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Festival de Gramado 2006

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David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ
25/8/2006 · 212 · 14
 

Estive no Festival de Cinema de Gramado pela sétima e possivelmente última vez, semana passada. O evento, que eu conheci em 1988, onde tive o prazer de ver filmes como Ilha das Flores e Superoutro, e onde ganhei meu primeiro prêmio como cineasta (o de melhor diretor, em parceria com Vicente Amorim, em 1990), foi completamente corrompido pela ideologia das castas de "vips", pelo culto vazio às celebridades e pela sanha exibicionista de um dos seus principais patrocinadores, a operadora de telefonia móvel Vivo.

Era bom ir a Gramado. Havia um belo painel do melhor da produção brasileira para ver. Havia a convivência diária, próxima, entre cineastas, atores e técnicos de diferentes gerações, do Carlão Reichenbach ao Helvécio Ratton. Em Gramado, conheci alguns dos caras mais bacanas da minha geração, como os gaúchos e gaúchas da Casa de Cinema, como o José Roberto Torero, entre muitos outros.

Havia, como tenho certeza que ainda há, a hospitalidade da população gramadense. Uma população que exultava no convívio com os "artistas", isto é, os atores e atrizes de TV de diferentes (e às vezes nenhum) quilates. Essa obsessão pelas celebridades globais já era um pouco chata, mas não havia como não ver aquilo com ternura. A cara das pessoas, em geral senhoras e crianças, diante, sei lá, da Malu Mader, era de uma pureza comovente.

Hoje, a hospitalidade gramadense, se ainda existe, está soterrada por camadas e mais camadas de privilégios, divisões de áreas e direitos, convites, e outros definições de valor para convidado, num desconfortável sistema de castas incentivado e posto em prática com truculência pela Vivo e suas festas chatas e vazias.

Os filmes? são o de menos. As sessões da noite são apenas para convidados, locais e de fora. Num auditório dividido num zoneamento por cores quase psicótico, é difícil encontrar as pessoas, difícil confraternizar, difícil trocar uma opinião, difícil conhecer o diretor de um filme. O stress é tão grande que tudo que se quer é que a coisa passe o mais rápido possível.

Já faz tempo que a maior parte dos filmes se guarda para festivais mais sérios. Já faz tempo também que mesmo os gaúchos, que só precisam pegar o carro e dirigir duas horas desde Porto Alegre, mal passam dois dias no festival. Ninguém vê ninguém.

Quer dizer, não é bem assim. Pelo longo tapete vermelho, ladeado por lojas e bares, passam todos os convidados - inclusive grandes nomes do cinema, como Sandy e Junior - e são vistos pelo povo que chega cedo e toma assento à beira do alambrado e às costas dos muitos seguranças.

Uma novidade merece ser saudada em Gramado este ano. Contratados como curadores independentes, o crítico José Carlos Avellar e o cineasta Sergio Sanz procuraram dar mais seriedade à seleção de filmes - coisa que conseguiram - e encaminhar o festival no sentido de se tornar um encontro de profisssionais - coisa que ainda estão longe de conseguir, mas que é uma iniciativa louvável.

A verdade, no entanto, é que se você quer ver filmes num festival, vá ao Festival do Rio, que começa em setembro, ou à Mostra de São Paulo, que abre logo em seguida. E se você quer conviver com a galera que faz cinema, democraticamente tratados por igual, do curta 16mm ao ator do longa hors concours, vá a Brasília, no fim do ano.

Quanto a Gramado, pertence agora definitivamente à Caras.

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Marcela Fells
 

Coisa linda sonhar igual né??

Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 26/8/2006 21:51
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Bernardo Mortimer - www.sobremusica.com.br
 

Triste, né?

Bernardo Mortimer - www.sobremusica.com.br · Rio de Janeiro, RJ 27/8/2006 22:09
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textos urbanos
 

