Forró moderno

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Júlia Tavares · Belo Horizonte, MG
18/9/2006 · 284 · 38
 

Esqueça o chinelinho de couro comprado na feira da Benedito Calixto. Esqueça também o estilo “hippie chique” e os cabelos displicentemente trançados das moças universitárias paulistanas. O público do Gold, um entre a dezena de salões de forró na Rui Barbosa, no bairro do Bexiga, se arruma é com muito brilho, decote ousado, botinha e sandálias altas, no caso das mulheres, e camisas bem passadas, no caso dos homens. “Aqui é forró moderno”, explica Quitéria para quem é ET no lugar, deixando claro que ali o tempo de Luiz Gonzaga ficou bem longe. Quem faz a sensação dos filhos do Norte na megalópole é mesmo Calcinha Preta, Mastruz com Leite, Banda Calipso, Bonde do Forró e Saia Rodada.

Para decidir onde entrar em meio a tantas opções, o diferencial pode ser o preço. Naquele sábado à noite de julho, foi este o critério utilizado por Quitéria, natural de Caruaru, Pernambuco, e as duas amigas, que ela chama de “Nega”. Nega 1 e Nega 2: as irmãs são de uma cidadezinha perto de Vitória da Conquista, na Bahia. O trio costuma sair para dançar a cada 15 dias, sempre para chegar em casa às 5 da manhã. Pois bem: entramos no Gold porque lá mulher entra de graça a noite inteira. Homem? Cinco reais.

Passando pela revista (também feminina, uma super-segurança-mulher de quase 1,90m), o caminho já foi sentar em uma das mesas de plástico e esperar a garçonete, uma jovem que trazia as latinhas de cerveja em bacias de plástico cobertas em gelo. A Nova Skin geladinha saiu por R$ 1,99. A Brahma já era R$ 2,99. Tudo é pago na hora. O atendimento é de primeira, e nenhuma latinha fica dando sopa na mesa. Mais uma rodada para esquentar até entrar uma das três bandas da noite.

O teclado eletrônico é o único instrumento dos shows. Refinação no forrozão quer dizer muitos bailarinos dançando, cantando junto, uma loucura. “A gente briga/ a gente bate/ à noite a gente se ama”, diz um refrão que martelou a noite toda, mostrando o caminho das letras de sucesso, que passam por “tapinhas” e outros carinhos mais. Mas não é que contagia? Não é que a cintura fica querendo aprender a rebolar daquele jeito?

Agora, é preciso ter alguns cuidados. Mulher pode dançar com mulher ou ficar dançando sozinha. Mas daí a tirar homem para dançar é um passo arriscado. “Ué, isso tá errado, é o cavalheiro que tem que tirar a dama”, aconselhou-me Quitéria.

A segunda banda chegou com tudo: era Thiago, o Príncipe do Forró. Mas o figura estava vestido com uma roupa lembrando roupa de surfista. Era também loiro parafinado, cabelos compridos, uma cintura esvoaçante. As bailarinas quase peladas que entravam no palco e no reinado do principesco tinham mais graça; Thiago era um horror. Até eu – perdida – pude entender a cara de tédio que foi tomando conta do salão. Antes de ir embora, no entanto, a banda se salvou com uma sessão de forró-pop, cantando uma seqüência de dances que terminaram na apoteótica “Festa no Apê”.

O fato é que a Gold precisava ter se preocupado mais com a satisfação dos clientes: como a mulherada entra de graça, qualquer coisa pode ser motivo para sair e entrar em outro lugar. Saímos, não só por conta do fracasso do Príncipe, mas para comer um churrasquinho. No canteiro da Rui Barbosa ainda é cedo: som de carro tocando o mesmo forró eletrônico, bares mais simples onde também se dança a vontade, e as várias barracas de churrasco: na média, o espeto de carne sai R$ 1,50. “Não é sempre que a gente vem pra cá, às vezes saímos mais longe pra comer um baião-de-dois”.

