Ser dj de uma festa é uma sensação muito doida. É colocar as músicas que você ouve em casa e no carro, muitas vezes sozinho, em julgamento público.
Dia desses, teve uma festa em homenagem aos “Anos 80” na casa Miss Modular. Fui chamado para ser um dos dj’s da noite. Dj Mocó.
– Você tem as “podreiras” dos anos 80? – me perguntou o produtor da festa.
– É craro, psit.
Os “Anos 80” estão na moda. Na moda mesmo. Quando cheguei, entrei sozinho pelo elevador com mais quatro mulheres que nunca tinha visto. O elevador fechou a porta e ficou aquele silêncio normal de elevador com pessoas que não se conhecem. Um olhando para o chão, outro para os botões e outro para o visor com os números passando. Uma delas abriu a boca:
– Será que alguém vem fantasiado de “Anos 80”?
– Hein?!
PUTAQUEPARIU.
Eu jurava que elas estavam fantasiadas de “Anos 80”. Saias estampadas, colares, pulseiras, rosa, rosa, rosa e tome cor-de-rosa. Devem fazer parte da comunidade “Eu uso Rosa”.
Entro na festa. Na parte de cima, está dj Big colocando os “Anos 80” lado B. Embaixo, está um cara que não sei o nome colocando “Anos 80” lado AA. Toca “Pluct Plact Zum”.
– Porra, é Balão Mágico? – perguntou Cris.
– Não, é Raul.
E então percebi que realmente parece. Raul foi sensacional. Pediram para ele fazer uma música infantil e ele fez uma como deveria ter sido feita. Subi para pegar uma cerveja e fiquei ouvindo os “lado B” com Big.
Encontrei com um amigo, Matéria, que estava embaixo, e subiu pirado:
– Porra, aí é foda, lá embaixo o cara botou RPM. Aí é foda...
Na semana que antecedeu a festa, eu fiquei baixando algumas músicas pela internet para tocar lá, mas só lembrei de “Não se Reprima” do Menudo no último dia. Fiquei puto por não ter conseguido baixar.
Depois de uma hora, desço de novo e já é outro dj. Dj DonJorge. Ele estava tocando “Não se Reprima”.
“Meu Deus!, ainda bem que eu não consegui baixar essa música.”
Agradeci a tudo. A cena estava tragicomicamente nostálgica. DonJorge, na cabine, pulando como a porra (isso, Don, não se reprima) e a galera meio parada tipo “é, legal”. Fiquei com receio, pois tinha levado coisas “normais”, mas também tinha levado Metrô, Sempre Livre, Inimigos do Rei... Balão Mágico.
Subo de novo e, logo depois, chega Matéria, pirado:
– Tá foda, o cara agora botou “Meu Ursinho Blau Blau”.
Depois de duas horas, chegou minha vez de ser dj. Comecei com Herva Doce:
“Moreno alto, bonito e sensual, talvez eu seja a solução pro seu problema...” ²
E a multidão aplaudiu e dançou pra caralho ao reconhecer a música. Entrei com tudo.
Porém, quando a primeira parte da música acaba, entra o solo de guitarra e então a música se repete até chegar novamente no refrão, que fica repetindo por infinitas vezes até a música ir abaixando.
Essa característica parte1-refrão-parte2-refrão-solo-parte1-refrão-refrão-refrão-até-sumir está presente em 99% das músicas dos anos 80. Aí fudia tudo, pois, quando repetia o “moreno alto, bonito e sensual...”, a reação era como se as pessoas dissessem “de novo?!”. E foi assim a noite toda.
“Encontrei uma barata na cozinha, eu olhei pra ela, ela olhou pra mim...” ³
E as pessoas ao reconhecerem a música dançavam, pulavam, mas quando a música voltava do solo, ninguém agüentava mais.
Constatei que “Anos 80” é insuportável. Ou só suportável por dois minutos. Deveria ter colocado só o começo das músicas. Percebi que foi isso que aconteceu com o “Não se Reprima”. Imagino que no começo da música ninguém se reprimiu. Porra, imagine então dj DonJorge no começo da música?
“Canta, baila sien parar... não segure muito teus instintos porque isso não é natural.” ?
O tempo foi passando e botei A-Ha, Cindy Lauper, R.E.M., Cure, Morrisey, Ira!, Lobão, Camisa de Vênus...
De repente, chega um cara, forte pra caralho, gigante, camisa colada, cara de jiu-jitsu, com não sei quantos colares, não sei quantas pulseiras e não sei quantas tatuagens. Ele grita por causa do som alto. Eu também:
– Pô, eu queria pedir uma música.
– Diga aí.
– Pô, eu não sei o nome... chega aí pra eu cantar...
PUTAQUEPARIU.
– Diga qual é?
– Pô, eu não lembro do nome...
Chego mais para frente.
– É aquela assim: “Bom dia, amiguinhos, já estou aqui, tenho muitas coisas pra nos divertir...”?
Um cara que nunca vi na vida, todo fortão, cantando no meu ouvido “Bom dia, amiguinhos, já estou aqui”. Nos segundos que esse cara estava cantando, eu pensei: “puta merda, o cara é gay e está me paquerando, cantando no meu ouvido ‘bom dia, amiguinho, já estou aqui’”, e, depois que ele se afastou do meu ouvido, ele gritou “da XUUXA”.
– Porra, man, tenho não.
Ele fez cara de triste, um sinal de legal com a mão e saiu.
Botei Paralamas com “amor sem palavras, cinema mudo...”?
Engenheiros com “eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada...”? e Matéria vinha:
– Porra, tá foda. Engenheiros tá foda.
