O pernambucano talvez seja o povo com mais orgulho de ser. Afinal, tudo aqui é o melhor, o maior, ou o mais antigo: o maior shopping da América Latina, o mais antigo jornal em língua portuguesa em circulação, a maior avenida em linha reta do Brasil, o verdadeiro local do descobrimento, e por aí vai. “Eu vi o mundo... ele começava no Recife”, diz humilde a obra de Cícero Dias, cravada no Marco Zero da cidade.
Nas artes gráficas, não poderia ser diferente: em matéria publicada na revista Continente Multicultural, o jornal satírico O Carcundão (1831) foi indicado como o primeiro tablóide brasileiro a circular com uma ilustração de humor. “Um burro corcunda derrubando a coices uma coluna grega”, descreveu o historiador Alfredo de Carvalho.
O Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, cuja extensa programação terminou no domingo passado, com certeza não é o maior ou o mais antigo festival de quadrinhos do Brasil. Porém, ao demonstrar vitalidade em revelar e dar suporte a uma cena de artistas cada vez mais organizada e interessante, com certeza figura entre os melhores eventos de sua categoria.
De acordo com os organizadores, ao longo de três semanas de exposição - de 16 de setembro a 07 de outubro - aproximadamente sete mil visitantes movimentaram as instalações da Torre Malakoff, no Recife Antigo. Destes, mais de 700 levaram para casa uma caricatura feita na hora pelos artistas da Associação dos Cartunistas Pernambucanos, entidade realizadora do FIHQ, ao lado da ONG Auçuba.
Assim como revelou a cobertura do o FIQ de Belo Horizonte, o FIHQ conta com respaldo de uma conjugação de instituições públicas e privadas. O patrocínio é da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, com apoio da prefeitura do Recife e Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia.
Tanta força convergiu para um evento bonito de se ver: bem idealizado, organizado e localizado. “Nossa experiência em Recife não podia ter sido melhor. A cidade é linda, o evento está ótimo e as pessoas são realmente únicas. É muito bom ver um evento feito com carinho e com ótimo apoio dos órgãos oficiais, leis de incentivo, com uma infra-estrutura muito bacana, além de uma super cobertura por parte da mídia local”, escreveram em seu blog Fábio Moon e Gabriel Bá, os talentosos irmãos desenhistas convidados pelo FIHQ 2007. Outra visitante, Teresa Souza, que também esteve na abertura do FIHQ,
confirma a boa impressão da dupla.
Na ocasião, foram divulgados os premiados da mostra competitiva, escolhidos entre 194 trabalhos pré-selecionados, de um universo recorde de 719 inscritos de 28 países diferentes - boa parte do oriente médio e leste europeu - distribuídos em cinco categorias: cartum, charge, caricatura, história em quadrinhos e ilustração editorial.
Entre o juri foi consenso que o nível estava altíssimo, o que dificultou bastante a escolha dos cinco vencedores. Cada um ganhou R$ 6 mil, uma quantia R$ 2 mil acima da concedida pelas edições anteriores.
Um pouco de história - Desde a primeira edição, o FIHQ ficou conhecido por trazer para o Recife astros mundiais como Jerry Robinson, Will Eisner e Keno Don Rosa, e importantes artistas gráficos brasileiros, como Gualberto Costa, JAL, Marcelo Lélis, Eloar Guazelli, Fábio Zimbres, e los quatro amigos Angeli, Laerte, Glauco e Adão. Nomes de peso, cuja presença foi fundamental para estabelecer a cidade no mapa das artes gráficas e atrair público à Torre Malakoff.
Tudo começou por iniciativa do artista gráfico Laílson Cavalcanti junto ao governo de Pernambuco. Laílson, que desde os anos 70 viaja o mundo participando de festivais de quadrinhos e humor gráfico, a partir de 1983 passou a organizar eventos do gênero em Recife. Em 1999, nascia o FIHQ. “A idéia era colocar a cidade neste circuito, alimentando uma visão empresarial voltada a um mercado editorial internacional”, explica o artista.
