Começo já desmistificando (ou mitificando). Apesar de viver minha infância, paralelo ao final do período de vida de Euclides, eu nunca o vi pessoalmente. Mas isso não é fator para se apreciar algo. Aliás, é para isso que serve a história ou as estórias. Para criar uma personagem, de acordo com a perspectiva de cada um. Ainda que se tenha uma referência da imagem deste algo. A perspectiva é sobre o todo e não apenas de uma das partes. Por isso, tiro agora Teixeira Neto da primeira pessoa, com o intuito metalingüístico (e não apenas este) de colocar-me como a primeira pessoa para assim relatar meu ponto de vista, meu conhecimento e a imagem que criei do meu Euclides. Ela pode ser parecida com a de outros, mas nunca será igual.
Baseio-me em livros (principalmente os escritos por ele mesmo), algumas teses, periódicos, hipertextos, outras biografias paralelas que influenciaram e vivenciaram no seu mesmo período e em períodos posteriores, captados através da linguagem escrita, da oral e da imagética. Eis a biografia...
Fui escutar o seu nome pela primeira vez quando adolescente. Contato ínfimo para saber unicamente que na minha cidade havia um escritor. Apenas tardiamente soube que ele tinha outros ofícios e feitos. Um deles o de advogado; que defendia o povo, principalmente referenciando à classe do trabalhador rural. Chamavam-no de “Dotô Ocride” e de “Advogado de pé de ladeira”. Suponho que pelo fato de que seu escritório situava-se ao fim da ladeira da Siqueira Campos, uma das ruazinhas da saudosa Ipiaú (Ba), onde passei anos da minha infância.
Nesta pequena cidade de várias possibilidades descobri um bairro denominado Fazenda do Povo e um museu, Museu do Lavrador. No primeiro, residiam trabalhadores rurais desempregados que tiveram a oportunidade de ganhar este pequeno pedaço de terra ao vivenciar o primeiro feito bem-sucedido da Reforma Agrária da Bahia. O prefeito, no ano de 1962, desapropriou uma propriedade rural e por conseqüência sofreu inquérito policial no ano de 1964. Referências observadas nos livros, 64: Um prefeito, a revolução e os jumentos (1983), e Trilhas da Reforma Agrária (1999). Já o segundo, era um local para exposição das ferramentas de trabalho, do trabalhador rural ao profissional de medicina. Surpreendi-me quando soube que Euclides José Teixeira Neto foi o bem-feitor deles. O museu não foi mais em seu mandato, foi no do então prefeito Hildebrando Nunes Rezende, para a comemoração dos cinqüenta anos da cidade, fundada em 02 de dezembro de 1933 promulgada pela Lei Estadual nº 8.725, com o governo de Juracy Magalhães. O município chamava-se Rio Novo e só em 31 de dezembro de 1943 passou a ser chamado de Ipiaú, de origem tupi-guarani e que significa: “Rio Novo”. Nossa cidade recebeu o título de município modelo da Bahia, no mesmo ano do inquérito.
Tenho muita afeição a estes fatos, pelo caráter possível que Euclides aplicou às doutrinas socialistas. Euclides era socialista declarado. Pode-se observar na sua literatura (priorizando sempre a imagem do trabalhador rural como o oprimido e a do fazendeiro como o opressor), no ofício do direito (quando defende apenas a classe dita, oprimida), na atividade política (realizando a desapropriação, o que antigamente era visto apenas com a característica do oprimido e como pessoa (criando animais com sentimento, não como produto, etc.).
Li uma biografia escrita pelo professor e historiador Albione Souza, onde apresenta como fator preponderante para a formação do caráter socialista em Euclides o fato de quando muito jovem, foi morar em Salvador, tinha cerca de11 anos de idade, para estudar nos colégios Antônio Vieira e Central; a influência do professor Torrend, que também era padre e proprietário do pensionato onde ele residiu na capital, ainda a formação acadêmica em Direito pela Universidade Federal da Bahia.
Vivendo paralelamente à mesma infância de Euclides, Josaphat Marinho complementa que com a experiência de vida deles naquela época, e principalmente as experiências vividas por Euclides, há a possibilidade de afloramento do socialismo nele. Pelas desigualdades sofridas e por presenciar a ânsia de enriquecer que tinham os fazendeiros e comerciantes. Um senso comum diria que foi uma construção. Foi cronológico. Marinho escreveu para o Caderno Cultural do jornal A Tarde, na página 05, no dia 20/05/2000, pouco mais de um mês após da morte de Euclides.
