...vou remar pro Rio de Janeiro para poder chegar lá e nunca mais poder voltar”¹.
Uma vez, estava com os meus livros expostos no ICBA, quando veio um cara falar comigo:
– Eu também escrevi um livro e estou procurando um lugar para lançá-lo, você indicaria algum?
Sugeri a ele que fizesse na Tom do Saber ou na midialouca, dando-lhe os respectivos contatos.
Um tempo depois, li no jornal que um novo escritor baiano estaria lançando um livro na Tom do Saber, mas, pela foto do jornal, não o reconheci. Nem lembrava do nome. Fui ao lançamento, olhei o livro, me interessei e fui falar com o autor, que, quando me viu, falou comigo como se já me conhecesse.
– Você que me indicou o lançamento do meu livro aqui, lembra não?
Lembrava apenas que tinha indicado para alguém, do diálogo no ICBA, mas não dele, nem da sua fisionomia.
Alguns dias se passaram e recebi um telefonema de um amigo, perguntando se eu tinha o interesse de trabalhar em uma agência de propaganda, pelo período de três meses. Chego pra trabalhar no primeiro dia e o cara do livro era um dos redatores da agência, Ismar Nascimento, que também é o vocalista da banda baiana Cissa Guimarães. Trabalha do meu lado. Seu livro é de Haikai, poesia japonesa, de textos curtos, como:
Velhice
– Hein?
Não escutei
O que disse
Não sei se são os 30, para muitos ainda sou jovem, mas não me vejo mais em alguma banda. Ficar posando ao lado de outras pessoas pra foto de banda me tem parecido constrangedor, assim como estar em um palco. Hoje eu desconfio de qualquer banda que apareça na capa da frente do disco.
Outro fator que me fez perder a vontade é o de ter de sair de casa pra ensaiar. Como os meus amigos estão nos 30, todo mundo trabalha e só pode ensaiar à noite, até tarde da noite. E pior do que ensaio é dia de show. Carregar a bateria pro elevador, do elevador pro carro, do carro pro palco, do palco pro carro, do carro pro elevador, do elevador pra casa... Encheu o saco.
Já gravar, não, é diferente. Gravar é massa. Se for só pra gravar, me chame que tô colado. Contanto que seja pra gravar sem ensaiar. Ensaia na hora.
Banda, ensaio, criar conta no myspace, tirar foto, carregar instrumento... Se a missão é se comunicar, achei melhor escrever.
Cheguei ao Rio de Janeiro pro lançamento do livro, 07 de agosto. Copacabana, dia de luz, festa de sol e um barquinho a deslizar no macio azul do mar². Me instalei e liguei pra Dudare, baixista da banda baiana Cof Damu. Gravaram um disco, fizeram shows por Salvador, assinaram com um selo carioca que vai distribuir o disco e foram todos morar no Rio de Janeiro. Estão lá desde maio deste ano. Na véspera da viagem, disse a ele que a fórmula do sucesso, quando se vai morar com uma banda, era seguir três regras:
1) Manter a casa sempre limpa e arrumada.
2) Ter plantas na casa.
3) A três não posso falar, mas tem a ver com plantas também.
– A gente se encontra onde? – perguntei, ao telefone.
– Na Praça do Lido, sabe onde é? – disse ele.
Não sabia, mas descobri. Nos encontramos na tal praça, que é em Copacabana, e fomos pro apartamento em que a banda está hospedada, ali do lado.
Pelo que observei, só o item 3 estava sendo seguido. Na sala, uma mesa com três notebooks e dezenas de cabos conectados e entrelaçados; uma televisão com um videogame (com mais cabos emaranhados); um sofá com guitarras, violões, baixos, teclados e diversos instrumentos de percussão, emaranhados; e uma vista para diversas janelas do prédio vizinho. Outro móvel que chama a atenção na sala é o freezer.
– Era um freezer, mas virou armário – disse Verônica, voz, flauta e violão da banda. É dela também as composições da banda.
