No fim de 2003, quatro estudantes da UFES interessados em exibir filmes, criaram um projeto de extensão chamado Videoclube Digital Metrópolis. A idéia era promover sessões independentes de cinema, sem linha editorial, cuja prioridade máxima era o usufruto da exibição.
As duas primeiras sessões aconteceram no Teatro Metrópolis, que logo fechou as portas. Aí os meninos começaram a fazer exibições pelo campus: no paredão do curso de Comunicação, no galpão das artes, na grama em frente a biblioteca. Qualquer lugar era lugar pra exibir.
Foi quando o videoclube se transformou em Cine Falcatrua, apelido dado pela galera que acompanhava o circuito de exibição gratuita dos filmes baixados via internet. Raridades, lançamentos e novidades passavam na tela do cineclube, que acabou conquistando um público eclético.
O primeiro filme a passar foi Matou a Família e Foi ao Cinema, de Julio Bressane. O segundo, que ainda não tinha estreado no circuito, era Kill Bill, de Quentin Tarantino, Europa Filmes. O Falcatrua também exibiu, antes de sua estréia no Brasil, o documentário de Michael Moore, Farenheit 11 de Setembro, Lumière.
Como as exibições eram sempre um sucesso, a iniciativa dos garotos começou a chamar a atenção da mídia, e muitos veículos de comunicação deram destaque ao trabalho do ousado grupo de exibidores. Até que a Universidade recebeu uma liminar exigindo o encerramento das atividades do Cine Falcatrua.
A ação, movida em nome das distribuidoras Lumière e Europa, acusava a Universidade de “concorrência desleal”, e solicitava uma indenização de R$480 mil pelos filmes já exibidos. Mas, junto com o problema na justiça, vieram as monções de apoio ao Cine Falcatrua.
O movimento cineclubista nacional, cineastas, estudantes, produtores, jornalistas, muita gente se manifestou a favor da manutenção do projeto. Alguns realizadores autorizaram a exibição de seus filmes como forma de ajudar a fortalecer o Falcatrua. Cláudio Assis, por exemplo, enviou Amarelo Manga, Paulo Sacramento, o Prisioneiro da Grade de Ferro.
E como o objetivo do Falcatrua nunca foi fazer pirataria, e sim gerar acesso à cultura cinematográfica, o cineclube passou a realizar programações com filmes devidamente autorizados. Alguns diretamente pelos autores, outros publicados em Creative Commons, copyleft e GFDL
Pra galera do Cine Falcatrua, o problema da distribuição das novas tecnologias não é tanto um problema. É mais uma novidade, uma questão de cair a ficha e aceitar essa nova realidade que já está aí. “O importante é buscar respostas coletivas que agradem e atendam a quem usa. E o Falcatrua se considera um laboratório dessa coisa toda”.
Hoje eles atuam não só exibindo filmes, mas também pesquisando e publicando idéias ligadas a utilização de novas mídias aplicadas ao cinema. Buscam compartilhar conhecimento e criar coletivamente. Buscam aproximar a produção cultural da cultura real.
Desde o início de 2004, o Falcatrua exibe filmes baixados da Internet em sessões semanais gratuitas, já tendo atingido um público direto de mais ou menos quinze mil pessoas. E a maioria desse público é formado por gente que, de outra forma, não teria acesso à cultura cinematográfica.
As distribuidoras que entraram com o processo contra o cineclube argumentam que os meninos e ou a Universidade são culpados, vide o nome do projeto. Eles podem até ser culpados, mas pela irreverência, ousadia, ignorância jurídica, irresponsabilidade talvez. Mas sinceramente, falcatrua é captar 12 milhões e não terminar o filme.
Falcatrua é imperar o apadrinhamento, o “apanelamento” e a falta de democratização da cultura. Esse projeto de experimentação divertidamente apelidado de Falcatrua faz muito mais pela formação de público e conceitos audiovisuais do que outras iniciativas ditas sérias; E remuneradas.
Fabricio, Rafael, Gabriel, Fernanda e Rodrigo, também chamados de Gilbertinho, codinome coletivo, não se sustentam com o Falcatrua. Quando entra alguma grana, ela vai pro projeto que além de difundir a cultura de cinema, ajuda a problematizar a distribuição e a exibição audiovisual.
O lado bom é que toda essa confusão fez o projeto tomar outro tamanho. As discussões foram ampliadas e quando eles viram já estavam em outra. Começaram a questionar a inviolabilidade do espaço. E começaram a pensar em bulir com a sala escura, com a produção e com a distribuição, além da exibição.
