Observatório

A história do Overmundo na memória de seus colaboradores
O Overmundo foi pensado para trazer à luz a cena cultural brasileira, independente da grande indústria cultural e que, justamente por ser independente, não costumava figurar com destaque nos grandes meios de comunicação. Algum tempo passado, constatamos que ainda há muito o que fazer e que, a cada dia – sobretudo com o advento da internet colaborativa e de ferramentas de autopublicação... leia

 
Ficção científica semestral
Romeu Martins · São José (SC) · 11/8/2008 21:28 · 107 votos · 16 comentários ·  
 
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overponto
No início da década de 90, durante pouco mais de dois anos, leitores brasileiros de ficção científica viram nascer, prosperar e morrer a mais importante iniciativa para difundir por aqui o que de melhor se produz neste gênero. Enquanto durou, a edição nacional da Isaac Asimov Magazine trouxe todos os meses a preço acessível e com distribuição ampla alguns dos mais importantes escritores de FC de todos os tempos: além do senhor que emprestava o nome à publicação, invadiram as bancas gente do nível de Orson Scott Card, Frederik Pohl, Geoffrey Landis, David Brin, Octavia Butler entre muitos outros. Mais que isso, a revista também abriu espaço para talentos locais que não fizeram feio ao dividir páginas com estrangeiros já consagrados, como Gérson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho, Jorge Luiz Calife, André Carneiro e Maria Helena Bandeira. Apesar de não chegar a dar prejuízo, os resultados comerciais não foram o esperado pela editora responsável, a Record, uma das grandes do mercado brazuca. Com o seu fim, toda uma geração de órfãos da IAM passou a se lamentar pela falta de projetos semelhantes.

Em 15 anos o quadro mudou muito pouco, apenas com alguns fanzines impressos e sites tentando manter atualizada a produção de escritores que ainda não haviam realizado o sonho do livro próprio. Porém, 2008 parece querer se firmar como um ano em que ao menos parte do vácuo deixado pelo fim daquele importante marco editorial pode ser preenchido. Neste segundo semestre, começam a se consolidar iniciativas neste sentido, com projetos coerentes que podem dar novo fôlego à ficção especulativa nacional. Talvez a proposta mais ambiciosa desta nova fase seja uma revista de título mutante que pretende apresentar, a cada seis meses, uma nova leva de autores, mesclando nomes conhecidos neste meio com outros mais identificados com a chamada literatura mainstream. Quem está capitaneando o empreendimento é o escritor e ensaísta Nelson de Oliveira, conhecido por organizar coletâneas de qualidade dentro do gênero fantástico – e que está preparando uma nova para ser lançada ano que vem pela mesma Record da falecida IAM, cujo título será Futuro presente: dezoito ficções sobre o futuro.

Na edição de lançamento, a revista recebeu o nome de Portal Solaris, em referência à obra-prima de Stanislaw Lem. Ao longo dos próximos três anos, a cada semestre, um novo Portal deve ser lançado, sempre com a mesma intenção de homenagear grandes ícones da ficção científica; pela ordem, são eles Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit. A idéia por trás desta lista de títulos é simples, mas pode dar um bom resultado: o projeto pretende despertar o desejo por FC de qualidade em novos leitores, criando uma demanda para ser satisfeita em uma fase posterior. Neste primeiro momento, os autores reunidos se divididem em cotas para bancar a publicação, cuja tiragem reduzida é distribuída entre alguns formadores de opinião por todo o Brasil. Somente após consolidar o conceito, ao longo das seis edições anunciadas, é que os responsáveis pretendem transferir o Portal para uma editora, incubida da impressão e distribuição, passando assim a remunerar seus colaboradores com os direitos autorais.

“Cada portal é um organismo cibernético multidimensional, sem forma ou conteúdo definidos, acionado pela fantasia e pelos desejos de quem o utiliza”, escreveu Oliveira no texto de apresentação do número de estréia do projeto. “Juntos, os seis portais funcionam como o aleph do célebre conto de Borges. Juntos, os seis portais formam o ponto de onde é possível enxergar todos os pontos do uiverso. Ou ser por eles enxergado”. A forma com que este primeiro Portal se manifestou é a de uma revista em preto e branco, com 106 páginas e dimensão de 16 por 23 centímetros. O requinte gráfico se manifesta no belo projeto gráfico, de sobriedade elogiável, e na excelente capa, um estudo caligráfico do título da publicação, assinado Teo Adorno. Até a revisão, feita por Mirtes Leal, está muito acima da média dos lançamentos nacionais, aí incluídos livros e revistas.

Quanto ao conteúdo, Oliveira reuniu 14 contos de dez autores de nada menos que sete estados do país, dando uma ótima amostra contemporânea, e em escala verdadeiramente nacional, do que se produz em termos de ficção fantástica. A escolha dos convidados contemplou alguns nomes conhecidos de quem acompanha a FC nacional e outros que se mostram uma boa novidade na área. O mais veterano, sem dúvida, é Roberto de Sousa Causo, um dos escritores nacionais premiados e publicados pela já citada IAM (a noveleta “Patrulha para o desconhecido” foi impressa no número 14). Em sua contribuição para o Portal Solaris, o paulista, autor de A corrida do rinoceronte e responsável por uma coluna semanal sobre FC para uma página da internet, apresentou o conto “Rosas brancas” – dedicado ao americano Philip K. Dick – cuja temática bélica futurista faz parte de suas marcas registradas.

