Fã também escreve matéria

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Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ
12/8/2006 · 167 · 17
 

“Mas por que não nos reinventar?”

O verso acima é da música Três, a primeira faixa do novo disco da Marina Lima, Lá nos Primórdios, lançado agora em agosto. Bem apropriado para a proposta deste texto. Afinal, depois de quatro anos enfurnado em uma universidade sob o dogma da imparcialidade jornalística, as linhas que virão a seguir são quase como se jogasse tudo para alto. E provocasse úlceras e síncopes nervosas nos meus ex-professores que tanto insistiram em me ensinar. Pois é, sou mega-fã dela, propuseram-me o desafio de cobrir a coletiva de lançamento do novo álbum da cantora e ver no que dava. Prometi a mim mesmo não farofar. Se consegui meu intento, saberão ao final destas linhas.

Antes de tudo, um detalhe básico da preparação para a entrevista: vou pesquisar o quê sobre a Marina? Que lançou o primeiro disco, Simples Como Fogo, em 1979, perdeu a voz com uma forte depressão nos anos 90 e gravou um Acústico MTV em 2003? Bobagem. Fã que é fã sabe essas coisas de cabeça – e ainda banca o pentelho debochando de quem não sabe. Já aluguei meses atrás até Garota Dourada (1984) pelo simples fato de a Marina fazer uma ponta considerável na película. Para quem jamais viu esse achado kitsch, fica a dica. Ela é a razão não-trash para ver o filme – a outra motivação é ver Sérgio Mallandro interpretando um rock-star pegador que encanta a Andréa Beltrão. Medo.

Mas o assunto é a coletiva, marcada no MAM carioca. Chego lá, bloquinho na mão, hora marcada, crente que ia sentar a lado de um monte de repórteres que fariam perguntas na maior cerimônia para uma Marina sentada em algum palquinho. Foi aí que me informaram que ela não gosta deste formato careta. Havia uma grande mesa circular onde os jornalistas que chegavam aos poucos eram recebidos. E Marina lá, sentada com a galera. Eis que, antes do início oficial do bate-papo, ela pediu para as pessoas se apresentarem, dizerem para qual veículo escrevem. Tinha repórter da Folha, do Extra, do JB online, enfim, um mulão de gente.

Um dos jornalistas presentes começa logo de cara perguntando sobre a turnê do Acústico – com a velha fórmula de relançar antigos sucessos –, de anos atrás. Ela soltou um “puuutz”, cortando-o de cara, para em seguida ressaltar que adora a MTV mas não gosta de um trabalho de revisão. Sobre a hipótese de que hoje ela faz “música eletrônica”, fez questão de marcar território.

- Meu interesse pela música eletrônica é que me permite trabalhar em casa, sozinha. A eletrônica é que nem panela. Eu utilizo, é um tempero que tenho na minha mão. Trabalho com violão, guitarra e teclado – ressalta.

Quem acompanha a trajetória de Marina e escuta Lá nos Primórdios entende bem o que se fala. Alías, faz um bom tempo que não via um álbum dela com tantas guitarras – para minha alegria – e tão enérgico. O disco atual começa a nascer com os shows que fez no Baretto e, depois, no Auditório do Ibirapuera, em Sampa – segundo explicação da própria. A temporada de shows no parque paulista, em novembro de 2005 e janeiro deste ano, teve praticamente todas as inéditas presentes em Lá nos Primórdios – não foi à toa que aqueles shows se chamavam... ...Primórdios! Com direção de Monique Gardenberg, estas apresentações pareciam muito mais um espetáculo que uma cantoria sequencial de músicas. Tudo marcado, teatralizado, cênico, um espetáculo incrível. É aí que entra a parte em que vocês, amigos leitores, ficam com medo de mim. Fui quatro vezes ao mesmo show. E, como meu cadastro no Overmundo denuncia, moro um pouco longe da terra da garoa. Pois é, eu e um amigo meu – fã também, é claro – reservamos hotel e encaramos o busão duas vezes – média de dois shows por viagem. Alguns colegas falam até hoje que sou meio doido por isso. Papo de quem não viu o espetáculo. Quando saí do Ibirapuera pela primeira vez, estava determinado: “quando ela gravar um disco com isso aí, eu preciso comprar.”

Marina começa a falar do sucesso da temporada no auditório paulistano – em todas as vezes que fui, casa lotada. E lamentou que Rio e São Paulo não saibam o que se passa um com o outro. O fato de nenhum repórter carioca ter lembrado os shows paulistas na formulação de perguntas meio que corroborou a teoria. Eu estava me coçando por dentro.

- Marina! Eu vi! Eu vi! Quatro vezes! - urrou meu eu-interior, de braços abertos, devidamente reprimido pelo meu ego, minha boca cerrada e braços cruzados.

Na hora de fazer uma pergunta, preferi trocar a babação-de-ovo-queima-filme por algo mais coerente com o veículo em que este texto será publicado, um site. Indaguei se ela acha que a internet, no Brasil, já serve para uma distribuição efetiva da produção cultural, para atingir um novo público. Tive em mente esse lance de que, na grande rede, há a oportunidade de mostrar o que passa batido na mídia convencional, apesar de não ter deixado isso bem claro na formulação da pergunta. A resposta (negativa) de Marina, estava estruturada sob outra perspectiva, ainda assim coerente.