Será que assim se mata a saudade da terra natal? Nada disso, a terra de Quitéria é aqui mesmo. “Juntei dinheiro para abrir uma loja em Caruaru, perdi quase 20 mil reais. Agora não volto não, aqui é meu lugar”, diz ela, que aparenta ter muito menos que seus 40 anos. Com o Nordeste que existe em São Paulo, é até compreensível. Desde que haja trabalho, claro.

Para variar, naquela noite ela e as Negas encontram alguns amigos; não foi noite de namoro para ninguém, mas todas viram o sol nascer ao chegar em casa. A semana vai ser puxada, mas, quem sabe, daqui a 15 dias, tem mais.

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Gravatai Merengue
 

Muito legal isso! Lembro que, há alguns anos, inventaram um eufenismo preconceituoso: 'forró universitário'.

O veradeiro significado, que muitos tentavam ignorar, era o de que naqueles estabelecimentos não haveria pobres nem nordestinos.

Gravatai Merengue · São Paulo, SP 18/9/2006 18:24
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Eduardo EGS
 

Fora esse Thiago aí, a festa pareceu bem interessante!

Forro é, definitivamente, um ritmo muito bom de se dançar.

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 19/9/2006 13:59
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Pedro Rocha
 

Por aqui é chamado também de Forró Eletrônico, mas na verdade o que domina é só "Forró", tudo que vem depois é algum adjetivo de alguém que quer classificá-lo a parte da tradição do ritmo. Inclusive eu, que me ponho nessa posição.

Na verdade, o forró é algo muito complicado de eu compreender, seu sucesso, suas letras preconceituosas... Me pego várias vezes reproduzindo o que talvez seja o preconceito elitista por um ritmo realmente popular, ou seria massivo, ou os dois. Provavelmente essa última opção... mas as dúvidas permanecem.

O texto tá muito bom Júlia, precisamos dessas abordagens cada vez mais. Só senti falta de você no texto, de como você chegou a conhecer a Quitéria e tal, os bastidores da reportagem no final das contas.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 19/9/2006 14:14
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Júlia Tavares
 

Obrigada, Pedro. Legal seu comentário também.. A Quitéria era faxineira onde trabalho, a vi dançando um dia e acabei me "auto-convidando" para acompanhá-la na festa... O mais legal foi descobrir este incrível mundo nordestino por aqui.
Vou pensar em como "me colocar" mais nos próximos textos! Mas quer dizer que aí em Fortaleza este tipo de forró também sofre preconceito?
Um abraço!

Júlia Tavares · Belo Horizonte, MG 19/9/2006 14:24
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Gravatai Merengue
 

É bom lembrar que forró, na verdade, não é bem um 'ritmo'. É uma festa. Nessa festa, toca-se vários ritmos, como baião, coco, coquinho, embolada, xaxado etc.

Acontece a mesma coisa com o pagode. Ele é considerado um 'ritmo', embora seja tão-somente uma festa - na qual toca-se variantes do samba.

Gravatai Merengue · São Paulo, SP 19/9/2006 15:22
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Yuno Silva
 

Dizem as línguas que a palavra deriva do inglês For All (para todos - igual aquele LP do Geraldo Azevedo). Mas a história mais aceita é a origem nordetina mesmo: que forró é uma redução de forrobodó.

Yuno Silva · Natal, RN 19/9/2006 21:39
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Gravatai Merengue
 

É isso aí, Yuno, há as duas versões. De "For All" ou de "Forrobodó" (salvo melhor juízo, é a explicação de Câmara Cascudo). Nos dois casos, as palavra tem conotação de uma 'festa'.

