Farkas: "Fotógrafo não tem que escrever nem falar"

Reprodução
Farkas, em "Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba", que filmou, em parte, em 54
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Ligia Diniz · Rio de Janeiro, RJ
2/3/2009 · 239 · 14
 

Em 2003, durante o programa de treinamento de jornalismo da Folha de S. Paulo, em um exercício de reportagem, tive a oportunidade de escolher alguém para entrevistar. Se não me engano, o tema era um vago “cultura” e eu não perdi a chance: escolhi o fotógrafo húngaro Thomaz Farkas, personagem então de um documentário que Walter Lima Jr. dirigia. Escrevi “húngaro”, mas rapidamente me corrijo; Farkas já é brasileiro há um bocado de tempo: chegou ao Brasil em 1930, aos seis anos de idade.

Nem só por isso ele é muito brasileiro: entre muitas outras coisas dignas de nota, fotografou lindamente o Rio de Janeiro dos anos 40, registrou a construção de Brasília e produziu, entre 64 e 65, o projeto Brasil Verdade, que reuniu quatro documentários em média-metragem com os temas futebol, migração Nordeste-Sudeste, cangaço e Carnaval. As viagens que levaram aos filmes (depois lançados como longa) ficaram conhecidos como “Caravana Farkas”. Não por acaso, o tal filme de Walter Lima Jr. acabou levando o título de "Thomaz Farkas, brasileiro".

A importância – assim como a brasileirice – de Farkas não ficou presa nos registros históricos, assim como ele não se restringiu às linhas retas e traços geométricos de alguns de seus trabalhos clássicos (e sublimes) que fazem com que carregue o título de pioneiro na fotografia moderna brasileira.

Quando conversei com ele, num escritório em Pinheiros (São Paulo), Farkas planejava fazer sua primeira exposição de fotografias coloridas e os focos eram a Amazônia e o Norte-Nordeste brasileiros. As fotos haviam sido feitas em 1975 e ficariam em uma pasta até 2006, quando apareceram finalmente em exposição e em um lindo livro, publicado pela Cosac Naify, sob o título “Notas de viagem”.

Foi ainda na gestação dessa idéia colorida que tive a chance maravilhosa de conhecer esse homem modesto e delicado (fofo mesmo), um verdadeiro artista – que diz não saber se fotografia é arte. Fosse hoje, seis anos mais velha e muitas reflexões sobre o assunto depois, eu colocaria minha mão no ombro dele e diria, encabulada mas firme, que alguns de seus trabalhos me emocionam como um poema de Drummond, e que uma fotografia sempre pode salvar um dia – ou uma vida – e que, se isso não é arte, nada mais poderia ser. (Talvez daqui a alguns anos eu entenda que não é preciso dizer nada.)

Segue a entrevista, exatamente como eu escrevi e gostaria que tivesse sido publicada nos idos de 2003 (não, a Folha, onde trabalhei de 2003 a 2005, não quis.)

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Aos 79 anos, o fotógrafo, produtor e diretor húngaro naturalizado brasileiro Thomaz Farkas está organizando o material que poderá fazer parte de sua primeira exposição de fotografias coloridas, com imagens da Amazônia.

Além disso, a carreira de Farkas é tema de um documentário do cineasta Walter Lima Jr., que se encantou com as histórias dos filmes que o fotógrafo produziu no interior do Brasil nos anos 60.

Em entrevista à Folha, Farkas falou sobre a evolução da fotografia e do documentário, o fotojornalismo atual, a fotografia como arte e a relação entre texto e imagem. "Com o texto, dá para imaginar o que o autor escreveu. Na fotografia, já se tem metade da imaginação pronta."

O sr. produziu diversos filmes no interior do Brasil, nos anos 60. Como é agora ser tema de um documentário?

Thomaz Farkas - Fiz documentários sobre como viviam os brasileiros. Assim, o Walter [Lima Jr] quis fazer um filme sobre a minha visão do Brasil e de como eu me sinto aqui. E eu me sinto muito dentro do Brasil.

O sr. voltou a algum dos lugares que visitou durante a "Caravana Farkas"?

