Observatório

A história do Overmundo na memória de seus colaboradores
O Overmundo foi pensado para trazer à luz a cena cultural brasileira, independente da grande indústria cultural e que, justamente por ser independente, não costumava figurar com destaque nos grandes meios de comunicação. Algum tempo passado, constatamos que ainda há muito o que fazer e que, a cada dia – sobretudo com o advento da internet colaborativa e de ferramentas de autopublicação... leia

 
Feira do Rolo.
Cury · Salvador (BA) · 9/12/2008 22:26 · 136 votos · 5 comentários ·  
 
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overponto
Cury
Se não achar um cuco na Feira, compre um relógio, um passarinho e monte um.
Imagens
Vai a armação de uma cama aí?
E uma pia, quer?
Até o Futuro você encontra na Feira do Rolo
Um sapato, uns cabos, Roberto Carlos e mais 800 itens para o seu prazer sexual
A Feira

Ao comunicar meus amigos que eu iria à Feira do Rolo, muitos me advertiram com “cuidado”.
A feira fica situada na Avenida Suburbana, embaixo do Viaduto dos Motoristas. Do viaduto dá para ver a igreja do Senhor do Bonfim e, do outro lado, a Igreja dos Mares. Ao fundo, a Baía de Todos os Santos, que era o lado certo para qual a cidade crescia. Qualquer grande cidade do mundo que tem uma baía, cresce em torno dessa baía, mas aqui, o soteropolitano empreendedor virou as costas e foi morar e trabalhar no outro lado, abandonando aquele pedaço de terra que tem maré calma, não tem salitre e ainda tem uma vista estupenda, onde deveriam estar grandes empreendimentos sociais e de lazer, ao invés de invasões.

Para chegar na feira, o cliente pára o carro próximo ao viaduto ou pega um ônibus com destino à avenida Suburbana, desce o viaduto a pé, atravessa os trilhos do trem, pula algumas poças de lama, uns sacos de lixo, passa ao lado dos entulhos, pensa um pouco na dengue e então chega no corredor polonês que vende tudo, Baixa do Fiscal, Feira do Rolo. Cheguei cedo, às 7 horas, em uma ensolarada manhã de domingo, dia da Feira do Rolo, também chamada de Feira do Pau. Vende tudo. E tudo, é tudo. E não só vende tudo, como também compra e troca e faz qualquer negocio. Ou qualquer rolo. O que você quiser vender, comprar ou trocar, do seu carro a sua sogra, pode levar lá que tem rolo.

Quando eu cheguei em casa, minha mulher perguntou:
– Vende tudo mesmo?
– Diga aí um objeto – disse eu.
Ela pensou um pouco:
– Ferradura.
– De cavalo?
– É.
– Mais de 10 modelos e tamanhos. Tinha até pra poney.

A primeira mercadoria que encontrei foi com Paulo Rogério, 47 anos, 20 de feira. Vendia correntes de prata. Para comprovar que era prata mesmo, mergulhava o pobre do cristo crucificado em um balde com ácido muriático, depois limpava no pano e exibia dizendo “é prata, dois reais a corrente e a aliança é de graça, leve agora para a sua amada, não gaste o dinheiro na cachaça...”. Muitos clientes cercavam o seu espaço.
Passei por barracas vendendo ratoeiras, isqueiros, pilhas (comprei oito), barbeadores, pata-pata, capa de celular, controle de videogame, radinho de pilha, controle remoto de televisão, pititinga (sim, o peixe), cadeados, boldo, maçaricos, fita métrica, trenas, CDs, DVDs, antena de TV (comprei uma), despertador, baralho, dominó...