- Com a internet não dá para falar com todo mundo ainda, porque o dinheiro é escasso – justifica, ao exemplificar que muita gente no interior do país ainda não tem acesso à grande rede ou computadores.

Curiosamente, ninguém falou nada acerca da perda vocal enfrentada nos anos 90. Marina respondeu o que não foi perguntado ao destacar que tem cuidado da voz, está feliz com o resultado do trabalho e que as músicas estão exatamente como quis cantá-las. Quando a assessora disse que só havia tempo para mais uma pergunta, já estavam meus ouvidos – ansiosos – à espera de respostas sobre uma nova turnê ou clipes de divulgação.

- O que você acha de melhor e pior no ser humano? - perguntou uma mulher loira, para a incredulidade de meu eu-interior, que começou a xingar todos os nomes do universo por tamanho desperdício de oportunidade. Era a última pergunta!

- Nossa, tô me sentindo Buda! – emenda Marina, rindo da inesperada pergunta e arrancando gargalhadas da mesa.

No final de tudo, não resisti. Quis saber se o show do disco será o mesmo feito no Ibirapuera. “Pergunte pra Monique”, rebateu ela, sorrindo, ao deixar claro que vai repetir a parceria dos shows paulistas com a diretora, mas não será uma emulação do que já foi feito. Para farofar de vez, quando ela estava de saída do restaurante do MAM, fui atrás. Disse-lhe que adorei os shows no Ibirapuera, que vi quatro vezes, e pedi um recado para os fãs de longa data. Finalmente meu eu-interior dá um drible de Garrincha no meu ego e o farofa-side/tietagem se manifesta. Ela foi simpática, parou um tempo para pensar, foi direta.

- Voltei mais convicta que nunca. Estou no caminho certo. No meu caminho.

E para fechar com chave de ouro, deixou no ar a possibilidade de um novo show em Sampa, para o mês de setembro. Lá vou eu de novo torrar uma grana com busão, hotel, ingressos...

O disco

O problema de escrever um texto e, ao mesmo tempo, assumir gostar do artista em questão é que qualquer elogio sai logo de cara despotencializado. Eis o problema de falar (bem) do ótimo Lá nos Primódios. Das 12 faixas presentes, duas são remixes de canções do próprio álbum – Vestidinho Vermelho e Valeu. Há regravações da própria Marina, como Difícil, que ganhou uma roupagem mais sombria que na versão original, e inspiradas canções inéditas. Quem tem saudades da Marina com guitarras pode se deleitar com Entre as Coisas, ou, se quiser algo mais cool, há a dionisíaca Anna Bella: “Lá nos primórdios de tudo/ Anna Bella me falou/ Que não se pode amar sem ser amado, isso não, senhor/ Isso é verdade, contudo/ Perguntei a ela então/ Se o que acontece não segue a regra/ Será a vida em vão”.

Lá nos primórdios tem um repertório variado, onde está nítida a vontade da cantora em não se repetir. Há levadas meio bossa-nova, momentos intimistas, guitarras nervosas, baticum eletrônico e até uma mistura funk/tango na música Três. Bem superior ao último disco de estúdio (Setembro, 2001, pela finada Abril) gravado por ela. Seguindo esta linha de pensamento, não seria exagero dizer que é o melhor trabalho em estúdio de Marina nos últimos dez anos. Palavra de ego que sufocou o eu-interior.

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Marcelo Rangel
 

É um prazer especial escrever sobre um trabalho que se curte, né, Saulo? E assumidamente, então, melhor ainda! Gostei!!

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 9/8/2006 00:15
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Debb
 

Saulo, eu tive um prazer a parte lendo este texto, porque como conheço vc e ela, consegui visualizar as falas, suas reações, o humor da Marina, tudo, cara muito bom!!! Me diverti muito! parabéns! Assuma que é fã mesmo e é isso! Ta um super texto! :) beijos

Debb · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2006 19:48
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Daniel Duende
 

Muito bom texto, cara! Eu sigo o credo de que a objetividade jornalística é mero "wishful thinking" de teóricos e jornalistas assoberbados da velha guarda. Por isso tenho um prazer grande (e um alívio) ao ver um texto tão honesto e... humano!

Não posso dizer que sou um fã de carteirinha da Marina Lima. Desconheço demais seu trabalho para poder me dar este honroso título. Mas tenho carinho... é... é isso... carinho pelo trabalho dela. Este é mais um motivo para gostar da matéria.

Continue com seu trabalho humano e realista.
Abraços do verde (que de objetivo não tem nada)

Daniel Duende · Brasília, DF 12/8/2006 11:34
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Natacha Maranhão
 

Quando eu comecei a estagiar em jornal entrevistei a Marisa Monte, depois o Djavan...meu medo era ficar muda, hahahhaa. Mas até que me saí bem, não gritei u-huuuu quando ela entrou, nem fiquei embasbacada olhando pra cara dele sem dizer nada, como eu temia...Mas quem leu os textos sacou na hora que era coisa de fã...
Adorei seu texto aqui, como sempre!
beijos

Natacha Maranhão · Teresina, PI 12/8/2006 11:46
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Natacha Maranhão
 

Ah, e eu adoro a Marina tbm, pelas músicas, pelas letras, pela pela vida dela...acho uma mulher de muita atitude...e já vi Garota Dourada, hahaha.

