Fim da Canção

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José Marcelo Zacchi · Rio de Janeiro, RJ
23/2/2010 · 47 · 6
 


Fim da canção é um mote sedutor. Tem a atração acolhedora de toda melancolia.

Termino de ler o ensaio de Fernando de Barros e Silva, na revista Serrote, sobre o assunto.

Como todos antes dele, ele persegue a lebre levantada por Chico Buarque no final de 2004 (em entrevista ao próprio Barros e Silva): "Assim como a ópera, a música lírica, foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido. [...] Quando você vê um fenômeno como o rap, talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou."

O texto é bom, repleto de insights e referências instigantes. A tese é simples: a proposta de Chico não pode ser tomada ao pé da letra, ou da partitura, mas sim em seu conteúdo simbólico. A canção, é claro, continua a existir, apenas com menor originalidade e centralidade (como a ópera, sempre se poderia dizer). Não vem ao caso discutir isso. O fim que conta é o do mito/projeto dela como expressão refinada de uma identidade comum do povo brasileiro.

E conta mais, propõe Fernando, pelo que revela dos caminhos do Brasil de hoje: "Se essa discussão vai além de um cabo de guerra tolo entre especialistas, para tocar, como sugerimos, em um nervo sensível da cultura, é também porque ela transborda por todos os lados e exprime uma dúvida de fundo a respeito do momento histórico atual."

O fim do mito da canção seria o correspondente estético do esgotamento de seu projeto político. Fala José Miguel Wisnik: "No Brasil, a possibilidade de haver música popular difundida em grande quantidade e com extraordinária qualidade ligou-se ao mesmo tempo ao horizonte de uma modernização progressista do país." Este horizonte, diz Barros e Silva, é que teria sumido junto com a canção do nosso campo de visão.

Não é pouca coisa. E alguém poderia sugerir que é projeção demais para um pobre violão (tanta expectativa em torno da música popular faz pensar no Fitzcarraldo de Werner Herzog, empenhado em levar ópera Amazônia adentro). Mas é justo também: a canção popular no Brasil guarda a marca profunda de um tempo (ou de um século, como propõe Chico), e um tempo em que todos souberam cantar "Chega de Saudade" tem sua beleza a ser velada.

Só que Fernando de Barros vai além. Logo depois de alertar que o mito/projeto em questão nunca foi muito mais do que das classes médias letradas dos centros urbanos, trai-se na constatação de um "rebaixamento brutal do gosto" e uma "regressão da audição" no Brasil de hoje, por conta da hegemonia de gêneros como o neosertanejo, o axé ou o pagode (e é sintomático que não lhe ocorra então falar em funk, brega ou forró eletrônico). Recorre a uma excelente oposição proposta por Marcelo Coelho entre "Gente Humilde" ("e eu que não creio, peço a Deus por minha gente, é gente humilde, que vontade de chorar"), de 1969, e "Subúrbio" ("lá não tem claro-escuro, a luz é dura, a chapa é quente, que futuro tem aquela gente toda), de 2006, para enxergar aí um Chico Buarque, como aquelas mesmas classes médias letradas, inquieto diante da afirmação regressiva de linguagens e poderes periféricos.

Nesta leitura, o "fala Penha, fala Irajá, fala Encantando, Bangu, fala Realengo" de "Subúrbio" seria antes uma rendição do que uma saudação. O "evoé, jovens à vista" de "Paratodos", em 1993, não teria sido bem para esses jovens (os da "língua do rap"). E Chico estaria então "exilado dentro de casa" - a canção, o Rio de Janeiro, o Brasil.

Não é o caso de disputar com Barros e Silva a primazia da interpretação de Chico Buarque (o mesmo de "Carioca" e "Baioque"). Mas talvez seja o de propor que cada um fale por si.

Chico em 2004 apenas cantava a bola da década de Lula, das periferias emergentes e do "agora por eles mesmos". E o fazia com a grandeza e generosidade habituais, sem em nenhum momento pedir que não se altere o samba tanto assim. Não é a ele portanto que qualquer saudosismo deve ser imputado.

Já eu, por exemplo, escrevo tudo isso sem conseguir deixar de pensar na "Lapa" de "Guinga e Pedro Sá", "Lula e FH", cantada por Caetano ainda no ano passado. Ou em Mano Brown reverenciando "Construção" na Rolling Stone. No êxito não-tutelado dos dois filhos de Francisco, de Chimbinha e Joelma, Marlboro e Márcio Victor (e de Lula também, por que não?). Em Marina Silva e MV Bill advogando educação de qualidade.

