Europa às avessas

Talita Bagnoli
Fim de tarde (quente) em Manaus
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Talita Bagnoli Ribeiro · São Paulo, SP
11/2/2007 · 127 · 12
 

A melhor frase que eu já li sobre o clima em Manaus foi de Luís Fernando Verissimo: “O ar paira sobre as cidades, mas em Manaus ele senta”. A sensação é exatamente essa. Como se sofrêssemos de uma claustrofobia constante, nos sentimos trancafiados dentro de uma bolha. O ar denso parece pesar sobre a cidade. Os manauaras já se acostumaram a levar para os pulmões esse ar quente e úmido, mas quem vem de fora precisa de um tempo para se acostumar.

O primeiro choque é no tubo de desembarque. Como é de praxe, o ar-condicionado do avião é sempre ligado no máximo. As pessoas já acostumadas a voar vêm prevenidas, com sapatos fechados, calça comprida e casaco. Essas são as que mais vão sofrer. O primeiro passo fora da aeronave é quase traumatizante. O que vem na cabeça é sempre: “Com certeza a refrigeração do aeroporto está quebrada”. A idéia segue até o saguão do Eduardo Gomes, aeroporto internacional de Manaus, onde as pessoas são obrigadas pelo calor a retirarem os casacos.

Sempre amaldiçoando o raio do refrigerador que não funciona, seguimos para a parte externa, em busca de um táxi. Ao abrirem as portas, o segundo choque é desesperador. A idéia da pane no ar-condicionado do aeroporto some. Um bafo de ar quente e úmido quase nos derruba para trás. A vontade é correr de volta para dentro do aeroporto, mas ao abrir as portas do táxi, já sentimos um ventinho gelado. Entramos no primeiro que nos abre a porta, sempre. Não dá para resistir.

O calor já é cartão postal de Manaus. E quem mora aqui até gosta dele. Eu costumo dizer que é como morar em lugar muito frio. Dentro de todos os lugares precisa ter um aquecedor. Em Manaus todo mundo vive no ar condicionado. É uma Europa às avessas.
Assim como na Europa, o ar condicionado às vezes cansa, deixa os olhos vermelhos e dá dor de cabeça em quem não está acostumado. O alívio de sentir um vento fresco se transforma em desespero à medida que o ar não se renova e o ambiente continua esfriando...

Bem no coração da floresta amazônica, a cidade é realmente uma bolha. Cercada pela mata por todos os lados, ela é transformada em um microclima. O calor gerado pelo asfalto, concreto e poluição não consegue se dissipar. A floresta funciona como uma barreira. Esse ar quente não tem outra saída senão continuar por ali, sentado sobre Manaus.

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Guto Melo
 

Estive em Manaus rapidamente no ano passado (dois dias). Não senti o ar pairar nem sentar. Só senti um puta calor, ainda mais porque estava numa correria de trabalho danada. Mas achei a cidade meio dura, industrial demais. Talvez influenciado pelos lugares por onde andei. Afinal, não estava turistando. Quem sabe um dia com mais calma possa descobrir as belezas manauaras.

Sei que é sempre delicado apontar erros no texto dos outros, mas se isso aqui é uma fila de edição, penso ser também pra essas coisas. Ar-condicionado é escrito com hífen quando estiver se referindo ao aparelho ou ao sistema e não ao ar em si. Neste último caso sim é escrito sem hífen. Caberia correção em "ar condicionado do avião" (com hífen) e "pane no ar condicionado" (com hífen também). Nas outras duas vezes em que você usa o termo, no final do texto, grafa-se sem hífen mesmo.

Grande abraço.

