FLORESTA À VISTA

Francisco Fontenele
Sagüi do bairro Floresta
1
Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
25/8/2008 · 133 · 4
 

ESPREMIDO ENTRE UMA GRANDE FÁBRICA DE TRANSFORMADORES E A LAGOA DO URUBU, O BAIRRO FLORESTA, EM FORTALEZA, É PRÓDIGO EM EMBARALHAR AS NOÇÕES ESPACIAIS E GEOGRÁFICAS DE QUALQUER FORASTEIRO

O Floresta é um bairro onde sagüis saltam dos galhos das árvores e se empoleiram nas cumeeiras das casas à procura de ovos de pardais. Em seguida, porque são muito pequenos e não aprenderam ainda a voltar pelo mesmo caminho que trilharam até ali, devem ser retirados do alto por meninotes que ontem mesmo estavam “pescando” camaleões às margens da lagoa do Urubu. No Floresta, policiais militares interrompem a ronda diária para dar um trato no cabelo no Salão de Beleza do Régis. Aberto das 8 ao meio-dia e das 14 às 20 horas, ele é o mais famoso gabinete da área. Nele, enquanto um PM embeleza-se, de frente para o espelho os demais espremem cravos e espinhas, conferem se o colete à prova de balas está mesmo rente ao peito ou as mangas da camisa preta em cujas costas lê-se “Força Tática” estão rigorosamente dobradas, expondo uma ou outra tatuagem.

No Floresta — que, na verdade, são dois: o de lá, do outro lado da lagoa do Urubu e o de cá —, o que resta de uma construção em alvenaria apelidada não por acaso de Muro de Berlim serve de anteparo a grupos de meninos que praticam pequenos delitos e depois se escondem no breu da noite, deixando os moradores em polvorosa. Lá, atendentes de supermercado e entregadores de farmácia se reúnem fora dos seus turnos de trabalho para jogar dama e, via TV a cabo, assistir ao desempenho das duplas femininas de vôlei de praia nas areias pequinesas. Nesse bairro, líderes comunitários atiram-se na frente dos ônibus de modo a forçá-los a cumprir o itinerário normal, esticado até a última casa do bloco G. Para eles, ainda que motoristas e cobradores temam os perigos do lugar, nenhum passageiro deve ser esquecido sob a sombra de alguma árvore.

Ainda no Floresta, todas as casas têm o mesmo número: 624, e as ruas, uma letra que vai de “A” até “G”. Os apartamentinhos, por sua vez, têm apenas quatro opções de denominação: 1, 2, 11 e 12. Os dois primeiros números em baixo; os demais, em cima. Na mesma rua, portanto, há muitas moradas 1 ou 12. É plenamente possível que haja duas donas de casa chamadas Maria que residam no bloco E, casa 1. Pior para o carteiro, o entregador de gás ou alguém que displicentemente desça do ônibus Antônio Bezerra/Álvaro Weyne atrás da fábrica de transformadores e saia caminhando à toa pelas ruas.

Menos pela distribuição numérica das construções do bairro e mais por sua arquitetura, Francisco Manoel de Andrade, 43 anos, fiscal de trânsito e morador do Floresta, defende: “Isto aqui é como se fosse um condomínio fechado”. As ruas de lá não têm propriamente nomes. “Você chama esta rua aqui de E, por exemplo, mas na verdade o bloco é que é E”, desanuvia. No Floresta, as casas — sala, cozinha, banheiro e quarto apertados — pertencem a quadras. As quadras, a blocos. Batizados com as primeiras oito letras do alfabeto, os blocos distribuem-se paralelamente. São cortes transversais no quadrado formado pelas ruas Frei Odilon, Pedestre, Luiz Guimarães e uma última aparentemente sem nome. Segundo dados da Fundação de Desenvolvimento Habitacional de Fortaleza, a última rua não tem oficialmente denominação.

Não tem para a burocracia do município. Para Célio, espécie de Cristóvão Colombo do Floresta, a rua bem que podia se chamar “Loura”. “Seria Rua da Loura”, gargalha. A musa inspiradora do mecânico, que também atende pela alcunha de Louro — aos 51 anos, Célio tem cabelos claros esfiapados e olhos azuis — repousa dentro de casa, no quartinho que dá para o amplo quintal à beira da lagoa. Ela tem quase 10 anos, fios dourados caindo sobre os olhos saídos aos do pai. É a cria mais nova do casal Louro & Cléa, que divide os metros quadrados domésticos com Chico & Família.

