FESTIVAL DE TEATRO DE BLUMENAU - SERÁ O SEU FIM?

Louise Eckelberg
Procuramos a coordenadora do FUTB para saber o que realmente acontece.
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Labes, Marcelo · Blumenau, SC
5/7/2007 · 158 · 9
 

FESTIVAL UNIVERSITÁRIO DE TEATRO DE BLUMENAU – RUMO À EXTINÇÃO?

Foi com esta pergunta na cabeça que entrevistei a professora Pita Belli, coordenadora do Festival Universitário de Teatro de Blumenau (FUTB) há vários anos. Disse a ela o que falava a ‘opinião pública’: que o FUTB estava fadado à extinção, que não haveria a edição 2007, que faltava dinheiro, que faltava apoio da Universidade Regional de Blumenau (FURB), da Prefeitura Municipal de Blumenau e do Teatro Carlos Gomes. Para entender do que se trata o FUTB, sugiro a leitura do texto Festival Universitário de Teatro de Blumenau, aqui no Overmundo uma visita ao Site Oficial do Evento.


OS FATOS

A polêmica surgiu quando o reitor da universidade, Professor Eduardo Deschamps, declarou, meses atrás, que a FURB não poderia arcar com as despesas do Festival. Para integrantes do meio cênico blumenauense, era a mensagem para o fim do evento que há vinte e um anos integra cerca de 20.000 pessoas a cada edição. Segundo a professora Pita, a universidade nunca disse que deixaria de realizar o evento, mas que não poderia custeá-lo. Para isso, colocou à disposição dos coordenadores do FUTB uma equipe especializada na captação de recursos do NUPEX (Núcleo de Pesquisa e Extensão Universitária).

Houve anos em que não se conseguiu patrocínio e a universidade teve que arcar com todas as despesas. Isso não pode mais acontecer por um motivo essencial: a FURB, antes, centralizava em si o Ensino Superior da região de Blumenau. Com o surgimento de várias outras faculdades e universidades particulares, viu sua receita diminuir a cada ano, num processo de queda que ainda não terminou. Dessa forma, fica realmente difícil para a universidade arcar com todas as despesas de um evento desse porte. Mesmo não podendo suportar as despesas, a FURB continua auxiliando – e isso a professora Pita Belli fez questão de frisar bem – na realização e divulgação do evento.


ONDE ANDA O PODER PÚBLICO?

Ora, sendo o FUTB já conhecido nacionalmente e em países do Cone Sul da América Latina, recebendo uma média de 25.000 pessoas por edição, nos últimos cinco anos e elevando o nome do município de Blumenau a nível nacional, poderia se esperar algum apoio da Prefeitura Municipal. Acontece que não existe tal apoio. “O FUTB surgiu entre uma parceria da FURB e da Prefeitura, mas com o tempo, o poder público acabou se abstendo da responsabilidade, que fica toda conosco.”, diz a professora Pita. De fato. Hoje, o auxílio que existe é mínimo e indireto. A Prefeitura, através da Fundação Cultural de Blumenau, somente auxilia na divulgação do evento de forma que nada gaste com isso.

O que há, na verdade, é uma tímida divulgação eletrônica no site desta entidade (www.fcb.com.br) e notas em flyers de outros eventos patrocinados ou realizados por esta entidade.
Não fosse o dinheiro recolhido pelo NUPEX, a 21ª. edição do FUTB não aconteceria. Há cerca de um mês, a coordenadoria do festival recebeu R$ 300.000,00 via FunCultural (órgão do Governo do Estado responsável pela Cultura) e R$ 30.000 da FunArte (órgão federal que tem uma verba pré-determinada para realização de festivais desse gênero). Pergunto à professora Pita Belli sobre os R$ 200.000,00 de dívida da edição de 2006 que teve de ser paga com o dinheiro enviado pelo Governo do Estado e ela me esclarece: “Na verdade, essa verba deveria ter vindo no ano passado, mas em função das eleições, atrasou – então tivemos de nos virar como pudemos”. Está claro. Com um ano de atraso, a verba estadual só podia mesmo ser direcionada para o pagamento de dívidas. Mas ainda existe a iniciativa privada, que através da L.I.C. consegue abater do pagamento do ICMS quantias importantes para apoiar eventos culturais. A saber, as empresas que apóiam culturalmente o 21º. FUTB são Sulfabril, Haco Etiquetas e Brandili.

Esta edição, pelo menos, está garantida e fadada ao sucesso.


PREVISÕES PARA O FUTURO DO FUTB

Quando pergunto à professora Pita sobre o futuro do Festival Universitário de Teatro de Blumenau, ela responde categórica: “Todos os festivais do gênero, do Porto Alegre EnCena ao Festival de Teatro de Curitiba, todos correm risco de extinção.” O que faz a diferença, segundo a professora Pita, é a capacidade das coordenadorias desses festivais de conseguirem apoio junto ao Estado e a empresas. Mas ainda é otimista: “Esse é o primeiro ano que temos uma equipe especializada em captação de recursos à disposição, e nesse primeiro ano de trabalho conjunto, essa equipe conseguiu captar recursos suficientes para a realização do FUTB. A tendência é melhorar na edição seguinte”.

