Finado Gregório: mártir, homem ou santo?

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Eugênio Rego · Teresina, PI
21/8/2006 · 78 · 7
 


O livro “Motorista Gregório: Martir ou Santo?”, de William Palha Dias e Delfino Vital da Cunha Araújo, relata, sob forma de romance, o crescimento da fama entre os que acreditam nos poderes milagreiros do jovem paraibano Gregório Pereira dos Santos, que foi executado no início do século passado às margens do Rio Poty, em Teresina, depois de preso por três dias sem comida e água.

O livro conta a tragédia do motorista que chocou a população local, vista sob ótica de jornalista, personagem que busca entender importância do mito para a religiosidade popular.
Como o próprio título sugere, o livro pretende analisar as facetas de um homem comum que a fé de pessoas simples colocaram no altar, a exemplo de tantos outros casos espalhados pelo Brasil e pelo mundo.

Em 1927, o adolescente Gregório foi levado à cidade de Barras, 119 km ao norte da capital, para trabalhar como motorista do único automóvel existente na região, que pertenceu a um comerciante e depois à paróquia.

O padre da cidadezinha na época, Monsenhor Lindolfo Uchoa, preparava-se junto com autoridades locais para receber a visita do bispo diocesano de Teresina, D. Severino Vieira de Melo. O grupo rumou então para a capital a fim de conduzir o bispo até Barras.

Na saída da cidade para a capital, o automóvel dirigido por Gregório, em um infeliz acidente, atropelou e matou o filho do tenente-delegado Florentino Cardoso. Recuperando-se ainda de uma doença, a criança não resistiu aos graves ferimentos do choque com o automóvel e sua morte causou comoção em toda a região.

Conhecido por sua braveza, Florentino Cardoso manteve o jovem Gregório Preso durante três longos dias, sem comida nem água. Ao ter a certeza do falecimento do filho, o delegado trouxe o motorista acorrentado até Teresina, mas precisamente a margem do Rio Poty, na divisa entre os bairros Cabral e Porenquanto, e o executou com três tiros. Testemunhas afirmam que Gregório teria morrido clamando por água.

É comum passar pelo memorial em forma de gota erigido em sua homenagem e ver dezenas de garrafas d´água, ex-votos dos que acreditam terem sido agraciados pela interseção divina do Finado Gregório.

Aos poucos, a sua figura ganhou a piedade popular e, pelas condições de sua morte, cresceu a idéia de que se tornaria um intercessor divino, um eleito. “A maneira brutal com que os fatos se efetivaram, por certo, ensejou oportunidade para que a crendice popular revigorasse, transformando aquele inexperiente profissional num símbolo, até certo ponto, divinizado”, analisam os autores William Palha Dias e Delfino Vital da Cunha Araújo.

Eles optaram por romancear a história colocando o fato como um relato do personagem Apoliano Lemos, jornalista conterrâneo de Gregório que vem a Teresina por causa da inauguração do monumento ao motorista, localizado no suposto local onde ele teria sido executado, hoje região da principal avenida da cidade e que a acesso à zona leste da capital. O monumento em forma de gota d’água foi erigido em 1983.

Apesar de reproduzir uma tendência do inconsciente da população, Palha Dias e Cunha Araújo fazem um contraponto sobre os limites reais entre fato e mito, envolto em brumas pela vontade de transformar o homem em santo. “A crescente preocupação popular em aumentar a dimensão das ocorrências fez com que a notícia (do assassinato de Gregório) se espalhasse e, sem uma análise mais prudente ou meditação cautelosa, as coisas concorressem para impulsionar o ardor nos corações empenhados em dar vazão às emoções da fé em relação ao sobrenatural”.

Palha Dias teve um outro romance seu, “Palha de Arroz”, adaptado para o cinema. Quem sabe o romance sobre Finado Gregório não forneça subsídio para um novo roteiro, já que a a tragédia já rendeu um documentário feito por uma TV local.

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Fábio Fernandes
 

Eugenio, esse livro é independente? Qual a editora?

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 29/8/2006 19:17
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Eugênio Rego
 

Fábio, é um livro independente sim. Infelizmente só é encontrado por estas bandas. Entre em contato com a Academia de Letras do Piauí e muito provavelmente você o encontrará por lá. Um abraço.

Eugênio Rego · Teresina, PI 31/8/2006 10:14
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Fábio Fernandes
 

Valeu, Eugênio! Vou tentar sim.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 31/8/2006 11:23
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adalbertoariosto
 

sugiro o site do autor, onde você pode alem de conhecer a obra, pode entrar em contato direto com ele..

adalbertoariosto · Teresina, PI 5/9/2006 13:39
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adalbertoariosto
 

www.williampalhadias.com.br

adalbertoariosto · Teresina, PI 5/9/2006 13:41
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Fábio Fernandes
 

Opa, obrigado mesmo!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 5/9/2006 14:28
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Thiago Fragata
 

Isso me fez recordar um outro beato, Pedro Batista (1887-1967), que foi violentamente repelido pelas autoridades alagoanas no início do séc. XX, posteriormente o beato alagoano fundou a cidade Santa Brígida, na Bahia. O Gregório me interessa, vou atrás...

Thiago Fragata · São Cristóvão, SE 30/10/2006 20:52
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