Laílson permaneceu na organização do FIHQ até 2005, quando passou a bola definitivamente para a Acape. Desde então, por desentendimentos internos, seu nome desapareceu do evento, e não somente dele. Coincidentemente ou não, um pouco antes foi demitido do jornal onde trabalhou por mais de um quarto de século, o Diario de Pernambuco. Ensina o dito popular: “é preciso matar o pai para dele se servir”.
“Acho tudo isso muito deselegante. Estão querendo negar a origem do festival. Um determinado número de pessoas passou a controlar diferentes esferas de poder, e onde poderia haver respeito, questões pessoais valeram mais”, avalia o artista. Hoje, além de se dedicar a adaptações da literatura brasileira para os quadrinhos, Lailson publica charges em jornais de Londres e Berlim, através de uma super-representação internacional mantida pelo norte-americano Daryl Cagle.
Mudança de rumo - Sob a batuta coletiva da Acape, em 2007 o FIHQ mantém outrasprioridades. As palestras e oficinas, por exemplo, focaram em temas como experimentação em quadrinhos, quadrinhos como instrumento didático nas escolas e ilustração e direitos autorais. “Existe uma idéia de indústria de quadrinhos a partir de duas grandes referências no mundo: a norte-americana e ou japonesa. Fora desses lugares, esse modelo de indústria com a qual estamos acostumados a pensar nunca funcionou. Já a produção independente existe de fato, tem respaldo, mas tem um gargalo na distribuição”, avalia o ilustrador João Lin, presidente da Acape, e um dos curadores do FIHQ.
Daí se entende a presença de artistas menos conhecidos do grande público, mas com potencial de interagir entre iguais, trocar experiências na busca da necessária articulação, e conseqüente fortalecimento do mercado independente. Além de Moon e Bá, o FIHQ 2007 convidou o caricaturista Baptistão, o ilustrador Nelson Cruz, o chargista Jota A, o cartunista Márcio Leite, o antiartista Shiko, o caricaturista boliviano Alejandro Archondo (ou somente ARXONDO) e a peruana Avril Filomeno, ambos integrantes do coletivo de quadrinhos sediado em La Paz, Viñetas com Altura.
O homenageado deste ano foi o veterano RAL. Após intensa atividade nos anos 70 e 80, quando colaborou com O Pasquim e quase todas as publicações pernambucanas, RAL amargou alguns anos “no banco de reserva”, como ele mesmo definiu durante seu discurso de agradecimento. Sua criação mais conhecida, o Boi Misterioso, se tornou mascote e troféu do FIHQ 2007. RAL conta que a idéia foi fazer uma brincadeira com o auto do bumba-meu-boi. "Como a gente estava na ditadura, coloquei o Capitão como a autoridade, e o Boi como o povão. O boi original é bem colorido, mas lá embaixo está uma pessoa pobre, oculta. Aí eu fiz o boi com roupa toda remendada, um vagabundo que desobedece às ordens”, explica o artista, a quem tive o prazer de realizar uma entrevista.
Todos os convidados ganharam exposições individuais, com exceção de Shiko, cujo instigante trabalho já demonstrado em fanzines, grafites, telas e no recente livro Blue Note, estranhamente não recebeu o destaque que merece.
E, já que estamos falando do que poderia ser melhor, além da ausência de uma exposição para Shiko vale sinalizar alguns probleminhas, que não comprometem o saldo positivo do evento como um todo, mas que precisam ser registrados: 1) os trabalhos da mostra competitiva foram impressos em adesivo e colados sobre um suporte de plástico cujo relevo listrado alterou o aspecto original dos desenhos (ver foto ao lado); 2) o horário de visitação (de terça a domingo, das 15h às 20h) não foi cumprido corretamente, já que no segundo sábado do evento, às 19h45 não podia entrar mais ninguém na Torre Malakoff; 3) nos últimos dias da exposição, o espaço dedicado ao Coletivo Viñetas Com Altura, no 4º andar, e ao chargista piauiense Jota A (2º andar) estavam com problemas de iluminação, ou seja, durante a noite não era preciso muita boa vontade para conferir seus trabalhos; e 4) algumas HQs foram impressas com tamanho tão reduzido que ninguém conseguiu ler os balões.
