Festival Sensorial/Minimal – RJ, Circo Voador

Filipe Quintans
Um dos integrantes do Tortoise, uma das atrações do festival Sensorial/Minimal
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Filipe Quintans · Rio de Janeiro, RJ
8/9/2006 · 133 · 11
 

Os dias 1º e 2 de setembro possivelmente foram dois dos dias mais incomuns na história recente do redivivo Circo Voador. Porque, e especialmente para gente jovem carioca, é automático o fato de associar o lugar a grandes e barulhentas platéias, o som sempre alto que vaza para a galera que instala-se junto às grades (do lado de fora) e a movimentação causada nas imediações. Quem antes fazia tal associação e passou por lá para conferir o movimento nos dias 1º e 2 de setembro tomou um baita susto e o festival Sensorial/Minimal era a principal razão disso.

A iniciativa, ao que tudo indica, era juntar atrações que, através da música, provocassem todo tipo de sensação (primeiro dia) e sensação alguma (segundo dia). Para tanto estavam lá, na sexta, o projeto de dub/reggae Los Sebozos Postizos e o post-rock do Tortoise e no sábado, o minimalismo, ou melhor, a ausência de sensações por conta de Adriana Calcanhotto, do rapper francês Spleen e do duo Cocorosie, o main act.

Raras são as oportunidades – no Rio de Janeiro, no Circo Voador - de se ver, ao vivo, música que destoe do (embora ainda frutífero) lugar-comum “baixo, bateria, guitarra e voz” e que leve a platéia a outros níveis de percepção. Além disso, convenhamos: não é todo dia que se pode ver bandas com duas baterias e dois xilofones (Tortoise), harpa e piano de cauda (Cocorosie) e um show de rap sem um DJ (Spleen).


Primeiro dia

Havia uma paz imperturbável em cada esquina da Lapa na sexta, dia 1º. O clima fresco e a pouca chuva mantiveram a quantidade de pessoas em número razoável, sem as conhecidas multidões que geralmente habitam calçadas, botecos e casas de show do bairro. Passava um pouco das dez horas e o movimento de bilheteria do Circo Voador era calmo como enterro de indigente. A impontualidade, velha conhecida dos shows no Rio de Janeiro, atacava, impiedosa. O material de divulgação dizia “22h em ponto”, restava saber o quê começava pontualmente às dez.

Enfim, às 22h45 uma lona preta que cobria o teto da bilheteria do Circo foi retirada e começaram a surgir baterias (duas), uma, duas, três guitarras e um enorme telão ao fundo. A banda carioca Binário inaugurou o evento mostrando durante quase hora e meia um proto-postrock caboclo, barulhento, calcado na repetição de acordes percussivos distorcidos, por vezes desconexo, perfeito apenas como trilha sonora das projeções (ruins) ao fundo. Para fazermos aqui uma comparação pobre, o Binário é um “Pink Floyd júnior e sem classe”.

A idéia, seja lá de quem tenha sido, de ocupar o espaço sobre a bilheteria foi ótima, exceto pelo fato de que os Arcos da Lapa bloqueavam a visão de quem não estava na área delimitada (restrita pela segurança) em frente à entrada do Circo. O Binário encerrou sua apresentação convidando o público a entrar. Convite aceito, lógico.

Mais impontualidade. Somente à meia noite e vinte Los Sebozos Postizos entraram no palco. A banda, simplesmente a Nação Zumbi com outro nome, baseia seu repertório em versões (muito bem arranjadas) dub/reggae de músicas do repertório de Jorge Ben(jor). Quando o coro de Os Alquimistas estão chegando ecoou pesado pelo Circo, via-se que a noite prometia; O homem da gravata florida arrematou e confirmou essa sensação.

Não há nada de profundamente errado com o projeto. O clima evocado pelos excelentes rearranjos das canções do Babulina é ótimo, com sérias chances de passar a excelente não fosse a voz chinfrim e desafinada de Jorge Du Peixe. Aliás, durante toda a apresentação, o vocalista dos Sebozos/Nação opera um dispositivo que imprime efeitos à sua voz, disfarçando sua pouca potência vocal sem passar vergonha.

Uma hora depois e duas músicas a menos do que o planejado, os LSP encerraram e prepararam terreno para “Um show do caralho” nas palavras de Du Peixe.

Ele falava do Tortoise e eram uma e vinte da manhã.

A sensação geral era de que mais meia hora e a banda de Chicago atacaria. Ledo engano. Somente às duas e quinze da manhã é que banda se postou diante de algo menos que mil pessoas, não para um show, mas para um experimento estético.

É fato que certas coisas do rock, especialmente quando ele é executado ao vivo, evocam um curioso tipo de fetichismo. Da forma que uma banda se organiza no palco, passando pela roupas de cena e instrumentos que usa - sem falar das poses que faz – tudo colabora (ou joga contra) uma banda diante do público. Pode parecer idiota dizer isso, mas era perceptível entre a platéia a incredulidade diante do que estava sendo montado no palco.