Natacha Maranhão · Teresina, PI 12/8/2006 11:47
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Marcos Paulo
 

Já que Marina nunca deu o ar da graça por essas bandas daqui, penso seriamente na possibilidade de "torrar" dinheiro, assim como você fez/faz, Saulo, sempre que tem oportunidade pra assistir ao show.

Agora só falta eu ser fã da Marina, apesar de acha-la muito interessante. Pelo estilo, voz, charme, inteligência e, claro, as músicas.

Muito maneiro teu texto. E é bom saber que você, na condição de jornalista, sabe abrir a boca na hora certa. Ha-ha-ha-ha!

Valeu!

Marcos Paulo · Rio de Janeiro, RJ 12/8/2006 17:29
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Marcos Paulo
 

"Acha-la?". Pronúncia esquisita, não?

Marcos Paulo · Rio de Janeiro, RJ 12/8/2006 22:57
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Hermano Vianna
 

nunca vi problema em fã escrever matéria - acho que na vida só escrevi ou fiz TV etc sobre o que gosto muito - não tenho nem tempo para falar do que eu não gosto (nada contra falar mal, é uma questão de falta de tempo mesmo) - meio como aquele verso do Torquato, um pouco modificado: só posso saber do que quero que dê certo...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 13/8/2006 21:28
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Ana Murta
 

Saulo,
Que texto divertido, cara.
E é isso aí. Faço das sábias palavras do Hermano as minhas.
Sou parcial e o tempo urge!
(você podia fazer uma série com seus ídolos hein ? haha haah)

Ana Murta · Vitória, ES 29/8/2006 02:08
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Fábio Fernandes
 

Estou com o Hermano. Quando trabalhei em jornalão, tive a felicidade de ter editores com quem podia negociar e fazer matérias e críticas de livros de acordo com meu tirocínio (como dizia José Cândido de Carvalho) e com meu gosto. Só discordo do Hermano em uma coisa: não gosto de falar mal. Fecho com a minha falecida tia-avó Hermínia, que preferia, como o bom e velho Wittgenstein (que ela não leu, mas desconfio que era tão sábia quanto, apesar de semi-analfabeta), calar.
Citando outro só pra fechar, Lenine diz "a vida é tão rara". E curta demais pra gente desperdiçar com algo que não nos fala ao coração. De um fã (zaço) de Marina para outro, obrigado pelo seu belo texto, Saulo.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 29/8/2006 21:26
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Dewis Caldas
 

Muito bom, bom mesmo, maravilhoso...
Grande abraço, continuemos assim...
Sempre escrevendo para os artistas...
Eu tb tenho uma com o Ventania... Quer dá uma olhada??

Dewis Caldas · Cuiabá, MT 15/12/2006 09:06
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rendevouz
 

é bem verdade, a imparcialidade fica impossível quando se mede com o coração.
marina é luz e show, ela pensa antes de falar e deve ser muito suave sua voz.
Tenho uma grande amigo que a entrevistou e ficou na mesma que você, embasbacado.

rendevouz · Cuiabá, MT 20/12/2006 11:18
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dj yuga
 

rs... gosto da Marina, mas não tenho acompanhado a carreira dela, o último disco que ouvi foi "O Chamado", um trabalho super "cool". E que bom que ela voltou a empunhar a guitar.

abraços

Yuga

dj yuga · Belo Horizonte, MG 10/2/2007 16:38
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Flávio Herculano
 

O bom de escrever sobre cultura é que dá pra ser mais crítico, analítico e humano - e menos um técnico no relato de ações.

Para quem acabou de se formar, você é surpreendentemente bom. Parabéns.

Flávio Herculano · Palmas, TO 26/7/2007 16:23
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silviaraujomotta
 

Quanta informação para mim.Gostei.
Fiz uma TROVA para VC:

O tempo é um bom Professor...
Venho hoje, lhe agradecer,
ensinamento com amor,
relevante ao meu viver.
Agora entendi como funciona a SUGESTÃO de EDIÇÂO.
Um bj
Sílvia

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 12/2/2008 05:06
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FILIPE MAMEDE
 

"Humano, demasiado humano". Não conheço muito de Marina, mas me identifico pela condição jornalística da coisa. Sou ainda um pretenso jornalista; ainda não peguei o bendito canudo. Todavia, tenho procurado ir na contra-mão dos manuais e tentado produzir textos que bebam de outras fontes. O new jornalism é um boa pedida, não é mesmo? De repente até um jornalismo gonzo para os mais incisivos... Gostei da pegada. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 12/2/2008 10:25
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Renato Turnes
 

Melhor que Rolling Stone! rsrs
Parabéns.

Renato Turnes · Florianópolis, SC 5/5/2008 23:22
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