Gravatai Merengue · São Paulo, SP 19/9/2006 22:09
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Natacha Maranhão
 

Esse forró fake invadiu tudo, Julia. Até aqui no Nordeste...só se ouve esse povo: Saia Rodada, Calypso, Baby Doll (siiiim, as moças cantam e dançam usando baby dolls) e afins.
As letras das músicas são pobres, feias e geralmente de mau gosto! Algumas são tão grosseiras que sinceramente me incomodam...coisas do tipo "lapada na rachada"! Deve ter tocado nessa festa que vc foi.
beijo e parabéns pela materia

Natacha Maranhão · Teresina, PI 20/9/2006 13:55
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Júlia Tavares
 

Oi, Natasha, obrigada!
Mas vc não acha que é preciso reconhecer o valor deste tipo de música? "Mau gosto" do ponto de vista de quem?? Acho que tomar cuidado com estes julgamentos é um dos principais desafios do jornalismo cultural que se pretende não-elitista. Um beijo!

Júlia Tavares · Belo Horizonte, MG 20/9/2006 14:26
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Hermano Vianna
 

bacana o texto! precisamos de mais textos sobre esse novo forró por aqui: acho que é a música mais popular em todo o Brasil: qualquer lugar que eu vou tem show do Calcinha Preta! percebo várias qualidades propriamente musicais na onda: uma mistura muito interessante de ritmos (vaneirão, pagode, quebradeira etc.), uma metaleira caribenha, um baixo bem funkeado... e também uma indústria audiovisual nascente e totalmente independente de patrocínios oficiais: toda banda iniciante tem que ter DVD...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 20/9/2006 15:49
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Ale Youssef
 

Também achei muito bacana o texto. Aproveito para registrar que a Rui Barbosa, rua do Gold e de tantas outras casas de forró, tem uma longa história cultural. A rua já foi o epicentro do teatro paulistano (muitas dessas casas de show eram os teatro dos famosos musicais do Bixiga). Mais recentemente, foi também o point de bailes de Hip Hop, quando essa cultura bombou em São Paulo. Era lá que o DJ KLJay - DJ dos Racionais MC´s fazia suas festas no histórico palco do Sambarylove, onde muitos grupos de rap começaram a tocar. Pra quem quiser conhecer mais do novo forró em São Paulo, além da Rui Barbosa, indico também o Largo da Batata em Pinheiros.

Ale Youssef · São Paulo, SP 20/9/2006 16:22
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Alex Sant'Anna
 

É julia, é dificil dizer que algo é de mau gosto sem ser pessoal, mas realmente essas músicas tem defeitos que independem do ponto de vista, como letras mal feitas, gravações de péssimo nível técnico, entre outras coisas. Aracaju como "mãe" da calcinha preta há muito tempo é dominada por essa música que chamam de forró, mas apesar de eu não consguir ouvir acho muito melhor que as pessoas estejam ouvindo do que curtindo e imitando as britneys e demais enlatados americanos.

Alex Sant'Anna · Aracaju, SE 20/9/2006 17:06
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Marcos Paulo
 

Esse forró aqui, nem tão moderno assim, se chama "Papo D´Skina".

Olha o hit preferido da galera atualmente: "de bar em bar, de mesa em mesa...bebendo cachaça, tomando cerveja".

Coisa de maluco! Ha-ha-ha!

Marcos Paulo · Rio de Janeiro, RJ 20/9/2006 17:21
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Natacha Maranhão
 

Julia, mau gosto na minha opinião, que fique claro. Mas como disse o Alex, tem "defeitos" que independem de opinião. Essa música que eu falei, "lapada na rachada", é muito ruim mesmo. Não to sendo elitista não, juro!
Alex, como você, eu não consigo ouvir MESMO. Cara, dá vontade de descer do ônibus quando começa a tocar - pior que o motorista deve adorar, porque sempre aumenta o volume. Não sei se você já ouviu por aí, mas aqui no Piauí rolam inclusive versões de músicas da Britney Spears, da Mariah Carey e do James Blunt (sim, You´re beautiful em ritmo de forró).
Marcos Paulo, essa aí da cachaça é do Forrozão Risca-Faca..febre por aqui também. E pelo menos cinco candidatos a deputado aqui usaram a melodia pra fazer seus jingles de campanha.
:-)

Natacha Maranhão · Teresina, PI 20/9/2006 18:33
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Marcelo Cabral
 

Concordo com você Hermano, é provavelmente a música mais popular do Brasil, e esse pessoal da aula de como manter um mercado de música independente, mesmo se utilizando de práticas ultrapassadas e questionáveis como o jabá. No entanto, não consigo perceber absolutamente nenhuma qualidade musical ou poética em nenhum desses grupos, claro que isso é sempre pessoal, elitista ou não, eu acho inaudível.

O que acontece é que essas discussões sobre o forró sempre parecem cair numa coisa que congela o ritmo/festa no tempo, me deixem explicar...Se é esse forró eletrônico é um lixo cultural enlatado fake pras massas isso e aquilo, se uma turma nova como a do forró universitário tenta fazer uma coisa com uma cara mais contemporânea e jovem pras tradições da festa/ritmo/música, aí é coisa de burguês menina-hippie-chique-de-sandália-da-Benedito-Calixto, então a coisa fica naquele saudosismo de Luis Gonzaga e Jackson do Pandeiro, congelado no tempo, uma tradição ancestral, sagrada e intocável.

Música é uma coisa viva mesmo e muda com o tempo e os lugares.

Gravataí, você tem razão, o forró é uma festa, mas também é um dos tantos ritmos, no entanto, creio que a embolada não é um ritmo, o ritmo é o coco, tem o coco de embolada, que é a cantiga, e o coco de roda, que a dança, ambos seguem o ritmo coco.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 20/9/2006 19:23
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Erika Morais
 

independente do "tipo" de forró o texto está uma delícia. Foi um prazer conhecer um pouco da Quitéria e das Negas.

Erika Morais · São Paulo, SP 20/9/2006 19:41
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André Dib
 

Bom, parece que temos uma divisão entre "elitistas" e "deslumbrados". O fato é que bandas como as citadas acima são produto de um cruel coronelismo cultural vivido no Nordeste (principalmente Pernambuco e Ceará), onde renovam-se os hits e as bandas, mas os empresários continuam os mesmos (e o jabá também). Aqui, a letra das músicas fazem mais sentido ainda, pois integram um contexto de miséria material, sexual e afetiva de um povo sem grana, saúde ou educação. Sem falar que esse "fenômeno" tá longe de ser forró. Tá mais pra lambada .

André Dib · Recife, PE 20/9/2006 23:46
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achr
 

Pô pessoal, muito legal o texto da menina ai.
Quem quer escutar "a música" deve ouvir música clássica perfeita em sua construção. Todos os outros estilos e ritmos tem elementos diferentes e iguais, por isso temos a diversidade. Imagina só se tudo tivesse um "padrão" de qualidade técnica, acústica e musical. Isso sim seria muito chato. A gurias queriam matar a saudade dá terrinha delas...nada mais justo.
Viva a diversidade do Brasil!

achr · Porto Alegre, RS 21/9/2006 01:11
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Thiago Rodrigues
 

gostei muito do texto!!
Porem nao consigo dançar forró. ja tentei mais foi um desastre.
Mais e legal ver os outros dançando!!

Thiago Rodrigues · Rio de Janeiro, RJ 21/9/2006 09:46
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Pedro Rocha
 

Gravatai,

Passo bem longe de ser uma autoridade nessa caso do forró, mas aqui no Ceará o forró é muito forte, inclusive é um dos polos de "exportação" dessas bandas... e aqui não vejo de forma alguma sua idéia de forró como um festa ou espaço em que se reunem vários ritmos... A palavra foi reapropriada (se preferir, desvirtuada ou coisa do tipo) e se refere claramente a um tipo de música, no caso do "moderno", com padrões até bem fáceis de identificar.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 21/9/2006 10:28
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Renan Barbosa
 

Acho que o rótulo forró-brega seria mais adequado para nomear o estilo citado no texto e nas discussões. Dos comentários que li, achei o do André Dib aí em cima o mais lúcido. E não vale essa coisa de transformar Luiz Gonzaga em peça de museu. Os caras do forró universitário regravaram suas músicas e foram inspirados por elas, não faz muito tempo que Gil as reviveu no "Saõ João Vivo " e no cd de "Eu, tu, eles". Basta ouvir Gonzagão pra saber que ele foi, é e será muito importante na música do Brasil. Agora, o NE anda tomado desse forró-brega, e o que chama a atenção é a penetração na classe de poder aquisitivo mais alto, que foi antes seduzida pelo sertanejo, "pagode" etc. Democrático: "pobres" e "ricos" na mesma casa de shows pra consumir uma música descartável, de bandas exploradas por empresários sem nenhum amor à arte e muito apego à grana. Geralmente um deles é dono de várias bandas do mesmo formato. E o consumidor consome...
Não podemos esquecer que "o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe"...
Vi a sinfônica de RibeirãoPreto atrair multidões, de todas as "classes", ao Teatro de Arena, em concertos gratuitos e ao ar livre, quando eu morava lá. Ofereça-se ao povo música de qualidade e ele consumirá. E sairá mais inteligente, mais emocionado, mais revigorado culturalmente. Agora, se se trata só do roça-roça do baile, aí vale qualquer ritmo.
Sou cantor de MPB e estou justamente ensaindo um show de forró, que pretendo mostrar aqui em Sampa e na Paraíba (de onde vim), mas acústico: voz, violão e percussão - forró para "ouvir". E tome Gonzagão, Dominguinhos, Genival Lacerda, Braúlio Tavares, Elino Julião, Flávio José, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, Marinês, Trio Nordestino, Chico César e tantos outros. A idéia é justamente dar ênfase nas letrasde forró (os mais antigos, principalmente), que são de uma malícia, ironia, alegria, ingenuidade e refinamento poético impressionantes.
O texto de Júlia está fantástico. Vide o bom debate que está rendendo.

Renan Barbosa · São Paulo, SP 21/9/2006 11:04
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Tati Magalhães
 

O texto está muito bom, gostoso de ler. No entanto, também acho que texto é forma e conteúdo (não só o explícito, mas tb o implícito e o silenciado). Portanto, nesse sentido, acho bem interessante a discussão em torno do tema. Eu ia antes escrever para dizer que concordo com a Natacha, e que a opinião dela está longe de ser elitista. Até porque, e quem vive no Nordeste -ao menos em Alagoas - sabe, o chamado "forró eletrônico" é o ritmo oficial dos jovens mais abastados, junto com o axé. E também acho que a maioria das letras são pobres, sim, do ponto de vista de qualquer pessoa que reflita melhor sobre o que elas representam. Acho que elas reproduzem uma série de preconceitos, especialmente na relação homem - mulher, como a mulher de "pegar" e a mulher "de casar", o cara que sai de bar em bar para "raparigar" e beber cachaça com os amigos enquanto a mulher fica em casa com os filhos, preconceito contra homossexuais (aqui já teve caso de espancamento por conta de incitação de um cantor de forró, que pediu "vaia para as bichinhas")... claro que isso não nasce "do nada", é reflexo de determinadas atitudes que fazem parte do nosso cotidiano, mas na medida em que são reproduzidos mais e mais, contribuem para a perpetuação de certas idéias. Sei que tem gente que acha que isso não conta, que o que vale é o ritmo e a diversão... eu, particularmente, discordo completamente.
No entanto, deixo claro: respeito e entendo quem gosta, só que acho que vai além do "gosto pessoal de cada um".
Ah, não vou entrar nem no mérito das qualidades vocais dos cantores...
Quanto à indústria do forró, concordo completamente com o André Dib. Um amigo de infância meu toca no Calcinha Preta. Aliás, ele não é "parte" do Calcinha Preta. Ele toca pro empresário e dono dessa banda, e de várias outras no mesmo estilo (já pulou de banda em banda até chegar nessa). Em Maceió, um apresentador de um programa policial (e candidato, claro, por um partido de extrema direita) também entrou no ramo. Enquanto anuncia desgraças envolvendo os pobres, bota a banda pra tocar na TV, tem uma casa de show, banca o jabá. Se lucra muito em cima de fórmulas prontas.
Mas enfim, acho que a gente tá tratando de um conteúdo que vai além do que a autora falou (um relato interessante de uma noite de forró com nordestinas em SP), mas que se relaciona com ele. A questão é que se o texto não fosse bom, nem daria esse pano pra manga.