Da morte dele eu me lembro. Toda a cidade em luto. Não fui à escola para homenageá-lo. Mas também não o vi. Todos pararam seus afazeres por uns dias para sentir a ausência e a importância dele. O companheiro Ely Fonseca, agrônomo e funcionário da CEPLAC de Ipiaú, desabafa sobra à perda do amigo, ao escrever que “Ipiaú inteira chorou à partida de um personagem da mais alta relevância que por ali passara”. E prometendo “hastear a bandeira” que Euclides ergueu, para seus descendentes, assim o faz. Um dos meus principais influenciadores emprestou-me sua coleção euclidiana. Alguns deles até autografados. Cito também meu avô, Edward Pereira de Oliveira, que também me doou alguns dos seus livros que ficavam guardados em uma estante especial do seu escritório.
Suas obras publicadas: “Porque o homem não veio do macaco” (data), “Berimbau” (1946), “Vida Morta” (1947), “O patrão” (1978), “Os Genros” (1981), “64: Um prefeito, a revolução e os jumentos” (1983), “Machombongo” (1986), “O Menino Traquino” (1994), ”A Enxada” (1996), “Dicionareco da Roças de Cacau e Arredores” (1996), “Trilhas da Reforma Agrária” (1998), “O Tempo é Chegado” (2001 – livro póstumo, de contos, publicado pela EDITUS) e “Os Magros” (1956).
Citei “Os Magros” por último propositalmente. Não apenas por ser o livro da adaptação para o roteiro, mas também por este livro ser presente especial de uma companheira, Liz Maria Teles de Sá Almeida – licenciada em Letras pela UNEB. Talvez por isso o caso de amor com o livro. Não agrego maior importância a nenhum deles, os livros. Acredito que cada um tenha sua devida importância e se complementam.
A vontade de levar a bandeira hasteada adiante permanece. E enquanto houver história e possibilidades narrativas, Euclides viverá. Uso como ponto de partida o cinema, minha formação acadêmica atualmente em curso. É o meu compromisso. Será minha história.
Cabe enfatizar que, nunca tive um contato pessoal com este Grande Homem, mas o contato que tive através de todo material direcionado a ele, foram suficientes para perceber a sua vontade de mudar as pessoas, de mudar o mundo e o que há de errado nele. E assim eu fui adentrando e conhecendo Euclides com mais atenção, deixei-me permitir e ele agora não sai mais da minha cabeceira. Quem não conhece Euclides, desconhece um pouco da nossa História, da história da Bahia e de Ipiaú.
Não sei se ele queria ser um exemplo, mas felizmente ficou o exemplo da Personalidade, da Pessoa Pública e do Homem à frente do seu tempo!
Na verdade chego à conclusão que “Dotô Ocride” nunca morreu de verdade. “É eterno tudo aquilo que reside na memória”. (Rubem Alves).
Fico feliz por você existir!
Euclides José Teixeira Neto nasceu no dia 11 de novembro de 1925, no povoado de Jenipapo, distrito de Areia (atual Ubaíra). Viveu praticamente maior parte da sua vida em Ipiaú e morreu em 05 de abril de 2000, na cidade de Salvador, conseqüência de uma parada cardíaca. Socialista, acreditava que o mundo deveria ser por essência, comunista. Prefeito da cidade de Ipiaú, Secretário da Reforma Agrária do Estado da Bahia, Secretário da Assistência Social, escritor regionalista, advogado de pé de ladeira.
Caro Edsom Bastos...
Votei aqui e peço teu voto para manter o debate.
www.overmundo.com.br/overblog/gregor-schneider-e-a-beleza-da-morte
Grato!
Adorei, obrigada por dividir comigo esta história !
Patipetista · Santo André, SP 13/5/2008 11:13
Gostei... neste momento, o meu tempo está por demais escasso. Depois volto e comento.
Bjs
Interesante resgate de um homem que defendi os pequenos. Bom texto Parabens.Voto
Cintia Thome · São Paulo, SP 13/5/2008 21:52Que coisa gostosa o seu texto, Edson. Um abraço e continue publicando nestas bandas.
Caio Barretto · Rio de Janeiro, RJ 13/5/2008 23:49Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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