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Folclore em estado puro

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
25/6/2006 · 90 · 4
 

O autêntico boi-bumbá do parintinense não está nos espetáculos das três noites na arena mágica do bumbódromo. Essa verdade pouco difundida não desmerece as apresentações conhecidas no mundo inteiro realizadas no último final de semana de junho, ao contrário, exalta a essência de uma dádiva cultural criada e mantida por este povo há quase 100 anos, que é revivida religiosamente com a manifestação da brincadeira do Boi de Rua.

Todo dia 12 de junho é aguardado como um dos mais importantes eventos no calendário da Ilha. É o dia, ou melhor: a noite, em que o Garantido sai de seu curral na Baixa do São José para percorrer as ruas resgatando uma carga de emoção que os habitantes da cidade tão bem conhecem. O Boi de Rua do bumbá vermelho e branco revive a promessa de criação e perpetuação deste brinquedo de São João, idealizado do compromisso estabelecido na gratidão pela cura de seu fundador Lindolfo Monteverde, nos idos de 1913. Mais que isso, traz para o presente a lembrança do boi do tempo das chamas das lamparinas misturadas ao luar, dos tambores feitos com latão e couro, das cantorias e do desafio em forma de improviso acompanhado pelo bater ritmado das palmas.

Em 2006, a celebração do Boi de Rua do Garantido encontrou a Parintins das luzes elétricas, da modernidade dos instrumentos de percussão atuais e dos megawatts das caixas de som, mas nem por isso este boi do presente deixa de despertar lembranças em cascata pelo seu formato simples de uma passeata que vai arrastando a multidão que o exalta como símbolo maior de sua cultura. “Não perco de jeito nenhum, e se eu estiver doente venho assim mesmo e ainda volto boa pra casa”, garante dona Jacira Silveira, 59, caminhando com a irmã, a filha e o casal de netos para esperar o boi passar na rua Armando Prado. “Venho brincar desde cunhantã – modo como o parintinense se refere ao feminino de criança - lembro quando meu pai me levava pra dançar no boi, brinco com meus netos e é uma alegria só”, explica.

Às nove da noite, a rua Armando Prado já concentra grande presença de pessoas que se juntam aos afortunados moradores que também aguardam a passagem em frente das suas casas. O vermelho das roupas domina o cenário, como na família de Ademar Souza, 37. “Essa é a tradição do povo parintinense mostrada na origem”, orgulha-se, enquanto divide algumas cervejas e alegria com vizinhos, esposa, filhos e o pai, seu Avilmar de Souza, de 70 anos. Com a rua cheia de fogueiras, que aos poucos começam a ser acesas à medida que o som dos fogos de artifício fica mais forte, é da autoridade de tantos anos vividos que seu Avilmar explica o costume. “Onde tinha fogueira o boi parava para brincar e as velhas acompanhavam com as lamparinas na cabeça”, lembra, se referindo à poronga levada pelas idosas.

Desde o surgimento da brincadeira na cidade, o boi pára nos lares onde os moradores demonstram euforia ao recebê-lo, seja por meio das fogueiras feitas pelos donos das casas, ou como antigamente, homenageando quem ajudava o boi com contribuições em dinheiro. Alguns chegavam ainda a arrumar o próprio quintal com um círculo no centro, o boi o visitava e em seguida entravam os personagens Pai Francisco e Catirina com a gaiatice que arrancava gargalhadas da platéia, esta acompanhava com palmas dançando o tradicional dois pra lá, dois pra cá no ritmo da batucada. Ao comando do Amo, com toadas simples e versos de improviso, o Auto do Boi era realizado e ao final a língua era vendida para o dono da casa. Lembre-se que no Auto do Boi, o animal é morto pelo Pai Francisco que trai o Amo, de quem é empregado, para atender ao desejo de sua esposa Catirina, que está grávida e quer comer a língua do boi.

A quantidade atual de pessoas não permite mais essas visitas, mas quando o Garantido chegou na rua, vieram com os brincantes todos os sentimentos despertados pela tradição de deboche ao contrário; na homenagem às pessoas queridas; na cantoria de toadas antigas e no resgate de versos tirados ainda pelo fundador Lindolfo Monteverde misturados ao lirismo das toadas mais atuais, na batida cadenciada marcada pelo compasso em dois por dois da Batucada – nome dado ao conjunto de ritmistas do bumbá vermelho e branco - e toda a diversidade de pessoas no comovente desfile de gerações.

