FESTIVAL UNIVERSITÃRIO DE TEATRO DE BLUMENAU – RUMO À EXTINÇÃO?
Foi com esta pergunta na cabeça que entrevistei a professora Pita Belli, coordenadora do Festival Universitário de Teatro de Blumenau (FUTB) há vários anos. Disse a ela o que falava a ‘opinião pública’: que o FUTB estava fadado à extinção, que não haveria a edição 2007, que faltava dinheiro, que faltava apoio da Universidade Regional de Blumenau (FURB), da Prefeitura Municipal de Blumenau e do Teatro Carlos Gomes. Para entender do que se trata o FUTB, sugiro a leitura do texto Festival Universitário de Teatro de Blumenau, aqui no Overmundo uma visita ao Site Oficial do Evento.
OS FATOS
A polêmica surgiu quando o reitor da universidade, Professor Eduardo Deschamps, declarou, meses atrás, que a FURB não poderia arcar com as despesas do Festival. Para integrantes do meio cênico blumenauense, era a mensagem para o fim do evento que há vinte e um anos integra cerca de 20.000 pessoas a cada edição. Segundo a professora Pita, a universidade nunca disse que deixaria de realizar o evento, mas que não poderia custeá-lo. Para isso, colocou à disposição dos coordenadores do FUTB uma equipe especializada na captação de recursos do NUPEX (Núcleo de Pesquisa e Extensão Universitária).
Houve anos em que não se conseguiu patrocÃnio e a universidade teve que arcar com todas as despesas. Isso não pode mais acontecer por um motivo essencial: a FURB, antes, centralizava em si o Ensino Superior da região de Blumenau. Com o surgimento de várias outras faculdades e universidades particulares, viu sua receita diminuir a cada ano, num processo de queda que ainda não terminou. Dessa forma, fica realmente difÃcil para a universidade arcar com todas as despesas de um evento desse porte. Mesmo não podendo suportar as despesas, a FURB continua auxiliando – e isso a professora Pita Belli fez questão de frisar bem – na realização e divulgação do evento.
ONDE ANDA O PODER PÚBLICO?
Ora, sendo o FUTB já conhecido nacionalmente e em paÃses do Cone Sul da América Latina, recebendo uma média de 25.000 pessoas por edição, nos últimos cinco anos e elevando o nome do municÃpio de Blumenau a nÃvel nacional, poderia se esperar algum apoio da Prefeitura Municipal. Acontece que não existe tal apoio. “O FUTB surgiu entre uma parceria da FURB e da Prefeitura, mas com o tempo, o poder público acabou se abstendo da responsabilidade, que fica toda conosco.â€, diz a professora Pita. De fato. Hoje, o auxÃlio que existe é mÃnimo e indireto. A Prefeitura, através da Fundação Cultural de Blumenau, somente auxilia na divulgação do evento de forma que nada gaste com isso.
O que há, na verdade, é uma tÃmida divulgação eletrônica no site desta entidade (www.fcb.com.br) e notas em flyers de outros eventos patrocinados ou realizados por esta entidade.
Não fosse o dinheiro recolhido pelo NUPEX, a 21ª. edição do FUTB não aconteceria. Há cerca de um mês, a coordenadoria do festival recebeu R$ 300.000,00 via FunCultural (órgão do Governo do Estado responsável pela Cultura) e R$ 30.000 da FunArte (órgão federal que tem uma verba pré-determinada para realização de festivais desse gênero). Pergunto à professora Pita Belli sobre os R$ 200.000,00 de dÃvida da edição de 2006 que teve de ser paga com o dinheiro enviado pelo Governo do Estado e ela me esclarece: “Na verdade, essa verba deveria ter vindo no ano passado, mas em função das eleições, atrasou – então tivemos de nos virar como pudemosâ€. Está claro. Com um ano de atraso, a verba estadual só podia mesmo ser direcionada para o pagamento de dÃvidas. Mas ainda existe a iniciativa privada, que através da L.I.C. consegue abater do pagamento do ICMS quantias importantes para apoiar eventos culturais. A saber, as empresas que apóiam culturalmente o 21º. FUTB são Sulfabril, Haco Etiquetas e Brandili.
Esta edição, pelo menos, está garantida e fadada ao sucesso.
PREVISÕES PARA O FUTURO DO FUTB
Quando pergunto à professora Pita sobre o futuro do Festival Universitário de Teatro de Blumenau, ela responde categórica: “Todos os festivais do gênero, do Porto Alegre EnCena ao Festival de Teatro de Curitiba, todos correm risco de extinção.†O que faz a diferença, segundo a professora Pita, é a capacidade das coordenadorias desses festivais de conseguirem apoio junto ao Estado e a empresas. Mas ainda é otimista: “Esse é o primeiro ano que temos uma equipe especializada em captação de recursos à disposição, e nesse primeiro ano de trabalho conjunto, essa equipe conseguiu captar recursos suficientes para a realização do FUTB. A tendência é melhorar na edição seguinteâ€.
Na verdade, destaca a coordenadora do evento, o importante é que não se deixe de realizar o FUTB ou qualquer outro festival do gênero por um ano sequer. Se um festival pára por uma edição, é muito difÃcil conseguir reavivá-lo. Sem dúvida que sim. Mas é preciso ver quem ganha com o FUTB (e ganha muito bem) e teria um grande rombo em sua receita com a extinção do evento.
MAIS UMA POLÊMICA
Falemos de quem ganha.
Numa pergunta que não estava na pauta da entrevista, pergunto à professora Pita como é a relação da coordenadoria do FUTB com o Teatro Carlos Gomes (TCG), onde o evento se realiza. O Carlos Gomes possui dois auditórios: um menor, para trezentas e o grande auditório, com capacidade para 900 pessoas. Como é o único espaço capaz de suportar um evento do porte do FUTB, o TCG era, até ano passado, o único espaço utilizado para a realização dos espetáculos. Uma boa saÃda encontrada foi a utilização de espaços públicos. Um deles, o mais importante, é o ginástico do Conjunto Educacional Pedro II – colégio público que cede o espaço para a realização do evento. Com essa alternativa, indicam fontes seguras que passou a se economizar R$ 30.000 por dia, que era equivalente ao aluguel do pequeno auditório, com capacidade para 300 pessoas.
O Teatro Carlos Gomes é mesmo um espaço intrigante. Particular, pertencente a uma sociedade especÃfica, aluga o espaço como realmente deveria ser: precisa-se do espaço, existe um espaço, cobra-se por ele, paga-se por ele e está tudo resolvido. Acontece que nos últimos anos o Teatro Carlos Gomes recebeu cerca de R$ 3.000.000 (TRÊS MILHÕES DE REAIS) do Poder Público relativos a reformas internas, externas entre outras coisas mais. Ora, se a entidade particular recebe dinheiro público, poderia ceder o espaço a esse público pagante de impostos, ou pelo menos viabilizar um desconto para a realização de um evento, este sim, de utilidade pública. Mas acontece justamente o contrário. “Além de ser um dos teatros mais caros para alugar do Brasilâ€, ressalta a Professora Pita, “o preço do aluguel fica ainda mais caro durante o FUTBâ€. Entende-se. Não é somente o Grande Auditório, mas a maioria dos espaços do prédio do TCG são utilizados durante o FUTB, o que acaba privando a entidade de locar espaços para outros eventos, quando ainda os há. O que não se justifica, e isso digo eu, é uma entidade particular receber dinheiro público e não ser diretamente acessÃvel por esse público. “No entantoâ€, continuar Pita, “quase sempre conseguimos um desconto do valor inicial que eles nos passamâ€. Felizmente, dirÃamos.
ENFIM, ALÃVIO
Saio da entrevista mais calmo. Parece que o Festival Universitário de Teatro de Blumenau ainda tem um longo caminho pela frente. Um milagre, poderÃamos dizer, ante as dificuldades que enfrenta para ser realizado: a cegueira do Governo Municipal, o atraso do Governo Estadual, a esmola do Governo Federal e a falta de sensibilidade de entidades particulares que exploram um evento tão necessário – e que enfrenta tantas dificuldades como este.
Blumenau aguarda sua visita. O Festival aguarda sua visita. E que abram-se as cortinas!
PS: o FESTIVAL UNIVERSITÃRIO DE TEATRO DE BLUMENAU ACONTECE DE 06 A 14 DE JULHO EM BLUMENAU, SC.
Labes, bem oportuna a tua contribuição. A discussão de apoio à cultura estará por muito tempo ainda na ordem do dia. Esse atraso do governo estadual é tÃpico, passei por experiência similar.
Parabéns pela matéria e longa vida ao FUTB.
Abr.,
Leandroide
Aqui, a convite, agradeço, Labes.
Então: os festivais dependem em muito de quem os coordena e raramente sobrevivem a coordenações incompetentes ou que costumem misturar o interesse público com aquelas peculiaridades do interesse privado.
Pita Belli é uma heroÃna, Labes, podes dizer a ela que ela merece.
Gerir a coisa pública com esmero, interesse e probidade é um exemplo de querer bem a arte.
O Teatro Carlos Gomes é daqueles grandes inventos de uma parcela que eu desprezo da humanidade.
Dá lucro e cobra caro do tesouro que lhe dá dinheiro.
Não acontece só aÃ, infelizmente é o privado mamando no público.
Tem gente que adora fingir de capitalista, mas não abre mão do incentivo da viúva, seja ela da União, do Estado ou do MunicÃpio.
É um capitalismo tardio, mais para a hipocrisia que para a imbecilidade.
Oportunismo é o nome disto.
O Em Cena, em Porto Alegre, tem um orçamento forte da prefeitura, há 14 anos, porque ela é a empreeendora.
As primeiras edições foram quase 90% de dinheiro do erário municipal.
Com o passar dos anos foi conquistando apoio na União (Petrobrás, principalmente) e na iniciativa privada, com mais expressão.
E as gestões dele têm se mostrado administrativmente competentes a ponto de torná-lo referência nacional e, ainda que pontualmente, espaço internacional da arte cênica no m~es de setembro.
Em edições anteriores, o festival circulou espetáculos e oficinas em muitos bairros e vilas da cidade, além do circuito da fama mais tradicional, as casas mais centrais de espetáculos, pelo Porjeto de Descentralização que cheguei a coordenar aqui de 1993 a 1996 e em 2003 e 2004.
Ars longa, vita brevis!
Não tenho dúvida, Lean, de que essa discussão durará muito tempo ainda. O tempo necessário para se compreender (eles compreenderem) de que nem só de pão vive o artista. Acho mesmo uma pena termos de voltar a esse assunto sempre, mas talvez alguém, um dia, nos dê os devidos ouvidos.
Labes, Marcelo · Blumenau, SC 5/7/2007 11:50
Adroaldo, muito obrigado pela visita. Essa discussão terá um fim? Pois bem: como diz o texto, a prefeitura de Blumenau chegou a 'empreender' o inÃcio do FUTB, mas por algum motivo tirou o corpo fora. Infelizmente, o Festival de Teatro não se encaixa no enxaimel colonial. No mais, é necessário frisar a importância da iniciativa privada para a realização de um evento como este - e nem vamos falar de o Teatro tratar-se de uma entidade privada-, pois é assim que se consegue realizá-lo.
Mas é necessário fazer ressalvas. Como por exemplo, a forma como se dá essa contribuição da iniciativa privada: a empresa abate do ICMS o valor da 'doação', mas via Estado. Ou seja, não são raras as vezes em que o Estado, como mediador desse dinheiro, confisca por tempo indeterminado a quantia destinada ao projeto, seja ele qual for. Então, o que acontece: a comissão de captação de recursos contata as empresas, elas aceitam colaborar, pagam a contribuição ao Estado e o Estado não passa o valor adiante, ou o faz com seu meritoso atraso.
Mas isso imagino que tu saibas. Ou por aà as coisas são exemplarmente diferentes.
No mais, passarei adiante o recado à professora Pita Belli. Se não fosse por ela - pela vontade que tem de realizar o Festival - imagino que nem teria me dado ao trabalho de escrever a respeito dela, da professora, ou dele, o Festival, porque ele já não existiria.
Muito obrigado pela dedicada leitura.
Abraço.
Sim, o FUTB é muito bom mesmo, é uma semana em que ficamos ludibriados pelo encanto do festival. E tem mais, eu nunca cheguei a ver, mas acontecem espetáculos pelas ruas da cidade tbm, isso sim é bacana, pode-se perder muito da qualidade sonora e talz, mas é muito boa essa idéia de teatro pelas ruas...
Fabiano Saváres · Blumenau, SC 6/7/2007 07:26mandou bem mais uma vez, Labes. Ótima reportagem
Édio Raniere · Blumenau, SC 6/7/2007 11:18
Como disse o Édio, mandou bem, Labes!
(conheci uma relojoaria Labes em ItajaÃ. É parente?)
Muito obrigado pela passagem, Egeu. Em relação aos Labes de ItajaÃ, não os conheço: pertenço à parcela pobre da famÃlia. Uma pena, não?! (risos) Abraço.
Labes, Marcelo · Blumenau, SC 13/7/2007 11:59
JÃ ESTIVE EM BLUMENAU EM VÃRIOS EVENTOS CULTURAIS!
VCS SÃO MUITO ORGANIZADOS!
PARABÉNS!
UM BEIJO MINEIRO
SÃLVIA/ Academia de Letras do Brasil em Minas Gerais, em BH.
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