Joaquim Mulato é um homem calmo, de pele fina, queimada pelo sol, com marcas do vitiligo nas mãos. Espirituoso, de voz baixa, mas forte. Decurião da Ordem dos Penitentes em Barbalha, munícipio da região do Cariri, sul do estado do Ceará. O posto significa ser líder da Ordem e conduzir, com a cruz na mão, cerca de 15 homens no acoite, na purgação da carne pelas lâminas de ferro do cacho, instrumento de suplício. A autoflagelação é feita sob a entoação de benditos cantados por Joaquim e Severino, segundo na hierarquia da Ordem, com trechos respondidos pelos que estão se penitenciando.
A autoflagelação pode ser feita em cruzeiros (que podem representar devoção ou sinalizar o lugar onde alguém morreu), nas portas de capelas (nunca dentro para não sujar as paredes de sangue) e no cemitério, à noite, longe de qualquer visibilidade. A penitência tem que ser oculta para ninguém ver. As lâminas cortam até que Joaquim ache que já cai muito sangue. Isso pode durar até meia-hora. Então canta com Severino: “O sangue era tanto, o sangue era tanto, que corre no chão. O sangue era tanto, que corre no chão. Perdoai senhora esse coração.” E depois emenda: “Era uma vez o pecado. Tu não me ofenderão e eu vos peço chorando. Ai ai filho, não se acoite mais”.
- “Aí eu vou, tiro uma folhas de mato lá no cemitério e passo nas costas deles pra tirar o sangue”, fala Severino.
- “Qual é a planta?”, pergunto.
- “Qualquer folha do mato”.
- “E se tu pegar um pé de urtiga?”, pergunta brincado Joaquim. Urtiga é planta que arde.
(risos)
Com 86 anos, o decurião é penitente desde os 16. “No tempo que meu pai era vivo minha vontade ele não deixava, já com medo podia deixar e nós se atrapaiar (se refere a responsabilidade de ser penitente). Ele não deixava não. Quando ele morreu em 35, em 36 entrou um, depois entrou outro, depois outro (irmãos). Os outros já morreram, eu que tô aqui ainda. O chefe (antigo decurião) já tava idoso, morenão, mas idoso. Era um homem bem acochado, um homem de uma memória boa, trabaiadô. Quando ele não pôde mais, eu tomei de conta, aí aqueles mais de eras: ‘Não vou andar mandado por um menino não’”, fala sentado na sala de sua casa onde mora só, solteiro como sempre foi, apesar dos penitentes não precisarem fazer voto de castidade. Os penitentes não negam totalmente o prazer, podem ter relações sexuais no casamento, mas não podem beber ou ir a festas.
Joaquim virou decurião novo, ainda na primeira metade da década de 40. Tinha menos de 25 anos. Como disse, alguns penitentes relutaram em acompanhar um menino, mas depois Joaquim foi ganhando respeito. Hoje, continua como decurião, mas não se penitencia mais. Não com o cacho, mas ainda jejua na Quaresma e pede esmola durante a Semana Santa como dita a tradição. É um dos Mestre da Cultura, título concedido pela Secretaria de Cultura do Estado. Tìtulo emoldurado, pendurado em uma parede da casa de Joaquim ao lado de um retrato pintado dele entre Frei Damião e Padre Cícero.
Severino já está desde os oito anos. “Meu pai era penitente também, mas nós de casa não sabia. Só quem sabia era ele e mãe. Os filhos não sabia. Aí quando eu fiquei com 8 anos ele me levou pra mode eu andar também. Aí eu entrei e graças a Deus não me dei mal não que tô até hoje. Já fiz foi aprender os bendito tudim que eu não sabia de nada”, conta. Severino tem dois filhos que hoje moram no estado de São Paulo. Diz já ter feito 16 viagens pra lá. “Quando vou, volto cheio de dinheiro e roupa”. Severino tem a voz mais alta que a de Joaquim. Parece ter mais fôlego. É cinco anos mais novo. Ao lado de Joaquim, fazem um dueto com a voz arranhada típica dos cantos religiosos do nordeste, sejam feitos por homens ou por mulheres.