Com o tempo, os entusiasmos já estavam ficando menores até no começo das músicas. Apelei para o Balão Mágico.
Balão Mágico é realmente superfantástico. As músicas eram muito bem feitas. Arranjos, letras, harmonias e, principalmente, melodias. Fiquei pirado quando, num dia qualquer de 1986, liguei a televisão para ver Balão Mágico e, sem saber que tinha mudado, entrou uma loira cantando “bom dia, amiguinhos, já estou aqui”. Pelo menos era uma loira.
Botei “Se Enamora” com Simony de voz de menina gripada:
“Quando você chega na classe, nem sabe quanta diferença que faz e, às vezes, faço que não vejo e nem ligo e finjo ser distraída demais.” ?
Todos foram ao delírio e a música foi para o refrão:
“Se enamora, quem vê você chegar com tantos sonhos, quem vê você passar perto das flores, parece que elas querem te roubar... se enamora...”
E então veio a parte 2 e as pessoas já estavam de saco cheio. Poucos dançavam. Matéria estava balançando a cabeça negativamente. Ninguém mais agüentava o duelo de vozes entre Mike e Simony. Nem eu. Eu não queria ouvir mais nada dos anos 80. Entrei em pânico, não sabia mais o que botar. O refrão já estava sendo repetido pela 4ª vez.
“Se enamora, a gente, de repete, se enamora...” e eu procurando algum CD e não achava nada, olhava para as pessoas e ninguém mais dançava e o refrão repetindo, só que agora num tom acima, com o coro do Balão Mágico berrando “se enamora, quem ver você chegar com tantos sonhos...” e eu sem mudar de música, sem saber o que botar... Tinha uma menina que já estava de braços cruzados me encarando, batendo o pé no chão.
O refrão continuava, só que agora com o volume abaixando. Achei Barão Vermelho, com Cazuza. Joguei no player e entrou “Pro dia nascer feliz”. Chega então o outro dj da noite, dj Batata e diz que é a vez dele.
– Man, lá em cima só tá rolando anos 90 – disse ele.
– Porra, covardes!
Ele diz pra eu colocar mais uma música enquanto ele arruma os CDs dele. Botei Pepeu:
“Você pode fumar baseado / baseado em que você pode fazer quase tudo” ? e Matéria foi o único que dançou e cantou a música toda.
____________________
(1) Eduardo e Mônica, de Renato Russo. Gravação: Legião Urbana, disco “Dois”, EMI, 1986.
(2) Amante profissional, de Roberto Lly. Gravação: Herva Doce, disco “Amante Profissional”, RCA Victor, 1985.
(3) Uma barata chamada Kafka, de Paulo Moska, Marcelo Marques, Jason Mizzel, Luiz Peixoto, Joseph Simmons e
Raimond White. Gravação: Inimigos do Rei, disco “Inimigos do Rei”, Epic/CBS, 1989.
(4) Não se reprima, de Carlos Colla, Fernandez Monroy e Carlos de la Torre. Gravação: Menudo, disco “Mania”, CBS, 1984.
(5) Amiguinha Xuxa, de Messias Correa e Rogério Endé. Gravação: Xuxa, disco “Xou da Xuxa”, Som Livre, 1986.
(6) Cinema Mudo, de Herbert Vianna. Gravação: Os Paralamas do Sucesso, disco “Cinema Mudo”, EMI, 1983.
(7) Toda forma de poder, de Humberto Gessinger. Gravação: Engenheiros do Hawaii, disco “Longe demais das Capitais”, BMG, 1986.
(8) Se enamora, de Giovanni Garofalo, Giovanni Gastaldo, Voncenzo Giufre, Maurizio Monti e Edgard Pocas. Gravação: A Turma do Balão Mágico, disco “A Turma do Balão Mágico”, Som Livre, 1984.
(9) O mal é o que sai da boca do homem, de Pepeu Gomes, Galvão e Baby Consuelo. Gravação: Pepeu Gomes, disco “Ao vivo em Montreaux”, Elektra/WEA, 1980.
"Bom dia, amiguinhos, já estou aqui”
HEUhuehUHEUhuheUEHu
ai é mei barriado véi .porra de fude Rei ehaiuhsiuahf
Dj é uma conjuntura muito legal.Ai eu boto fé .. pow num entendo nada mas se eu tivesse o verde que destroi eu ia tenta aprende! por enquanto só no computador baixando esses progaminha de edita musica eiauhfiusdha
joabycosta@hotmail.com
Muito bom seu texto.
A visão de um Dj já é algo que tem muita história, acrescida de uma festa de anos 80 ficou ótimo!
Eu tive que fazer um trabalho que era exatamente sobre os anos 80, acabei optando por montar uma programação de rádio típica destes anos e o resultado foi bem legal, lendo seu texto me recordei deste trabalho que coloquei muitas músicas que foram citadas por você e ainda mais, coloquei algumas propagandas da época como a música do café seleto, varing, mapin e colchões paraíba, rs!!!
grade abraço
Poxa, esqueceram da "LAMBADA" rsrs..."Eu não tô legal, não aguento mais birita..."
Mas Renato Russo tinha seu valor, Sting, Dire Straits, Supertramp, Simply Red, Man at Work, Tim Maia, James Taylor, Paralamas...
Lila, colchões Paraíba eram anos 60..." Tá na hora de dormir...."
Afinal, era festa anos 80 ou era festa do CAFONA?
BJK
CRIS
ahahahaha... Fantástico o Texto, fiquei aqui só imaginando as cenas hilárias! Muito bom mesmo.
Nélio Castro · Salvador, BA 8/5/2008 13:39Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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