Eu Sou o Samba

Roberto Maxwell
Everson Ottani
1
Roberto Maxwell · Japão , WW
12/10/2008 · 218 · 8
 

Estudante da Universidade de Shizuoka desvenda as relações entre o samba e os brasileiros no Japão

Brasileiro bom é aquele que tem o samba e a bola no pé, certo? Errado. Quem não nasceu para passista ou ritmista sabe que não é bem assim. Porém, para a grande maioria dos japoneses — e todo o resto do mundo — é pelos pés que se identifica um brasileiro. Em qualquer um dos quatro cantos do planeta, a ginga do samba e do futebol é a característica mais atribuída aos naturais da Pátria Canarinho. Aqui no Japão, essa imagem não vem apenas da falta de conhecimento dos nacionais sobre o Brasil. Se olharmos bem de perto, na grande maioria das vezes em que a comunidade brasileira participa de algum festival japonês estão lá os sambistas como representação legítima da alma verde-e-amarela. E foi por isso que Ai Watanabe, graduanda em Ciências Sociais da Universidade de Shizuoka, foi conferir qual a importância dos eventos de samba na formação da identidade dos brasileirinhos vivendo em Hamamatsu (província de Shizuoka). A cidade é conhecida em todo o Japão por ter a maior população brasileira do país. São cerca de 20 mil brasileiros, em uma população de pouco mais de 800 mil habitantes.

De Bob Marley ao samba brasileiro
A idéia inicial da estudante era fazer alguma pesquisa relacionada ao reggae. Apaixonada pela música de Bob Marley, ela tentou mas não encontrou meios concretos para levar o estilo para academia. Porém, já decidida a estudar algo que estivesse relacionado com música, a recém-graduada encontrou o samba brasileiro através de indicações de seu orientador, o professor Tatsushi Ogino, da Faculdade de Ciências Humanas de sua universidade. “Eu nunca vi um carnaval brasileiro, mas achei interessante ter uma manifestação como esta aqui no Japão”, conta Watanabe que foi a campo para conhecer as pessoas que estão envolvidas com o evento em Hamamatsu. Na cidade, sempre no mês de agosto, ocorre um desfile anual de carnaval. Carregando na cabeça a imagem que associa o brasileiro ao samba, a estudante imaginava que carnavais como o de Hamamatsu seriam um dos meios através dos quais os imigrantes brasileiros transmitiam a cultura de seu país para as crianças. Ela teve essa idéia tomando como base as pesquisas sobre os festivais organizados por imigrantes coreanos que vivem no Japão. Porém, ao entrevistar pessoas envolvidas no carnaval, Watanabe começou a ver que as coisas eram bem diferentes.

No Brasil, japoneses; no Japão, brasileiros

“Nós, japoneses, temos certos estereótipos acerca dos brasileiros e um deles é o samba”, conta o professor Tatsushi Ogino. “Por isso, partimos da hipótese de que o samba é um bem cultural importante para todos os brasileiros e, portanto, que os carnavais seriam uma forma de ensinar coisas do Brasil para as novas gerações”, explica o acadêmico. “Porém, o que vimos foi que a maioria dos brasileiros que fazem samba no Japão não tinha contato com o estilo quando morava no Brasil”, completa a graduanda. Esse é o caso de Everson Ottani, um dos membros-fundadores da Escola de Samba Hamamatsu Alegria Independente. A única referência carnavalesca que Ottani tinha quando chegou ao Japão era uma fantasia de escola de samba que usou num baile quando ainda morava no Brasil. O conhecido dançarino Marcos Takeda também têm uma história semelhante. Se, quando ainda estava no Brasil, alguém contasse a Takeda que ele viria para o Japão e se apresentaria como passista em uma escola de samba, o jovem não acreditaria. “Não tinha nenhum contato com o samba no Brasil”, afirma ele.

Descobrir que nem todo brasileiro é sambista foi a primeira grande surpresa do professor japonês e de sua pupila. “Nas leituras e pelas entrevistas, fomos percebendo que, no Brasil, os nikkeis têm mais ligação com a cultura japonesa do que com a brasileira”, diz ele. Um dos materiais usados para a pesquisa foi o livro Strangers In The Ethnic Homeland (em tradução livre, “Estranhos Na Terra dos Antepassados”) escrito pelo nikkei americano Takeyuki Tsuda. Para escrevê-lo, Tsuda passou alguns meses no Brasil conhecendo a colônia japonesa e, em seguida, embarcou para o Japão onde decidiu trabalhar numa fábrica para estudar de perto a realidade dos dekasseguis. No livro, ele conta sobre como muitos nikkeis brasileiros questionam sua identidade étnica depois de viver no Japão. “No Brasil, nós somos vistos como japoneses e, no Japão, como brasileiros”, diz o passista Marcos Takeda. Sua fala é um bom exemplo daquilo que Tsuda relata em seu trabalho. Deparados com essa situação, a graduanda Watanabe e seu professor tiveram que rever suas hipóteses.

