FASC: A participação da comunidade é fundamental

Inicio do ato de distribuicao do manifesto e coleta de assinaturas em 28-05-2011
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Zezito de Oliveira · Aracaju, SE
4/8/2011 · 8 · 7
 

FASC (FESTIVAL DE ARTES DE SÃO CRISTÓVÃO)

“Quem produz cultura é a sociedade e não o Estado”. Uma frase/conceito que não esqueci, uma das idéias-chave contidas na carta do encontro preparatório, realizado em Aracaju (SE), do primeiro seminário sobre cultura, promovido depois pela SUDENE na cidade do Recife (PE), em meados dos anos 80, tempos da nova república e de esperanças renovadas com a retomada das liberdades democráticas, subtraídas pela ditadura civil-militar instalada no fatídico ano de 1964.

E, a partir de então, vai se afirmando, gradualmente, nas iniciativas culturais das quais tomei parte, a convicção de não fazer sentido alijar as comunidades dos processo de elaboração, formulação, implementação, monitoramento e avaliação de politicas públicas culturais. O que está conforme um dos tópicos apresentados nas páginas 23 e 24 da apostila da disciplina política e gestão cultural do Programa de Capacitação em Projetos Culturais, de iniciativa da Fundação Getúlio Vargas Online e do Ministério da Cultura, do qual sou participante.

Contudo, este modo de propor e fazer cultura nem sempre é considerado. Por esta razão, muitas iniciativas culturais vinculadas às instancias de governo e, às vezes, no âmbito das organizações não governamentais, em um dado momento, não encontra fontes de vitalidade para prosseguirem a contento ou gerar iniciativas autossustentáveis.

Um exemplo que corrobora o que está escrito acima é a mobilização da qual faço parte e que objetiva a formação de uma espécie de comitê gestor formado por representantes dos poderes público municipal, estadual, federal e da sociedade civil organizada para a retomada e continuidade do Festival de Arte de São Cristóvão (FASC).

Esse festival foi idealizado e realizado pela Universidade Federal de Sergipe de 1972 a 1993 em grande estilo e, desde então, até 2006, foi organizado pela Prefeitura Municipal de São Cristóvão, com altos e baixos, (mais baixos do que altos, diga-se de passagem) com a sequência de realizações interrompida em 2006.

Durante o período do festival, que variava de 3 a 8 dias, a cidade de São Cristóvão era tomada por uma multidão de pessoas, composta de artistas, mestres e brincantes, intelectuais, jornalistas, estudantes, professores, funcionários públicos e trabalhadores em geral, integrantes de diversas tribos que apresentavam e/ou assistiam diferentes tipos de espetáculos, além de comercializarem variados bens culturais.

Todavia, conforme consta de uma dissertação de mestrado em que o FASC foi um dos eventos culturais estudados, “O município e sua população participam do evento apenas como cenário e na qualidade de figurantes”(1).

Dentre alguns problemas gerados por essa postura dos organizadores, têm-se registros de oposição ao FASC de parcela da população mais identificada com o pensamento católico conservador, em especial nos primeiros anos.

Para entender isso, não podemos esquecer que a pacata e centenária cidade recebia mutos artistas, estudantes universitários, jornalistas, intelectuais e hippies que, em muitos casos, com suas vestes diferentes, adereços, comportamentos e valores eram algo bem diverso daquilo a que a população estava acostumada no seu dia a dia.

Também percebemos o pouco investimento em ações mais consistentes e permanentes de extensão cultural, como cursos, oficinas, palestras e seminários, inclusive no campo do empreendedorismo cultural, a fim de “empoderar” os moradores, em especial a juventude.

Caso isso tivesse ocorrido, certamente haveria nos dias de hoje inúmeras iniciativas culturais na cidade de São Cristóvão e municípios adjacentes. Tal fato levaria a iniciativa da organização do festival por parte das organizações da sociedade civil sancristovense, aproveitando o vácuo deixado pelo poder publico federal, estadual e municipal.

Por isso, as demandas apresentadas pelo movimento PRÓ-FASC têm como bases conceituais a parceria, a participação popular, a formação cultural continuada e o empreendedorismo cultural.

Dessa maneira, estarão asseguradas as estruturas vitais para a retomada de um processo cultural cujos alicerces, dentro das comunidades, estarão bem firmados e capazes de garantir uma conquista mais ampla do que um festival de arte apenas por alguns dias.