Não, mas agora o Walter nos propôs fazer um confronto [entre as duas épocas] e está falando com alguns diretores [que participaram da "caravana"]. Eu gostaria de refazer esse tipo de viagem mostrando como é que as coisas mudaram, fazer uma retroviagem. Vai haver uma discussão sobre isso, ainda não está formalizado. Vai depender do que os diretores vão dizer. Nós fizemos filme em tudo quanto é lugar, do Rio Grande do Sul à Amazônia. Em cada lugar deve ter acontecido algo diferente. Eu gostaria de voltar a lugares parecidos com os que a gente visitou para cheirar o que aconteceu. Vamos ver se dá certo.

Na caravana, como era a relação da equipe com a população, que nunca havia visto uma câmera antes?

Na época que nós trabalhávamos, não tinha esse pessoal de televisão correndo por tudo quanto é canto. Então, a gente tinha um pouco de receio de que a objetiva dirigida para as pessoas fosse uma agressão. Isso é um problema que pode dificultar ou facilitar as coisas. Hoje você vai filmar ou fotografar alguém e as pessoas já sabem o que é uma televisão. Naquela época, a gente tentava se familiarizar com as pessoas antes, para que elas não se sentissem agredidas. Hoje todo mundo se apresenta como ator de televisão.

Para o sr., havia então uma vantagem naquela época?


Antes talvez fosse mais natural e mais sincero, não existia uma impostação. As pessoas não tinham medo de ser filmadas se a gente se aproximasse delas de uma maneira consciente. Hoje a gente chega com a câmera e todo mundo já faz uma pose, porque sabe que vai sair em algum lugar. Isso pode facilitar o trabalho, mas talvez a penetração nas idéias das pessoas fique mais difícil.

As suas fotografias mais conhecidas foram tiradas no Brasil. O sr. chegou a fotografar outros países?

Só em viagens. A última foi para a Suécia, Finlândia, São Petersburgo e Moscou. Nessas viagens eu fotografo muito, mas são coisas que, por enquanto, não fazem parte da minha exposição. São fotografias coloridas.

O sr. nunca expôs fotos coloridas, não é?

Tenho fotografias coloridas da década de 70 que estou começando a selecionar agora, para ver o que dá para fazer. São fotografias da Amazônia, do Rio Negro, de uma viagem que eu fiz com o Vanzolini [Paulo Vanzolini, compositor e zoólogo]. E eu nunca mexi em nada disso, agora é que estou começando a abrir e ver os slides. Tem coisas muito interessantes, vamos ver o que dá para fazer com elas, talvez uma exposição ou um livro.

Qual a diferença entre fotografar em cores e em preto e branco?


Nenhuma, mas na Amazônia tem muita cores. A luz é diferente e isso em preto e branco aparece menos. Para as coisas que acontecem por aqui [no Rio e em São Paulo], o preto e branco é suficiente.

Como o sr. define seu estilo de fotografia?

Eu sou um fotógrafo marginal do ponto de vista econômico. Eu nunca trabalhei em fotografia para ganhar dinheiro. Por outro lado, também não fui um fotógrafo amador. É uma coisa intermediária - é por isso que eu digo que sou marginal.

Seu trabalho pode ser definido como fotografia artística?

Se você considerar a fotografia como uma arte...

O sr. não considera a fotografia uma arte?

Eu não sei se fotografia é arte. Fotografia é outra coisa. Você pode chamar de arte, se quiser. Tem gente que acha que não é, tem gente que acha que é uma arte de segunda. Acho que fotografia é fotografia. É uma coisa tão especial, tão separada, que é diferente
do que se considera, geralmente, arte. A fotografia deu margem a uma porção de coisas, à fotografia abstrata, fotografia jornalística, digital... Mas tudo nasceu na fotografia. A fotografia é um mundo - e um mundo fantástico.

E o cinema? Também faz parte desse mundo?

A fotografia e o cinema são muito irmãos também, embora o cinema tenha muito mais de reportagem. É difícil definir essas relações. Eu aprecio o que eu posso ver. Vamos pegar o exemplo de um longa-metragem, um filme de enredo. Ele conta uma história, mas através da imagem, da visão. Se não fosse assim, seria um livro ou uma reportagem. Tem muitos documentários em que há apenas muitas pessoas falando, falando, falando. Mas eu acho que o documentário deveria ser muito mais imagem do que conversa, porque a fala você pode pôr no jornal, na revista. A fala tem que ser muito importante para que ocupe mais de alguns minutos no documentário. Já o filme de enredo é um teatro fotografado, montado como cinema. Mas a imagem é sempre uma grande parte do cinema. É assim que o cinema se liga à fotografia, através do olhar. Não são parecidos, mas ligados.