Na verdade, destaca a coordenadora do evento, o importante é que não se deixe de realizar o FUTB ou qualquer outro festival do gênero por um ano sequer. Se um festival pára por uma edição, é muito difícil conseguir reavivá-lo. Sem dúvida que sim. Mas é preciso ver quem ganha com o FUTB (e ganha muito bem) e teria um grande rombo em sua receita com a extinção do evento.


MAIS UMA POLÊMICA

Falemos de quem ganha.
Numa pergunta que não estava na pauta da entrevista, pergunto à professora Pita como é a relação da coordenadoria do FUTB com o Teatro Carlos Gomes (TCG), onde o evento se realiza. O Carlos Gomes possui dois auditórios: um menor, para trezentas e o grande auditório, com capacidade para 900 pessoas. Como é o único espaço capaz de suportar um evento do porte do FUTB, o TCG era, até ano passado, o único espaço utilizado para a realização dos espetáculos. Uma boa saída encontrada foi a utilização de espaços públicos. Um deles, o mais importante, é o ginástico do Conjunto Educacional Pedro II – colégio público que cede o espaço para a realização do evento. Com essa alternativa, indicam fontes seguras que passou a se economizar R$ 30.000 por dia, que era equivalente ao aluguel do pequeno auditório, com capacidade para 300 pessoas.

O Teatro Carlos Gomes é mesmo um espaço intrigante. Particular, pertencente a uma sociedade específica, aluga o espaço como realmente deveria ser: precisa-se do espaço, existe um espaço, cobra-se por ele, paga-se por ele e está tudo resolvido. Acontece que nos últimos anos o Teatro Carlos Gomes recebeu cerca de R$ 3.000.000 (TRÊS MILHÕES DE REAIS) do Poder Público relativos a reformas internas, externas entre outras coisas mais. Ora, se a entidade particular recebe dinheiro público, poderia ceder o espaço a esse público pagante de impostos, ou pelo menos viabilizar um desconto para a realização de um evento, este sim, de utilidade pública. Mas acontece justamente o contrário. “Além de ser um dos teatros mais caros para alugar do Brasil”, ressalta a Professora Pita, “o preço do aluguel fica ainda mais caro durante o FUTB”. Entende-se. Não é somente o Grande Auditório, mas a maioria dos espaços do prédio do TCG são utilizados durante o FUTB, o que acaba privando a entidade de locar espaços para outros eventos, quando ainda os há. O que não se justifica, e isso digo eu, é uma entidade particular receber dinheiro público e não ser diretamente acessível por esse público. “No entanto”, continuar Pita, “quase sempre conseguimos um desconto do valor inicial que eles nos passam”. Felizmente, diríamos.


ENFIM, ALÍVIO

Saio da entrevista mais calmo. Parece que o Festival Universitário de Teatro de Blumenau ainda tem um longo caminho pela frente. Um milagre, poderíamos dizer, ante as dificuldades que enfrenta para ser realizado: a cegueira do Governo Municipal, o atraso do Governo Estadual, a esmola do Governo Federal e a falta de sensibilidade de entidades particulares que exploram um evento tão necessário – e que enfrenta tantas dificuldades como este.

Blumenau aguarda sua visita. O Festival aguarda sua visita. E que abram-se as cortinas!



PS: o FESTIVAL UNIVERSITÁRIO DE TEATRO DE BLUMENAU ACONTECE DE 06 A 14 DE JULHO EM BLUMENAU, SC.

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Leandróide
 

Labes, bem oportuna a tua contribuição. A discussão de apoio à cultura estará por muito tempo ainda na ordem do dia. Esse atraso do governo estadual é típico, passei por experiência similar.
Parabéns pela matéria e longa vida ao FUTB.
Abr.,
Leandroide

Leandróide · Florianópolis, SC 5/7/2007 10:47
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Adroaldo Bauer
 

Aqui, a convite, agradeço, Labes.
Então: os festivais dependem em muito de quem os coordena e raramente sobrevivem a coordenações incompetentes ou que costumem misturar o interesse público com aquelas peculiaridades do interesse privado.
Pita Belli é uma heroína, Labes, podes dizer a ela que ela merece.
Gerir a coisa pública com esmero, interesse e probidade é um exemplo de querer bem a arte.
O Teatro Carlos Gomes é daqueles grandes inventos de uma parcela que eu desprezo da humanidade.
Dá lucro e cobra caro do tesouro que lhe dá dinheiro.
Não acontece só aí, infelizmente é o privado mamando no público.
Tem gente que adora fingir de capitalista, mas não abre mão do incentivo da viúva, seja ela da União, do Estado ou do Município.
É um capitalismo tardio, mais para a hipocrisia que para a imbecilidade.
Oportunismo é o nome disto.
O Em Cena, em Porto Alegre, tem um orçamento forte da prefeitura, há 14 anos, porque ela é a empreeendora.
As primeiras edições foram quase 90% de dinheiro do erário municipal.
Com o passar dos anos foi conquistando apoio na União (Petrobrás, principalmente) e na iniciativa privada, com mais expressão.
E as gestões dele têm se mostrado administrativmente competentes a ponto de torná-lo referência nacional e, ainda que pontualmente, espaço internacional da arte cênica no m~es de setembro.
Em edições anteriores, o festival circulou espetáculos e oficinas em muitos bairros e vilas da cidade, além do circuito da fama mais tradicional, as casas mais centrais de espetáculos, pelo Porjeto de Descentralização que cheguei a coordenar aqui de 1993 a 1996 e em 2003 e 2004.
Ars longa, vita brevis!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 5/7/2007 11:14
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Labes, Marcelo
 

Não tenho dúvida, Lean, de que essa discussão durará muito tempo ainda. O tempo necessário para se compreender (eles compreenderem) de que nem só de pão vive o artista. Acho mesmo uma pena termos de voltar a esse assunto sempre, mas talvez alguém, um dia, nos dê os devidos ouvidos.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 5/7/2007 11:50
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Labes, Marcelo
 

Adroaldo, muito obrigado pela visita. Essa discussão terá um fim? Pois bem: como diz o texto, a prefeitura de Blumenau chegou a 'empreender' o início do FUTB, mas por algum motivo tirou o corpo fora. Infelizmente, o Festival de Teatro não se encaixa no enxaimel colonial. No mais, é necessário frisar a importância da iniciativa privada para a realização de um evento como este - e nem vamos falar de o Teatro tratar-se de uma entidade privada-, pois é assim que se consegue realizá-lo.

Mas é necessário fazer ressalvas. Como por exemplo, a forma como se dá essa contribuição da iniciativa privada: a empresa abate do ICMS o valor da 'doação', mas via Estado. Ou seja, não são raras as vezes em que o Estado, como mediador desse dinheiro, confisca por tempo indeterminado a quantia destinada ao projeto, seja ele qual for. Então, o que acontece: a comissão de captação de recursos contata as empresas, elas aceitam colaborar, pagam a contribuição ao Estado e o Estado não passa o valor adiante, ou o faz com seu meritoso atraso.

Mas isso imagino que tu saibas. Ou por aí as coisas são exemplarmente diferentes.

No mais, passarei adiante o recado à professora Pita Belli. Se não fosse por ela - pela vontade que tem de realizar o Festival - imagino que nem teria me dado ao trabalho de escrever a respeito dela, da professora, ou dele, o Festival, porque ele já não existiria.

Muito obrigado pela dedicada leitura.

Abraço.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 5/7/2007 11:58
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Fabiano Saváres
 

Sim, o FUTB é muito bom mesmo, é uma semana em que ficamos ludibriados pelo encanto do festival. E tem mais, eu nunca cheguei a ver, mas acontecem espetáculos pelas ruas da cidade tbm, isso sim é bacana, pode-se perder muito da qualidade sonora e talz, mas é muito boa essa idéia de teatro pelas ruas...

Fabiano Saváres · Blumenau, SC 6/7/2007 07:26
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Édio Raniere
 

mandou bem mais uma vez, Labes. Ótima reportagem

Édio Raniere · Blumenau, SC 6/7/2007 11:18
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Egeu Laus
 

Como disse o Édio, mandou bem, Labes!
(conheci uma relojoaria Labes em Itajaí. É parente?)

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2007 11:37
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Labes, Marcelo
 

Muito obrigado pela passagem, Egeu. Em relação aos Labes de Itajaí, não os conheço: pertenço à parcela pobre da família. Uma pena, não?! (risos) Abraço.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 13/7/2007 11:59
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silviaraujomotta
 

JÁ ESTIVE EM BLUMENAU EM VÁRIOS EVENTOS CULTURAIS!
VCS SÃO MUITO ORGANIZADOS!
PARABÉNS!
UM BEIJO MINEIRO
SÍLVIA/ Academia de Letras do Brasil em Minas Gerais, em BH.

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 17/7/2011 13:41
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"Todos os festivais do gênero são passivos de serem exintos."
Coordenadora do Festival sugere uma melhora na captação de recursos. zoom
Coordenadora do Festival sugere uma melhora na captação de recursos.
Apesar de todas as dificuldades, o FUTB terá uma vida longa. zoom
Apesar de todas as dificuldades, o FUTB terá uma vida longa.

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