Oi, David! Que pena, né? Mas, olhe só: o Festival de Gramado é de 73, hein! Será que, só pela sua importântica histórica, já não seria relevante investir numa visão mais otimista e propositiva? E se a comunidade brasileira que produz Cinema, da qual você faz parte, opinasse, e sugerisse mudanças. Agora, o que marcou no seu texto, pra mim, é que você disse que a maior parte dos filmes se guarda para festivais mais sérios. Não acredito que haja falta de seriedade no entorno da produção e da promoção do cinema no Rio Grande do Sul. Aliás, a força do cinema gaúcho é, também historicamente, inegável! Aliás, vamos chamá-lo de cinema brasileiro, produzido a partir do Rio Grande do Sul. Olhe, eu, se puder, quero ir sempre a todos, no de Gramado, na Mostra de São Paulo, no Rio, em Brasília e nos que acontecem no bairro, aqui perto de casa! Abração. E espero que as coisas melhorem. Com glamour (que também é coisa de cinema) ou sem tantas frescuras - ao que parece, o que mais o chateou em Gramado -, de acordo com minha leitura do teu texto.

textos urbanos · Joinville, SC 28/8/2006 00:09
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David França Mendes
 

Longe de mim criticar o cinema do Rio Grande do Sul! Já cansei de dizer pro Jorge Furtado, pro Giba, pra Ana Luisa Azevedo, que eu adoro ser carioca mas queria ter sido um cineasta gaúcho! a produção e o trabalho de cinema aí no sul são super sérios. O festival tem importância histórica, e tem gente séria trabalhando nele, mas objetivamente ele está desprestigiado, e não é à toa que dois curadores - citados no meu texto -, pessoas de muita credibilidade nacional e internacional, foram contratados para tentar recuperar o que se perdeu. Tomara que eles consigam!

David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ 28/8/2006 07:38
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Pedro Rocha
 

Só pra compartilhar o sentimento com o texto. Foi mais ou menos o mesmo que eu tive quando assiste a uma dessas reportagens de tc sobre o festival. Um sentimento: sem uma profundidade crítica tão grande, mas algo que está mais próximo de um desprezo.

No fim das contas esse glamour é o velho sentimento de colonziados degustando alta cultura ou sei lá que outro imaginário que permeie isso. Frescura uma porra: isso é arrogância misturada a submissão cultural. Significa muito mais do que um mero capricho.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 28/8/2006 13:16
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David França Mendes
 

Mas que "glamour"? eu não me importaria de ver celebradas pessoas que ao menos tivessem feito filmes. Metade dos convidados ditos "vips" do festival chamam filmagem de gravação. Atores e atrizes de Malhaçào que nunca pisaram num set.

David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ 28/8/2006 15:14
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Eduardo EGS
 

Concordo com o David. Muito da importância do festival se perdeu no tempo. Claro que é preciso atrair gente, economicamente falando, mas seria bem mais interessante se o foco fosse o cinema em si.

Mas também tenho esperança que as coisas mudem.

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 28/8/2006 23:59
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Fábio Fernandes
 

É uma pena, David. Mais um espaço que se perde no meio de confusões "globais" de celebridades.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 29/8/2006 11:30
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David França Mendes
 

Acho que um ponto importante, para mim, do texto que escrevi, e que agora percebo que ficou pouco claro, é o papel do patrocinador, a Vivo, nisso tudo. Na minha opinião, o que levou esta edição do festival a ter essas características, novas para mim que não comparecia há alguns anos, foi a presença da Vivo, a forma como a Vivo faz as coisas.

David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2006 11:37
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Roberto Maxwell
 

Nao seria mesmo um momento de se refletir sobre a propria seriedade do cinema estatal feito no Brasil?

Roberto Maxwell · Japão , WW 29/8/2006 11:54
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David França Mendes
 

É sempre o momento. Mas acho que não é esse o post. ;)

David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2006 11:58
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Roberto Maxwell
 

Desculpa, entao li o texto errado... Pensei que estavamos discutindo sobre um dos mais tradicionais festivais do Brasil que se tornou uma sucursal para um poster de Caras. Pensei que, depois do exposto, havia alguem discutindo cinema brasileiro, ja que o Festival de Gramado nao eh descolado da producao ao seu redor. Portanto, desculpa e ausento-me de mais comentarios.

Roberto Maxwell · Japão , WW 29/8/2006 12:17
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David França Mendes
 

Calma Roberto. É só uma questão de organização. Outras pessoas que poderiam se interessar por um debate sobre o cinema brasileiro e suas políticas de produção não têm como adivinhar que isso está sendo falado aqui num post sobre um festival específico, não é?

Mudando de assunto. Vi o seu curta. Dekassegui, em Gramado (!) e gostei.

David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2006 14:27
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Roberto Maxwell
 

Ok, David, desculpa a ma interpretacao do seu comentario.

Roberto Maxwell · Japão , WW 29/8/2006 20:53
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