A chave é a socialização
Ao analisar as entrevistas, Watanabe foi percebendo que o samba de Hamamatsu era um agregador de pessoas e exercia a função de socializar, de criar um espaço de interação para os imigrantes. Uma interação não apenas com seus nacionais mas, também, com os japoneses. O caso de Ottani, o fundador da escola de samba, é típico. Ele conta que seu maior desejo ao chegar em Hamamatsu era fazer amigos. “Quando eu cheguei, eu falava inglês mas não falava japonês e decidi estudar a língua para poder fazer contatos”, relembra. Foi através de um panfleto no mural do curso que Ottani soube da existência do samba de Hamamatsu. Era um grupo que se reunia para tocar e conversar sobre samba e, para a surpresa do brasileiro, a maioria dos participantes era japonês. Ao interagir com o grupo, ele percebeu que aqueles nipônicos sabiam mais sobre samba que ele. Encafifado e com muita vontade de fazer parte do grupo, Ottani começou a estudar e a fazer aulas de dança com uma professora brasileira que vive em Hamamatsu.

Marcos Takeda também chegou ao samba por conta do desejo de fazer amizades. Quando chegou a Hamamatsu, ele descobriu um grupo de teatro e decidiu fazer parte. Através do grupo, ele conheceu a mesma professora com quem Ottani estudava. Começou a estudar samba e, desde então, não parou mais. As histórias de ambos foram a chave para que Watanabe e seu professor entendessem o significado, para os brasileiros, das festas de samba realizadas em Hamamatsu.

A história do desfile das escolas de samba de Hamamatsu começou em 2001. Ele foi criado por sugestão da HICE, a Fundação Para Comunicação e Intercâmbio Internacional de Hamamatsu. Um dos objetivos era promover a integração entre os brasileiros da cidade e destes com os japoneses. Parece que tem funcionado. Ottani fez amigos e hoje é uma referência na cidade quando o papo é samba. O rapaz sonha com o dia em que as escolas de samba locais tenham o mesmo papel que suas inspiradoras no Brasil. “Lá, as escolas existem porque têm uma relação com a comunidade, oferecem suporte. Espero que um dia, a nossa escola possa oferecer à comunidade algum tipo de suporte, também”, conclui ele.

Pode ser que os brasileiros de Hamamatsu ainda não tenham se tornado os sambistas de mão cheia que a gente vê nas boemias do Rio de Janeiro e São Paulo. Mas, uma coisa é certa: tanto aqui quanto lá o samba segue cumprindo o seu papel de integrar as pessoas, quase sempre sem fazer distinção social entre elas.

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Hermano Vianna
 

excelente, Roberto - todos seus textos aqui dão excelentes documentários - essas situações de contato transcultural rendem muito - abraços

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 12/10/2008 14:55
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Juliaura
 

Ainda bem que não veio ninguém aqui reclamar do retrato nem do vezinho ripi.
Mesmo sem gravata, tá lindão o Everson.
Acho que ele ainda não sabia da falência da maior seguradora japonesa, nesse clique aí.
Essa, sim, uma nota semitonada que atravessa o éter feito raio e esvazia veloz os bolsos das bolsas e dos bolsistas.

Juliaura · Porto Alegre, RS 12/10/2008 22:06
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Andre Pessego
 

Assim mesmo em tudo as relações Brasil-Japão tem sido cheias de "equivocos". Tantos só comparados os equivocos das relações Japão/Manchuria.
- Do trabalho sem dúvida interessante. Esta dispretensão vem fazendo o Brasil perpetuar seus equivocos.
Professor Roberto, abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 12/10/2008 22:17
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Giovanni Guidi
 

Muito interessante. Gostei bastante. Uma aula de cultura.
Sucesso.
Votado.

Giovanni Guidi · Piracicaba, SP 12/10/2008 23:40
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Roberto Maxwell
 

Olá, Hermano, acho que os textos acabam ganhando as vezes de documentário, mesmo. Mas, quem sabe, não se transformam em vídeo assim que terminar o mestrado?

Roberto Maxwell · Japão , WW 13/10/2008 01:33
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kiko takeuti
 

As vezes passam fatos e acontecimentos em nossas vidas, que não notamos! simples porém muito interessante.!
abraço roberto.



















kiko takeuti · Japão , WW 14/10/2008 07:51
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Ilhandarilha
 

Muito interessante essa identificação pela via do samba. Se aqui eles se identificam com a cultura japonesa, no Japão se identificam com a cultura brasileira (representada pelo samba). São japoneses no Brasil e brasileiros no Japão. Isso deve gerar uma crise de identidade em qualquer um, não é? Ou não, como demonstra a adesão do Weverson ao samba. Tem umas fotos bem legais de uma escola de samba desfilando no Japão aqui no overmundo. Não achei o link, mas vale postar aqui, se alguém encontrar.

Ilhandarilha · Vitória, ES 14/10/2008 13:45
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Roberto Maxwell
 

Oi, ilha, são as fotos do Ricardo Yamamoto. Eu não as linkei porque se trata de um outro movimento de samba com outros contornos e perfis. Mas, está no link abaixo:
http://www.overmundo.com.br/overblog/toquio-o-maior-carnaval-do-mundo-fora-do-brasil

Há um outro texto, este meu no link:
http://www.overmundo.com.br/overblog/o-maior-carnaval-fora-do-brasil-asakusa

Roberto Maxwell · Japão , WW 14/10/2008 17:14
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir

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