Para garantir que estamos no caminho certo, deixaremos como conclusão desse texto, um outro registro que consta na página 25 da apostila disciplina política e gestão cultural do Programa de Capacitação em Projetos Culturais já citado, da autoria de Garcia Canclini(2)

(,,,)a política cultural tem um papel que não se limita a ações pontuais, mas que se ocupa da ação cultural com um sentido contínuo, ao longo de toda a vida e em todos os espaços sociais. A política cultural não reduz a cultura ao discursivo ou o estético, já que procura estimular a ação organizada, autogestionária, reunindo iniciativas mais diversas de todos os grupos, na área política, social, recreativa... A política cultural – além de transmitir conhecimentos e desenvolver a sensibilidade – tenta melhorar as condições sociais para descobrir a criatividade coletiva. A política cultural procura que os próprios sujeitos produzam a arte e a cultura necessárias para resolver seus problemas e afirmar e renovar sua identidade (...).


P.S.: De março a maio de 2011, a comissão de articulação do Movimento PRÓ-FASC realizou várias reuniões com a comunidade e com diversos interlocutores que tiveram papel relevante na realização do FASC.

Tendo em vista que desde 1996 a prefeitura é a instância pública encarregada de realizar o festival, foi solicitado ao prefeito, e aceito por ele, a edição de um decreto municipal para oficializar a criação de uma comissão oficial de organização do FASC, composta por representantes do governo federal (UFS e IPHAN), governo do estado (SECULT e SETUR), governo municipal (secretaria de governo e secretaria de cultura) e da sociedade civil (ACASC e Movimento PRÓ-FASC).

Até o momento aguardamos essa providência do prefeito e da secretária municipal de Cultura, professora Aglaé Fontes de Alencar, tradicional pesquisadora e gestora cultural.

Também foi solicitado ao prefeito a contratação de um produtor cultural, com capacidade técnica comprovada, para a (re) elaboração de projeto e captação de recursos para o festival, levando em consideração os novos pressupostos de gestão compartilhada e a atual realidade orçamentária do país.


(1) FILHO, José Ribeiro. Festival de Arte de São Cristóvão: Projeção Nacional e Declinio. In: FILHO, José Ribeiro. Eventos públicos e privados: a elaboração de politicas culturais voltadas para a elaboração da festa. 2008. 145f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Federal de Sergipe. Cap.4.p.78

(2)GARCIA CANCLINI, Néstor (ed.) Políticas culturales en América Latina. México,
Grijalbo, 1987.p.51

Esse texto foi publicado originalmente na edicao impressa do Jornal do Dia - edicao de 15 de julho de 2001 e esta tambem disponivel no formato web do jornal, aqui.

Para saber mais sobre o significado da palavra empoderar, recomendo a leitura aqui.

Leia o manifesto PRÓ-FASC, aqui

Assista reportagem da TV Aperipe (abril 2011)sobre o movimento PRO-FASC.

Assine o abaixo assinado PRÓ-FASC, aqui

Memórias estéticas/afetivas PRÓ-FASC. Outra maneira de colaborar é elaborar um depoimento para ser publicado no blog PRO-FASC.

depoimento do Zezito de Oliveira

depoimento do agente cultural Hora Reis

depoimento do poeta Araripe Coutinho

depoimento do gestor público Marcos Santana

depoimento do músico Antônio Vieira (Brasinha)

Confira opiniao PRO-FASC emitida pelo entao ministro da cultura, Juca Ferreira, no ano de 2010.

Confira uma noticia ruim referente a relacao juventude de Sao Cristovao e a sua tradicao cultural.

Confira uma boa noticia referente a relacao juventude de Sao Cristovao e a diversidade cultural.

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ayruman
 

Estimular e produzir culrura autêntica com cara de nosso Povo, nossas raízes, neste País onde impera a politicagem e a safadeza é uma iniciativa de poucos gigantes que se preocupam com uma Ética verdadeira e necessária.

Que tenham todos vocês energia para o grito de liberdade não ficar congelado no Ar! Sucessos...

ayruman · Cuiabá, MT 4/8/2011 18:10
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gteixeira
 

Pra você, tiro meu chápeu.
Realmente você faz a diferença. Aqui no meu municipio
temos dificuldades de alavancar algo cultural, as cabeças por aqui, ainda anda de lado olhando pro chão, e vpcê tá reinventado o inventar.
Fico feliz em conhecer pessoas assim.
Vá em frente.
Gteixeira

gteixeira · Salinas da Margarida, BA 5/8/2011 21:55
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kfarias
 

O mais complicado, entendo, é conseguir pessoas que se enganje em uma proposta gual a sua. Em tendo essas pessoas, por menor que seja o número, aos poucos o desejo e a vontade de se ter um plano Cultural é absorvido pelos demais.
Torço de corpo e alma que voces não desistimulem, e que tenham forças necessárias para essa vencer essa luta.
Sei qu, as vezes, será disigual, mas não desanimem, voces vencerão e eu quero, mesmo de longe, sorrir junto com voces quando isso acontecer.
Sucessos!
kfarias

kfarias · Águas de Lindóia, SP 6/8/2011 12:59
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Zezito de Oliveira
 

Zezito,

Concordo que a cultura pertence a um povo, por conseguinte, a uma sociedade. Portanto, é a sociedade sim quem produz. Entretanto, o fato não isenta o Estado da responsabilidade de ser co-ativo nesta ação, até porque os impostos pagos pela SOCIEDADE devem ser revertidos para ela. Sendo assim, é muito cômodo retirar do Estado a parte que lhe cabe neste "latifúndio".

