Feira contemporânea

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Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
21/12/2006 · 189 · 3
 

Na segunda semana* da feira de debates sobre cultura digital, suas aplicações e impasses, em Pernambuco e Rio de Janeiro, a oferta foi variada. Teve exposição de caso de democratização tecnológica bem-sucedida, exibição de gente criativa que trabalha com arte eletrônica e até mesmo momentos de tensão, em mais uma rodada de conversas sobre os dilemas da TV Digital (discussão que, pelo visto, está só começando...)

Como parceiro do evento, o Overmundo estava lá e traz aqui uma pequena cobertura dos três últimos dias, para que pessoas de outros estados possam saber o que rolou e se engajar na discussão (via comentários).


Mesa: “Diálogos entre diferenças”


Helena Aragão (RJ) – 12/12

O nome do debate era “Diálogos entre diferenças”. Bota diferença nisso. É claro que o tema da mesa era muito mais amplo que a diversidade de experiências de vida representadas pelos convidados àquela conversa. Mas foi simbólico ver Joanildo Burity (da Fundação Joaquim Nabuco, PE), Jader Gama (do Projeto Puraqué, PA) e Carlos Affonso (Fundação Getúlio Vargas, RJ) sentarem lado a lado para falar de uma preocupação em comum: como tornar a tecnologia uma aliada efetiva da transformação social.

Joanildo é cientista político. Usou palavras como “mediações”, “visibilidade”, “acesso”. Duas falas dele me chamaram mais atenção: uma dizia respeito à falsa impressão que as pessoas têm de que, com a internet, a infomação chega nua e crua, sem intermediários. A outra foi mais prática: destacava o número de Pontos de Cultura do MinC que não têm relação com internet – muitos, inclusive, não têm nem acesso à internet. Faz pensar, não?

Gama é coordenador de um projeto de inclusão digital no interior do Pará chamado Puraqué. Apresentou-se dizendo que prefere ser chamado pelo sobrenome, que é flamenguista (!) e começou uma conversa que poderia ser no boteco ali do lado - poder comunicativo típico de quem atua no movimento social há tempos, me parece. Ele explicou: Puraqué é um peixe elétrico da Amazônia que é uma espécie de termômetro da poluição nos rios. Então aí está a metáfora, pois o projeto quer levar vida às comunidades pobres do estado. Formado na primeira turma de processamento de dados de Santarém, ele (e equipe) recebe computadores velhos, conserta e assim alimenta telecentros. Missão que, depois descobriu, já tem nome: metareciclagem. Com isso, já há jovens fazendo seus próprios sites, mulheres ribeirinhas produzindo seu DVD e mocinhas trabalhando numa novela sobre o boto. “Estamos tendo a oportunidade de tirar de cena a figura do atravessador”, explica, após fazer uma declaração apaixonada aos softwares livres.

Carlos Affonso é advogado e, como boa parte deles, usa óculos e camisa social. Parece sério, e é, mas é só sacar seu fabuloso power point para fazer a platéia refletir gargalhando sobre o estranho mundo do direito autoral. Foi assim que ele mostrou leis e o que acha que precisa ser mudado, além dos novos modelos de negócios que já surgiram bem-sucedidos no Pará e na Nigéria.

Mesa “Estratégicas e políticas”

Bruno Nogueira (PE) – 12/12

Por costume, eu sempre levo um caderninho para anotar o que é dito em seminários, palestras, etc. No Cultura Além do Digital não foi diferente. Mas, pela primeira vez, fiquei achando que não era uma boa idéia. Cheguei já no começo do debate entre o Luis Erlanger e o Gustavo Gindre e, nem mal sentei, já tinha preenchido uma página inteira de anotações. Informação vindo feito cachoeira, com um leve clima de tensão.

