FESTIVAL DA MÚSICA LIVRE

Foto: Coutones
osviralata de mato grosso em vitória
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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
30/12/2009 · 38 · 19
 


Vitória (ES) foi palco do primeiro Festival de Música Livre promovido pelo movimento Música Para Baixar (MPB) no último mês de 2009. Integrado ao IIº Fórum Nacional de Mídia Livre, abriu a série de festivais livres de música que propõe realizar pelas diversas regiões do país a partir de agora.

Sob o signo da(e) VITÓRIA – onde o espírito é santo e forte.

MPB realizou um festival muito interessante com a cara dos muitos sons brasis que pipocam em todos os cantos desse quase continente: som de todo lado, pra tudo que é lado, eletrônico, cancioneiro, rockenrrol, experimental, sons macalés, enfim, jardas e jards, se alargando pelo tempo espaço, cronológico, geográfico, ritmado pelos diversos corações que bombam esperança de transformar o estado das coisas e cantar cantar cantar. A música pede passagem e entra sem pedir licença.

Uma programação eclética múltipla e aberta como veias pulsantes deu o tom nessa f(r)esta que abre para visões de futuros promissores na cena cultural brasileira. Cheguei a imaginar e comentar com alguns amigos que somos o resto ou o que restou na cena musical atual, para fazer a festa, de quem não tem medo de mostrar a cara, a cara do Brasil que temos e que queremos com toda essa multiplicidade orgânica. Som de traveco, som de homo, som de mulher, som de homem, som de viralata, som trepax, som de serraria, som do sol, futuro e gargantas afinadas, bongs instrumentais, aqui e agora. Frutos do grande ócio vivo e criativo.

Sob uma velha lona estrelada ao modo dos velhos circos os neo nômades estão provocando a nova (des)ordem. Furiosos como pássaros ruidosos na manhã tropical. Em busca dos descentros perdidos. Ligados aos movimentos sociais essa turma está formando uma baita rede de artistas, produtores culturais e de comunicação, livres, que, juntos, criam suas próprias formas de interagir com a sociedade. Ligados aos movimentos de apropriação tecnológica do software livre, dos ativistas das rádios comunitárias, dos midialivristas, de músicos de todos os tons, a idéia é continuar fazendo eventos musicais fora de gênero, ou para todos os gêneros, festivos e reflexivos, flexíveis, abertos como braços, disponíveis para o abraço.

Não há tempo para vacilar, tudo urge e surge como possibilidade de avançar sobre os espaços vazios onde a política tradicional está perecendo pela falta de conexão com os movimentos que a sociedade vem modulando. É animador e é preciso animação para que a política se conecte com as novas emergências. Sou crítico desses eventos e fóruns e conferências que reproduzem formatos antiquados na forma e formulação dos debates. É preciso mexer nas estruturas estanques que se modelam a partir dos velhos parlamentos. É preciso pulverizar esses centros de decisões que manipulam grotescamente em nome de uma maioria mínima, infeliz e burocrática demais. Nossos pares ainda mantêm resquícios tradicionais nos modelos de debates, engessando todo mundo na idéia de organização, de disciplina, de “questões de ordem”, por que não “questões de desordem” (??) , creio que não dá para reformar o que está podre. Fico aqui, tentando imaginar outras formas de debater, mais quentes, mais viscerais, em espaços livres.

Salve salve os vitoriosos puxadores desse evento, salve Fabrício Noronha, salve Vitorlop, salve Malini! Viva o povo brasileiro. Abaixo a hipocrisia, abaixo a política como balcão de negócios ou balcão de negócios norteando a política.

Tá na hora de saltar os trilhos, mudar de estação e levar a música no coração. (diz assim uma certa canção).

Salve a morte do pop star para o (re)nascimento do common star ou do (e)star comum.

Sensacional o seminário a morte do pop star invenção e morte. Vida severina, somos os zés falantes. Mané não, que a gente não é otário. Tá mais pra útero, nervoso para nascer.

Com participação de vários tipos representativos do Brasil contemporaneo, como Pedro Alexandre Sanches, Edson Natale, Gustavo Anitelli, Pablo Capilé & outros companheiros, mediados pelo grande Irajá Menezes, os debates foram bastante acalorados e elucidativos de um momento histórico ímpar e extremamente dinâmico na formulação de vias múltiplas para um novo cenário na música brasileira. Apesar do formato anacrônico.