– Na verdade, era armário, mas a geladeira quebrou e então a gente fez ele de geladeira, e quando a geladeira consertou, a gente voltou a fazer ele de armário, só que depois, tudo que a gente colocou dentro, mofou. CDs, DVDs, revistas, livros e outras coisinhas mais... – explicou Dudare.
Agora estavam “desmofando” o freezer para que ele volte a ser armário.
Na cozinha, um fogão com diversas panelas ainda gordurosas do miojo da noite retrasada; uma pia cheia de copos e pratos, igualmente engordurados (quase pedi uma esponja) e uma geladeira. Abri a geladeira.
– Essa geladeira, semana passada, se alguém fosse abrir, todo mundo tinha que sair do raio de cinco metros, pois na sala dava pra sentir o fedor – disse Daniela, produtora da banda.
A geladeira quebrou, coisas apodreceram e, quando deram conta, já era tarde.
No fundo, um quartinho onde o baterista Cláudio montou sua bateria, e o banheiro externo, que estava no nível de limpeza da casa. Dentro desta, dois quartos e outro banheiro, tão desencorajador quanto o externo. Me garantiram que na casa não tinha baratas, pois, do jeito que estava, nem as baratas queriam ficar ali.
– Por outro lado, acho que novos tipos de insetos estão sendo criados. Cada dia vejo um diferente – disse Verônica.
Pagam 1800 reais por mês de aluguel e tiveram um custo a mais de 150 reais com a geladeira, “que não ficou 100%”, segundo Verônica.. Uma diarista custa 50 reais. Tem tempo que não chamam uma. Um estúdio de ensaio custa 30 reais a hora.
– Ensaiar é mais importante – garantiram.
– E como estão sustentando esses custos todos? O rock tá pagando? – perguntei.
A gravadora com que eles assinaram não garante o orçamento. Sua tarefa é a de fazer a prensagem dos discos, o lançamento e distribuí-lo pra imprensa, produtores e lojas. Alguns membros da banda estão trabalhando em “trabalhos normais”, mas todos não podem fazer isso, pois alguém tem que trabalhar de verdade. Procurar casas de show, fechar contratos, produzir eventos, ter idéias para que a banda se desenvolva...
– Estamos vendo a possibilidade de vender acarajé – disse, seriamente, Daniela, que também é a que melhor cozinha na casa. Por sinal, todos disseram ter emagrecido muito.
Os shows ainda estão raros e, pra fechar as contas no fim do mês, vão “fazer barzinho”, tocando músicas de outros artistas, porém com outro nome. Não iriam usar Cof Damu.
– E qual seria o nome? – perguntei.
– Bender – disseram, em homenagem ao robô homônimo, que só pensa em dinheiro, no desenho animado Futurama, distração coletiva que tem salvado a banda do tédio. Toda noite tem uma sessão de Futurama, cujos DVDs da primeira, segunda e terceira temporadas, milagrosamente, não mofaram no freezer.
Verônica reclama da falta de luz natural do apartamento. As únicas janelas ficam de frente pro prédio do lado, deixando os dias escuros e sem inspiração. Todos na casa estavam de preto.
– E a convivência? Como estão se agüentando?
Ficaram pensando, procurando a palavra ideal pra descrever como é conviver, de uma hora pra outra, com mais cinco pessoas completamente diferentes de você, em um apartamento pequeno e mal iluminado. Depois de muito pensarem, dizendo coisas vagas como “é difícil”, “é meio complicado”, Dudare se adiantou e concluiu em uma frase:
– Rapaz, eu nunca imaginei que algum dia iria ver alguém da banda peidando na frente de Verônica.
Verônica concordou de imediato, dizendo que hoje em dia isso é normal. Que, no começo, a bagunça a incomodava, mas que aos poucos aprendeu a suportar, principalmente com a ajuda de muita concentração interior, alem da fé no sonho.
A banda teve uma significativa exposição no jornal O Globo, com um texto elogiando o trabalho da banda e fazendo ligação com os Novos Baianos, banda que também saiu da Bahia e foi morar no Rio de Janeiro e blá, blá, blá...
