História sucinta de uma festa literária Internacional
(FLIPORTO)
A África ficou mais perto. Foi a impressão maior da FLIPORTO – Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas – que aconteceu no charmoso balneário de Pernambuco, tendo como temática a diáspora africana. A FLIPORTO é uma dessas grandes festas em torno do livro que surgiram inspiradas na nossa FLIP, aliás, está acontecendo um verdadeiro boom! Literário no Brasil, eventos de norte a sul como a FLOP (Festa Literária de Ouro Preto), FLIG (Festa Literária Internacional de Garanhuns), FLAP e tantas outras em nome dos livros e escritores.
Convidado por Lucila Nogueira, curadora da FLIPORTO e importante mulher das letras que nos recebeu com incrível amabilidade, pude compreender melhor o que os livros fazem acontecer, enquanto encurtamento geográfico, social, político, para um diálogo onde todos compreendam diferenças e igualdades. Esse ano, a FLIPORTO, em sua IV edição, celebrou a literatura africana com o tema: "Trilhas da Diáspora. Literatura em África e América Latina". A festa teve nomes didáticos da questão e postulantes de uma nova visão da África, visão esta muito diferente de um continente que vemos homogeneizadas em filmes e jornais que só mostram savanas ricas de animais exóticos e miséria por fome e guerra. É verdade. Conhecemos muito pouco da África, nossa mãe, e dos africanos, nossos irmãos que nos acenam do outro lado do atlântico. Mas o papel que a literatura tem se prestado é a de servir como ponte, e cada metro desse encurtamento está na literatura feita pelo lado de lá por Pepetela e Agualusa (Angola), Mia Couto e Marcelino dos Santos, Paulina Chiziane, (Moçambique); e tantos outros que nos apresentam a África em língua Portuguesa.
Mas não só a África se fez presente na FLIPORTO, romancistas, contistas e poetas de várias partes do globo estiveram presentes, o verdadeiro pré-sal da literatura mundial.
Caso a parte foram os poetas. Diferente da última FLIP que deixou os poetas um tanto de lado, a poesia teve maciça expressão na verve de dominicanos, cubanos, espanhóis, americanos e tantos e tantos. Tive o prazer de conhecer a simpatia do poeta americano Quincy Troupe e sua voz de trovão, a força da poesia social e da amizade por detrás dos óculos de Rei Berroa (Rep. Dominicana), de ver os cabelos de neve do nosso grande poeta brasileiro Thiago de Mello, da brasilidade nos poemas de Marcus Accioly, das vozes da África no timbre de Amélia Dalomba, Tony Tcheka, Luiz Cezerilo, luiz Carlos Patraquim; dos cubanos que são gente boa até a alma: Nelson Simon e Waldo Leyva, e do engraçadíssimo José Millet, que teve algumas dificuldades ao chamar um ônibus em sua língua mãe. Em conversa, os cubanos nos comoveram como enfrentam com força e destreza, as dificuldades da ilha do general enfermo de farda verde oliva.
Participei da mesa: A trajetória OFF FLIP na FLIPORTO, juntamente com o contista Ovídio Poli Junior. Ovídio, autor de Sobre Homens e Bestas, e O caso do cavalo probo, falou, como programador literário da OFF, sobre a criação do Prêmio OFF FLIP de Literatura, e do Selo OFF FLIP, do qual participo com o livro Zangareio, e também no mesmo selo Themilton Tavares, que lançou seu infanto-juvenil: Trindade; além da coletânea de contos e poesias. Para Ovídio, o tempo foi curto para tão longa trajetória.
Quando chegou a minha vez de falar sobre o meu livro, senti que algo na sala 2 estava errado, não devido a presença abundante de ouvintes, não ao fato de ser convidado por uma festa literária internacional(ô modéstia!); mas diante de mim, na primeira fila, Affonso Romano de Sant`Anna. Romano é uma das minhas leituras de base, um formador de idéias literárias que sempre me povoa a mente. Num certo momento achei que o papel estava trocado, quase que me levantei e fui falar com o Affonso e dizer-lhe para trocarmos de lugar. Tive certo tremor e temor, não nego, de vê-lo ali, ouvinte sossegado. E respirando profundamente me pus em velocidade de cruzeiro, e contei um pouco da minha chegada até ali, do legado por ser de origem de família caiçara, e, frente a esta questão, já que o tema falava da diáspora, ou seja, da dispersão africana, contei também em breves palavras, um pouco da diáspora caiçara, do que andam fazendo com nossa gente, do genocídio (morte física) e do etnocídio (morte cultural), dos flagelos perpetrados por latifundiários, políticos sem escrúpulos e caráter, especuladores imobiliários, empresas multinacionais, que expulsam o caiçara, detentor de toda uma tradição e cultura própria, para a miséria social. Acho que contribui de alguma forma para sensibilizar o público da causa tão nobre.
Nos corredores, como tudo acontecia muito rapidamente, conversei com Carlos Minc, Ministro do Meio Ambiente, sobre a questão caiçara, e lembrou-me que está a par da seriedade que requer o assunto, falando que esteve na Praia do Sono há algum tempo atrás levando as placas solares. O mesmo disse que os equipamentos estão desativados por falta de manutenção. Minc se pôs a atentar mais ao assunto quanto aos problemas dos caiçaras.
Não vou gastar meu latim em comparação FLIP X FLIPORTO, pois é obvio que a FLIP está além de qualquer outra festa literária deste planeta, uma parte, ou a grande parte, está subscrita na grana e logística, pois o roteiro FLIP e OFF FLIP pode ser feito "di apés". O que posso dizer é que em termos de circuito paralelo a OFF FLIP é original devido a necessidade de voz que artistas locais tem de se mostrar, e não perde o chapéu ao vento, pois mesmo sem muito apoio e contando somente com os quatro cavaleiros da OFFlípse, vi que a OFF dá show em organização e desenvoltura. Também vi na pele o que a OFF representa fora das raias paratienses, o eco é forte, muito disso vem sim pela criação do Selo OFF FLIP e pelo Prêmio OFF FLIP de Literatura, além da programação extensa composta por escritores locais, nacionais e até estrangeiros.
O legado da FLIPORTO fica adiante, além dos oceanos, mas com a certeza que as ondas vindas do continente negro e que agora molham os pés desse humilde caiçara, e tenho agora a fé dos nautas, que um dia retornarão de onde foram impulsionadas. A mesma onda de palavras feita de uma oralidade tão nossa e tão deles.
Oi Flávi, escrevi para vc outro dia falando do Fliflorest, em MANAUS, LEMBRA? aGRA ESTOU DANDO O MEU VOTO, CONTE COMIGO SEMPRE.qUANDO PUDER DÁ UMA OLHADINHA NO MEU PERFIL, SIM? gOSTEI MUITO DE SUA ANÁLISE, PARABÉNS E FELIZ NATAL.
Escritora Eliane Potiguara · Rio de Janeiro, RJ 18/12/2008 09:39Belo texto!
Valterlei Borges · Rio de Janeiro, RJ 15/11/2009 19:14Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
O Overmundo nasceu com um objetivo bem claro, o de dar visibilidade às práticas e manifestações culturais brasileiras, abrindo, para isso, um c... +leia
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