Fazendo da Tropicália um Nuggets?

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Lauro Mesquita · Pouso Alegre, MG
2/5/2006 · 84 · 3
 

A gravadora britânica Soul Jazz lançou há uns dois meses a coletânea Tropicália – A Brazilian Revolution in Sound. O disco traz um encarte detalhado que pode ajudar muito o estrangeiro que começa a se interessar pelo início da contra-cultura brasileira nos anos 60 – ainda que tenha alguns erros nos nomes dos personagens que criaram o movimento e omita alguns compositores (como Roberto e Erasmo Carlos em "Vou Recomeçar", cantada por Gal Costa).

A opção do selo – célebre por suas seleções de música jamaicana, jazz e pós-punk – foi por canções aparentemente não tão emblemáticas do movimento tropicalista, mas que, de certa forma, aliam a influência do rock psicodélico com exotismos brasileiros "pra gringo ver". É claro que você pode ouvir as essenciais "Domingo no Parque", do Gilberto Gil, "Tropicália", em que Caetano Veloso sintetiza a visão de Brasil do movimento, e "Panis Et Circensis", com Os Mutantes. Além de "Sebastiana", com Gal Costa, "Take it Easy My Brother Charles", com Jorge Ben, "Bat Macumba", em desnecessárias duas versões, e muito mais.

Ao terminar o disco, no entanto, fica a sensação que a Tropicália era uma resposta verde e amarela ao rock que se fazia em Londres e San Francisco. É só ouvir faixas como "Ave Gengis Khan", dos Mutantes -- com um arranjo de órgão típico de surf music careta pra diabo, mesmo pra época -, o rock clichê de Alfômega ou a brincadeira de Tom Zé em misturar palavras em português com nome de estrelas internacionais em "Jimmy Renda-se".

Além de "divulgar a produção brasuca ao mundo", o trabalho faz o favor de minimizar grosseiramente um movimento que bebe muito da cultura pop mesmo, mas de uma maneira muito mais diversa e provocativa do que qualquer Jefferson Airplaine ou Cream jamais pensou ser. A coletânea parece preferir o que o tropicalismo oferece de semelhante e reconhecível à música hemisfério Norte. Com isso, corre do que essa geração ofereceu de inovador, visionário e interessante.


A Tropicália se tornou uma realidade consistente no mercado fonográfico brasileiro com o lançamento da coletânea Tropicália ou panis et circensis, em 1968. Era ali que se os artistas vindos da Bahia (Caetano, Gil, Gal Costa e Tom Zé) se uniam ao até então desconhecido grupo de rock paulista, Os Mutantes, à musa da bossa nova, Nara Leão, e ao arranjador vanguardista Rogério Duprat para mostrar uma nova proposta de música brasileira.

O grupo era ambicioso e desejava sacudir a música brasileira com uma abordagem irônica e debochada – que retomava a tradição da literatura modernista brasileira, principalmente Oswald de Andrade – e criava canções que citavam a nova realidade urbana do brasileiro com personagens de TV, quadrinhos e do imaginário popular, emoldurados em sons que emulavam da música de vanguarda, às tradições do cancioneiro de apelo popular e, notadamente, o rock e pop – vistos até então como uma invasão estrangeira na música nacional.

Tavam falando de quem?

Com isso, os artistas propõem uma visão de Brasil que parte da referência internacionalizante da bossa nova, mas com um profundo interesse pela Jovem Guarda, pelas exageradas baladas românticas dos anos 50, o tango e a música latina – vistos pelo establishment da época como música de mau gosto estético e politicamente alienada. Os artistas ainda trabalham com elementos da música concreta, eletrônica e dodecafônica. Tudo para embalar uma abordagem extremamente vanguardistas e letras com conteúdos que, a todo momento, tentam dialogar com um Brasil urbano e turbulento, da segunda metade do século XX.

Infelizmente, a fixação estrangeira com o trabalho de Os Mutantes – que, no final, é o único do grupo tropicalista que realmente se preocupava essencialmente em fazer uma música pop atualizada aos moldes das novidades internacionais – e a vontade de "vender" a música brasileira para um público interessado em rock psicodélico acabam por colocar a coletânea da Soul Jazz a milhas de distância da coletânea original de 1968.

A seleção musical revela uma má-vontade espantosa dos gringos de, por meio da Tropicália, tentar entender um pouco melhor o que se sucedia na música brasileira. É até engraçado, uma vez que, no encarte - apoiados pelo "Verdade Tropical", do Caetano Veloso -, a relação da música com o contexto brasuca é ressaltada fortemente. Musicalmente a galera preferiu ir no mais fácil e pular a lição de casa.

Ao meu ver, a intenção do movimento estava longe do fazer rock com cores típicas. Pelo contrário, a vontade era de interferir diretamente na música brasileira e nas suas convenções. Não era uma tentativa de ser aceito pelo mercado internacional, mas de trazer uma música atualizada também, mas como um processo antropofágico e pop. Uma arte que queria falar universalmente do Brasil, mas para os brasileiros.

Ao ouvirmos a coletânea da Soul Jazz parece que esse pedaço da música do Brasil foi uma invenção do Beck, do Kurt Cobain e do Sean Lennon. Ainda bem que a sensação é errada.

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Hermano Vianna
 

que bom encontrar você por aqui Lauro! Você chegou a ver a exposição tropicalista que está em cartaz em Londres? Queria também ouvir as suas impressões

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 29/4/2006 23:00
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Lauro Mesquita
 

Oi Hermano como vai. Vi a exposição sim. Estou preparando um texto sobre isso também. Gostei de muita coisa e achei outras meio irregulares. Mas o evento como um todo, ao meu ver foi muito positivo. Trouxe um pouco de água no deserto anglo-saxão sobre a arte brasileira. Continuarei a mandar minhas contrbuições. Depois confira meu blog http://diretodepiei.zip.net. Abração.

Lauro Mesquita · Pouso Alegre, MG 1/5/2006 13:11
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Monica Ramalho
 

então, trocando em miúdos, nada como ouvir os discos originais da tropicália, lauro? :)

Monica Ramalho · Rio de Janeiro, RJ 2/5/2006 18:01
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