Festas, valorosas festas

Luis Américo Bonfim www.flickr.com/photos/americobonfim/2241439995 (CC)
Detalhe das fantasias do Filhos de Gandhi
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Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
7/10/2008 · 142 · 4
 

Semana passada uma turma boa se reuniu na Casa de Rui Barbosa para falar de festa. Mais precisamente, sobre economia da festa. Cada membro da mesa era estudioso de uma celebração popular e tratou de fazer um histórico do evento, salientando os aspectos econômicos, a mercantilização, a relação com comércio e os números. É bem verdade que os números não apareceram tanto quanto se poderia esperar de um evento com este propósito. Talvez porque seria chato ficar expondo valores e quantidades. Talvez também pelo fato de ainda não haver produção confiável de números para algumas delas. Em resumo, a situação é mais ou menos assim: as festas dão um banho de originalidade, de tradição, de organização (mesmo que informal). Mas ainda estamos engatinhando na função de quantificar tudo isso. A boa notícia é que esta é uma preocupação que vem mobilizando pesquisadores e governantes. Aos pouquinhos, todos vão percebendo que pesquisas quantitativas e qualitativas podem ser importantes para mostrar como as festas são elementos fundamentais da cultura popular brasileira.

A mesa fazia parte do 3° Seminário de Políticas Culturais – reflexões e ações, na Casa de Rui Barbosa com promoção do Itaú Cultural. Abaixo, passo algumas das informações que me chamaram atenção nas falas dos palestrantes. Será possível observar que, mesmo com toda a diversidade, há pontos em comum. E o principal deles é o crescimento da maioria das festas, em todos os sentidos – daí a urgência em se criar mecanismos para entender, afinal, como esse crescimento pode ser sustentável.

A divina Festa do Divino de Pirenópolis (GO)

O brasiliense Felipe Berocan acompanha há mais de dez anos a Festa do Divino de Pirenópolis. E foi às origens entender a manifestação. Contou coisas interessantes: por ser um culto somente ao Espírito Santo, a celebração encontrou resistência da Igreja Católica desde o começo. “Vai contra os 300 anos iniciais do cristianismo, com seu esforço para criar a fé na Santíssima Trindade. A hierarquia católica vai se confrontar com o imperador do Divino e isso vai enfraquecer a festa. Menos em lugares como o Brasil colônia e os Açores, onde a Igreja ainda não era tão forte.”

Ao se espalhar pelo país, sobretudo pelas trilhas do bandeirantismo e do ciclo do ouro, a festa foi ganhando seus contornos singulares. As de Santa Catarina, por exemplo, têm forte acento açoriano. No Maranhão, a aproximação com as tradições afro-brasileiras criou a particularidade de se fazer uma festa liderada por mulheres, as caixeiras do Divino. Em Pirenópolis, por sua vez, os homens são os protagonistas.

E tome cavaleiros, fazendas, oferendas, bandeiras, acessórios, cavalhadas. Para alavancar tudo isso, o papel do imperador é muito mais que figurativo. É dele a função de arrecadar fundos para a festa. Sua popularidade vai estar ligada a esse potencial. Enquanto isso, dezenas de pessoas trabalham de graça, por promessa.

Na última parte de sua apresentação, Felipe foi mais fundo nas mudanças que aquela festa trouxe à cidade. Falou da criação de mão-de-obra local para reforma de roupas e instrumentos, passando pelo comércio aquecido em feiras itinerantes, até o processo de sofisticação da rede de turismo e gastronomia. Antes de contexto apenas local e religioso, ela se torna uma festa midiática e espetacular.

O carnaval em Maceió (AL). Ou o que sobrou dele

Se a Festa do Divino no interior de Goiás só faz crescer, na capital de Alagoas, o carnaval, que poderia ser uma das festas mais importantes, perde forças. É o que afirma Bruno César Cavalcanti, professor da Ufal. Constatando que os três maiores carnavais do país – Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia - também são alvo da maior quantidade de pesquisas acadêmicas, ele mostrou com sua ótima apresentação como a análise das festas periféricas pode ser importante.