Entre os seus projetos consta o Festival de Baixa Resolução, todo divulgado e produzido pela internet. Podiam ser inscritos vídeos encontrados na web, com conteúdo original ou alterado. E só não entrou na seleção quem mandou o arquivo danificado. Eram aceitos vídeos de curta, media e longa “kilobaitagem”.
“A idéia era brincar com essa bobagem de pensar o filme pelo suporte, brincar com a estrutura dos modelos de festivais”. Não havia restrição de suporte, nacionalidade, ano de produção, gênero, duração, inclinação ideológica ou conteúdo. E o prêmio pro primeiro lugar era uma grade de cerveja, que o vencedor nunca foi buscar.
Produziram também o Agosto Cinema Clube, festival de discutir cinema no bar. Convidaram quatro indivíduos de outras áreas da cultura, que tinham em comum a paixão pelo cinema, e solicitaram que eles escolhessem um filme, e depois escrevessem um texto a respeito do mesmo. O texto foi publicado no jornal, e a Brahma patrocinou o evento com duas grades de cerveja por sessão. Um motivo a mais pra comparecer na segunda edição, agora no mês de agosto.
A Mostra Falcatrua de Conteúdos Livres aconteceu em Vitória, em Cachoeiro de Itapemirim e em Porto alegre, dentro da programação do Flô - Festival do Livre Olhar. Na tela, uma seleção de mais de uma hora de vídeos produzidos e distribuídos livremente. E antes das exibições, a galera batia um papo sobre a experiência do grupo.
Essa mostra acabou originando outra: a Mostra do Filme Livre (Mesmo!), que aconteceu recentemente dentro da programação do 7o Fórum Internacional do Software Livre, em Porto Alegre, e depois na UFES, em Vitória. Um apanhado de produções de diferentes origens, suportes e gêneros que tinham em comum a proposta de livre distribuição. E mais uma vez o Falcatrua ajudou a botar lenha no debate sobre os cruzamentos entre cinema e internet.
O cineclube promoveu também o lançamento do documentário Sou Feia Mas tô na Moda. Vieram a Denise Garcia, diretora, e a Denise Tigrona, pioneira compositora de funk sensual. Exibiram o filme em duas sessões, uma na Universidade, outra no extinto baile funk do Clube Rio Branco.
Mais recentemente, promoveram o ousado Festival CortaCurtas. “O primeiro festival de cinema expandido e aos pedaços”. O festival que acontece dentro da exposição Paradoxos Brasil, resultado do Rumos Artes Visuais do Itaú, propõe uma nova forma de consumo audiovisual, definida pela relação entre projecionista e público.
O projecionista é quem escolhe como, quando e por quanto tempo vai passar os 265 trabalhos inscritos. É isso mesmo: uma cena de um filme grudada em um take de outro filme, com o áudio de um terceiro vídeo. As vezes o filme ganha poética e sutil interferência. Outras vezes, ganha um minuto e meio de créditos descabidos.
Na sessão de lançamento do CortaCurtas, teve cineasta desavisado que reclamou. Um realizador que não leu o regulamento foi tirar satisfações com a organização do festival. Mas segundo eles, a galera se amarrou e adorou a oportunidade única de assistir às obras picotadas. Eu teria gostado.
O Falcatrua foi selecionado no Concurso de Idéias para Demos Jogáveis, do Minc, e procuram uma produtora interessada em comprar a idéia. O objetivo do jogo é produzir um filme. O jogador precisa arrumar o patrocínio, produzir o filme, dar um jeito de distribuir, exibir. Vai do início ao fim do doloroso processo cinematográfico.
E mais uma vez a idéia não é só brincar com a estabelecida cultura de produção de cinema, e sim levantar outra discussão: “Tem um sujeito ali usufruindo imagem e som, e tem interação e espectação. O videogame, enquanto linguagem audiovisual, deve ser levado a sério”.
Atualmente produzem também o KinoArcade, cine-campeonato de video-game que integra a programação do GAME CULTURA 2006, realizado no SESC Pompéia, São Paulo. O KinoArcade promove combates ao vivo projetados em sala de cinema, além de exibição de vídeos feitos com games.
Desde as primeiras sessões o Falcatrua ensina o pulo do gato, passando a quem quiser, os conhecimentos sobre como montar seu próprio e alternativo arsenal de exibição. Eles publicam cartilhas e zines. Ajudam a formar público e exibidores. E também inspiram outras iniciativas dessa modalidade de consumir cinema. Vida longa ao Falcatrua, que é um projeto muito sério !
www.fotolog.net/cinefalcatrua
cinefalcatrua@gmail.com
Interessantíssimo texto!
