Fliperamas: game over

Danny Piu - http://www.flickr.com/photos/dannypiu/578050871/
Hora do jogo
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Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
30/6/2007 · 213 · 12
 

Fire Action, Sure Shot, Vortex, Hawkman, Cosmic, Rally, Gemini 2000, Monster Bash, Medieval Madness, Revenge from Mars, Scared Sttif, Circus Voltaire, Tales of the Arabian Nights, Tommy. Você é capaz de reconhecer algum desses nomes?

Isso depende de quantos anos você tem. Se não passou dos 20, é provável que não. Mas se você nasceu até a primeira metade da década de 80, deve compartilhar comigo a constatação de que os fliperamas acabaram. De febre de uma geração para se tornar item de colecionador, a decadência dessas máquinas de diversão foi rápida e fulminante.

Leonardo Ribeiro tem mais de 40 anos e coleciona memórias. Lembranças de uma geração em forma de armações metálicas que piscam e criam pontos imaginários. Ele tem a lembrança fresca de quando a sua paixão surgiu. “Eu devia ter uns 8 ou 9 anos e saía com minha tia ou minha avó para comprar algumas coisas no centro comercial do Bairro Betânia. Atraído pelas cores do caixote, eu pedia dinheiro pra jogar nas máquinas eletromecânicas. Era maravilhoso ouvir a Fire Action, por exemplo, dizer : 'Boa sorte com a sua Bola Extra!', ou a Titan : 'Como você joga bem!' carregado com aquele sotaque americano”, lembra.

Atualmente, em Belo Horizonte, é quase impossível localizar um fliperama. É provável que a situação se repita nas outras capitais. Há apenas dois no centro da cidade hoje em dia. Os remanescentes (um na rua São Paulo - próximo à Galeria do Ouvidor -, e outro na Tamóis, quase esquina com Rio de Janeiro) estão prontos para ser fechados.

"Fliperama no centro acabou", confirma Marcos Barbosa, gerente comercial da Perene Ltda, a principal empresa que comercializa máquinas de pinball e arcade em Belo Horizonte. Na verdade, não só no centro. Nem os shopping centers, para onde haviam migrado as máquinas na última década, resistiram. Se no auge eram mais de 700 espalhadas em 200 locais da capital mineira, hoje esse número está reduzido a menos de um terço. E, de acordo com Barbosa, a situação só vai piorar. Na visão da sua empresa, que há 33 anos é a pioneira nesse mercado e proprietária dos últimos dois fliperamas do centro de BH, esse é um caminho sem volta. “O público adolescente a gente já perdeu. Somente freqüenta as nossas lojas quem tem vinte anos ou mais”, afirma Barbosa.

A história, que começou no Brasil, na década de 30, com as primeiras máquinas em Poços de Caldas, a cidade de cassinos do interior de Minas Gerais, está próxima do seu fim. O empresário mineiro Eduardo Marras não sabia que aquelas máquinas que trazia para Minas Gerais na primeira metade do século passado representavam o início de uma era marcante.

Com o passar dos anos, o Brasil se revelou um mercado tão promissor que se tornou o único local fora do Japão no qual a grande empresa Taito produziu suas máquinas. Pouco mais de setenta anos depois, os fliperamas estão em pleno processo de extinção. E sem direito a continue.

Para impedir que uma importante parte da cultura de uma geração vire ferro retorcido em um sucateiro, Ribeiro e um grupo de amigos montaram um clube de preservação de pinball. Com um importante acervo que já reúne mais de 40 máquinas (dentre elas raridades).

“O preço médio de uma TAITO em funcionamento gira em torno de R$1.000, podendo chegar a R$6.000 ou mais, no caso de uma Cavaleiro Negro reformada. A revenda é fácil, desde que o preço seja justo e a máquina esteja em boas condições. Estou tentando fazer minha parte distribuindo pinballs pelos pubs e bares de Belo Horizonte”, explica Ribeiro.

Um novo desafiante

A partir do ano 2000, a expansão das lan-houses no país fez com que os adolescentes trocassem os flippers pelo mouse e o teclado. As "lans" (Local Area Network, ou em português, rede de área local) foram criadas pelos coreanos, os experts em diversão eletrônica. Antes disso, o processo de extinção dos fliperamas já havia sido desencadeado pela popularização da geração de videogames de 16 e 32 bits. O mercado pirata que alimenta os consoles caseiros garante uma rápida e eficiente atualização de novos produtos. O mesmo não acontece com as máquinas de fliperama e a arcade, que acabaram tendo a produção abandonada aos poucos.

