E foram felizes para sempre...
Você acha que toda história infantil deve terminar assim?
Então, como diz a propaganda, está na hora de rever seus conceitos.
Os contos de fada são considerados um pré-vestibular para a idade adulta e preparam de uma forma subjetiva, as crianças para a trajetória rumo à idade adulta que, todos nós sabemos, não implica em acertos e vitórias o tempo todo. Mas, por desinformação e imbuídos das melhores intenções, a maioria dos educadores e pais amenizam os finais dos contos de fada que não apresentam um desfecho otimista, celebrado muitas vezes com um interminável beijo de amor.
Ora, todos nós sabemos que infelizmente os casamentos não duram mais "até que a morte os separe" e que, mesmo os que se perpetuam, não são um mar de rosas o tempo todo. Por que, então, ficarmos condicionados a incutir desde cedo na cabeça dos pequenos (e principalmente das meninas) a idéia de que a grande sorte da vida é um bom casamento? Estaremos fadando nossas filhas a viverem uma existência sonambúlica caso não consigam se casar? Que tal pensarmos em histórias que também apresentem outras possibilidades de crescimento e evolução existencial ou então que contem sobre princesas que disseram não ao pedido do príncipe abestalhado com cabelinho repartido no meio?
Quando sentirmos dificuldade em dar voz aos contos que tratam de questões polêmicas, o melhor caminho é primeiro investigarmos a nossa formação e a criança que ainda somos internamente. Na maioria das vezes constatamos, após essa reflexão, que a dificuldade é nossa e não dos nossos alunos ou filhos. Adultos inseguros foram, na maioria das vezes, assombrados por pais igualmente temerosos. Educadores e pais que foram na infância assombrados por pais inseguros passarão "batidos" pelo Ciclo da Morte Lograda que faz parte do imaginário popular.
Sempre relato uma experiência que me fez refletir muito sobre esse tema: em uma das sessões numa enfermaria pediátrica (referência em tratamento de soropositivos), estava contando "Maria vai com as outras" da saudosa Sylvia Orthof que, em determinado trecho, traz a palavra veterinário. Por não ser comum ao universo infantil, perguntei se alguém sabia o que era um veterinário. Um deles levantou o dedo e respondeu: "é o lugar para onde a gente vai quando morre". Desconcertado, mas sem perder o fio da história, respondi que veterinário é o doutor dos animais e o lugar ao qual ele havia se referido era cemitério.
Segui em frente, mas saí da sessão muito "mexido". Nunca uma intervenção da platéia me ensinou tanto quanto aquela. Até então achava que por estar contando histórias em um ambiente hospitalar (e principalmente em uma enfermaria com aquelas características), deveria mostrar um mundo cor de rosa e repleto de leveza. Mas, na verdade, esse era o desejo do menino Laerte que fora criado em um ambiente no qual o tema morte era escamoteado e nunca citado. No entanto, aquele ouvinte com seu aparte me mostrou que a dificuldade era só minha e que esperava encontrar em mim um interlocutor para falar disso.
A partir dali, percebi que deveria sim contar histórias alegres, mas comecei a trabalhar no meu repertório outras que tratavam de ruptura e transformação, contos em que o protagonista tinha que vencer dragões e gigantes para fazer jus ao ser feliz para sempre.
Nos trabalhos com comunidades, repetimos o mesmo engano: nossa intenção é sempre enaltecer a honestidade e o amor ao próximo para um público que sofre com o tráfico ou em instituições que cuidam de menores infratores. Por que não começamos simplesmente divertindo? Não é essa uma das funções fundamentais da contação de histórias? É preciso estabelecer elos com os ouvintes e eles não se entregarão se, logo de cara, você vier desfilando conceitos e dogmas. Depois que aqueles ouvintes tiverem se divertido com a sua história de abertura, você poderá narrar os contos que dão maior ênfase à moralidade e à ética. Mas, por favor, pegue leve na moral das histórias! Nunca o indicador em riste para finalizar um conto! A moral deve ser "lida" nas entrelinhas.
Sempre digo que contar histórias é "servir um banquete" e quando você se propõe a servir uma lauta refeição, não pensa em um prato só, não é mesmo? Você serve a entrada: as histórias mais leves e divertidas, facécias ou contos que enfatizem a importância do narrar. Depois, vem o prato principal: os contos mais extensos e, finalmente, a sobremesa, fábulas, lengalengas ou contos acumulativos. E aí, é só entrar pela perna do pato, sair pela perna do pinto e quem quiser que conte quatro.
A contadora de histórias Rosana Mont´alverne citou em uma oficina que ouvira de um contador africano que a maior qualidade de um narrador é a brevidade. Desde então, venho refletindo sobre isso e inserindo, pouco a pouco, na minha prática. É importante que diversifiquemos os temas tratados na Hora do Conto (mesmo como preparação para o sono) para que possamos ampliar na criança as inúmeras possibilidades que a vida apresenta. Nem só de sucessos a vida é constituída; às vezes, aprendemos muito mais com os erros e uma das funções da contação de histórias é acordar a criança para a vida.
E nunca exagerar: é melhor que fique um gostinho de quero mais. E, tomando minha dica para mim mesmo, vou terminando esse artigo por aqui. Quem quiser trazer questões para a coluna, é só me passar um e-mail, que vou adorar colocá-las na roda.
Laerte, adorei seu texto. E concordo com tudo que vc disse. Mas acrescento que a criança é de uma imprevisibilidade desconcertante. Passei seis meses numa escola de educação infantil da rede pública que tinha um excelente trabalho voltado para a literatura infantil, investigando o que os professores faziam pra que as crianças gostassem tanto de ouvir histórias lidas ou contadas. Pois bem, um dia, me achando, resolvi ler pra elas (moradores em sua maioria do Morro de Santa Marta) Menino de Rua de Angela Lago. Que é lindo como tudo que ela faz. Pois eles, olharam a capa, deram uma folheada no livro e foram peremptórios: "-Tia, não queremos ouvir essa história não, é muito triste e feia". Meu queixo caiu. De uma outra vez, levei o Chapeuzinho Amarelo, do Chico Buarque. Lá pelas tantas, no pedaço em que o lobo aparece "tremendo que nem pudim, com medo da Chapeuzim", um menino levantou a mão e cortou meu barato: "- Não gosto dessa história não, a Chapeuzinho tem que ter medo do lobo. Esse lobo aí não é de nada".
Vc é contador de histórias? De vez em qdo participo de algumas rodas de leitura, como ouvinte. É bom demais.
Parabéns pela sua contribuição
Abç
É... já me aconteceu uma situação semelhante com o livro Menina Bonita do Laço de Fita da Ana Maria Machado quando trabalhei com ele numa comunidade carente e cuja maioria é afrodescendente. Eles não reconheciam a protagonista da história como uma menina dotada de beleza. Há algum tempo venho optando em contar apenas contos populares: acho que, por usarem uma linguagem metafórica, muitas vezes é melhor aceito e "digerido" pela criança.
Sim, sou contador de histórias e mantenho um centro de estudos sobre a arte no Rio de Janeiro.
Abraços e obrigado pelo retorno.
Nossa o seu texto realmente abre uma grande reflexão.
As crianças são muito espertas e quanto antes forem inseridas no mundo "real" melhor para elas próprias.
Parabéns por entender às crianças e mudar sua forma de trabalho por elas.
Obrigado, Lila. Muito reconfortante saber que a fala da gente encontra eco. Às vezes bate uma solidão de pensamento...
Abs,
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