Experimentando formatos - Outra nova prioridade do FIHQ é o incentivo a experimentos de linguagem através de publicações independentes. Para isso, criaram o Circuito Experimental, organizado pela Livrinho de Papel Finíssimo Editora, um coletivo de artistas que adotou como modelo as editoras underground norte-americanas Rip Off Press e Zap Comics, e assumiu o compromisso de editar títulos que custem, no máximo, R$ 5.
Do início do festival, até duas semanas depois do encerramento das exposições, o circuito lançou novos números da coleção Olho de Bolso, promoveu duas oficinas, o Na Rua!, em que artistas espalharam suas HQs cidade afora, o Cartum de Repente, em que, aos moldes dos repentistas, o público improvisou temas instantâneos com cartunistas, o Traços em Projeção, em que os 719 trabalhos inscritos na mostra competitiva foram exibidos em telão (o que acabou com o problema de falta de espaço).
Por fim, o circuito realizou neste último fim de semana a primeira edição recifense do 24 Hour Comic Day (24HCD), desafio internacional de criação de quadrinhos criado por Scott McCloud, o circuito encerrou sua programação. O evento, cujo objetivo é criar uma HQ de 24 páginas em 24 horas, se realizou no estúdio da Oi Kabum!, instituição parceira que recebeu todas as oficinas e palestras do FIHQ, para se encerrar às 9h do domingo. Os três vencedores em breve terão seu trabalho publicado pela Livrinho. Quem quiser saber como foi o evento, é só clicar aqui.
André, seu texto está excelente! Ótima cobertura do FIHQ, evento de quadrinhos mais importante do Nordeste (e parabéns por terem conseguido trazer uma edição do 24 hour comic day pra cá). É interessante ver como as prefeituras de Recife e Belo Horizonte (só para citar cidades fora do eixo Rio-São Paulo) dão valor à arte seqüencial, lembrando que Aracaju sedia o HQ Festival e em Teresina há o Salão de Humor. Isso pode servir de exemplo para Natal, que é tão deslocada em se tratando de apoio à essa mídia.
[ ]s,
Milena
Também gostei muito da cobertura. Fala dos pontos positivos e negativos, mostra as novidades e conta com a fala do Lailson, que criou o festival e hoje está afastado. Vozes diferentes, opiniões divergentes comuns e saudáveis num evento que já tem uma história. (Quem sabe em 2009, quando o festival fizer 10 anos, fazem uma HQ com a história do FIHQ!) Acho que esse tipo de cobertura é essencial para a própria organização do Festival. Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 29/10/2007 14:06
Andre,
como dia a minha filha de 8 anos, quando pega uma foto
bacana - "......demais!!!!!!!!!!!1",
estou arquivando para reler com mais calma, um abraço,
andre.
Pois é, Helena, eu acabei me esquecendo de mencionar a questão do Laílson. Uma lástima que isso tenha ocorrido, mas na memória de quem participou dos FIHQs anteriores (e graças a esse texto) certamente o Laílson terá cadeira cativa pelo empenho de ter concebido a idéia do evento.
[ ]s,
Milena
Oi Helena, Milena e pessoal,
A "questão" Laílson não deve existir à toa, creio que ambos os lados têm motivos que justificam o rompimento. O problema é que, para quem olha de fora, fica aquela coisa esquizofrênica, de uma parte negar a outra, uma situação não condizente com um evento tão bonito e bem feito como o FIHQ. Na imprensa daqui, ninguém toca no assunto - é normal, alguém some, e pronto?
Quem sabe não é preciso algum tempo, e daqui a alguns anos o homenageado seja o próprio criador do FIHQ?
Bela matéria, André. Leio agora com atraso...
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