Ouvindo Joaquim, sente-se uma paz que vem de sua simplicidade e espirituosidade, nada da imagem de um fanático a proclamar os perigos do demônio que um desavisado ateu tão acostumado com os pastores evangélicos neopentecostais, como eu, poderia fazer. A relação popular com o sagrado ganha no corpo franzino de Joaquim uma força que supera o culto à imagem de Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Não sei explicar, mas ouvindo os benditos algo −;; que prefiro chamar de forte do que de transcendente −;; me faz ter profundo respeito.
Desde Padre Ibiapina
A autoflagelação é uma tradição medieval mas é forte na região do Cariri, principalmente pela atuação de Padre Ibiapina na segunda metade do século XIX. Os jornais davam conta de um padre que arrastava pra mais de 10 mil pessoas sertão cearense adentro, em missões que, dependendo da cidade, demoravam até doze dias com pregações, procissões, missas cantadas, penitências públicas e discursos dos ricos e poderosos da cidade.
O nome do missionário: José Antônio Pereira Ibiapina. Ex-advogado, ex-deputado federal e ex-delegado de polícia, cearense, nascido em Sobral, ordenado padre em 1853, em Olinda. Logo depois começaram suas missões pelas províncias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, até chegar, no final de 1860, no Ceará. Por aqui ficou. Homem de fala eloqüente que via na moral dos sertanejos vícios que deveriam ser corrigidos através de orações e penitências. O padre arregimentou milhares de pessoas e influenciou religiosos como Padre Cícero e Antônio Conselheiro.
O Padre foi figura polêmica e ambivalente, como retrata a pesquisadora Josiane Ribeiro em seu livro “Penitência e Festa: as missões do Padre Ibiapina no Ceará”. Josiane busca fugir de reflexões unilaterais que tratem o padre apenas como um articulado religioso a favor dos poderosos. Se em suas missões o padre pregava a ordem social, reforçando relações paternalistas entre trabalhadores e proprietários, por outro elas eram momentos em que os sertanejos poderiam se reapropriar, como nas festas após as penitências, quando aproveitavam para beber, namorar ou mesmo acertar contas como no caso de um delegado de polícia que riu de uma oração. Foi açoitado e depois expulso da comunidade. Retaliações, em alguns casos, incitadas pelo próprio Ibiapina.
Em trecho do livro: "A religiosidade da gente sertaneja abriga, sem maiores problemas, a dor e a penitência, ao lado da alegria e do prazer. [...] O que pretendo deixar claro é que existe uma ambigüidade estrutural no que concerne a penitência e prazer na doutrina católica que, por sua vez, se configura na experiência religiosa da gente do sertão".
Apesar dessa ambivalência, os planos do bom e do mau são bem delimitados numa visão maniqueísta que tem origem na Contra-reforma, com base em Missão Abreviada, do padre português Manoel José Gonçalves Couto, livro que dava os subsídios para a pregação. Nas palavras de Joaquim Mulato: “A reza é o seguinte, ela é que ensina o bom caminho se o camarada quiser, se não quiser tem duas estradas: uma esquerda e outro direita. Quem quiser seguir na direita siga, quem quiser seguir na errada siga. A reza é pra saber que há um Deus que nos protege. Canta os benditos da Paixão de Cristo, reza os terços e oferece as almas do purgatório. Pra defesa do nosso espírito, nós só pode alcançar de Deus se tiver penitência e tombém se pedir muito a Deus”.
A penitência também foi reforçada por um surto de coléra e as grandes secas no final do século XIX.
Em Barbalha, a Ordem de Joaquim Mulato (que afirma que seu cacho pertenceu a Padre Ibiapina) reinvidica a tradição de Ibiapina. Existem muitas outras ordens de penitentes no Cariri. “A renovação é pequena, mas o fato de assegurar uma manutenção já denota que a prática não foi de toda largada, agora o que a gente tem percebido é que os grupos de penitentes de outros municípios abriram mão da autoflagelação, então eles cantam, pedem esmolas, fazem uma série de outras práticas, mas eles têm aberto mão da autoflagelação”, avalia o professor Gilmar de Carvalho, estudioso da “cultura popular”, ou, como prefere chamar, da “tradição”.