Guto Melo · Brasília, DF 8/2/2007 13:55
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Thiago Camelo
 

Gosto desses textos curtos que apontam situações típicas a qual todo mundo passa na primeira vez em uma cidade. Pra mim, é singular o momento de saída de avião - como no "finger" nunca ter ar, é ali que você realmente sente o calor ou o frio (isso já me aconteceu numa madruga de 5ºC paulistana) do lugar. Uma dica - sinto falta de uma foto de Manaus para ilustrar a colaboração. Abração!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2007 17:15
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Felipe Obrer
 

Talita, também gostei do texto. Sou revisor de textos, mas nem atentei pra essas sugestões do Guto ali em cima (acabo de perceber que as sugestões dele foram acatadas por ti). De todo modo, a leitura fluiu fácil.
Fiquei pensando nos ácaros e outros bichinhos abundantes nos ares circulantes. Faço eco ao Thiago, gosto de textos sucintos como o teu. Legal a foto escolhida (e boa a dica) e o tom bem-humorado.

Abraço.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 10/2/2007 07:26
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Guto Melo
 

Sim o texto é bom e, como disse o Felipe, flui fácil. Quando for pra fila de votação, pode contar com o meu voto.

Guto Melo · Brasília, DF 10/2/2007 09:40
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Legal,pessoal! Valeu pela colaboração de vcs. Na verdade é meu début no overmundo... Achei o máximo a idéia e acho que os comentários só tem a acrescentar.
Nem sei se posso responder aqui. Ainda preciso aprender a "etiqueta" do site... Em resposta ao comentário do Guto sobre o calor, já escrevi outro... vou postar hoje. Grande abraço.

Talita Bagnoli Ribeiro · São Paulo, SP 10/2/2007 18:07
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Daniel Duende
 

Excelente texto, Talita!
Estive em Manaus há muitos anos, e uma das poucas coisas das quais me lembro (além daquele teatro liiindo liiindo que destoa um pouco do resto das construçôes que o cercam) é do CALOR (com letras maísculas, bem sentadas) que reina na cidade. De fato, dá para sentir que o calor lá emana do chão, dos objetos e, felizmente, também das pessoas. O povo manauara tem no coração este mesmo calor, só que aí é bom. Era criança quando fui a Manaus, mas guardo boas lembranças....

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 11/2/2007 09:53
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Daniel Duende
 

Em tempo... o seu texto "De lagarta a borboleta" também é legal.

Que tal nos falar um pouco da vida cultural da capital amazonense, dos bares, das diversões, das cores e contrastes da cultura local que só o "local" consegue enxergar? Seria muito bacana ver um texto destes por aqui. :D

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 11/2/2007 09:57
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Valeu Daniel! Na verdade não sou de Manaus, sou de São Paulo (como pode ler em "Incursões paulistas", na fila de edição), mas estou aqui há dois anos. Vim escrever sobre meio ambiente e descobri que existem muitos outros assuntos interessantes fora do clichê "floresta". Fiquei feliz que também entrou no meu site... Estou reformulando para transformá-lo em um site de opiniões sobre a Amazônia. Vai ser uma vitrine para o que a Amazônia tem de melhor (ou pior).
Estou preparando um overtexto sobre o carnaval de Manaus. Uma mistura de boi bumbá e samba que dá o que falar. Beijão

Talita Bagnoli Ribeiro · São Paulo, SP 11/2/2007 14:38
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Egeu Laus
 

Talita,
Quando for fazer o texto sobre o Carnaval não esqueça de colocar a tag "carnaval-2007"
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 11/2/2007 20:06
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Daniel Duende
 

Bacana, Talita. Isso me lembra da pergunta "quanto tempo leva para se tornar um 'local' na cidade que você adota"? Conheço um capixaba que cresceu em Belo Horizonte e morou um bom tempo em São Paulo e que é hoje mais brasiliense do que muito brasiliense... :D

Quero ver seu texto sobre o carnaval daí e, como disse muito bem o colega Egeu, não se esqueça do tag "carnaval-2007"

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 11/2/2007 20:10
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Pedro Monteiro
 

Manaus é Maravilhosa, dorante três horas que ai fiquei, foi o suficiente para cultuar um grande paixão por ela.
Beijos

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 28/4/2008 22:29
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Pedro Monteiro
 

(durante)

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 28/4/2008 22:30
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