Duas baterias – montadas uma frente à outra, ambas em primeiro plano -, dois xilofones, dois baixos, duas guitarras, teclados e o telão ao fundo. O Tortoise é, em última análise, a evolução (natural) do Wall of Sound de Phil Spector, influenciado pelo eletrônico e pelo jazz (cool e avantgarde). Pode-se sentir influências do Kraut-rock, mas pouca gente sabe do que isso se trata.

Quem esperava (boa parte da platéia, diga-se) por um show de rock “convencional” ficou a maior parte do tempo procurando a esperança pelos cantos do Circo; Aqueles (poucos, diga-se também) que sabiam o que estava porvir, no entanto, se deliciaram.

Reunindo canções encontradas na maioria de seus seis discos - alguma ênfase no brilhante disco de 96 Millions Now Living Will Never Die - o quinteto de Chicago, que reveza-se a cada música entre a penca de instrumentos em cena, tocou por quase duas horas para um público que passou do ansioso ao entediado rápido. Em dado momento, e como reflexo desse tédio, entre uma canção e outra, surgiu entre a platéia quem gritasse em alto e bom som “Cadê a música???”. Estava ali, bastava um pouco de boa vontade para ouvi-la. Fim do primeiro dia de festival, fim da parte sensorial do negócio. Que venham os minimais.

Segundo dia

A paz e a tranqüilidade da véspera, por incrível que pareça, permaneceram no segundo e último dia do Sensorial/Minimal. O público, bastante inferior ao de sexta, parecia ter intenções diversas daquele de um dia antes. Enquanto no teatro Odisséia a festa de um ano do Mercadão Mistureba (?) rendia uma imensa fila em frente ao 66 da Mem de Sá e, do outro lado da rua, no Estrela da Lapa, uma fila quilométrica se formava para o show do Bossacucanova, no Circo Voador imperava a tranqüilidade de um público pequeno e educado.

E o clima austero, ordeiro e pacífico da platéia traduziu-se em música pontualmente às onze e meia da noite. Adriana Calcanhotto (violão, guitarra e cello) - amparada por Moreno Veloso (violão, cello e pandeiro) e Domenico Lancelotti (sampler, violão e pandeiro) – começou seu show num tom tão discreto - bem próprio da cantora – que até aqueles em frente ao palco demoraram a entender que tinha começado.

Era, pasmem, o início de um sábado quase zen na Lapa. A platéia de pronto estabeleceu isso quando se arregimentou em cadeiras por quase toda a pista, em frente ao palco.

Calcanhotto, uma das mais criativas artistas brasileiras, não faz música barata, de apelo fácil, com etiqueta de preço. Cercou-se de batidas eletrônicas – ‘operadas’ por Domenico em duas baterias eletrônicas MPC 1000 - e comedimento vocal para fazer uma apresentação delicada e simpática. Óbvio, e não haveria de ser de outra forma, arrolou canções conhecidas de seu repertório – a quase infantil Assim sem você, seu hit Vambora - e aproveitou para refazer Music, de Madonna e Tive Razão de Seu Jorge. Tamanha era a serenidade entre o público e palco que, na volta para o bis, Calcanhotto disse “Vamos tocar a primeira porque ninguém ouviu” e alguém da platéia emendou com “Toca a segunda também!”. Risos gerais, da cantora e dos músicos, inclusive.

O relógio informava que faltavam vinte minutos para uma da manhã quando o rapper Spleen tomou o palco com sua banda. Aliás, bom explicar como era a “banda” distinto rapaz: Ben (guitarrista/baixista) e Tez, um sujeito fantasiado de figurante de A Vingança dos Nerds, o responsável pelo beatbox (reproduzir batidas com a boca, em resumo). “Rap sem DJ” soava promissor.

Com uma camiseta laranja-desespero e óculos de aro preto grosso que fariam Jô Soares corar de vergonha, Tez, de fato, era a banda. Spleen? Um mero detalhe, cantando um rap até de bom gosto, pena que em francês. O beatboxer (se assim for chamado) não só reproduzia batidas como fazia teclados, baixo, guitarras e vozes (principais e de apoio). Impressionante, mas beatbox é como solo de bateria: nos primeiros dez minutos é “curioso” e “divertido”. Meia hora depois, fica “entendiante” e “chato”. E foi durante quase meia hora - de uma em que Spleen “cantou” - que Tez brindou a platéia com uma sinfonia da técnica. De “zen” para “chato”.

Uma interminável espera e finalmente, por volta de duas da manhã, o duo americano radicado na França Cocorosie fez-se presente.

