Fotografias de Ouro Preto

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Luizao Ouro Preto · Ouro Preto, MG
25/3/2007 · 98 · 6
 

Recentemente, um conhecido comerciante da tricentenária Vila Rica – Ouro Preto, se preferir - pendurou na fachada do seu estabelecimento um cartaz com pelo menos uma dúzia de fotografias onde pontua seu descontentamento com o que chama de “favelização” do patrimônio mundial. Costumo dizer que até a apresentação das provas o postulante tem metade da verdade e 50% de razão. Nesse caso específico, eu diria 75, uma vez que os comerciantes têm a sua parcela de responsabilidade. Não desmerecendo a iniciativa, pelo contrário, penso que tal discussão requer melhor amplitude e desdobramentos.

Concordo com o comerciante indignado que a inércia do poder público – Prefeitura, Estado, IPHAN, etc. – contribui para que as “anomalias” registradas em sua objetiva maltratem a imagem da cidade, descaracterizem o conjunto arquitetônico e subtraiam da paisagem a sua beleza natural e particular. Não é novidade o discurso e a denúncia do desmazelo. Trata-se de um desabafo, muito oportuno por sinal.

Entretanto - e esta é a contribuição do protesto -, cada fotografia traz em si diversas perspectivas e oportunidades de melhorias que podem contribuir para a qualidade de vida das pessoas que vivem nesta cidade, reconhecido berço da história de Minas Gerais, patrimônio cultural da humanidade. Antes de entrar no mérito da questão é útil e conveniente esclarecer aos leitores do Overmundo que não se trata de um problema doméstico, tem a ver com a preservação de nossas tradições e nossos sentimentos por este pedaço de chão.

Cada caso deve ser tratado em sua especificidade, e como demonstra o mostruário de situações nas imagens expostas, a coisa vai de mal a pior. Eu destaco e classifico os problemas denunciados por ordem de urgência e importância, a saber: (1) o “inchamento” da cidade por ocasião das festas tradicionais; (2) o processo de “descaracterização” da cidade; (3) a preservação do patrimônio histórico; (4) a preservação do patrimônio natural; e (5) a falta de perspectivas para o futuro. Minha contribuição para isto é esclarecer ao público, particularmente para os deslumbrados turistas e admiradores desinformados do maior conjunto arquitetônico barroco do Brasil que o buraco é mais embaixo. Para os políticos, assim é se lhe parece. E não é.

É impossível expor a quantidade de problemas denunciados pelas tais fotografias em poucas palavras, de sorte que estarei enviando notícias e opiniões nos próximos encontros com o Overmundo, esperando que as colaborações e comentários possam ser úteis no futuro para nossos representantes políticos. Não creio que leiam o Overmundo (ou queiram ler ou saibam ler), mas a esperança não morre fácil assim.

O INCHAMENTO

Algumas das fotos chamam a atenção para o “inchamento” de Ouro Preto por ocasião do carnaval, particularmente. No último carnaval, por exemplo, a população da cidade aumentou cerca de quatro vezes a sua capacidade, as repúblicas, os hotéis, as pousadas e mesmo casas de famílias ouropretanas receberam um número exorbitante de turistas. Instalou-se o caos nesta cidade, relativamente calma e ordeira. As imagens do citado comerciante destacam a sujeira e os descalabros dos foliões que fazem de Ouro Preto uma imensa latrina, um depósito de suas incontinências esfincterinas e perversões sexuais. Parece exagero reacionário, e não é. Reacionário seria aceitar este estado de coisas, não querer mudanças.

Pior é a informação incompleta e parcial dos meios de comunicação que cobriram a festa, os olhos e ouvidos de mercador das instituições e organizações políticas, do poder público, o silêncio das autoridades desta cidade. Pelo número de elogios ao “melhor” carnaval de Minas, o número de comunidades e sites que destacaram a folia em 2007 na velha Vila Rica, faz-nos crer que a festa é organizada, limpa, sem violência, que tudo correu na mais perfeita normalidade, etc. Este discurso sim, é reacionário. Interessante notar o noticiário das oito, as intervenções e coberturas da mídia em rede nacional para os cordões, os blocos carnavalescos, a alegria incontida dos foliões, um jornalismo pasteurizado e sem conteúdo crítico, um verdadeiro show de desinformação. Isto é reacionário.

