Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Festival Mundo 2006 – Nós conseguimos!

Daniel Lucena
1
Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB
2/10/2006 · 117 · 9
 

Uma das coisas mais comuns no meio de uma conversa sobre a quantas anda a movimentação da música independente em João Pessoa é ouvir: “Nessa cidade não tem público, não tem espaço e é tudo muito incerto”. Ok, isso faz sentido sim, é verdade. Se meter a fazer um show, por exemplo, de uma banda que não esteja no chamado mainstream do rock é correr um risco absurdo, já que o que podemos constatar a cada show é que não há geralmente o interesse pelo “novo” e verba nunca foi coisa fácil por aqui. Mas há quem diga que as coisas estão mudando... Nunca se produziu tanto evento em nossa cidade como agora; uma prova disso é o Festival Mundo. Mas pra falar desse festival eu preciso te contar antes sobre Rayan e como as coisas estavam há uns quatro ou cinco anos. Aqui na nossa cidade havia basicamente dois lugares pra se fazer shows: A Oficina do Capim, no centro histórico (um inferninho com uma estrutura tão precária que se entrassem 200 pessoas perigava a casa desabar), e o Teatro de Arena, onde rolavam apresentações geralmente de grupos já maiores no meio independente e bandas covers (fórmula horrível que até alguns dias era sinônimo de sucesso entre os meninos roqueiros de plantão). Isso atraía mais público e dava pra bancar uma estrutura maior.

Nessa época Rayan tinha 16 anos e, como todo moleque, formou uma banda e se deparou com o então maior problema: onde diabos vamos tocar? Foi nesse questionamento que surgiu a idéia de que ele poderia produzir algum show para promover sua banda e de seus amigos, o que acabou nem dando certo naquele período. Uns dois anos depois a idéia já não era só promover sua banda, mas havia também a tentativa de dar uma engrenada num cenário de shows oscilante e cheio de grupos, surgindo assim a idéia do Festival Mundo – unir estilos diferentes de rock e arte independente. “João Pessoa é uma cidade de panelinhas, então o desafio é criar um caldeirão com o que está sendo produzido de melhor na cultura underground”, diz Rayan. E foi com a idéia de misturar as “tribos musicais” da cidade que em setembro de 2005 foi realizado o primeiro Festival Mundo, no centro histórico da cidade. Lembro que fui lá pra cobrir o evento e achei tudo muito impressionante. E não estou falando só dos shows, mas de observar como um cara que nunca tinha produzido nada antes pode organizar e idealizar tão bem as coisas. Não houve uma megaestrutura, até porque megaestrutura nem combinava com evento, mas foi o tipo de coisa bem idealizada e com um clima impressionante, tudo fluía. Dava a impressão, olhando de fora, que era algo feito naturalmente por amigos, que faziam e se divertiam. Um conceito maravilhoso.

Eram 10 bandas, sendo duas de outro estado, e um telão com projeções de fotos e imagens de artistas daqui. “Foi tudo acontecendo muito naturalmente: o pessoal das projeções aceitou fazer as exibições, a imprensa deu importância ao evento, as bandas toparam tocar pra receber porcentagem de bilheteria, e o público compareceu, o que foi fundamental. Foi isso que deu gás para uma segunda edição e todos acabaram aderindo ao evento.”

E a segunda edição se deu no mês passado, nos dias 15 e 16 de setembro, com uma crescida considerável na estrutura. Rayan me chamou pra participar da produção, já que eu tinha experiência no ramo e lá fui eu. Costumo organizar shows, mas um festival é muito mais complicado... Desde o número de pessoas envolvidas (que quadruplica) até os objetivos. Se para a segunda edição já tínhamos a experiência do primeiro e reconhecimento do público para facilitar as coisas, pra complicar tivemos a idéia de fugir da rotina de shows, agregando ao festival mostra audiovisual, palestras e exposição de artes visuais, coisa nunca antes acontecida na cidade num festival independente.

Pois é, estive pela primeira vez num processo de produção de um festival pretensioso para nossa realidade: Pouca verba, todos com mil outras atividades pra fazer, ter que correr atrás de cada patrocínio, ouvir muitos “nãos” para cuidar de viabilizar os três dias do evento (antes era só um), show de dez bandas locais mais cinco bandas de outros estados, discotecagem, mostra audiovisual, palestras e um mês de uma exposição coletiva de artes visuais com artistas novos da cidade.

Dois meses de produção depois... Eis que chega o grande dia, ver a prática de tudo o que se planejou:

14/09 | Quinta:

Às 16h estava começando o vernissage da exposição. Verdeee, Sarah Falcão, Cristina Carvalho, Flauberto, Ana Isaura, Paloma Nogueira, André Falcão, Marcelo Brandão e Joalisson nos presentearam com uma “expressão isenta de artistas comprometidos com uma idéia cosmopolita dos sentimentos e das relações humanas” como disse FabbioQ, que fez a curadoria. E eram expressões nada convencionais, às vezes gerando até o estranhamento de certos visitantes mais conservadores. Pra entender por que basta olhar, por exemplo, as obras de Verdeee. No vernissage não tinha muita gente, eram artistas e amigos dos artistas, o que já era esperado. O público do festival ainda entende exposições de arte como algo sacal, justificado pelo predomínio estético regionalista evidente aqui na Paraíba. Como disse no primeiro parágrafo, estamos diante de um público que, em sua maioria, não gosta muito de arriscar no novo.

