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Evento celebra o cotidiano e o ritmo da cultura

Carol Assis
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Carol Assis · São Paulo, SP
18/5/2006 · 135 · 6
 

O Encontro dos Tambores faz parte do calendário cultural anual do Amapá. Todos os anos, no mês de novembro, quando se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra (20), o Centro de Cultura Negra do Amapá vira palco de manifestações culturais profanas e religiosas do folclore da região. O evento em 2006 realizará sua décima segunda edição. No ano anterior, por ocasião do 11º Encontro dos Tambores, estiveram reunidas para a festividade 36 comunidades negras do Estado, algumas delas são remanescentes de quilombos. Cerca de 1.750 pessoas estiveram envolvidas na programação, que, além das apresentações artísticas, tem palestras, oficinas e seminários. Uma das novidades de 2005 foi a Batuqueirada, um grupo de percussionistas percorrendo as ruas da capital, Macapá, jogando ladrão em cima de um trio elétrico. Isto é: entoando versos espontâneos de marabaixo e batuque, ritmos tradicionais, utilizados na Batuqueirada para convidar a população a participar.

Todas as comunidades se apresentam no evento, uma por vez e cada qual com seu estilo. As apresentações acontecem em dois ângulos. No palco ficam os batedores, percussionistas, mestres do ritmo, junto com eles, as donas, as tias, as vozes que entoam os cantos. Embaixo o restante da comunidade, homens, mulheres e crianças, se reúnem para a dança. Neste primeiro momento, todos devem apenas assistir ao espetáculo.

Assim como as cores estampadas nas saias das senhoras e moças, o ritmo também é diferente a cada apresentação. Em sua maioria os grupos tocam batuque, ou marabaixo, mas também há a Zimba, trazida da Guiana Francesa, e o Çairé, ritmo tipicamente amazônico. Este ano a comunidade do município de Porto Grande, por exemplo, surpreendeu todos com o tambor de crioulo, ritmo de origem maranhense, no qual os homens tocam e cantam enquanto as mulheres bailam.

Depois do primeiro momento, o povo já inquieto é chamado para a roda e um grande redemoinho se forma no teatro de arena enquanto todos dançam em círculo. O espetáculo é mais bonito para quem assiste de cima do palco. Na roda, homens e mulheres se cortejam num bailado colorido pelas longas saias. As crianças também participam e algumas menininhas seguram suas minissaias e acompanham a multidão com desenvoltura.

A programação do Encontro dos Tambores também contempla reggae, samba, hip hop e outros ritmos musicais. Fora os grupos tradicionais dos outros municípios, também se apresentam os grupos tradicionais urbanos como Raízes do Bolão, Associação Raimundo Ladislau, Companhia de Dança Afro Baraka, Azebic, Berço do Marabaixo e representantes das religiões africanas e afrodescendentes do Amapá.

O evento tem normalmente duração de uma semana. As oficinas, palestras e seminários acontecem durante o dia. São atividades como oficinas para composição dos versos e ladrões do marabaixo, oficina de dança maculelê, confecção de instrumentos de marabaixo e batuque, assim como o uso de berimbau, atabaques e pandeiros no ritmo da capoeira. Já durante os seminários, são abordados temas como Religião, políticas publicas, memória etc.

Como a maior parte dos grandes eventos culturais do Estado, o Governo é o grande apoiador financeiro e investiu R$ 225 mil na ultima edição. O encontro é um esforço anual na busca pela revitalização e valorização da cultura negra no Estado. Entretanto, para que tal revitalização aconteça serão necessários investimentos contínuos, inclusive em atividades de caráter permanente dentro do Centro de Cultura Negra para que se tenha amadurecimento da identidade étnica do negro amapaense.

Com o recurso repassado, os espaços do Centro de Cultura Negra receberam reformas e pintura. O artista plástico-grafiteiro responsável pelas artes, Josiel Ramos, não abriu mão de utilizar a temática africana, experimentando as cores: vermelha, verde, amarela e preta, para caracterizar cada desenho.

O centro foi originalmente inaugurado em 5 de setembro de 1998, no bairro do Laguinho, zona norte de Macapá. São seis blocos edificados numa aérea de aproximadamente 7,2 mil metros quadrados, com anfiteatro, museu, auditório, espaço afro-religioso, sala de múltiplo uso e administração. A área é suficiente para a realização de bons projetos, mas é preciso fomentar a produção local para que possam ser executados com sucesso. Dessa forma, quando novembro chegar e junto com ele o Encontro dos Tambores, teremos sempre boas conquistas para comemorar.