Emblemático e polêmico o tema do seminário do 1º Festival livre do MPB - “a morte do pop star”, foi uma bela forma de provocação, um convite à reflexão sobre o momento que vivemos de legitimação de outras vias, muito mais livres, e por isso mesmo repletas de possibilidades novas de construir sua própria história de sucesso. Pensei comigo, antes, na velha lógica, a construção ou a invenção de um pop star significava a morte de milhares de candidatos ao estrelato, hoje, cada pop star morto representa a possibilidade de nascimento de milhares de outros stars, sem guerras estelares, convivendo constelacionalmente, nuvens de artistas populares, de grandeza para grandeza nas diferentes escalas cósmicas.

Yes, nós temos tecnologia, bananas pra vocês. Somos livres para fazer nosso próprio negócio e vocês não tem nada com isso.

O Música Para Baixar é um movimento que pretende refletir e agir duramente na vanguarda dos processos de produção, distribuição e autonomia na forma de licenciamento, bem como de forma(s) transparente(s) de arrecadação e distribuição daquilo que é de direito de autores e intérpretes. Para esses novos modelos de negócios e domínios, é fundamental a liberdade de compartilhar os mais diversos conteúdos criativos, no caso aqui, a música. A internet, incontrolável, como uma rede aberta é o foco das discussões nesse momento. Como legalizar as relações entre autor e direito sobre a obra, como contemplar autores, como arrecadar e distribuir, como criar mecanismos de controle, como regular esse desterritório?

São muitas as questões e formulações e são muitos também os casos de artistas ou produtores que já encontraram maneiras originais de faturar, ou de como monetizar seu trabalho, sua obra. Interessante observar que os caras que hoje estão com medo de perder, têm medo de perder o que nunca tiveram, pois quem sempre ganhou com a velha lógica do mercado concentrador foram as gravadoras e editoras, o autor sempre levou a menor fatia. Hoje a relação é inversa, a maior fatia pode e deve ficar com os autores, ou estruturas coletivas, que estão se formando em torno dessas novas maneiras de produção e compartilhamento de suas criações. Os ventos mudaram de rumo e isso é animador.

Não há limites para os nós.

Temas novos permeiam a movimentação dos integrantes do movimento Música Para Baixar que estão ocupando espaços regionais importantes para efetivar a idéia do descentro – da produção efetiva de vários centros, cada centro no seu lugar, deslocando eixos e hegemonias, produzindo outras territorialidades ou nós das muitas redes que se proliferam e transversalizam de forma constante. Depois da conectividade acionada não há como retornar.

Claro que isso tem deixado muita gente desconfiada e assustada, mas acredite, esse desconforto que a novidade carrega é saudável e muito promissor. É nos momentos de tensão que nossa criatividade se manifesta de forma mais visceral e vibrante, é quando os humanos mais potencializam sua CRIA-tividade. O momento é bastante fértil e isso é muito bom. Afinal só uns poucos estavam satisfeitos, agora não, a escala é muito maior, muito mais gente criando e consumindo, você tem que se virar e achar seu jeito, não tem volta, nem modelos prontos e acabados. Corte cole recorte copie troque doe receba. Doe sem dó.



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Fabricio Noronha
 

salve, salve Eduardo, querido!!
belo texto.

Fabricio Noronha · Vitória, ES 30/12/2009 22:38
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eduardo ferreira
 

o espírito pegou fabrício. santo e forte: valeu mesmo o evento. novos ares soprando sobre as superfícies. abração.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 30/12/2009 22:40
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Irajá Menezes
 

Que beleza, seu Ferreira! Caótica clareza, contou tudo, tim tim por tim tim. Grande abraço saído daqui dos alagadiços paulistanos.

Irajá Menezes · São Paulo, SP 30/12/2009 22:48
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volverine
 

Caramba... Eduardo é muito massa... Escreve o que realmente é... Muito bom... Cara, precisamos de ti no FSM. Sabes disso...

volverine · Brasília, DF 30/12/2009 22:56
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eduardo ferreira
 

grande irajá, que bom te ver aqui! everton, também quero ir, estou tentando. dia 23 ou 24 estarei em campo grande para exibição do curta eunóia numa mostra do centro-oeste durante o 6º FestCine Pantanal. vamos ver se dá para seguir até os pampas...de qualquer maneira se não der, em campo grande posso articular uma reunião do MPB. abraçossssssss.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 30/12/2009 23:00
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Fabricio Noronha
 

e os assuntos da Morte e Vida Porpurina seguem com os videocasts das entrevistas realizadas pelo Irajá Menezes e equipe com os participantes do @midialivrevix...