As imagens poderiam multiplicar-se, até bem além dos limites do "nosso samba" de "Feitiço", que já em 2002 tinha "mangue beat, berimbau, hip-hop, Vigário Geral, Capão Redondo e Candeal". E funk. Imagens todas, creio eu, da mesma década antevista por Chico e que escapam sugestivamente ao radar de Barros e Silva.

Não ignoro, é claro, as acusações de complacência que sua invocação pode despertar. Nem o muito por avaliar na distância entre o país, a "nova classe média" e a musicalidade que resultam daí e os roteiros de progresso e inclusão traçados pela canção. Mas gosto de refletir sobre a oposição entre as repetições insistentes de "tem" em "Feitiço" e de "não tem" em "Subúrbio". E vejo inícios (ou continuações) demais em tudo isso para satisfazer-me com o "fim de linha histórico" a que Fernando de Barros chega no final de seu ensaio.

Tem mais samba o perdão que a despedida. Diante de um texto tão genuinamente belo como o de Barros e Silva, não serei eu a reivindicar a massa afinal comendo o fino biscoito que fabricamos. No fundo, a motivação fundamental desse artigo é apenas a de não poder deixar de notar os riscos de excessos no trato tanto com mitos, quanto com contramitos. Ao apontar a mistificação contida nas expectativas das classes médias letradas em relação à canção, Fernando de Barros lembra como elas "muitas vezes, inclusive no período em questão, confundiram suas aspirações (e ilusões) com os interesses nacionais". Talvez seja preciso cuidado para não fazer o mesmo com as desilusões.

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graça grauna
 

O que inquieta é afirmação regressiva de linguagens. Parabens pela postagem.

graça grauna · Recife, PE 23/2/2010 08:43
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Helena Aragão
 

Zé, que coisa boa ler seu texto e ser apresentada a este ensaio do Barros e Silva, de fato muito bom. O que ele fala (e você reflete) sobre a a música popular funcionar, no auge, como "um espelho afetivo (...) compondo uma atmosfera comum e um horizonte partilhado" é bem pertinente. As transformações vão se dando por conta de tantos fatores, como a velocidade da informação, a cultura da imagem, a indústria do disco em decadência... Dá para entender que um dos principais nomes da canção brasileira no século XX dê um tom um pouco desanimado (mas sempre elegante) à sua fala. Cabe a nós, leitores e fãs, interpretarmos o impacto disso dentro do nosso universo. E neste ponto, acho que você foi particularmente feliz na sua conclusão sobre as aspirações e ilusões.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 24/2/2010 09:31
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Cintia Thome
 

Sua análise sobre o texto de Barros e Silva é interessante e inteligente.
Chico e suas canções da realidade ao amor platônico, mais poesia, uma realidade nas entrelinhas acompanhada de sonho.Hoje se diz mais abertamente os conflitos do cotidiano de maneira mais urgente com um entendimento mais fácil e sem restrições políticas e mais das ruas, das cidades.Coloquial se modifica com mais velocidade como também os ritmos.
Um texto a pensar e estudar cada link.

Muito bom mesmo.

.

Cintia Thome · São Paulo, SP 26/2/2010 08:06
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José Marcelo Zacchi
 

Olá Cintia, Helena, Graça, obrigado. Acho que é isso mesmo: roda girando, e que venham as próximas faixas...
abraços

José Marcelo Zacchi · Rio de Janeiro, RJ 1/3/2010 00:25
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eduardo ferreira
 

muito bom, zé marcelo. simples e direto. a raiz das mudanças é que dão base para os novos e, por quê não, os velhos vôos. chico é atemporal em sua poética letrada (sub-super)urbana e vai alçar vôos enquanto dure. alguém duvida?

belo ensaio, mas, como sempre, nada fecha o universo das possibilidades.

a explosão de ritmos e deslocamentos das centralidades é fato nesse macrocosmo brasilis musical difuso e de múltiplos temperos.

salve salve!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 1/3/2010 16:47
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Mansur
 

Quanta lucidez, Zé. Gostei muito, principalmente da conclusão.
Um grande abraço e parabéns!

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 1/3/2010 23:33
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