Repetindo os passos dos fliperamas, as lans atualmente são mais do que um local para jogar: tornaram-se um ponto de encontro, principalmente para o público adolescente. Destino certo de alunos durante e após o horário escolar, o movimento nesses ambientes é tão grande que foi necessária uma medida do Juizado da Infância e da Juventude de Belo Horizonte para moderar e restringir o acesso dos adolescentes às mais de 150 lan-houses da capital. A história se repete. Para acabar com essa má fama, os proprietários resolveram estimular os estudos: aluno com notas boas ganha desconto na hora de jogar.

Se as lan-houses têm se mostrado como um negócio lucrativo, o seu irmão mais velho, o fliperama, já não é um bom investimento há alguns anos. Pagar R$ 1,00 em média para jogar alguns minutos se tornou desinteressante quando se pode, pelo mesmo preço, jogar uma hora em algumas lan-houses do centro de BH.

Zé Gomes vê isso acontecer diariamente. Ficheiro de um dos últimos fliperamas da região central da capital mineira, para ele, a situação hoje é a mais difícil nos seus mais de 15 anos de profissão. “Mas ainda tem gente que sai do outro lado da cidade só para vir jogar aqui”, observa. Ele cumprimenta pelo nome todos que ainda compram fichas na mão dele. Com um tom de ironia melancólica, eles comentam sobre o movimento. Um deles interrompe: "vamos trabalhar, Zé".

Zé não responde. Apenas olha para o lado e sorri com o canto da boca como se dissesse "por aqui não há muito trabalho".

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Imagens das produções da Taito no Brasil. Para quem tem interesse em saber mais sobre a história do pinball, confira o resto do site.

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dudavalle
 

Máquina de Pinball !!!

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 29/6/2007 22:57
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Guilherme Mattoso
 

cara, manero esse texto! fliperama é vida! rsrsrs.

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 30/6/2007 08:32
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Affonso H. Nunes
 

O pinball era, e ainda é, o meu jogo preferido no fliperama. E não tem nada a ver com jogar pinball no computador.

Affonso H. Nunes · Natal, RN 30/6/2007 18:04
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dudavalle
 

Alguém sabe aonde podemos alugar as máquinas ?

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 30/6/2007 18:25
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FLÁVIO QUA-QUA
 

Acho que isso não morre nunca! ou enquanto não acabarmos com o planeta, pois é como ouvir o Pink floyd, passa de uma geração para outra! falta é interesse financeiro!!

FLÁVIO QUA-QUA · Belo Horizonte, MG 30/6/2007 21:40
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Marcus Assunção
 

Saudade dos tempos de Street Fighter...bela matéria!

Marcus Assunção · São João del Rei, MG 1/7/2007 00:01
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Annekathrin Knigge
 

Ah, Sérgio, tenho que ir lá tirar fotos também!

Annekathrin Knigge · Belo Horizonte, MG 1/7/2007 00:05
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Marcelo V.
 

Meu pai foi dono de um fliperama durante 10 anos. Pinball é extremamente viciante. Mas estão fadados a virar artigo de colecionador.

Marcelo V. · São Paulo, SP 1/7/2007 13:25
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Eduardo Neves
 

Muito bacana o texto. Aqui na minha cidade ainda se consegue "bater um fliper" (como a gente chamava) em um ou dois lugares. Mas tá acabando. Sou colecionador de Atari, e está nos meus planos comprar um pimball. Parabéns pelo resgate, abração.

Eduardo Neves · Teresina, PI 2/7/2007 08:29
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Mario C.
 

O problema começou quando os vídeo-games alcançaram, tecnologicamente falando, os arcades. Já em meados dos anos 90 não era raro ver máquinas de fliperama que eram apenas um vídeo-game dentro daquela caixa enorme de madeira ligado aos controles do arcade.
Quando você podia jogar aquele jogo em casa, com os amigos, o dia todo, começou a fazer pouco sentido pagar caro pra jogar pouco tempo no fliperama.

Mario C. · Belo Horizonte, MG 20/8/2007 02:31
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dricaveloso
 

muito boa a matéria sérgio!
abraço!

dricaveloso · Belo Horizonte, MG 30/5/2008 07:03
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rafacortez
 

ola, estou a procura do arcade NBA JAM, caso alguem tenha informação sobre onde posso encontra-lo, é so dizer!
valeu!!
zetroc007@hotmail.com

rafacortez · Porto Alegre, RS 3/12/2009 14:13
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Fliperama da Tamóis na hora do almoço. Um dos horários mais cheios... zoom
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Zé Gomes, no fundo do apertado ambiente, observa o movimento, ou a falta dele. zoom
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O movimento não anda tão bom ultimamente... zoom
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Memórias que não podem ser apagadas zoom
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Leonardo tem um galpão cheio. Se quiser adquirir uma, entre em contato. zoom
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