 21:39
Muito bom. Interessante mesmo, porque nessa onda protecionista do índio ele perde a possibilidade de ser, exatamente, cidadão. E seu texto esclarece tão bem isso. Muito borigada!
Adorei
oi Adriana: muito obrigado pelo seu texto! Para quem ficou interessado sobre o assunto, recomendo outras colaborações publicadas aqui no Overmundo: esta aqui sobre forró indígena em Roraima; esta outra sobre identidades em reconstrução no Festribal de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas; e ainda mais outra sobre Maria Pankararu, doutora em linguística pela Universidade Federal de Alagoas. Isso é o que eu me lembro assim de supetão: há muito mais para se descobrir por aqui! abraços
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2008 23:03
esqueci de colocar o link para o Festribal: aqui vai
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2008 23:05
Eu tinha visto este escrito em edição e talvez, devido a problemas de serviços, desacompanhei da votação.
Feliz Natal
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