A passagem de 2006

Este ano a gozação iniciou a festa. Em cima de um bugre vermelho, uma alegoria mostrava o contrário com cabeça e asas de urubu em um corpo metálico na forma de barril, a mensagem estava clara, pois tratava de devolver duas toadas de desafio feitas pelo boi azul e branco nos últimos dois anos. Na primeira, o Garantido era chamado de “boi de lata”, insinuando a baixa qualidade das alegorias parando no tempo em que os bois eram feitos de latas de manteiga. A segunda dizia que um urubu iria comer o bumbá, o problema era o duplo sentido pouco elegante do verbo.

Um grande balão flutuava sobre os brincantes ostentando o coração como o grande símbolo, embaixo, o boi evoluía com os chifres enfeitados nas suas cores. A vaqueirada o acompanhava cumprindo sua atribuição de guardiões e abrindo espaço para o bumbá dançar a cada fogueira para os gritos e aplausos dos presentes. Em repetidos momentos de emoção, o Garantido levava uma rosa na boca para as donas da casa, geralmente as mais idosas que estavam firme esperando sua passagem. Todas estas senhoras manifestavam uma adoração comum, cercadas pelos parentes em festa, pegavam a flor com indisfarçável emoção para depois acariciar e beijar o touro como se fosse de verdade (e por que não seria?).

Os torcedores do contrário se dividem, alguns se rendem à brincadeira como Onélia Vieira, de 70 anos. Mesmo com a casa azul, roupa azul e bandeira azul devidamente levantada no quintal, todo ano ela vai à frente da casa ver o oponente passar. “O negócio é brincar, eu gosto muito do boi”, comenta. Onélia afirma não sentir vontade de ir ao bumbódromo, mas cultiva um sentimento inverso em relação ao Boi de Rua. “O de lá eu prefiro assistir pela TV, aqui eu todo ano ganho uma rosa e é quando eu vejo e pego nele”, conclui. A poucos metros, uma casa em azul e branco mantém as portas e janelas fechadas com um recado afixado escrito em uma folha de papel: “Caprichoso Campeão 2006”. Não demorou muito para o papel sumir.

Criatividade e apoteose

Com uma vara de pescar, um brincante vestiu um boneco de astronauta com uma bandeira do boi na mão, acendendo fogos de efeito visual, brincava com o boneco que parecia flutuar. Um proprietário de triciclo decorou o veículo com uma inimaginável quantidade de motivos do bumbá e da Copa, e um homem comicamente vestido de cunhã-poranga – índia mais bela da tribo – promovia performances nada sensuais.

O Garantido entrou pela avenida Amazonas e seguiu até a Catedral de Nossa Senhora do Carmo trazendo a Batucada e sua torcida organizada oficial, Comando Galera , para se juntarem à multidão que aguardava sua apoteose, em frente à igreja, em uma armação metálica em forma de coração e um espetáculo final em fogos de artifício. Todo ano é assim: o povo testemunha mais uma passagem do Boi de Rua, enquanto o folclore promove o encontro sorridente de gerações e fabrica momentos inesquecíveis no imaginário popular, para assim, se perpetuar. É mês de junho, Parintins está em festa! E como diz a toada: O Garantido é a alma quando faz a evolução.

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Yusseff Abrahim
 

Gostaria de avisar a todos que este foi meu verdadeiro teste do mito jornalístico da imparcialidade. Sou Caprichoso até morrer!!!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 21/6/2006 23:16
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Helena Aragão
 

Hahaha, não resistiu em declarar isso, hein! Bem que ia ser divertido ver um relato parcial aqui no Overmundo, mais ainda se houvesse alguém para fazer o contrapeso: escrever exaltando o Garantido!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 22/6/2006 13:42
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Sergio Rosa
 

Yusseff, até onde vai essa rivalidade entre as "torcidas"(acho que é bem mais que isso, né?) do Garantido e do Caprichoso? Qual o grau de hostilidade que rola?

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 28/6/2006 10:23
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Yusseff Abrahim
 

Sérgio, dá uma olhadinha nestes links abaixo:
Passagem de som
Galeras
Lares
Isso pode começar a te dar uma idéia... nem a gente sabe o limite desta rivalidade. Mas vamos continuar documentando sempre que possível.
Abraço.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 29/6/2006 23:02
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