Segundo Bruno, até os anos 30, Recife conviveu com uma tensão carnavalesca entre o modelo europeu nos salões e o frevo nas ruas. Depois, a dança com sombrinhas invadiu também as festas burguesas (num fenômeno que aconteceu posteriormente com outros gêneros, como o axé). Não faltaram imagens na apresentação para demonstrar a multiplicação do frevo. Desde anúncios de remédios que faziam referência ao carnaval até a coleção de fantasias de frutas (sim, naquela época já havia quem brincasse como “mulher laranja”, “mulher lagosta” ou “mulher macaxeira”, mas com fantasias bem mais comportadas que a atual “melancia”). Enquanto se massificava em Recife, o frevo chegava em Maceió para ficar. Mas à maneira alagoana: se Pernambuco valorizava a coletividade, com base em agremiações e conjuntos, Alagoas se destacou por seus concursos de passistas.

A coisa funcionou bem por um tempo, mas uma mudança na década de 60 mostrou como a mobilização poderia fazer falta: por determinação do poder local, a festa foi transferida do Centro para a orla. “Isso prejudicou não só a audição dos instrumentos de sopro, por causa da acústica, mas também limitou a presença de pessoas que moravam em locais mais afastados”, explicou o pesquisador. Ali a festa teria começado a enfraquecer.

Tempos depois, nos anos 90, Maceió foi invadida pela febre que atingiu o país todo: as micaretas. A reação dos “formadores de opinião” foi forte, “rancorosa”, nas palavras de Bruno. Em reação a isso, aconteceram dois movimentos. Por um lado, a opção por “vender” Maceió como uma cidade tranqüila, a melhor opção para os turistas que querem fugir da agitação carnaval. Por outro, houve uma tentativa “um tanto forçada” de retomar o carnaval de frevo na cidade. “Ficou um carnaval artificial, com cara de desfile oficial, que não combina nada com o frevo”, explicou Bruno.

Àquela altura, o folião já tinha mudado. “A última grande novidade foi a retomada do boi de carnaval por meninos da periferia. Começaram a fazer concurso de bois na orla. Aí, o secretário de turismo proibiu a realização por lá, alegando que a festa era violenta e prejudicava o turismo”, lamentou Bruno. E assim, Maceió segue no seu (im)passe carnavalesco.

Salvador: carnaval “afro-elétrico-empresarial”

Paulo Miguez, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, foi o único dos palestrantes a apresentar números. E que números... Agüente o suspense até o fim deste texto.

Haveria três grandes fases do carnaval baiano contemporâneo: a dos trios, nos anos 50, a da volta dos afros (anos 70) e a da empresarialização (anos 80). Naturalmente, elas estão interligadas.

Para mim, que não tenho nenhuma intimidade com o carnaval de Salvador, algumas informações históricas foram bem reveladoras. Sobretudo no que diz respeito aos trios e às cordas, símbolos do que há de mais “separatista”, a meu ver, quando se pensa no carnaval da Bahia. Segundo Paulo, o trio elétrico foi a solução para a segregação que havia no carnaval dos anos 50. “Quando Dodô e Osmar invadiram a avenida com o trio, instauraram a democracia do lúdico. Podia tudo, misturou tudo. E a corda sempre existiu, mas era para juntar e não para separar, como acontece hoje em dia. Daí o nome 'cordões'”.

Vinte e cinco anos depois do surgimento do trio, Salvador viu a (re)emergência dos blocos afros, que vieram para ficar, num movimento que o antropólogo Antonio Risério chamou como reafricanização. Se tem uma coisa que caracteriza o carnaval da Bahia é o crescimento impressionante de seus elementos.