Para situar, o Gindre é o cara que reúne todo mundo para dizer que a Globo monopoliza o espectro da televisão. O Erlanger é o cara da Globo que diz o que a TV faz com sua parcela do espectro. Sentiu a tensão? O mote da noite era a disputa entre o bem público e o privado. Será que a TV, sendo uma concessão pública, não teria mais obrigações? No contexto geral do seminário, Gindré reforçava que falar em TV Digital não é apenas falar de Internet na TV.

Desse descarrego de informação, algumas interessantes. Os brasileiros já pagam um imposto de um fundo destinado a cobrir o país inteiro com uma conexão sem fio. 1% da conta de telefone. Pouco? Segundo Gindré, eles já tem mais de R$ 1 b acumulado. Enquanto isso, dados trazem que apenas 6% do Brasil tem acesso a banda larga. 47% usaram um computador pelo menos uma vez. Para contrapor, 80% da população tem TV aberta.

Pausa para pensar um pouco. Se a TV digital é aberta, e vamos supor que ela fosse apenas Internet. Imagina 80% da população com uma conta de email. Revolução seria o mínimo dos clichês.
Erlanger tinha um bom argumento. O espectro total da televisão no Brasil é de 360mhz, a globo ocupa apenas 6mhz. Podia parecer uma desculpa esfarrapada, mas ficou no ar um clima de "faça você mesmo". No mais, valeu a mensagem de que reclamar da Globo é fácil, mas a concorrência está com qualidade bem pior.

A mensagem que me tocou mais, entretanto, veio do professor de economia José Carlos, que veio substituir o Silvio Meira, do Porto Digital. "Vocês estão discutindo tudo isso com um foco errado. A televisão no mundo inteiro é uma porcaria, não é apenas no Brasil. A diferença, é que na Europa e outros países de primeiro mundo se trabalham uma alternativa". Recado bem dado.

Helena Aragão (RJ) – 13/12

O "leve clima de tensão" continuou no dia seguinte, dessa vez no Rio de Janeiro. A fala calma, otimista e exageradamente política da única pessoa diferente na mesa carioca – o Secretário de Desenvolvimento e Turismo do Estado do Rio de Janeiro, Tito Ryff – não foi suficiente para amainar as caretas e vozes um tom acima de Gindre e Erlanger. Como o Bruno, também cobri páginas e páginas do caderno com frases, sendo que algumas pareciam nocautes num ringue. Aqui alguns exemplos:

Primeiro round: TV Digital

Gindre: “Com a TV Digital, no espaço de uma concessão vão caber quatro, cinco programações. Era a chance de democratizar o espectro eletromagnético brasileiro. E o que o governo quer fazer? Dar os canais digitais para as mesmas emissoras que estão aí. TV Digital não é só para se ver uma imagem de qualidade boa, o potencial dela é muito maior. Enquanto isso a maior emissora do país não tem um programa de debate, entrega tudo editado para a população consumir”

Erlanger: “Acho que a população de baixa renda tem direito de ver imagem boa. Mas não se pode culpar quem usa a concessão direito. Os que não usam que deviam ter as concessões tomadas.”

Segundo round: Taxação de emissoras (Existe uma proposta de se taxar emissoras de TV para fomentar a TV pública e o cinema brasileiro)

Erlanger: “Não é justo a iniciativa privada ter que pagar os males da sociedade. É perverso. É como inventar de taxar a escola privada para financiar a pública”

Gindre: “Não é bem assim. Faz sentido cobrar do rádio-difusor porque ele usa um bem público. Não tem comparação com escola, hospital. Em vários países da Europa é assim, por que o Brasil não consegue nem discutir esse assunto?”

Os ânimos exaltados com dois fortes representantes de cada posição mostram um pouco o porquê: talvez seja preciso menos careta e mais oportunidades de discussão como essa para se afinar os interesses de todos.