"Quem produz cultura é a sociedade e não o Estado".Frase bonita essa de quem disse isso (se eu estivesse presente, contestaria no mesmo instante), mas que não condiz com as necessidades de uma sociedade cada vez mais perdida em sua identidade.
A função do Estado é ordenar a estrutura de uma sociedade, principalmente quando esta não está conseguindo obter êxito em sua própria iniciativa. A isso chamamos INCENTIVO, APOIO, INVESTIMENTO.
A comissão do Fasc através da organização dos seus membros e apoiadores precisam REPENSAR a estrutura da campanha. Não se trata o ESTADO com delicadeza, quando ela não está agindo A CONTENTO. Não há MOVIMENTO que chegue a algum lugar. O FASC voltará mas, quem sabe, ano que vem, quando as campanhas políticas estarão nas ruas. Aí sim, ele - O ESTADO, "que nada tem a ver com a cultura", faça alguma coisa.
Um movimento que não caminha para uma ação mais contundente e ofensiva não terá como atrair a sociedade. Pensem nisso!
Um abraço.
Amorosa – cantora e jornalista

Resposta

Amorosa
Importante lembrar que quando nos referimos a ESTADO estamos querendo nos referir a prefeitura, ao governo do estado e a união.

Acredito que o texto é claro quando afirma com opinião e com fatos a postura autoritária e leniente dos agentes públicos envolvidos.

O argumento que defendo tem bases concretas e reais no exemplo do Festival de Jazz de Guaramiranga ( Ceará), em razão de ter tido oportunidade de conhecer a produtora do referido festival e ela ter nos contado sobre todo o processo da organização de um festival semelhante ao FASC, embora de iniciativa particular e com o patrocinio de empresas e do ESTADO, o qual transformou-se em um evento de caracteristicas até mais "públicas" que o FASC,

Quando me refiro as caracteristicas "públicas" me refiro a parceria com a comunidade e o estimulo ao empreendedorismo cultural local e etc..

Aqui em Sergipe, podemos citar o festival de audiovisual CURTA-Se como um outro bom exemplo.

Quanto a realização do FASC no próximo ano, também concordo com você, esta lentidão para encaminhar o processo, não é por acaso.


um abraço,

Zezito

P,S.: Mais adiante produzirei um texto sobre os dois exemplos citados acima.

tréplica
Quanto a observação do festival que o amigo cita temos que lidar com o processo histórico de cada contexto. O curta foi uma iniciativa privada, o FASC, não. Sabemos como nasceu, como se misturou e como se perdeu.
A estrutura da sociedade ainda está fragmentada. A comunidade de base (no caso, de São Cristóvão) ainda não se atentou em temos de maioria, da importância do seu papel nesse contexto.
Então, se o Governo, poder estrutural de uma sociedade, não exerce sua obrigação, ela tem que ser cobrada até as últimas vias. É assim que penso, porque fazem o mesmo com a sociedade, quando ela não paga impostos.
Amorosa
Via e-mail

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 6/8/2011 13:41
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Zezito de Oliveira
 

Zezito,
Bom Dia
Acredito que o caminho é este e quem sabe a sra. Aglé Fontes facilite e encaminhe este Projeto que tem tudo para ser um Programa.
Parabéns aqui de São Paulo
Fábio Neves - professor universitário e ativista social
via e-mail

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 6/8/2011 13:49
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Vasqs
 

Você disse "quintal"? Nós aqui não temos disso. Porra, meu, como isso faz falta, quanta saudade do tempo em que eu quintalzava na minha terra!
abaços

Vasqs · São Paulo, SP 6/8/2011 14:03
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Vinícius Motta
 

E que o povo possa desfrutar de mais iniciativas de construção social como esta.
Uma frase fundamental da sua postagem está logo no início: "Quem produz cultura é a sociedade e não o Estado". É uma grande discussão a ser feita em um país em que muitas iniciativas culturais - o cinema em especial - não existiriamsem a ação de empresas públicas.

Vinícius Motta · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2011 12:25
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