15/09 | Sexta

Estávamos ansiosos com a mostra de audiovisual. Zonda Bez (responsável pela curadoria da mostra) fez um apanhado histórico do vídeo musical aqui na Paraíba. Documentários de 2000, por exemplo, mostrando a cena underground da época e clipes produzidos desde 1997! Tudo apresentado em ordem cronológica, evidenciando a evolução tanto na parte musical quanto em termos de produção do estado. “O interessante é ver que é um lance educativo mesmo, porque tem uma molecada que só está ligada no que acontece no mainstream do rock! Quando você chega e mostra vídeos da cena daqui antigamente e sua evolução, traz bandas desconhecidas que são tão legais (ou melhores) quanto as que estão na TV, começa um processo de valorização por eles. Começam a participar mais e pesquisar sobre outras expressões, não só no que a MTV indica como o melhor do independente...”, diz Rayan.

Os shows começaram as 21:00 e o púbico ainda era muito pouco, mas foi chegando ao longo das ecléticas bandas na noite. Quando a Gauche (PB), primeira banda a tocar, deu seu primeiro acorde, parecia que um peso enorme tinha saído das nossas costas. Nos olhamos e percebemos “Pronto! O principal já foi feito. Ta tudo aí!”, mas foi o Superoutro (PE) entrar no palco pra surpreendentemente começar a chover. O local dos shows só tem o palco coberto, mas a chuva foi tão forte que até ele foi molhado, tendo-se que interromper a apresentação. Não tinha o que se fazer, às vezes acontecem uns problemas totalmente fora do nosso alcance de solução, e qual foi o produtor que nunca passou por uma dessas? Sorte que tínhamos um outro ambiente coberto com discotecagem e a festa não perdeu (muito) seu ritmo. São Pedro decidiu dar uma aliviada e os shows continuaram, mesmo uma boa parte do público tendo ido embora por conta da chuva. 3h30 da manhã os shows acabam... Ter que ir pra casa depois dessa e sabendo que no outro dia vai ser tudo outra vez é desgastante.

16/09 | Sábado

A programação do festival teve início com a palestra sobre web 2.0 do nosso amigo Bruno Nogueira, representante do Overmundo de Pernambuco. Aproveitamos o festival pra falar um pouco sobre o site e sobre conteúdo colaborativo na Internet, chamando os presentes (que infelizmente não foram muitos) a participar. A palestra foi ótima e foi também, claro, uma ótima oportunidade pra eu saber mais sobre o creative commons (já que entrei há pouco tempo aqui), conhecer o Bruno e trocarmos figurinhas sobre o Overmundo.

Logo após a palestra foi dada continuidade à mostra de audiovisual iniciada no dia anterior, encerrando com um debate sobre os rumos da cena underground pessoense: o que podemos fazer e onde vamos parar.

Mais tarde os shows foram muito mais tranqüilos que a noite anterior... O público foi mais forte e apareceram poucos problemas de última hora. São Pedro deu uma folga, dando uma folga também para nós da produção podermos curtir e lavar a alma com a Star 61, já no último show da noite.

Às 3h da manhã o Festival Mundo 2006 se encerra e podemos fazer um balanço de tudo: horas sem dormir fazendo crachás, carimbando ingresso, correndo atrás das coisas e quebrando cabeça com imprevistos de última hora são absolutamente recompensadores quando a última luz se apaga do local dos shows e podemos ver as pessoas indo pra casa, as bandas agradecendo e os amigos de longe que compareceram se despedindo depois de ter matado a saudade. Costumo dizer que ir a um festival independente é muito mais que ir ver um show. É confraternizar idéias, é reunir gente em prol de um mesmo objetivo, é exalar paixão nas atitudes, porque sem paixão é impossível dar continuidade a algo desse tipo. É bom ver o reconhecimento e agradecimento de gente que você nunca viu na vida, chegar ao fim e ver que estávamos certos na nossa primeira reunião, idealizando o que seria o Festival Mundo 2006. Sei que sou suspeita pra falar, mas gosto deste formato: amigos produzindo e sendo cúmplices de problemas e, claro, bagunças e alegrias que vivenciamos durante todo esse tempo de produção e execução. Juntar isso tudo e perceber que não é tão complicado quanto parece e que fazer funcionar um circuito de shows e eventos independentes em nossa cidade é sim possível. E isso não tem preço.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
tigreped
 

Pois é. Em João Pessoa, anos e anos de um regime familiar hipócritamente conservador e religioso geraram reflexos claros na atual cena cultural alternativa, que, tomando-se por parâmetro grandes cidades do centro-sul do país, é quase inexistente. Bandas existem em todos os lugares e aos montes, mas não o tempo todo. Boas bandas aparecem mas a maioria delas acaba por falta de uma direção a ser tomada, uma meta clara, ou uma forma objetiva de mostrar seu trabalho ao público.