Mesa: “O horizonte da cibercultura”

Bruno Nogueira (PE): 13/12

Engraçado como tudo casou direitinho no seminário. Um sempre encerrava puxando o assunto do próximo. No último dia, tudo parecia um pouco mais jogado, mas com um sentido bem relevante para isso. A situação é complicada, complexa, etc? É sim. Mas existem soluções. O Media Sana mostrou como passou a usar imagens de vídeo e fotos junto com músico e discurso para criar uma forma bem particular de expressão. Tudo construído em improviso, com coisa filmada ali mesmo na hora.

Enquanto o Arthur Leandro mostrou imagens do trabalho coletivo feito no Pará, mostrando experiências colaborativas, como TVs e rádios de bairro, além encontros para troca de informação e expressão estética. Claudio Prado, do Ministério da Cultura, levou tudo para o campo das idéias, numa tentativa de reflexão mais profunda. Falou de "ministério da alegria" e de como o digital fez ele mudar de idéia sobre muita coisa que já tinha como perdida.

O mais interessante, entretanto, veio no fim. Heloisa Buarque de Hollanda, sentindo a necessidade surgida em tantos debates, anunciou que já começou a arquitetar um segundo debate. Era assunto demais para deixar morrer assim. "O fantasma do espectro" deve vir, com sorte, ainda no primeiro semestre do ano novo.

Viktor Chagas (RJ): 14/12


As apresentações foram bem rápidas, José Marcelo Zacchi, coordenador do Overmundo, deu a palavra a Cláudio Prado, coordenador do setor de políticas digitais do MinC. Cláudio abriu os trabalhos com um excelente bordão: “Eu sou hippie”, disse ele enfaticamente. “Eu sou e o Gil também é.” Depois, explicou que toda tecnologia e toda apropriação dos meios de produção é um legado hippie. “Marx seria hippie”, seguiu dizendo. Provocador, como ele mesmo se definiu ainda antes de subir à mesa, Cláudio dizia que Gil já cantava o “Cérebro eletrônico” na década de 60, que o ministro é bem antenado, e justificava toda essa euforia parafraseando Roberto Freire, “Sem tesão, não há inclusão”.

Entre as várias provocações semeadas por Cláudio, estava o mote de que, para ele, download é consumismo. “Antes de entender o download, o usuário precisa saber o que é upload.” E a idéia de que “Pirata é quem ganha muito dinheiro, conseqüentemente, piratas são as grandes majors”, sugeriu. Para falar dos pontos de cultura e da questão da inclusão digital, Cláudio citou um esquema que divide em três fases as intenções de inclusão: a primeira, em que se pensa “é preciso dar computador para os pobres”; a segunda, quando a preocupação gira em torno da internet e da banda larga; e a terceira, quando se atinge um grau mais complexo de manipulação digital de arquivos, gráficos, vídeo, uma espécie de computador-estúdio.

Foi pegando essa deixa que Arthur Leandro, artista, membro do Fórum Permanente das Culturas do Pará e professor da UFPA, citou casos e exibiu fotografias de encontros do fórum, um “ajuntamento de artistas”, segundo sua definição. Arthur falou rapidamente, porque achava que durante as intervenções, a conversa fluiria mais facilmente. Só fez questão de deixar bem claro que sua proposta era de uma ação completamente independente, sem a força do Estado. José Marcelo agradeceu com o outro bordão da noite, “Brigadão, Arthur”, e, dado o término precoce da participação do primeiro, foi obrigado a fazer uma breve apresentação sobre o Overmundo para a platéia, enquanto Gabriel Furtado e seu parceiro Igor, do coletivo Media Sana (PE), arrumavam os últimos preparativos para a inenarrável apresentação que se seguiria. Manipulando sons, como DJs, e imagens, como VJs, Gabriel e Igor improvisaram um discurso audiovisual eletrônico-político impecável. Depois do show, com três composições, Gabriel explicou que o Media Sana trabalha com a mídia como matéria-prima, porque os discursos dos meios de comunicação alcançam maior credibilidade. No final, ele exaltou um “ambiente cultural sem mediação”, para o qual estamos caminhando.

Então, começaram as perguntas. Uma menina fez a primeira. Uma mulher lá do fundo, fez a segunda. E uma outra menina da platéia, coincidentemente sentada ao meu lado (veja como as coisas acontecem sempre perto de mim) fez a terceira, a quarta, a quinta. Um homem explicou melhor a pergunta da menina e fez a sexta. Depois, o microfone voltou para ela e foi a sétima, a oitava, a nona... A intervenção foi muito breve e causou uma enorme polêmica, muito devido à reação dos artistas participantes, que traduziam bem o discurso do “eu faço arte, não ligo pro capital”. Ela disse, em termos bem simplórios, o seguinte: "Gente, isso tudo é muito bonito. Mas como é que se ganha dinheiro?" Cláudio voltou a tomar a palavra e citou Bnegão, a banda Marillion e muitos outros casos de gente que ganha dinheiro e faz arte, sem precisar se render ao capital. E fechou dizendo que defende o “se virismo” (condição de quem “se vira”) e que o dinheiro não é sempre mau. José Marcelo, no papel de mediador, não falou muito mais. Só agradeceu a todos, e fez as honras da casa no encerramento formal do seminário com o seu “Brigadão”.

****

* O texto de cobertura da primeira semana de debates está aqui.

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Alê Barreto
 

Helena, parabéns pela cobertura. Muito informativo e instiga a gente a pesquisar os temas abordados.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 19/12/2006 11:30
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jjLeandro
 

Feliz Natal, mina
http://jjleandro.blog.terra.com.br/
http:fotolog.terra.com.br/jjleandro60

jjLeandro · Araguaína, TO 24/12/2006 12:45
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Fanny Gabrieski
 

Bem, não pude deixar de ler sobre a mesa de estratégia e políticas. Gostaria de fazer uma observação para o Bruno. Qd se fala em internet na TV, normalmente não se fala da parte reservada do espectro eletromagnético para o serviço de internet. Já existe uma parte do espectro que é reservada para as telecomunicações. Essa parte é diferente da parte que é reservada para o serviço de radiodifusão que se caracteriza por não ser uma comunicação ponto a ponto, mas um ponto para muitos. O serviço de telecomunicação é ponto a ponto. Bem, para ter internet na TV, normalmente se usa a tela da TV e, para isso, não dependemos da TV Digital, dependemos da simples instalação de um modem. Então, só para te ser clara, esse dado de 80% é inverídico falar que 80% dos brasileiros terão internet na TV com a chegada da HDTV. Nem precisa da HDTV, dá para ter HDTV e ter internet na TV. Dá para ser super barato colocar internet na TV hoje, daria para fazer isso a 10 anos atrás. Associar isso à discussão da TV Digital é maquiavélico, começa pelo fato que uma coisa não tem nada a ver com a outra como foi divulgado erroneamente. O serviço de TV acontece por uma parte do espectro, o de internet deve acontecer por outra parte do espectro. para receber o serviço de internet na tela da sua TV, e é importante frisar, na tela da sua TV, basta serem produzidos modens que ligados à TV sejam capazes de se conectar à internet ou basta se produzir uma tela de TV com receptor em radiodifusão e um modem para recepção em telecomunicações. Como o objetivo da discussão sobre TV digital era manipular a opinião pública, seja por parte das empresas privadas ou da "sociedade civil", muitas das informações foram manipuladas ou dadas pela metade como essa que vce reproduziu. A questão não é quantas pessoas tem computador ou não. A questão é quantas telas existem e são capazes de, com um modem acoplado, produzirem visualização para conexão na internet. Juntas, as telas de TV instaladas no Brasil que são capazes disso não chegam a 30%. Número inferior ao de domícilios com monitor de computador.

Fanny Gabrieski · Rio de Janeiro, RJ 26/12/2006 02:49
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