- “Se eu chegar a morrer e esse aqui (Joaquim), acabou-se penitência, porque não tem um que saiba, não tem um que saiba (cantar os benditos)”, diz Severino.
- “Você não fica preocupado com isso não?”
- “O que que eu vou fazer?”, responde com lucidez Severino.
Pedro, não consigo imaginar contribuição mais comovente e apropriada para a véspera de Natal. Seu texto leva a uma reflexão social e religiosa muito apropriada para essa época do ano. Só tenho a agradecer. Abs e feliz natal!
ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 24/12/2006 16:31
Salve Ronaldo. Obridado. Esse texto deve ter sido o mais complexo que eu já fiz. Decidi não racionalizar muito a abordagem (apesar de ter me aproximado da reflexião acadêmica na coordenada) e me entregar ao sentimento que me tomou ao ouvir os dois cantando os benditos.
um abraço e vamo que vamo, rumo 2007.
Matéria linda Pedro, assim como é também a melodia dos cantos - muito emocionante!
ernesto · Rio de Janeiro, RJ 26/12/2006 19:38
Pedro, fico encantada ao entrar em contato com seus textos: sentimento e realidade trançados por bons períodos. Sua escritura flui tão natural que nos conduz ao espaço físico e às emoções do personagem.
Bom 2007 ! Ótimo 2008 ! Maravilosos anos vindouros !
Incrível! Mas deixemos as nossas reflexões acadêmicas para depois, no momento vale apenas refleitr com os sentimentos o credo destas pessoas.
jujuba · Santo André, SP 27/12/2006 09:58
Pedro,
Sempre gostei de seus trabalhos, textos limpos de bom jornalista.
A matéria é ótima.
A mim, se por um lado encanta, por outro assusta.
Ve-se, por estas e outras, que a ignorancia ainda é o maior dos
fragelos deste país.
Parabéns.
Emocionante o texto...nós faz refletir sobre nossos valores! Parabéns!
Bianca Pyl · São Paulo, SP 27/12/2006 13:29Como todos escreveram sobre o texto, registro aqui meus parabéns sobre as fotos... abraço!
Júlia Tavares · Belo Horizonte, MG 27/12/2006 14:08O crédito das fotos fica por conta do Francisco de Sousa.
Pedro Rocha · Fortaleza, CE 27/12/2006 14:11
Cara, acho que esse é um dos teus melhores textos.
Porra bicho, parabéns.
Que o trema vá longe!!!
rafael
Pedro, parabéns pelo maravilhoso texto.
Sou idealizadora de um projeto musical chamado Folia de Santo , onde, depois de quase 10 anos de observação de músicas do universo devocional brasileiro (benditos, ladainhas, incelências, novenas...), organizei um repertório com algumas dessas músicas e venho me apresentando desde 2004, ao lado de mais alguns músicos pernambucanos.
Aos poucos fomos compondo um repertório autoral para esse projeto, também estamos finalizando a gravação do CD e continuamos a realizar apresentações dentro e fora de Igrejas.
Obrigada por seu texto! Obrigada por incluir as músicas! Origada por contribuir para a divulgação desse universo ainda tão desconhecido por muitos.
Feliz 2007!!!
Também gostei muito do texto, das fotos, dos áudios! Fiquei me lembrando das vezes em que passei pelo Cariri. Alguém de lá (alô pessoal da Fundação Casa-Grande!) bem que poderia escrever sobre o pessoal de Pedro Bastista, que tem uma casa de romaria em Juazeiro do Norte. Mando aqui um texto que escrevi para o livro de fotos do projeto Música do Brasil:
"A ladeira que sobe até o Padre Cícero, gigantesca imagem que domina a paisagem de Juazeiro do Norte, é ladeada por muitas casas de peregrinos. Cada sala tem um altar mais caprichado que o outro. Mas nenhum deles se compara, em matéria de decoração, com a sala de oração da casa de Madrinha Dodô, situada bem no início da subida. Não há lugar vazio nas paredes e nas mesas do altar. São milhares de santinhos, quadros coloridos retratando cenas bíblicas, terços, imagens de todos os santos, flores, velas e luzes de natal.
