Essa semana terminou a sétima edição do Festival Internacional de Linguagens Eletrônicas, cuja contração é FILE e o apelido entre todo mundo que conheço é Filé. O festival é formado por uma série de eventos, e a abrangência do tema garante uma multiplicidade ímpar de interpretações e possibilidades tanto por parte dos artistas participantes, quanto do público. Participa gente de todo mundo, só nesse ano foram cerca de 200 outros artistas de mais de 30 nacionalidades. E o incrível é que o acesso a todas essas interpretações artísticas baseadas em novas tecnologias é totalmente gratuito.
A sala de exposições, que combinava as 18 instalações, 6 games, o File Media Art (dedicado a net art) e o FILE Cinema Documenta (ufa!) permanece movimentada ao longo dos dias: o SESI, que sedia o evento, tem localização privilegiada na av. Paulista e é tradicionalmente um espaço para eventos gratuitos, de shows instrumentais a peças teatrais. Foi tanta coisa rolando que eu mesmo não consegui conferir tudo.
Do File Symposium, série de 32 palestras e mesas-redondas, não vi nada, apesar da programação tentadora. O FILE Hipersônica, dedicado à música, teve como destaques, na minha opinião, Muvi, de Ricardo Carioba e Fábio Villas Boas e Somativo, de Palo Hartmann e Lornardo Gonzáles. Muvi consistiu de um piano de cauda e sua interação com um telão todo pixelado. Somativo foi uma bela sessão de música improvisada feita com guitarra preparada e flauta, com loops montados na hora e uma projeção muito bonita. A performance aludia às guerras no Oriente Médio de forma leve.
Um dos destaques nacionais entre as instalações foi o artista e pesquisador paraibano Christus Nóbrega, que teve seu trabalho LIVR(E/O) (foto da matéria) avaliado e selecionado pelo corpo de curadoria do FILE.
Você tem um trabalho acadêmico além de sua produção artística. Como essas atividades se articulam?
Atuei como professor na UFCG, ensinando no curso de design e trabalhando como pesquisador de tecnologias apropriadas. Essa experiência foi fundamental para que eu viesse a entender que toda tecnologia, seja ela apropriada ou de ponta, é uma forma do homem compreender seu corpo e sua mente. Nesse momento, estava concentrado em estudar, documentar e aperfeiçoar os modos tradicionais de como os homens transformavam a matéria-prima em artefatos, e em detectar nesses objetos os signos dessa tradição tecnológica.
Em decorrência disso, busquei ampliar minhas reflexões da relação do homem com a tecnologia e entrei no mestrado em Arte e Tecnologia da Unb. Na pós-graduação iniciei pesquisas em arte robótica, investigando e propondo modos de como criar vida artificial emocionalmente ativa, capaz de socialização com humanos, e assim, aproximar a tecnologia de ponta na vida cotidiana das pessoas, tal qual a tecnologia apropriada estava presente outrora na vida de muitos.
Atualmente, também leciono nos cursos de graduação de design e artes do Instituto de Artes da UnB, e minhas áreas de ensino e pesquisa estão diretamente relacionadas com as áreas de abordagem de minha produção artística. Logo, não consigo desassociar o meu fazer artístico de minha atividade acadêmica, na medida em que esse fazer surge de investigações realizadas, principalmente, dentro da universidade.
De onde vem sua necessidade/inspiração pra fazer arte?
Prefiro chamar essa faculdade de necessidade, porque para mim ela é vital. Mas, não conseguiria dizer de onde ela vem, pois se origina de fontes que mudam constantemente. Não há um centro em comum, uma mesma energia motivadora para criação de minhas obras. Elas podem nascer de uma necessidade tecnicista, quando me sinto desafiado a dominar ou desenvolver determinada tecnologia, outras vezes podem se desenvolver a partir de minhas inquietações trazidas pelas memórias... Outras vezes de inquietações sociais... Porém, esse denominador comum esteja, talvez, no resultado de minha produção artística que procura a investigação não da vida como ela é, mas da apresentação de caminhos de como ela poderia vir a ser.
A obra que você apresenta no FILE, LIVR(E/O), parte do campo táctil para o campo visual, usando bi e tri dimensionalidade e signos que parecem fazer referência ao ocultismo. Como surgiu esse trabalho?
Tudo começou quando na adolescência herdei alguns tratados raros de ocultismo. Eram livros escritos em latim, grego, e outras línguas herméticas, repletos de desenhos e símbolos misteriosos e inacessíveis à razão. Eram imagens que me fascinavam, mas não fazia a menor idéia de como me servir delas espiritualmente. Quanto mais eu as estudava menos eu as entendia. Essa inquietude me conduziu ao trabalho LIVR(E/O), uma obra de Realidade Misturada em que objetos materiais servem de suporte para a invocação de objetos virtuais, discussão igualmente abordada nesses tratados ocultistas. Na obra um livro é captado por uma webcam e tem sua imagem projetada em um telão. Um programa de computador rastreia as imagens das folhas desse livro, e quando encontra os desenhos pré-programados projeta sobre eles figuras virtuais em quatro dimensões. Esses desenhos foram criados a partir dos selos pesquisados nos tratados. O apelo ao toque e a manipulação do livro é fundamental na obra, com ele o interator poderá (re)criar a realidade e invocar seres virtuais alusivos aos seres arquetípicos que encontrei nos tratados ocultistas. O ato, o gesto, o corpo e a matéria, em conjunto, são os elementos fundamentais e indissociáveis nesse rito artístico.
O FILE é um acontecimento com múltiplas atividades, de palestras a exposições e apresentações musicais. O que você achou do evento? E de sua participação?
O FILE proporciona um importante momento de convergência do pensamento e da ação sobre as novas mídias. É um dos importantes espaços para a arte e tecnologia que o Brasil tem a iniciativa de criar. No FILE podemos interagir com um diversificado recorte da produção contemporânea eletrônica do mundo, bem como, com seus desenvolvedores e com o público. Transitar por esses três pilares foi pra mim muito renovador, pois são das trocas que amplio cada vez mais as possibilidades e desdobramentos de meus trabalhos.
É isso aí , pessoal, por hoje é só! A boa dica da Vivian pra esperar o próximo FILÉ é acessar o site, onde dá pra conferir os trampos online.
André, o texto ta muito bacana sempre morro de vontade de ir no File. Só podia melhorar na diagramação. A parte da introdução está um bloco muito grande, podia dar um ponto parágrafo. E na parta das perguntas acho que cabe um negrito ou itálico para se destacarem das respostas. Abraços!
Nanna Pôssa · Salvador, BA 30/8/2006 00:32
valeu nanna! melhorou? abs!
André Maleronka · São Paulo, SP 30/8/2006 01:58não tem mais imagens não? abraço!
Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 30/8/2006 14:56
aí estão felipe! abs
André Maleronka · São Paulo, SP 30/8/2006 15:10
Olá, André!
O link para o site do evento é:
http://www.file.org.br/
Vale falar que todos os trabalhos online podem ser acessados por ali.
maçaroca, camaras. e o texto mais do q providencial sobre o FELCO? Aquilo sim é integração latina, de forma horizontalizada...
velot wamba · Pouso Alegre, MG 3/9/2006 13:57Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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