Prefiro – neste caso – as tais fotografias, que retratam melhor a realidade vivida. Para que o leitor do Overmundo tenha idéia do meu reacionarismo: imagine um sujeito cagando e mijando na porta da sua casa, sem o mínimo pudor, sem a mínima decência, em plena luz do dia. Para ficar por aqui, afinal coisas piores atravessam os olhos do cidadão e de sua família, quando não das crianças.
Exagero? Visitem Ouro Preto na quarta-feira de cinzas por ocasião da limpeza das ladeiras pelos caminhões pipas da Prefeitura. Recomendo ingerir comprimidos de anti-nauseante, uma caixa deles, um litro se for líquido. Este é o nosso carnaval, ou o que sobrou dele.

Penso que nas cidades mais liberais e tolerantes do planeta estas práticas não encontram proteção da lei e descaso das autoridades. Certo é que o cidadão ouropretano, cumpridor de seus deveres e verdadeiro apaixonado por esta terra não concordará jamais com as notícias do Jornal Nacional, somos inconfidentes e cultivamos nossa alma revolucionária. Aqui no Overmundo, espero esclarecer algumas incongruências e trazer a informação que não foi publicada como deveria. Sou mineiro e bastante reacionário, se assim lhe parece.

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Se você ouviu ou leu alguma informação sobre a Folia em Ouro Preto, peço comentar e emitir sua opinião a respeito.

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Na próxima postagem O Verdadeiro Carnaval de Vila Rica. Aguardem!

Aproveito e aumento o zoom, ok

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Egeu Laus
 

Luizão,
Por acaso você tem condições de tirar uma foto desse cartaz?
Outra coisa: coloca uma linha em branco entre alguns parágrafos para "arejar" um pouco a matéria.
Um abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2007 09:52
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Luizao Ouro Preto
 

Beleza. "Arejei" um pouca a matéria; agora vou por a minha Rolleyflex em ação. Um abraço.

Luizao Ouro Preto · Ouro Preto, MG 23/3/2007 10:08
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Fanny
 

O pessoal de Olinda se queixa igualmente das mesmas barbaridades no carnaval de lá. O patrimônio que se dane - este é o grande grito de carnaval.

Fanny · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2007 10:25
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Helena Aragão
 

Enquanto lia seu texto pensei na mesma coisa que a Fanny. Estive em Olinda um pouco depois do carnaval e, apesar de todo mundo dizer que este ano foi mais tranqüilo, há uma insatisfação geral por conta da quantidade de gente e a poluição visual da publicidade (era Bar da Boa pra baixo em todo canto). Essas cidades históricas e foliãs bem que podiam trocar figurinhas sobre como manter a alegria da festa sem prejudicar o patrimônio.
Luizão, acho que teria muitas outras coisas a comentar, mas vou esperar as próximas postagens. O comentário já está enorme.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2007 16:00
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Luizao Ouro Preto
 

Nas próximas postagens aumento o zoom; sou péssimo fotógrafo, mas a intenção é das melhores....

Luizao Ouro Preto · Ouro Preto, MG 23/3/2007 22:02
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Fanny
 

Luizão, não sei se vc é péssimo fotógrafo ou se o cartaz estava em um local difícil para que vc pudesse fotografá-lo de frente, bem de frente mesmo. A perspectiva é que dificulta a leitura. Enfim, acho que este problema é irrelevante diante do seu texto e do que vc abordou nele. E, falando em fotografia, eu adoro esta foto da sua "identidade" no Overmundo.

Fanny · Rio de Janeiro, RJ 25/3/2007 11:19
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