Tati Magalhães · Maceió, AL 21/9/2006 12:00
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Letícia Lins
 

Nota-se a "evolução" do ritmo forró, mas já referente ao baile, continua a mesma coisa, a mulher entrando de "grátis" e esperando o homem que a chame para dançar.
Gostei do texto, fiquei imaginando eu num lugar desses.

Letícia Lins · São Bernardo do Campo, SP 21/9/2006 13:52
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André Dib
 

Forró "estilizado" aqui no Nordeste é a mesma coisa que a monocultura da cana. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Sei que extrapolamos o texto da Júlia, mas é bom que isso seja dito pra quem é de fora ter mais referência...

André Dib · Recife, PE 21/9/2006 16:51
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Marcelo Cabral
 

Tenho que concordar totalmente com André, Tati e Natacha, coronelismo cultural mesmo. E o que a Tati falou, é a elite econômica daqui que consome esse tipo de música, todas as camadas consomem na verdade, é bem popular mesmo.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 21/9/2006 18:50
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jaderdavila
 

esta babel moderna q é s paulo tem de tudo um pouco. julia, já q vc está com o pé na estrada, vai até a estação armenia do metrô, e faz reportagem da festa boliviana.

jaderdavila · São Paulo, SP 21/9/2006 18:56
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Marcos Paulo
 

No último comentário, não especifiquei o tal "Papo de D´Skina". Mas se trata de um local (ou "escolinha", como é classificado por alguns) que recebe tanta gente, mas tanta gente mesmo - de todas as classes - que forma um coral sensacional de música "forró brega brasileira".

E o sucesso, como bem sabe a Natacha, é tal do "Risca Faca".

Que filme de comédia!

Marcos Paulo · Rio de Janeiro, RJ 22/9/2006 09:47
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Edgar Borges
 

Aqui em Roraima, as bandas mais solicitadas de forró são as que fazem cover dessas aí já citadas e que também tocam letras de triplo sentido. E nem sempre as dançarinhas são bonitas como as do Thiago...

Edgar Borges · Boa Vista, RR 22/9/2006 10:43
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Hermano Vianna
 

um debate sobre mais ou menos o mesmo assunto já aconteceu aqui. E uma conversa paralela também foi iniciada aqui.Acho que eu não tenho muito a acrescentar ao que eu disse por lá sem ficar repetitivo...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 22/9/2006 12:42
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Marcelo Rangel
 

Não resisto e vou acrescentar: se este é o espaço para a cultura que não encontra espaço na grande mídia, não é o caso de bandas como a Calcinha Preta. Como já disse o Alex, aqui em Aracaju ele dominam o mercado, o empresário é poderoso, dono de palcos e estrutura, envolvido até com conchavos políticos, pelo menos é o que se comenta (até em inquérito policial o cara já foi parar, tipo Operação Fox). É fato corrente que uma rádio aqui foi arrendada por ele, um negócio alaranjado, digamos... Enfim, ele já tem a mídia na mão... Mas que essas bandas dão aula de mercado independente, ah, isso dão. Só que eu, confesso, acho ruim de doer os ouvidos... rsrs

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 23/9/2006 03:52
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Hermano Vianna
 

mas na mídia de circulação nacional nunca li/vi nenhuma matéria sobre o Calcinha - nao precisa ser uma materia para falar bem, pode ser falando mal tambem - há um silêncio enorme sobre todas as músicas mais populares do Brasil agora - essas bandas não precisaram da mídia nacional para ser sucesso nacional, e aí está algo importante para ser analisado e debatido - tenho um certo receio de que o Overmundo acompanhe o silêncio reinante, e vire um guetinho do "bom gosto", descolado da realidade cultural da maioria da população...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 23/9/2006 08:39
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André Dib
 

É verdade, acho que esses grupos só não estão tanto na mídia nacional porque lá o jabá deve ser bem mais caro... Em alguns casos, os empresários das bandas também são donos das mídias locais, aí já viu, né? Bom, resolvi escrever mais sobre o assunto num post específico, que já tá na lista de edição. Espero vocês lá...