Os blocos afros de hoje não são só blocos. O Olodum tem escola, bando de teatro, grupo... Os trios, por sua vez, têm estúdios, elevadores, isolamento acústico. Isso tudo conflui para a chegada da terceira fase, a tal empresarialização do carnaval, representada pela privativação dos trios. Com isso, vieram as distorções: o trio, aquele que outrora baniu a hierarquia, virou “o maior símbolo de segregação”. A corda passou a separar quem pode e quem não pode pagar. Se antes a ênfase estava na coletividade, e não importava muito quem estava cantando em cima do trio elétrico, hoje o mais visível é o star system. Tudo isso a partir de uma apropriação estética da “reafricanização” - vide expressões como “axé music” e “abadá”.

Assim sendo, vamos aos números (aproximados) apresentados por ele:

800 mil pessoas/ dia
100 mil turistas
6 dias de festa
25 km de circuito
230 organizações carnavalescas
131 mil empregos gerados
(97 mil no setor privado e 34 mil no público)
R$ 302 milhões de movimento financeiro direto
Receita pública de quase 6 milhões
Receita privada de 171 milhões (este número é impreciso devido à dificuldade de obter números das empresas)

Como traduzir esses números tão expressivos? A conta é sempre positiva, como fazem parecer os valores tão altos? Paulo deu boas pistas num post de seu blog (abaixo selecionei um trecho, mas vale a pena ler na íntegra aqui):

“Se não voltarão os carnavais de outrora, se o carnaval não existirá (nunca existiu) para além das desigualdades que atormentam a cidade e se não há chance de abolirmos por decreto o mercado da festa, o que fazer, então, para enfrentar os desafios que emergiram nos últimos vinte anos, período no qual o carnaval baiano assistiu à consolidação de uma lógica mercantil que tem se afirmado como hegemônica do ponto de vista da sua produção e organização?

Aqui a resposta, creio firmemente, exige a presença do poder público, municipal e estadual. Poder público que, nos últimos anos, despudoradamente, tem se desobrigado da tarefa de exercer a governança da festa, dando-se por satisfeito em garantir a infraestrutura e os serviços indispensáveis ao carnaval (o que, a bem da verdade, faz com muita competência e reconhecida excelência), em disputar (com pouca competência) patrocínios e em assistir, de camarote, o mercado mandar e desmandar no reinado de Momo.”


##
Houve uma quarta apresentação naquela manhã, de Fred Góes, sobre o carnaval de Nova Orleans, nos EUA. A pesquisa de Fred faz uma interessante comparação do “Mardi gras” com o carnaval carioca. Como a apresentação acabou tratando muito mais da festa norte-americana em si e como este texto já está extenso demais, optei por não falar dela aqui. Mas vale a pena conhecer a pesquisa, por meio deste paper ou, indo mais a fundo, lendo o livro “Artes do furacão: o Mardi Gras de um folião brasileiro em Nova Orleans” (Editora Língua Geral).

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Doroni Hilgenberg
 

HELENA,

Legal esta fonte de conhecimentos.
Não sou chegada a festas carnavalescas, mas compreendo que carnaval e toda e qualquer espécie de festas culturais deve ser do povo e voltada para o povo. Hoje em dia, tudo é mercantilizado, e o preço é alto demais. E como sempre, o pobre não tem vez.
bjssss
Bela matéria!
bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 4/10/2008 11:46
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Compulsão Diária
 

Muito bom, Helena. Dói essa realidade dos trios que eram as melhores armas para desorganizar a hierarquia, terem virado símbolo de segregação. São terríveis essas "cordas" que separam quem pode e quem não pode pagar.
Como disse a Doroni a festa popular foi cooptada pela elite.
Parabéns pela matéria.

Compulsão Diária · São Paulo, SP 6/10/2008 11:08
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Giovanni Guidi
 

Gostei bastante.
É muito triste a realidade em que se encontram as festas que antes eram ditas populares, mas que hoje não guardam a mesma perspectiva de outrora.
Sucesso.
Votado.

Giovanni Guidi · Piracicaba, SP 7/10/2008 13:59
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Coluna do Domingos
 

Votado

Coluna do Domingos · Aurora, CE 29/10/2008 13:37
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