Chico Buarque de Hollanda tem uma obra tão plural quanto o seu nome.
Seu opus é multifacetado a tal ponto de pensarmos, que não há apenas um Chico Buarque, mas vários. O sambista, o político, o amante (des)amado, a amante (des)amada, o narrador crítico de nossas mazelas, o brasileiro… só para citar uns entre muitos outros.
Eu devoto incondicionalmente a todos eles uma admiração, um respeito, um quase-amor inestimável. Ao contrário de Caretano (ele de novo!) que em seu livro „Verdade Tropical“ exclui dessa longa lista a pobre da Dona Geni.
Um breve parêntese: sim senhoras e senhores, também gosto da Geni! Prefiro ela à Carolina, que depois de ter suas lágrimas secadas pelo poeta e sua flauta, acabou esnobando-o e aderindo a ala do amanhã para ver o „o astronauta descer na televisão". Que „sujeitinha“ mais insensível é essa?
Já Geni é pra mim toda digna. Ama vorazmente a todos. É um ser que não cabe em si, precisa se unir carnalmente aos demais para se satisfazer, para se suportar num mundo de „tanto horror e iniquidade“. Ela é simbiótica! A musa coletiva dos desvalidos! Humana a tal ponto de ser capaz de se ofertar para a salvação dos que a desdenham.
Parece até uma discussão acadêmica sobre personagens literários.
Mas esse é só um exemplo de quão complexas as personagens de Chico Buarque são e como elas mexem com o nosso imaginário. Basta ver quantas citações dentro da MPB remetem à „moça da janela“ de Geléia Geral de Gil passando por Baby [Você precisa saber da piscina, da margarina, da Carolina(…)] até o próprio Chico voltar a falar nela em Essa Moça tá diferente (Essa moça é a tal da janela, que eu me cansei de cantar…) feito que desconheço de outra figura de uma música! Nem Amélia, nem a famigerada garota de Ipanema e muito menos a cansativa Anna Julia conseguiram essa proeza de se projetar para fora de sua limitada existência.
Quem não se identifica um pouquinho que seja no seu currículo de amores com a Teresinha do musical Ópera do Malandro ? Quem não acaba entendendo as razões do eu-feminino de Com Açúcar, com afeto? E fica a beira da indignação com a submissão do mesmo em Sem Açúcar? Que aliás, não sei bem o porquê, associo sempre com o eu-masculino de Cotidiano!
Como se não fosse o bastante; há também o Chico Buarque esdrúxulo, que é o meu favorito, pois amo as palavras! Ainda mais as quais feitas para ser proferidas amplamente. As proparoxítonas exercem um claro papel na obra Buarqueana. O que seria de Construção sem elas? E para onde se desnortearia a Roda-dos-ventos? É poesia em pó, nua, crua, envolta de notas musicais!
Por esses e muitos outros motivos, que não caberiam nem sequer num livro, devemos nos sentir orgulhosos de termos Chico Buarque de Hollanda entre nós contemporâneo, produzindo e nos encantando cada vez mais!
Evoé! O velho Francisco e seu sanatório geral!
Muito bacana seu des-vio para as faces de Chico Buarque. Tenho essa mesma intenção sobre o autor. Esse calado atual dele também diz bastante sobre a nossa atual situação.
Higor Assis · São Paulo, SP 6/3/2009 10:36Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!