A casa fica aberta, para quem quiser ser benzido por Dona Alzira (que invoca um “espaço de cura” com suas belas orações improvisadas) ou mesmo para o descanso de peregrinos que não têm pouso na cidade. Madrinha Dodô, ou Mãe Dodô, conhece bem os sacríficios de muitos desses devotos. Ela mesmo já percorreu várias vezes os doze ou treze dias de caminhada que separam Juazeiro do Norte, no Ceará, de Santa Brígida, na Bahia, onde morou por muito tempo.
Em Santa Brígida vive o “pessoal” de Pedro Batista, um místico nordestino que conseguiu realizar seu sonho de criar, desde o final dos anos 40, uma comunidade religiosa que dispensa a noção de propriedade privada. Mãe Dodô foi uma de suas principais auxiliares.
O pessoal de Pedro Batista, vindo de todo o Nordeste, também mistura muitas tradições musicais. A principal delas é uma Folia de São Gonçalo, tocada por violas, violinos, pandeiros e adufes. Hoje é mais fácil ouvir os cantos da folia em Juazeiro do Norte do que em Santa Brígida. Quase vizinho de Mãe Dodô, mora Seu Joaquim Ferreira da Silva, mestre e violinista, que cuida de uma pequena capela dedicada ao Mandamento de São Gonçalo, e põe a folia para tocar todos os domingos."
Eu que acompanho esse cara (Pedro) de perto, ja tem uns 3 anos, sei o quanto ele se preocupa antes de escrever um texto, antes de retratar as pessoas, antes de se colocar como autor.
A coisa fica mais séria quando se coloca a religião no meio, ele que é atheu e materialista histórico se vê na obrigação de respeitar o entrevistado...
Mas, se entregando ao estranho, lá vai ele escrever sobre religião, de perto, como não poderia deixar de ser.
Um abraço meu caro, muito bom o texto.
Pedro Rocha, parabéns pelo texto, meio jornalístico, meio etnográfico, todo bom. Aqui em Sergipe tem penitentes em Ilha das Flores. Tenho interesse pelo messianismo de Ibiapina, Zé Lourenço, Pedro Batista, Santa Dica, Zé Maria e mais alguns peregrinos do apocalipse que tentaram efetivar um paraíso na terra. O catolicismo mestiço pregado carece de interlocutores como você!
Thiago Fragata · São Cristóvão, SE 28/12/2006 17:34
Pedro, texto sensível e profundo.
Parabéns pelo respeito com que você tratou o tema.
Um dos seus melhores, com certeza.
Beijos.
Pedro,
Excelente relato, chocante e comovente. E ao mesmo tempo, um testemunho involuntário da (triste em muitos aspectos) tradição católica do prazer egocêntrico no sofrimento.
Mesmo para quem já leu uma infinidade de textos sobre os Penitentes, o texto flui interessante. Parabéns Pedro, e feliz 2007 para você.
Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 28/12/2006 23:54
Pedro, o texto é um espetáculo!
Legal que para além da profundidade do texto, você deixe transparecer a sua sensibilidade... assim, é possível sentir a realidade sofrida e maravilhosamente mistériosa do cenário místico do cariri.
Parabéns e obrigada. Estas são as primeiras linhas que tenho o prazer de ler no OVERMUNDO, pois estou chegando neste mundo agora.
Pedro, estou sendo redundante depois do que todos acima falaram, mas não há como não: excelente texto. Parabéns!
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 29/12/2006 21:01Não tem jeito, vou chover no molhado: Pedro, que texto é esse?!?! Olha que já vi e li incontáveis matérias sobre penitentes, mas nenhuma que abordasse o tema desta forma sensível, honesta e humana. Repetindo todo mundo acima: Parabéns!!!!
Marcelo Rangel · Aracaju, SE 23/1/2007 16:22Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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