Ataíde Tartari, morador de Santos, já participou da coletânea de contos de um subgênero da FC, a história alternativa, chamada Phantástica brasiliana e publicou livros originalmente escritos em inglês, como Tropical shade. Para a revista, ele escreveu um texto que presta homenagem ao clássico Um estranho numa terra estranha, do também americano Robert Heinlein, a começar pelo título, que cita quase literalmente o protagonista daquele romance, “Valentim”. O outro paulista do time, Ivan Hegenberg, divide a coordenação do projeto com seu conterrâneo Nelson de Oliveira. Ele estreou na área da FC com seu segundo livro, a distopia futurista Será, já resenhado aqui no Overmundo, de onde extraiu os dois contos publicados em Portal Solaris. “Dia qualquer” e “Mastch” deixam claro, respectivamente, a influência que Clarice Lispector e Friedrich Nietzsche exerceram sobre o jovem escritor.

Os demais colaboradores vieram de todas as regiões do Brasil e de além mar. Carlos Emílio C. Lima, autor de O romance que explodiu, é do Ceará; Carlos Ribeiro (Lunaris), da Bahia; Geraldo Lima (A noite dos vagalumes), de Brasília; Homero Gomes (Sísifo desatento), do Paraná; Luiz Bras (A última guerra), mora em Portugal; Mayrant Gallo (O inédito de Kafka), da Bahia e Rogers Silva (Manicômio, livro ainda inédito), de Minas Gerais. Porém, como deixou claro naquele editorial, Nelson de Oliveira pretende mudar não só o título a cada edição, mas também variar forma e conteúdo de sua série de portais. Interessados em participar de alguma maneira desta iniciativa, podem contatar o coordenador editorial pelo e-mail oliveira.e.cia@uol.com.br

tags: São José SC literatura ficcao-cientifica ponto-de-convergencia projeto-ponto-de-convergencia contos


 
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Bélíssima resenha. Conheço os textos do Mayrant Gallo - trata-se de um excelente contista de Salvador.

A reclamar apenas que mandei um e-mail pro Nelson de Oliveira e nem resposta recebi! Será que algum dos autores do primeiro Portal teria um exemplar pra me enviar?
Saint-Clair · Rio de Janeiro (RJ) · 10/8/2008 21:31 
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Opa, mal se cadastrou e até me honra com um comentário, St.-Clair?

O conto do Mayrant Galo é muito bom, "A nova ordem das coisas". Acontece que, quem tem alguma intimidade com os clássicos da FC mundial, mata a surpresa final do texto, sem dificuldade. Mas é um conto muito bom.

Grato pelo voto e pelo comentário.
Romeu Martins · São José (SC) · 10/8/2008 21:43 
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Romeu, li o livro O inédito de Kafka, do Mayrant (um aluno que me falou dele e me emprestou o livro). Me surpreendi com o nível dos contos. Mas confesso que foi inesperado ver que ele "cometeu" um conto de FC. Tenho certeza de que deve ser, sim, bom. O cara tem umas belas imagens, e sabe o que é escrever um conto - aliás, o mínimo que todo soi-disant contista devia saber, mas que muitos não sabem.
Saint-Clair · Rio de Janeiro (RJ) · 10/8/2008 21:50 
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Pois é, o título e a editora pela qual o livro foi publicado (a CosacNaify, que costuma apostar bem na qualidade) me chamaram a atenção. Ele tem outro livro, quee também não conheco, Dizer adeus, saiu pela editora K em 2005.
Romeu Martins · São José (SC) · 10/8/2008 22:04 
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Esse eu também não conheço. Vou procurar!
Saint-Clair · Rio de Janeiro (RJ) · 10/8/2008 22:08 
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Bela resenha, Romeu! Parabéns!

Mas... eu queria ler essa revista... comé que faiz, hein?
Aurisson · Contagem (MG) · 11/8/2008 01:51 
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Obrigado, Aurisson

Acho que o melhor caminho é contatar o Nelson de Oliveira. De qualquer forma, ele já deve estar preparando o próximo portal e aguarda o contato de novos autores.
Romeu Martins · São José (SC) · 11/8/2008 11:14 
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Mhel Parabéns, Romeu. Muito bacana a iniciativa do Nelson e a sua resenha.

beijão,

Helena
Mhel · Rio de Janeiro (RJ) · 11/8/2008 14:45 
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Pelo singelo Helena da assinatura ou o Mhel do codinome, leia-se Maria Helena Bandeira uma das melhores escitoras de FC&F do país.

Brigadão, MHellraiser
Romeu Martins · São José (SC) · 11/8/2008 15:54 
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Romeu...
Está de parabéns, como sempre!
:-)

Huguinho... · São Bernardo do Campo (SP) · 11/8/2008 19:35 
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Opa, brigadão com osempre, Hugo :)
Romeu Martins · São José (SC) · 11/8/2008 19:44 
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Parabens!Resenha perfeita e de um modo claro trouxe a luz o que se produz de bom dentro da Ficção Cientifica no Brasil.
Nazareth Fonseca · Natal (RN) · 11/8/2008 21:10 
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Muito obrigado, Nazareth, outra escritora que me foi muito bem recomendada.

E grato a todos que o texto superou a barreira dos 70 votos
Romeu Martins · São José (SC) · 11/8/2008 21:55 
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Vem aí "Terra Ingonita"!
Kuja · São Paulo (SP) · 11/8/2008 22:15 
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Incognita, digo
Kuja · São Paulo (SP) · 11/8/2008 22:16 
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Exatamente, Kuja. E já existe a Kalíopes, Sommium, Scarium...
Romeu Martins · São José (SC) · 12/8/2008 00:15 
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