Eu e a Revolução

manguebit.org/iconografia
Chico Science & Nação Zumbi
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SILVASSA · Salvador, BA
11/2/2007 · 56 · 2
 

Não sei se as revoluções têm características particulares. Algo que faça alguns de nós – por acaso ou mérito, tanto faz – sentirem que elas estão por vir. Sei lá. Uma evidência qualquer, uma sutil demonstração de que as coisas estão para mudar.

Mesmo quando mais novo, nunca fui o melhor dos sujeitos pra sacar que algo novo tava pintando. Acho que tem a ver com o fato de ser excessivamente crítico e carregar um outro tanto de descrença. Coisas de quem lê demais, quem sabe. Ou coisas de quem lê os livros errados.

Era, como vários caras de minha idade, contrário a tudo. Lutava contra o que quer que fosse óbvio – uma obviedade numa época de equívocos e outras descobertas. Qualquer leve suspeita e caminhávamos resolutos na direção inversa. E lá íamos nós de cabelos longos, com camisas pretas num sol de rachar. Buscando um novo riff ou um novo som - mesmo que estes estivessem sido inventados lá nos setenta; contanto que fosse de fora. Isso causava um tipo de cegueira que carrego até hoje.

Naquela tarde a coisa não era lá muito promissora. Na verdade, o que me levou a ir até ali foi a mais pura preguiça. Um tipo de negligência em causa própria. O convite surgiu de um amigo, na casa do mesmo. A gente tentava decifrar uns solos do Hendrix – ou seria do Page? – enquanto rolava umas “outras ondas” naquela pequena sala de estar.

Ao menos havia o pôr-do-sol. Era bacana. Aliás, no Solar do Unhão, o sol era presença marcante. Não aquele tipo de sol chapado e cru. Tinha outras nuances, outras definições e cores. Estendido, gigante, imponente.

No anúncio recortado do jornal pelo meu amigo, o nome da banda nos fazia acreditar que era do estilo “regional” – entendam as aspas como algo que, na época, colocávamos no saco das coisas óbvias, comuns demais para nossos egos enfurecidos; nossa certeza de estarmos na contramão, num caminho certo. Alguns fios já estavam espalhados por onde seria o show. As pessoas, algumas pelo menos, pareciam ter as mesmas expectativas que nós dois. Mas era uma boa e preguiçosa tarde. E havia o sol, caso a coisa fosse excessivamente tediosa.

Quando a guitarra surgiu, toda suspeita de tédio, repetição ou obviedade desapareceu. Foi detonada, literalmente. O Chico, ele mesmo, com esse nome tão trivial, cantava coisas que até então eu não compreendia. Uns tambores enormes e pesados – estes com nomes menos triviais: alfaia - sacudiam e faziam ruir algumas velhas certezas. Elas quebravam, feito vidro vagabundo.

A gente se divertiu. Alguns que, assim como nós, chegaram desconfiados demais, curtiam e dançavam do jeito que lhes parecia melhor: o corpo respondendo ao som pesado, as surradas camisas pretas encharcadas de suor.

Era uma mudança. Que nos fez alterar o rumo das coisas. Fazer outras escolhas, ouvir outros sons; acertar nos livros e nos discos; sermos um pouco nós mesmos.

O nome é revolução. Mas você pode chamar também de Manguebit




Chico Science - dez anos se passaram

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Egeu Laus
 

Belo texto. Algo épico, algo lama...
Por onde andam os caranguejos hoje? O que fazem?
Um abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 6/2/2007 23:27
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SILVASSA
 

eles ainda estão por aí.

outro abraço

SILVASSA · Salvador, BA 7/2/2007 21:36
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