A Dança e a Música da Companhia Baraka

Uma das grandes atrações do 11º Encontro dos Tambores foi a participação da Cia. De Dança Baraka. A companhia apresenta evoluções corporais que misturam o tradicional e o contemporâneo e tem inspiração na cultura negra amapaense, sua luta, ritmos e cores. A coordenadora geral da Cia., a amapaense Piedade Videira* nos falou um pouco do trabalho de sua equipe.

Piedade, você poderia falar um pouco sobre o trabalho da companhia Baraka?

Nosso trabalho é pautado em uma pesquisa muito séria sobre a cultura negra amapaense. A cultura que dita nosso ritmo. Com base nessa pesquisa, por nossa experiência cotidiana no bairro do Laguinho, um bairro tradicional, registro da história do negro urbano de Macapá e por ser uma mulher negra, orgulhosa do meu povo, comecei a pesquisar e a encontrar formas de transformar fatos e acontecimentos do cotidiano, assim como os hábitos e a culinária em ladrões, em cantigas de marabaixo e expressões de danças. E além disso, pegamos músicas significativas do nosso recorte étnico cultural para pautar o ritmo do nosso trabalho. Cada quadro coreográfico possui uma pulsação diferente que vem de apropriações de ritmos como batuque e marabaixo, experimentando novas batidas, novos ritmos.

Durante a performance, podemos perceber encenações ricas do cotidiano das comunidades. Como funciona isto?

O objetivo é justamente explorar as expressões corporais intrínsecas das nossas comunidades tradicionais. São movimentos encontrados em suas atividades de colheita, cultivo da terra e a utilização de elementos como peneiras e cestas. Uma das nossas coreografias chama-se "Dança da Plantação", e ela representa justamente isso: o trabalho das mulheres dentro de suas comunidades, desde a colheita ao transporte do alimento.

Há quanto tempo a Companhia Baraka desenvolve este trabalho?

A Cia. existe tem cinco anos. Em princípio, tínhamos mais de 20 pessoas, mas é muito difícil trabalhar com esse quantitativo. É muito bonito, mas dificulta a agilidade nas viagens. Então fomos naturalmente reduzindo para 14 pessoas, que hoje nos parece um número ideal. Nós temos uma linha bem particular, o que nos permite participar de eventos nacionais e internacionais, o último deles, no Rio de Janeiro, em outubro, durante a Feira das Américas, um evento internacional. Infelizmente, em outros Estados existe, percebemos, uma consciência de valorização cultural maior do que a que temos aqui. A música amapaense é muito vibrante e onde o ritmo do tambor chega, encanta.

Como você avalia o Encontro do Tambores?

É um evento significativo, faz parte do nosso calendário e é uma das festas mais genuinamente Amapaense. Toda comunidade negra se encontra na ocasião. Tem música , troca de conhecimento e são eventos assim que devem ser incentivados pelo poder público e iniciativa privada. É o nosso Batucajé, o batuque no interior das senzalas.

* Piedade é graduada em artes, pós-graduada em pscicopedagogia e mestra em educação brasileira.

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Marcelo Rangel
 

Muito interessante esse evento, só achei que merece uma foto.

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 17/5/2006 19:13
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Carol Assis
 

Valeu Marcelo, taí a foto ... bati de uma meninada que toca caixa de marabaixo feito gente grande. Um abraço

Carol Assis · São Paulo, SP 19/5/2006 11:37
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wado
 

Muito bom carol! Fiquei curioso pra saber como processa esse improviso de "jogar ladrão". Geralmente trata de que tema? Parabéns.

wado · Maceió, AL 21/5/2006 03:34
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Carol Assis
 

Wado, geralmente os temas são fatos e acontecimentos do cotidiano, os hábitos,a culinária, a religião ... Tem um que é assim: "Eu desci pelo tronco , corri pelo mato , OH senhora me aguenta se não eu caio, eu caio, eu caio, eu caio. Oh senhora ,me aguenta , se não eu caio".
São coisas como numa música do Araça Azul , do Caetano: "Vo me embora pro sertão, vo embora meu bem , vo embora. Eu aqui não medou bem , vou embora meu bem , vô embora . Sou empregado ...maquinista do trem , vo me embora pro sertão que aqui não medou bem...."
Só que no contesto de um povo remanscente quilombola trazido para amazônia. "desse recorte étnico cultural " .
Tem poucos registros fonográficos disso, me parece que vai rolar um Festival de Ladrão este ano, tomará ...

Carol Assis · São Paulo, SP 21/5/2006 15:15
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Carol Assis
 

Sobre o comentário anterior= medou = me dou =problema no teclado

Carol Assis · São Paulo, SP 21/5/2006 15:18
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Carol Assis
 

Ontem fui pra mais uma rodada do Ciclo do Marabaixo, essa é uma matéria que vai sair depois e que tem, informações mais detalhadas e exemplos de ladrões ...

Carol Assis · São Paulo, SP 25/5/2006 11:15
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