Como o sr. vê a evolução da fotografia?

A fotografia vai mudando. Hoje, por exemplo, não se penduram mais quadros; são feitas instalações. Tudo muda, mas tem uma origem. A fotografia está na origem e traz tudo isso que está aí. Existem fotógrafos das tendências mais diversas e incríveis. Euacho essa variedade maravilhosa. Tem o Cássio Vasconcelos, por exemplo, que trabalha com polaroids de São Paulo. Cada um tem sua tendência e uma idéia na cabeça, com qualidades e defeitos.

E o trabalho do Sebastião Salgado? O que o sr. acha das críticas que ele recebe, por fotografar a miséria?

Acho o trabalho dele muito interessante. Ele fotografa temas como os trabalhadores ou os imigrantes, que são aspectos da vida. Assim como fotografou os mais pobres, poderia ter fotografado os mais ricos. Essa é uma questão que não deveria existir, não se pode acusar ele de nada. Ele mostra o que está vendo, uma parcela da população. Nos quatro ou cinco primeiros filmes em que eu trabalhei, também vi muita pobreza. Naquela época a TV Cultura não quis exibir os filmes porque afirmou serem muito miseráveis. Mas não é miséria, é a realidade de um povo em um determinado momento e lugar. O que o Tião Salgado tem é uma visão de fotógrafo que é excepcional. A maneira de ele escolher o momento, a angulação, a iluminação é específica. Nenhum fotógrafo fez trabalhadores como ele. Cada um tem que ter a liberdade de fazer o que quer. E ganhar dinheiro com isso, se puder, é melhor.

No cinema atual existe o que alguns estudiosos chamam de "cosmética da fome", em oposição à "estética da fome" do cinema novo. O que o sr. acha dessa suposta tendência?

Por um sucesso de alguns filmes lá fora, como "Central do Brasil", começou a haver um interesse muito grande [por essa temática]. O Babenco fez o filme dele [Carandiru] também. Mas acho que o começo disso tudo foi um filme muito mais interessante do que esses, que é "Notícias de uma guerra particular" [de Kátia Lund e João Salles, de 1999]. Outro filme interessante é "Ônibus 174" [de José Padilha, do ano passado]. São visões artísticas próprias que deram impacto a esse tipo de cinema lá fora, mas não sei se isso vai resistir muito tempo.

Como surgiu seu interesse pela fotografia?

A minha família tem até hoje muitos profissionais ligados às artes visuais. Tenho um filho arquiteto, que faz design de livros e cartazes, tenho outro que é poeta e fotógrafo, outro que é diretor de fotografia. E a filha deste já está trabalhando em cinema também. O meu avô já tinha loja de fotografia, depois meu pai fundou a Fotoptica aqui. Já são cinco gerações. Todo mundo aqui é ligado com fotografia. Parece que temos isso no sangue.

As suas fotografias têm um lado técnico bem forte, com quadros bem construídos e formas geométricas, mas também têm muita emoção. Como o sr. conjuga esses dois aspectos?


Tem época em que eu vejo mais as construções do que a parte mais evidente. Na construção de Brasília, tinha as duas partes - os operários vivendo a vida deles e a cidade sendo construída, que é geométrico. No Rio de Janeiro, tem o aspecto dos prédios e sua composição geométrica e tem as pessoas que lá vivem.

No momento em que o sr. vai disparar o obturador, o que deseja representar?

A vida das pessoas ou como o grupo de pessoas está interagindo como ator, ou então o panorama genérico, a cidade, os prédios, que é o teatro onde vivem essas pessoas. O que eu procuro registrar são as pessoas, o lugar onde elas vivem e o seu trabalho.

A escritora americana Susan Sontag disse, em uma entrevista recente, que um texto diz mais do que uma fotografia. O sr. concorda?