Saí de lá com uma mistura de pensamentos. Um sentimento de alívio, por mim mesmo, e uma demasiada atenção, pelo fato curioso de que, no dia em que chego pra lançar meu livro, que tem como base o enredo “bandas de rock da Bahia”, onde conto, entre outras coisas, algumas experiências minhas viajando com bandas em busca de alguma coisa, visito uma banda de rock da Bahia, no Rio de Janeiro, batalhando por todos aqueles sonhos.
Junto com o meu alivio, veio também um sentimento de admiração por eles, por ainda acreditarem no caminho do rock, de montar uma banda, compor músicas, gravar e sonhar que aquilo vai realizar aquela alguma coisa que se busca, mas que ninguém sabe o que é. É preciso ter coragem, tanto pra seguir esse caminho, como para confessar que quer seguir esse caminho.
O lançamento do livro foi massa. Revi muitos amigos, cariocas e baianos que estão morando no Rio. Alguns deles, personagens do livro. Também conheci outros tantos, uns que já conhecia por e-mails, outros que foram a convite de outros e outros que conheciam algumas bandas em que toquei.
Junto com o meu livro, eu entregava de brinde, além dos lápis de cera, um exemplar do livro de Ismar, que tem um formato menor do que de um livro de bolso. Um dia antes de eu viajar, na agência, ele me deu 32 livros e disse “entregue para quem você quiser”. Pensei “vou entregar pra quem comprar”. Vendi exatos 32 livros.
Caymmi morreu uma semana depois de minha volta a Salvador.
Mary, mulher de Dudare, que também está morando no Rio, ficou pirada pelo fato de Caymmi ter sido enterrado lá:
– O cara só cantou a Bahia, só falava do mar da Bahia, tudo era o mar da Bahia, e vai ser enterrado no Rio? Não me conformo – queixava-se.
Estava pirada. Disse que deviam mudar o nome da Av. Dorival Caymmi, em Itapuã, pra Av. Xuxa Meneghel.
Liguei pra Paulinho, dono da midialouca, pra falar da morte de Caymmi e do lançamento do livro. Paulinho também está morando no Rio, mas, justamente, na época do lançamento, ele estaria por um tempo em Salvador. Ele tem um acervo pessoal, que se transformou em um museu muito bem apresentável, sobre o roqueiro baiano Dorival Caymmi, outro que saiu da Bahia e foi morar no Rio de Janeiro. Em seu acervo, constam discos autografados, cartazes de filmes, cartas e desenhos feitos pelo próprio Caymmi.
– O prédio onde moro, no Rio de Janeiro, é do lado do prédio dele. Do meu apartamento dá pra ver a sala do apartamento dele – disse Paulinho.
Ele descobriu que era vizinho de Dorival quando viu alguns quadros e reconheceu ser desenhos de Caymmi e achou que se tratava de um outro fã, até que depois soube que se tratava do próprio quem morava lá.
– Não tive coragem de ir lá.
– Onde fica o apartamento? – perguntei.
– Na Praça do Lido, sabe onde é?
Enquanto isso, no livro de Ismar:
Retorno a Itapuã
Sob a sombra do coqueiro
Vou passar
O dia inteiro
_____________
(1) Doze badaladas, de Coelho e Dirceu, por Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis.
(2) O barquinho, de Menescal e Boscoli, por João Gilberto (outro roqueiro baiano que foi morar no Rio de Janeiro)
Nessa terra onde tudo q planta ROCK dá!
Diz ai cury,
na verdade ñ só com bandas a convivência é... digamos q estranha, isso é normal quando qualquer jovem "alternativo" sai do seio materno p/ se entranar com outros alternativos.rss ## abç meu velho!!
... hááá mas q saldade eu tenho da Bahííáá ... ia ia, até q ñ veiu.
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Da terra do Rock caipira de Celi Campelo
O Filho do Jeca
Andre Luiz Mazzaropi
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