até agora foram lançadas três videocast "A MORTE DO POP-STAR":

Episódio #1 - Miguel Jost
http://www.youtube.com/watch?v=65MW1f63h0s

Episódio #2 - Sérgio Cohn
http://www.youtube.com/watch?v=Kt1gyoE3lz4

Episódio #3 - Pablo Capilé
http://www.youtube.com/watch?v=1oQQbhRTacI

Fabricio Noronha · Vitória, ES 30/12/2009 23:09
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rogawa
 

Salve Eduardo!! Maravilha hein... Vamos articular pra fazer algo em Sinop?

rogawa · Sinop, MT 30/12/2009 23:22
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eduardo ferreira
 

vamos sim, rui, vamos articular uma reunião-seminário em sinop. ampliar nossas bases para todo o território nacional. repasse o artigo e linka a galera daí no site MPB que tem muitas informações sobre essa movimentação que vem mobilizando artistas e produtores de todo o país. abração meu velho compa!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 30/12/2009 23:32
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eduardo ferreira
 

desculpem-me pela informação equivocada acima: em campo grande, de 15 a 30 de janeiro vai rolar o 7º FestCine Pantanal, o sexto já foi. foi mal.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 30/12/2009 23:50
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Júlia Eleguida
 

belo texto. a escrita liberta e a vontade flui, tornando-se parte. por um instante senti como se estivesse lá, mesmo tão distante fisicamente, mas tão perto da intensão, e reforço a luta pela a arte e o seu fazer. para se ir sempre mais além.

Júlia Eleguida · Florianópolis, SC 31/12/2009 02:25
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jean mafra 2
 

grande eduardo,
parabéns pelo belo texto. pela poética e pela poesia e pelo sopro positivista, alegre e inteligente que colocaste (mais uma vez) na roda (que não pode parar de girar!).

muito por causa dele, seu texto, publiquei um outro aqui, no overmundo, que havia escrito inicialmente para o jornal diário catarinense (o assunto é uma das espinhas dorsais do mpb: a revisão da(s) leis(s) de direito autoral em nosso país).

é isso, a quem interessar possa, aqui.

jean mafra 2 · Florianópolis, SC 31/12/2009 03:37
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Helena Aragão
 

Edu, que bocão, hein? Inspiradora a leitura deste texto no último dia do ano, estava com saudade dessa tua prosa revigorante, animada e disposta a transformar tudo. Que venha 2010 quebrando tudo!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 31/12/2009 11:02
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GORETTI GUERREIRA
 

Maravilhoso alguém falar com tanto carinho e propriedade da música MPB como você o fez.
Parabéns e Feliz Ano Novo Edu!

GORETTI GUERREIRA · Franca, SP 31/12/2009 12:39
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eduardo ferreira
 

júlia, jean, helena (saudade docê guria!) e goretti: valeu mesmo, que em 2010, como qualquer ano que venha, seja mais um temp(L)o de lutas. única maneira de não deixar as coisas no abandono. e cantar cantar cantar.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 31/12/2009 14:32
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Serraria
 

Simbora Eduardo, coletivamente existimos, não há limite para a poesia!

Serraria · Porto Alegre, RS 1/1/2010 08:43
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Priscila Nunes Ribeiro
 

Coletividade e poesia, isso pode ser uma revolução?
Eeeeeeeeebbbbbaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Priscila Nunes Ribeiro · Cuiabá, MT 1/1/2010 17:09
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cristiano hanssen
 

Na mosca, Eduardo!
Teu texto dá ao tema o tamanho que ele tem. É muito maior que uma maniqueista briga entre a linda menina que baixou músicas pra ouvir caminhando no parque e um(a) andrógino(a) que comemorou o ano novo numa banheira cheia de champagne. Trata-se de nós, músicos de carne e osso, loucos pra alcançar mais gente e mais músicas.
Aproveitando: que 2010 seja formidável!
Segue anexo um abração porto-alegrense.

cristiano hanssen · Porto Alegre, RS 1/1/2010 18:20
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Bia Marques
 

que venha a reviravolta em ondas abundantes! que venha ferreira pra campão mais os trem tudo junto sô! quero ver! abraço

Bia Marques · Campo Grande, MS 4/1/2010 12:18
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Barbara Szaniecki
 

Valeu Eduardo! O Forum de Midia Livre em Vitória foi mesmo um grande evento da multidão contemporânea! Bjs, Barbara Szaniecki

Barbara Szaniecki · Rio de Janeiro, RJ 18/1/2010 22:34
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