É difícil identificar que tipo de música afinal de contas fazem as irmãs Bianca e Sierra Casady. Na falta de termo melhor, tentemos “extravagante” ou um tipo de música que somente pessoas com dinheiro sobrando se dariam ao trabalho de fazer.

Porque colocar piano de cauda, harpa, canto lírico (para dizer “Somos eruditas”) junto com batidas programadas e brinquedinhos sonoros, desses de criança, que reproduzem sons de animais (para dizer “Somos avantgarde, a música é um brinquedo lúdico”) não engana mais ninguém. Mas aí, já não é mais música. “Elas fazem arte moderna”, comentou um conhecido ator brasileiro que assistia ao show discretamente do alto das arquibancadas. Diante da perplexidade do repórter, esse mesmo ator completou, para depois emendar com uma gargalhada repreendida por “pssss” irritados: “Mas é chato pra cacete!”.

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Liv Brandão
 

Filipe, Fez é o do That's 70s Show, o maluquinho do beatbox é Tez!

E eu me amarrei no cara, não cheguei a achar chato, não. Até porque ele tocou Kiss do Prince sozinho, fazendo voz e melodia com a boca. Achei o cara muito bom! E o fato de o Spleen cantar seus raps em francês só deixou o show, que ninguém esperava ver, ainda mais legal :)

Liv Brandão · Rio de Janeiro, RJ 6/9/2006 15:06
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Filipe Quintans
 

Que bom. Obrigado por me corrigir. Mas achei que ficou chato depois um tempo (e foi muuuuito tempo).

Filipe Quintans · Rio de Janeiro, RJ 6/9/2006 15:39
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Rafael Cação
 

Filipe, corrija-me se eu estiver errado, mas, até onde sei e vi, o Los Sebosos Postizos não é simplesmente a Nação Zumbi com outro nome. Fazem parte do projeto 5 membros da Nação mais o tecladista do Mundo Livre S/A.

Rafael Cação · São Paulo, SP 6/9/2006 17:22
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Tatisodre
 

Cara, sou um carioca de 37 anos e passei minha adolescência pulando grades do circo e um bom tempo da minha fase adulta também, até o mesmo fechar suas portas, quer dizer, fecharem. Que relato péssimo! Hoje moro em Boa Vista, Roraima, e lendo seu texto senti nostalgia dos tempos em que o Circo Voador era "o" Circo Voador.
Acredito que o cheiro do Circo Voador verdadeiro deve ter desaparecido.
valeu
Marcelo Perez

Tatisodre · Boa Vista, RR 7/9/2006 02:07
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Filipe Quintans
 

Rafael, corrijo sim. Do mundo livre S/A, pelo menos neste show do circo, não havia ninguém. E o Chiquinho é tecladista do Mombojó. abraço, obrigado por ler.

Filipe Quintans · Rio de Janeiro, RJ 7/9/2006 11:56
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Rafael Cação
 

Valeu pela informação, Filipe. Nos shows que vi os teclados eram comandados pelo Bactéria do Mundo Livre... Abraço!

Rafael Cação · São Paulo, SP 7/9/2006 15:54
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Fábio Fernandes
 

Tenho 40 anos, moro hoje em Sampa e tenho muita nostalgia pelos bons tempos do Circo Voador. Mas, pelo teu texto, me fica a impressão de que estamos começando a ver bons novos tempos por lá. Fico feliz. Obrigado pela matéria.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 9/9/2006 07:54
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danielsd
 

Como assim?!?! pelo que vi e com as várias pessoas que conversei, todos chaparam com o som do Tortoise. não vi ninguém entediado... mas vá lá, de repente não conversei com as pessoas certas(?)...
O que vi foi um show incrível! no qual só tocaram 02 músicas so Millions Now Living will never die. O set foi bem distribuído, só faltou alguma música do primeiro. mas diante de arrasa-quarteirões como salt the Skies, seneca e Eros é difícil dizer que faltou algo.
A impressão que tive é que conseguiram agradar até mesmo à grande maioria do público -´indie´- presente ao circo na sexta.
Estou enganado??!

danielsd · Rio de Janeiro, RJ 11/9/2006 10:58
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Filipe Quintans
 

Creio que não, Daniel. Mas te falo que das opiniões colhidas, a maioria não se mostrou exatamente empolgada com o que viu. Acontece. Em coberturas jornalísticas, results may vary.

Filipe Quintans · Rio de Janeiro, RJ 11/9/2006 11:07
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danielsd
 

ah, sim.... uma amostragem ´viciada´.... :-)
assim como a minha amostragem provavelmente distorceria positivamente a avaliação... fiquemos com uma média então....
BOM PRA CACETE!!!!
:-)

danielsd · Rio de Janeiro, RJ 12/9/2006 15:37
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Filipe Quintans
 

Isso. Pronto, resolvido.

Filipe Quintans · Rio de Janeiro, RJ 12/9/2006 18:00
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