É um ciclo vicioso, essa ignorância que o preconceito gera, onde não há espaço para o undeground aparecer pois não há gente o suficiente para apoiá-lo. Até hoje a imagem de mal gosto e agressividade ainda é relacionada ingenuamente ao rock, ao punk, ou ao metal, enquanto que estilos como axé, forró e pagode não são criticados por seus fundamentos não-construtivos ou de bom gosto musical.

Para quem está do outro lado, todo e qualquer movimento que aparece, e ao qual temos conhecimento e acesso, se torna uma escapatória, uma alternativa à mesmisce da pacata João Pessoa. Festivais como o Festival Mundo são oportunidades praticaente esporádicas que aparecem para dar um pouco de mais opções aos pessoences. Ao mesmo tempo que dão ao público shows alternativos, dão, obviamente, uma oportunidade às bandas que estão lutando por seu espaço uma chance de mostrar seu trabalho e respectivamente, suas idéias, sejam elas sentimentais, políticas, filosóficas e etc ou simplesmente carpe diem e muita cerveja.

Além disso o festival procurou produzir o intercâmbio cultural trazendo um pouco da cena alternativa de outras cidades com bandas de Natal, por exemplo, o que engrandesce o show e a noite do público. Apesar de não haver espaço para todas as bandas que estão tocando poaí em busca de ter um espaço para mostrar serviço, tudo o que falta são mais iniciativas como essa, para que a cena underground torne-se comum, no sentido de não apenas um evento incerto que acontece uma ou duas vezes por ano.

tigreped · João Pessoa, PB 2/10/2006 19:32
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
rayan
 

Boa Carol! Ótima matéria! e... Nós conseguimos! haha

Pois é, tigreped... e para que até mesmo iniciativas esporadicas como festivais que vem e vão e que ninguém sabe se vai vingar ou não, é preciso apoio! E o apoio maior que podemos ter é o do público! Comparecendo, participando, entrando em contato, dando sugestões e críticas, por que não, mas principalmente comparecendo! Falando menos e agindo mais!

Valeu pelas palavras!

Obrigado Overmundo, valeu Carol, valeu a todos que participaram de alguma forma!

rayan · João Pessoa, PB 3/10/2006 10:05
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Jesuino André
 

Carol, o texto é um ótimo retrato do atual cenário local. Os problemas são sempre os mesmos, mudam apenas as pessoas. O trabalho abnegado de voces é o modelo exemplar de consicência e transformação.
Festival Mundo sempre!

Jesuino André · João Pessoa, PB 3/10/2006 10:06
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Carolina Morena Vilar
 

Pois é Jesuíno! Você (assim como Rayan e o Tripeh) sabe o problema que temos por aqui. Vendo os documentários da mostra audiovisual a gente constata que é exatamente assim como vc falou: os problemas são os mesmos, mudam as pessoas.
Ao menos aqui na Paraíba é assim... Conversando com um pessoal de Recife, eles falaram que lá é complicado geralmente por falta de espaço e publico também. E eu achei que era diferente por ser maior, ter mais visibilidade... Será que é assim em todo lugar? Será que essa dificuldade é a maior característica do underground, nos deixando tão felizes e orgulhosos quando conseguimos por pra frente um projeto desse tipo?

Carolina Morena Vilar · João Pessoa, PB 3/10/2006 13:37
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Fábio Maturano
 

Parabéns Carol, mais uma excelente matéria!
Sou um entusiasta da cena pessoense e de iniciativas como o Festival Mundo... e é isso mesmo, as dificulades estão aí para serem enfrentadas.

Fábio Maturano · João Pessoa, PB 3/10/2006 16:01
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
ronaldo lemos
 

Eu já vi a palestra do Bruno Nogueira no festival Coquetel Molotov em Recife e posso dizer que é bem legal mesmo. Adorei as notícias sobre o festival.

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 3/10/2006 18:16
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
rayan
 

Pois é.. não tinha parado pra pensar dessa perspectiva Jesuíno. Como Carol falou, ao assistir os documentários, percebe-se os mesmos problemas, o que muda é o contexto.
Festival Mundo!!!!

rayan · João Pessoa, PB 3/10/2006 22:42
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
danielprimow
 

Muito massa a matéria de carol!!

assim agente a té esquece o stresse pra preparar mais festival
é tudo muito gratificante
=DDDDD

danielprimow · João Pessoa, PB 4/10/2006 13:23
sua opinião: subir
Vladimir
 

Por favor, votem na minha música Poesia Quântica que está na fila de edição! Obrigado.
Muito legal sua matéria Carol...

Vladimir · João Pessoa, PB 29/6/2007 07:07
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Todos nós orgulhosos com a camisa do festival zoom
Todos nós orgulhosos com a camisa do festival
Sexta- Superoutro zoom
Sexta- Superoutro
Sábado- Dalila no Caos zoom
Sábado- Dalila no Caos
Sábado- Mobiê zoom
Sábado- Mobiê

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados