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Fim do Sonho-recorrente.

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Dora Nascimento · Olinda, PE
28/8/2006 · 4 · 0
 



Desde a minha mais tenra adolescência, um sonho-pesadelo me perseguia assutadoramente. Digo sonho-pesadelo porque o sonho começava sempre belo, e a cena era sempre a mesma, com sutis diferenças, como por exemplo, haver ou não pessoas. O cenário era no entanto, sempre o mesmo: "Estou numa bela praia. Céu azul, mar limpo, sol delicioso, brisa suave, eu estou sentada na praia, relaxada - com ou sem acompanhantes - olhando o horizonte, quando de repente, eu vejo se formar uma imensa onda gigante. Eu me levanto em pânico e tento fugir, porque sei que aquela onda devorará tudo o que estiver ao seu alcançe, e o seu alcançe é todo o espaço num raio de uns dez quilomentros. Quando há outras pessoas, eu tento avisá-las, mas ninguém parece temer a tal onda. " Por isso é um sonho-pesadelo, porque eu fico muito angustiada em querer fugir, e também por visualizar-me sendo engolida pela tão medonha onda."
Bem, um dia comentando este sonho-recorrente com uma amiga, ela me disse: A onda é seu pai. Ele não era marinheiro? Eu respondí: Era. E era pescador também. Ela disse: Então...
Fiquei refletindo à respeito por um dia inteiro mas não vi nenhuma ligação a não ser o fato de meu pai ter sido sempre um homem do mar, e só. E mais, meu pai já faleceu. Pois bem. Dias depois desta conversa, eu tive novamente o sonho recorrente, mas com um detalhe muito forte a mais, o dia não estava lindo, de sol gostoso, mar azul e brisa suave. Era um dia negro, fechado, escuro, com nuvens ameaçadoras, eu estava sozinha, sentada - desta vez sobre uma rocha no mesmo nível do mar - e claro, olhando o horizonte, e já esperando a onda se formar. Quando ela começou a se formar, eu - para meu próprio espanto - não tentei fugir amedrontada, fiquei olhando-a fixamente e pensei: Venha, estou esperando você vir me engolir. E para maior espanto meu, a onda simplesmente não cresceu, aliás, sua espuma ameaçadora morreu ali mesmo no distante horizonte. Mas o ar de tempestade, de mau tempo, de dia escuro ficou, e fazia frio. Mas eu me acordei aliviada, e sabendo que este sonho-recorrente nunca mais me perseguirá, porque meu pai está morto, e depois que ele morreu foi que eu consegui entender melhor o que ele era como ser-humano e perdoá-lo por todos os males que ele me causou e pelos que ele nunca mais poderá me causar. Nem a mim, nem aninguém, nem a ele mesmo.

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