Chico é um sagüi heterodoxo. Chegou à casa de Louro sem ser convidado, mas logo ganhou a confiança de todos. Após ter-se fixado e criado hábitos pelos quais ficou famoso, tratou de ganhar o mundo. “Ele ficou uns três ou quatro dias fora”, relembra o mecânico. Quando voltou, trazia na algibeira uma esposa. A família de Louro assustou-se com a proeza do bichinho. Cheia de manha, a mulher de Chico também foi aceita no número 1 do bloco E. Ocorre que, semanas depois, Chico e cônjuge misteriosamente desaparecem. Nem maior, nem menor: o susto de Louro foi semelhante ao da primeira deserção do sagüi, quando ainda era solteiro. Seu novo retorno, porém, seria marcado por estupefação generalizada. “Ele chegou trazendo a mulher e um filho.” De lá para cá, Chico tem se aquietado.

Louro também é o cartão de memória da comunidade. Desfia histórias com a mesma facilidade com que Chico dá escapadinhas. Ele conta: foi o primeiro morador a chegar ao Floresta. “Quando recebi as chaves, estava na Regional I consertando um carro.” Fez a mudança no lombo de um Fusca, que vendeu para comprar o Fiat Elba 89. Ele narra: à falta de posto de saúde que atenda os moradores do lado de cá do Urubu, o galego pode ser surpreendido no meio da noite por alguma urgência. Num salto, põe-se de pé, veste-se ligeiro, corre até a garagem e gira a chave do carro. “Este carro aqui já carregou muito baleado, esfaqueado.” Noutro momento, porém, Louro parece mesmo remexer as camadas mais fundas da identidade dos moradores do Floresta. Convidado a historiar, não resiste. Diz certeiro: “Aqui é Floresta porque só tinha mato”. Pronto, acabou-se.

PERFIL DO BAIRRO

Entre o Álvaro Weyne, o Jardim Iracema e a Barra do Ceará, bairros localizados na área da Secretaria Executiva Regional I, em Fortaleza, o conjunto habitacional Floresta foi construído e entregue a comunidades de baixa renda ainda no final da década de 1990. Em 1998, moradores de bairros vizinhos e de localidades mais distantes cadastrados nos programas habitacionais do município receberam as chaves de casinhas de quatro cômodos. Conjugados, os pequenos apartamentos espalham-se através de blocos e quadras dos dois lados da lagoa Urubu. Atrás da Cemec, fábrica de transformadores, fica o bairro Floresta II. Atravessando-se a lagoa, o Floresta I. Juntos, eles têm aproximadamente 28 mil habitantes. Para atendê-los, um único posto de saúde e uma escola.


Vistas de cima, a partir de fotos de satélite disponíveis no Google Maps, as casinhas que integram os oito blocos do Floresta II lembram peças de montar, dessas muito comuns nos jogos Lego. E a silhueta do bairro, um tablete de chocolate mordido numa das quinas. Do outro lado da imensa mancha verde riscada de veias mais escuras que forma a lagoa do Urubu, o Floresta I, que tem 14 blocos de casas, assemelha-se a um grande peixe fossilizado. Mas sem o rabo. Para ver as imagens aéreas do bairro Floresta ou de outras localidades de Fortaleza, basta acessar o site www.maps.google.com.br.

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

As fotos vêm em seguida. Ainda hoje...

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 22/8/2008 14:04
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Ilhandarilha
 

Bela matéria sobre o conjunto, Henrique. Aqui temos, no município da Serra, o bairro Cidade Continental - um imenso conjonto habitacional de baixa renda que tem uma história bem parecida com a do Floresta. O que acho mais interessante nesses conjuntos habitacionais é a forma como os moradores vão adaptando as casas, ruas e praças ao seu próprio jeito.
abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 23/8/2008 12:01
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Evandro Bonfim
 

muito boa descrição. mas no ceará a gente não chama sagüi de outro nome?

Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ 24/8/2008 16:21
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Você está certo, Evandro. Aqui o bicho é bem mais conhecido como soim. Mas preferi sagüi. Gosto da palavra.

E não é apenas por causa do trema, não.

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 24/8/2008 20:44
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