Uma iniciativa lúdica que certamente sacode as estruturas do mecanismo estabelecido da produção e distribuição audiovisual no país. Parabéns ao Falcatrua! Empolgante!
Assisti uma exibição do CortaCurtas dentro da mostravideo itaucultural aqui em BH há um mês atrás mais ou menos. Muito bom mesmo.
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 1/8/2006 11:31
Uma das melhores resenhas que já lí sobre o cine falcatrua!!
Que coisa! Sempre me disseram que as distribuidoras faziam vista grossa pros filmes exibidos em cineclubes pequenos. Porque, mesmo que o filme seja alugado em uma locadora, é proibida a exibição em lugares públicos. Já vi muito cineclubista preocupado com essa questão para logo depois ouvir alguém dizendo "não tem problema não...". É bom saber que a reação das distribuidoras pode, de fato, acontecer, bem como é ótimo saber que - mesmo com a ação dessas distribuidoras - o Falcatrua continua trilhando seu caminho.
Ah! Fiquei muito curioso com essa sessão do CortaCurtas.
Parabéns ao Falcatrua e a Ana pela matéria. Abraço!
que bacana! discussão acesa de distribuição e valoração das mídias. cabe muito bem neste espaço, onde circulam produções valorosas.
Luciana Hernandes · Cuiabá, MT 1/8/2006 16:50
Também fiquei muito curiosa de ver uma sessão do cortacurtas. no final do texto vc toca rapidamente na questão dos jogos eletrônicos, o que eu, pelo que sei, é muito pouco discutido hoje, assim como essa exploração de novas mídias/suportes e novas formas de exibição está só começando. Ainda tem muito pela frente! parabéns pelo texto. Se o Falcatrua chegar em outras cidades, avise aqui no Overmundo!
Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 1/8/2006 22:11grandes guerrilheiros. falcatrua no ar. quanto fôlego, quanta saudável anarquia. fico louco de ver essas experiências libertárias e tanta vontade de fazer! valeu ana, que prazer em receber essas informações.
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 2/8/2006 00:20
AGENDA DO FALCATRUA...
////AGOSTO CINEMA CLUBE
Festival de Discutir Cinema no Bar
abertura 8 de agosto / TODO O MÊS
UFES - 19h - Vitória / ES
////Festival CortaCurtas no Rio
10 e 24 de agosto - Cine Caixa-Preta
BECO DO RATO - Lapa
////Festival CortaCurtas em Belém
30 de agosto / 06, 13 e 20 de setembro
sempre às 16h - Casa das Onze Janelas
Olás Fabrício, e Sergio
Fico feliz que voces tenham gostado. Realmente o trabalho dos garotos, apesar da irreverência, é duma seriedade incrível...
E Daniel, fico também muuito feliz que você tenha gostado do texto.
TIAGO querido, valeu!
E viu ? Vai ter corta curtas ai no Rio.
LUCIANA, bacana mesmo. E concordo com voce, toda essa discussão cabe muito bem aqui no overmundo.
INES, tu vai ter a chance de ver os garotos em ação. E que a experiências continuem, transformem-se e evoluam...
EDUARDO FERREIRA grande figura ! E que eles continuem com essa enorme vontade de fazer!
(a gente também)
Adorei a idéia deles, adorei o texto, Aninha!
beijos pra vc
Adorei o texto, Aninha!
Sempre gostei dessa história do falcatrua...
Bom saber que essa galera de Vitória
contnua mandando ver.
E, sinceramente, concordo com você: falcatrua é captar 12 milhões e não terminar o filme. Muito Bom!
Parabéns pela matéria. Tá muito boa. Fiquei impressionado com a criatividade desse pessoal. Cineclubes existem aos montes, mas eles deram um jeito de reinventar. E essa sacação do Corta Curtas é o máximo. Fiquei morrendo de curiosidade.
Daniel Cariello · Brasília, DF 23/8/2006 18:02
Olás meus queridos Natacha e Daniel,
Que ótimo que vocês gostaram da matéria. Os moleques são danados mesmo...
Valeu pela audiência.
Tina Saphira,
Que prazer te encontrar aqui minha amiga !
Sim, a moçada do falcatrua continua mandando ver.
E tu ? Quando nos vai ter a honra de postar uma colaboração aqui ?
Poder assisitir por exemplo um trechinho do samba riachão ia ser tudo hein ...
Olás meus queridos Natacha e Daniel,
Que ótimo que vocês gostaram da matéria. Os moleques são danados mesmo...
Valeu pela audiência.
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