Com o texto, dá para imaginar o que o autor viu e descreveu. Na fotografia, já se tem metade da imaginação pronta. É muito mais difícil imaginar como as pessoas são observando-se uma fotografia do que em um texto. Na fotografia, você tem uma visão muito mais concreta. O texto promove uma imaginação suplementar.

Mesmo quando é um texto jornalístico?

Sim, porque nunca acreditamos em tudo que o jornalista escreve. Sempre pensamos "será que isso é verdade? Será que não é imaginação? Será que não é propaganda?". Tudo aquilo que é escrito nós analisamos; na fotografia fazemos outro tipo de formulação.

O que o sr. acha da reportagem fotográfica atual?

No jornal sempre tem uma ou duas fotos daquilo que está no texto. É uma ilustração do que está acontecendo. Poucas fotografias realmente interessantes aparecem nos jornais e nas revistas. São poucos os fotógrafos de jornal que têm uma visão mais crítica das coisas. E quando o fotógrafo tem essa visão é muito bacana, a foto ganha do texto.

O sr. acredita que a fotografia tenha uma função social? Como isso se dá?

A fotografia não vai mudar o mundo, mas pode mostrar coisas que as pessoas antigamente não sabiam. Hoje as pessoas sabem muito mais, e isso pode levar a uma consciência maior.

O sr. tem vontade de escrever um livro de memórias?

Não. Acho que o fotógrafo tem que fotografar, não tem que escrever nem falar.

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Hermano Vianna
 

que bom que a entrevista está completa por aqui - sou fã do Thomas Farkas

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 27/2/2009 12:59
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Jaqueline Gomes
 

que lindo, que opniões, que entrevista...
e pra mim, que "verdades". ótimo texto e obrigada por expor isso aqui.

Jaqueline Gomes · São João de Meriti, RJ 28/2/2009 17:13
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Miguens
 

Ligia,

adorei a sua percepção do Farkas "fofo mesmo"!

A sua entrevista está ótima e muito bem direcionada considerando a realidade da fotografia no Brasil.

Adorei!

Miguens · Rio de Janeiro, RJ 28/2/2009 19:17
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FILIPE MAMEDE
 

Muito bacana Ligia. Me amarro em fotografia e conheço algumas imagens desse senhor Farkas, que assim é tão brasileiro quanto é arte a fotografia. Excelente homenagem, porque não?

Excelente texto. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 2/3/2009 22:24
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Psychojoanes
 

um fotógrafo de mãos cheias, ele

Psychojoanes · São Domingos do Prata, MG 3/3/2009 00:43
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Spírito Santo
 

Ligia,

Bela matéria sobre uma grande pessoa.
Bacana!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 3/3/2009 11:25
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Orisvaldo Tanniy
 

Lígia,

Belíssimo trabalho.Votado!

Orisvaldo Tanniy · Teresina, PI 3/3/2009 11:54
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Andre Pessego
 

Vou reler, grande materia

Andre Pessego · São Paulo, SP 3/3/2009 20:05
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Ivette G.M.
 

Háh, bons tempos em que havia ética. " Tinhamos medo de que a câmera, dirigida para uma pessoa fosse uma agressão". Só este trecho já seria o suficiente para dar valor a esta entrevista.
,Parabéns, menina. Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 3/3/2009 20:15
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Luiz Cabelo
 

ótimo texto, gostei!

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 4/3/2009 01:12
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dMart
 

bacana! muito bacana!

nada como revirar as gavetas... sempre há algo luminoso escondido em uma gaveta.

parabéns!

dMart · Porto Alegre, RS 4/3/2009 01:23
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Cristiano Sidoti
 

Bacana! O velho Farkas tem um arquivo precioso mesmo, até pixinguinha ele tira do baú!

Cristiano Sidoti · Guarujá, SP 4/3/2009 10:16
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Circus do Suannes
 

Grande texto.
Conheço alguma coisa do Farkas e gosto muito.

Circus do Suannes · São Paulo, SP 5/3/2009 11:22
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Yeshua Arts Graficas
 

Parabéns. Não entendemos muito da profissão. Porem fazemos com toda qualidade cartão de visita Fotografo

Yeshua Arts Graficas · Curitiba, PR 1/7/2017 16:57
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