No começo, o visitante fica sem entender a feira. É bom dar uma andada antes para observar as coisas, para então perceber que não adianta nada, pois vai continuar sem entender a feira. Pode encontrar uma barraca vendendo, ao mesmo tempo, um sapato, um radio toca-fita, uma máquina fotográfica, uma tesoura, um Atari com 8 cartuchos, uma tela de computador, um painel de um Gol, um travesseiro e um estetoscópio. Essa barraca foi bem no começo da feira e eu levei uma máquina fotográfica no bolso, mas eu, por conta das advertência dos amigos, decidi que só iria tirar fotos quando eu estivesse indo embora.
“Na volta tiro a foto desse Atari”, pensei.
Em outro camelô, ao lado de um cabo VHS, uma Playboy da Feiticeira, uma maçaneta e três tijolos quebrados, eu avistei um videogame mais moderno.
– Quanto custa o videogame? – perguntei.
– 30 reais.
Cheguei mais perto e vi que não era um videogame e sim um aparelho de DVD.
– Mas não é videogame, é um DVD – disse eu.
– Ah, então é 10 – disse o vendedor.
Mais adiante vi uns discos. O primeiro era de Julio Iglesias, o segundo era Iron Maiden, The Police, Roberto Carlos, Roberto Leal e um do Cheiro de Amor, de 1987. Vi os discos um por um e me levantei pra ir embora.
– Você queria de forró, né? – perguntou para mim o vendedor.
Achei melhor dizer que sim.
– É, queria forró.
Ele mandou eu voltar no próximo domingo.
Andando mais percebi que para você construir sua casa, você só precisa ir na Feira do Rolo. Esqueça Ricardo Eletro, Casas Bahia, Insinuante, Dismel ou Comercial Ramos, ali você monta sua casa toda. Desde as ferramentas para a construção até janelas, privadas, pias, sofás, cadeiras, mesas, lustres, lâmpadas, tapetes, quadros, criados-mudos, camas, chuveiros, talheres, pratos, copos, xícaras, jogos-americanos, sistemas de som, televisores, DVDs, liquidificadores, batedeiras, condicionadores de ar, ventiladores, geladeiras, fogões, botijões de gás, máquinas de lavar, enceradeiras, bicicletas, motos... a maioria roubado. Para a parte bucólica da casa, você pode comprar um passarinho para cantar no pôr do sol e um cachorro para tomar conta de tudo. Lá tem de poodle à pitbull. Os passarinhos variam entre “curiós e cardeais, de 100 a 1000 reais, depende se canta ou não; coleirinha tem de 5 a 20 reais, também dependendo da cantoria”, disse-me Elias, 40 anos de feira.
Além de montar a casa, o transeunte da feira pode montar também seu escritório. Mesas, cadeiras, computadores e, não satisfeito, se quiser montar o computador, também pode. Ali se encontra placas-mãe, de vídeo, de som, chips, memórias RAM, CD-ROM, monitores, teclados, mouses, HDs, ventoinhas, cabos e mais todos os componentes que formam todas essas coisas que citei nesse parágrafo.
Dá para construir também uma bicicleta comprando todas as peças de uma. Tudo separado. Mas pode também comprar uma já montada.
– Tô com várias Barra-Forte – disse um vendedor. – Comprei dos Correios.
O preço médio é de 40 reais. Com câmbio Shimano sai por volta de 120 reais.
Parei para conversar com Seu Carlos José, 32 anos, 17 de Feira do Rolo. Ele vendia diversas peças e ferramentas para tudo o que o leitor imaginar.
Ele reclamava sobre o fato da feira ser no meio da rua, entre os carros passando:
– Os poderes públicos não fazem nada, a SET – Superintendencia de Engenharia de Tráfego – nunca vem aqui, o trânsito é intenso, os batedores de carteira espantam a clientela, que já foi bem maior – reclamava ele.
Perguntei sobre a fama da feira de vender produtos roubados.
– Que tem, tem, até demais, mas também tem muito produto de gente honesta – disse ele.
Muito do que é vendido na feira, principalmente celulares, relógios e sons de carros, vem do roubo. O mais irônico é que a delegacia de Furtos e Roubos fica a um quarteirão da feira, que, por sinal, fica bem ao lado do manicômio judiciário.

Perguntei a muitos sobre a idade da feira, mas ninguém soube responder com convicção. Um me disse que a feira tinha 40 anos de existência, outro disse que tinha mais de 50 enquanto um chegou a dizer que a feira tinha mais de 100 anos.
Às 8:20, o sol ali já castiga pesado. Achei que era hora de ir embora e finalmente tirei a máquina fotográfica do bolso. Mirei na primeira imagem que me despertou interesse:
– Ô, maluco, quer quanto nessa câmera aí?
Na saída, fui procurar o Atari com os cartuchos para fazer a foto, mas já tinham sido vendidos. Sete reais.

tags: Salvador BA cultura-e-sociedade feira-do-rolo salvador escambo


 
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Adorei esse texto. :)
Krista K · Salvador (BA) · 8/12/2008 15:51 
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claudia gomes Muito interessante o texto, herança dos escravos de ganho que vendiam de tudo pelas ruas de Salvador?
claudia gomes · Salvador (BA) · 10/12/2008 10:36 
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Ehhh... A Claudia está atenta como sempre. Realmente, esse é um lugar bem diferente do finíssimo Salvador Shopping (que ao mesmo tempo é o outro resultado da mesma situação história).
Krista K · Salvador (BA) · 10/12/2008 21:07 
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Para quem valoriza conhecer roteiros diversos, além dos oferecidos em pacotes turísticos, taí uma boa pedida para quem for a Salvador. Parabéns pelo artigo. Meu deu saudade desta cidade linda e de gente linda.
Alê Barreto · Rio de Janeiro (RJ) · 11/12/2008 00:07 
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Interessante o texto, ainda mais para alguém que nunca saiu do carro pra se meter no meio do rolo.
Sitenl · Salvador (BA) · 11/12/2008 13:49 
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