André Dib · Recife, PE 25/9/2006 00:45
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Marcelo Rangel
 

Bem, já vi anunciarem o Calcinha Preta como grande atração no Faustão, Hermano. Seguindo sua indicação, podemos escrever sobre a banda e tudo o que gira em torno dela, aprofundando o que escrevi no post acima. Que tal?

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 25/9/2006 16:04
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Hermano Vianna
 

oi Marcelo: bandas como Calcinha e Calypso só apareceram na grande mídia depois que eram sucesso enorme em todo o Brasil... quando o "de cima para baixo": queria saber mais sobre a origem social dos donos das bandas: não sei se vieram todos de "cima" ou inventaram um novo "cima"... é ótima a idéia de um texto aprofundando o "modelo de negócios" do forró pop - mas seria bom tentar evitar preconceitos - por exemplo, o de que bandas não podem ter donos e que os músicos não podem ser funcionários da empresa, "trocáveis" - lembro que isso é comum em outros tipos de situações musicais, de orquestras sinfônicas à Banda de Ipanema - ou bandas de baile em geral... vejo as bandas de forró pop mais como bandas de baile, e o circuito de forró essencialmente como um circuito festivo... a maioria das bandas não toca apenas seu repertório, toca o que faz o povo dançar, e o povo está ali para se divertir e não para cultuar uma performance "artística" - tudo faz ali um sentido diferente daquele que costumamos a valorizar em outros ambientes, sobretudo aqueles mais ligados a uma idéia romântica de "artista genial" etc. - não estou aqui criticando a idéia de "artista genial" - mas os gênios também produzem muita música ruim, assim como os astros do forró pop (que também produzem alguma jóias geniais -talvez por descuido, pois sua função é fazer o povo se divertir numa noite onde a genialidade até atrapalha... hehehe) - quanto ao outro texto do Dib (ainda na fila de edição, mas facilmente encontrável via o seu perfil) : puxa, sexo e problemas românticos não têm "conexão alguma com a realidade urbana (ou rural) vivida pelos nordestinos hoje?"

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 26/9/2006 12:48
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Marcelo Rangel
 

Gostei da proposta, Hermano... vou tentar (mesmo) me livrar de todos os preconeceitos... rsrs... eu até já estive em bailões assim aqui, não será nada tão complicado... (afinal, após alguns goles, o som já nem faz diferença... rsrsrsrs) Mas, sério, realmente acho o "modelo de negócios" dessa galera admirável.

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 26/9/2006 21:44
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André Dib
 

Oi, Hermano! Sexo e problemas românticos dizem respeito a qualquer ser humano sobre a terra... Negócios à parte, no meu texto, demarquei onde penso estar a diferença entre a não tão nova indústria do forró e boa parte das expressões das periferias (incluindo o próprio forró antigo). Quando falo em falta de contexto nas músicas, quis dizer: onde, geograficamente, elas são produzidas (bairro, cidade)? Em que condições sociais? Não existe território definido para o forró eletrônico, principalmente se comparando com gêneros como o funk e o hip hop...

André Dib · Recife, PE 27/9/2006 00:34
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Hermano Vianna
 

mas por que a obrigatoriedade de toda música falar do contexto local? por são da periferia? schubert podia falar de amor universal sem falar das condições sociais urbanas ou rurais do império austro-húngaro... por que ele pode ficar com o "universal" e o forró ou o hip hop não?

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 27/9/2006 11:31
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André Dib
 

Obrigatoriedade nenhuma. É uma questão de gosto meu mesmo... sabe como é: quanto mais local, mais universal (ou será vice-versa?) :-)

André Dib · Recife, PE 27/9/2006 17:08
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