Monumentalidade e reflexões sobre o efêmero são destaques de espaço que, apesar de jamais cobrar ingresso, segue ignorado solenemente por público adulto
A política da galeria é puro marketing de guerrilha. Visitas gratuitas desde sempre e para sempre, ausência proposital de curadores e um horário de abertura no mínimo exótico: funciona 24 horas por dia. Mesmo assim o raro jogo de formas, texturas e cores em exibição na maior galeria de que jamais se ouviu falar não atrai os olhos do grande público. Especialistas em instalações acreditam que a galeria das nuvens, apesar de estar bem em cima de nossas cabeças, fracassa porque hoje, mais do que nunca, adultos olham para frente - jamais para o alto.
Mas nem todos deixaram de lado o único passatempo que não se repete nunca. Para esses, aliás, a atividade é mais que passatempo. "Acreditamos que nuvens são para sonhadores, e contemplá-las faz bem a alma", afirma o jornalista e escritor inglês Gavin Pretor-Pinney no manifesto da Sociedade de Apreciação de Nuvens.
Essa curiosa associação já registra 1.200 membros (isso em 2005 quando escrevi esse texto, agora são 14.313!!!), a maioria no Reino Unido, mas também na Nova Zelândia, Holanda, Estados Unidos, Argentina e Brasil. Eles recebem certificado, emblema e uma missão: difundir o hobby que é uma das mais antigas formas de contemplação do homem.
Sua principal arma: publicar no site da entidade fotos incríveis, capazes de converter qualquer um em observador de nuvens. "Se mais pessoas estivessem atentas aos humores da atmosfera, compreenderiam melhor como o mundo funciona", acredita Gavin, que no ano passado viajou até os confins da Austrália para observar uma nuvem única. A Morning Glory forma-se na primavera e pode chegar a milhares de quilômetros quadrados de extensão. Com sua forma de rolo, essa gigante viaja a 60 km/h, atraindo gente que, como Gavin, a "surfam" em aviões planadores.
Bem antes desse "esporte" pouco conhecido, sociedades antigas que sobreviviam da terra sempre estiveram de olho nas alturas. E mesmo o homem do campo contemporâneo, antes dos problemas de aquecimento global ficarem tão evidentes, olhava para cima antes de lançar a semente ao solo.
Mas o ritmo da cidade nos faz esquecer essa simples diversão. É verdade. Quer ver? Olhe de novo as fotos que você tirou naquele passeio ao sítio de um amigo no final de semana. Ou na primeira viagem a uma praia ou montanha. Há grande chance de haver alguma que destaque o céu. Se houver, você já pode se considerar um pretenso membro da Associação de Apreciadores de Nuvens.
Isso mostra nosso pendor natural para adorar os altos-cúmulos, aquelas nuvens que formam o "céu encarneirado". "Mas nem sempre é preciso dar nome às coisas, às vezes é melhor apreciá-las sem compreendê-las", lembranos Gavin, que está escrevendo um livro sobre o tema.
Se uma das características mais surpreendentes das nuvens é a abstração em movimento, então de fato o melhor é olhar, e nada mais. Olhá-las sempre. Sair no fim de semana e deixar um recado na geladeira: "Estou nas nuvens". Olhá-las obriga a parar. Reduzir o ritmo. Respirar. Aos poucos, a leveza com que vão e vêm envolve. E aí, depois que os pés saem do chão e desaceleramos, enxergamos sua grandiosidade. A grandiosidade da natureza, que nesse caso lembra delicadamente nossa finitude e pequenez.
O poeta Ralph Waldo Emerson (1803-1882) via o céu como a maior galeria de arte. Portanto, reverenciar as nuvens é um elogio à criatividade, à sensibilidade, ao desprendimento.
Espetáculo sem fim
À noite, apesar de as nuvens ainda estarem em cena, os atores principais do céu são as estrelas, planetas, cometas. O espetáculo dessa trupe tem encantos diferentes dos iluminados pelo Sol.
Para vê-los bem de perto, uma vez por mês o Observatório Astronômico Frei Rosário, da Universidade Federal de Minas Gerais, aponta seus telescópios para o espaço e abre suas lentes ao público. Atrai dezenas de pessoas que vão até lá ficar mais perto das estrelas.
O observatório fica na Serra da Piedade, em Caeté, há 50 quilômetros de Belo Horizonte. Do alto de seus quase 1.800 metros, a vista é deslumbrante a qualquer hora do dia. Mas nas noites de observação astronômica formamse insuspeitas filas diante de telescópios profissionais e amadores.
Aos poucos, pais e filhos, amigos, casais de namorados ou solitários vão descobrindo um universo inacessível a olho nu. Lá, os telescópios ultrapassam a camada de luz artificial e poluição que encobrem o céu das cidades. E provam que, visto assim, o céu é sempre uma novidade excitante.
Apontar nossa visão para o alto é também olhar para dentro. A dinâmica do céu é espetáculo que não tem intervalos, verdadeiro convite ao deslumbramento. E lembre-se: 24 horas por dia, a entrada é franca.
VISITA GUIADA:
. Conjuntos visíveis de partículas minúsculas de água ou gelo, ou de ambos, suspensos na atmosfera. É assim que a ciência explica as nuvens.
. A mesma nuvem é vista de várias maneiras. Além da quantidade e cor de luz que ela recebe, depende de onde você a observa.
. Os dez tipos básicos de nuvens são: cirro, cirro-cúmulo, cirro-estrato, altoestrato, alto-cúmulo, estrato, estrato-cúmulo, nimbo-estrato, cúmulo e cúmulo-nimbo.
. Nuvens são vistas de qualquer lugar. Mas sempre que puder, busque espaços amplos e abertos, que permitam uma visão mais grandiosa.
. Belas mudanças de cores das nuvens ocorrem próximas ao pôr-do-sol, um dos momentos mais propícios para largar tudo e olhar para cima.
"Nuvens são a manifestação mais igualitária da natureza, já que todos podem dispor de sua fantástica visão."
Do manifesto da Sociedade de Apreciadores de Nuvens
"Olhe para cima, maravilhe-se com a beleza efêmera, e viva a vida com a cabeça nas nuvens!"
Do manifesto da Sociedade de Apreciadores de Nuvens
"Acreditamos que nuvens são para sonhadores, e contemplá-las faz bem a alma."
Do manifesto da Sociedade de Apreciadores de Nuvens
"O céu é a maior galeria de arte"
Ralph Waldo Emerson (1803-1882), poeta
"É estranho como as pessoas em geral sabem tão pouco sobre o céu. Trata-se da parte da criação em que a natureza fez mais para agradar o homem, com o propósito único e evidente de falar-lhe e ensinar-lhe, do que em todas as suas outras obras. E é exatamente a parte à qual prestamos menos atenção."
John Ruskin (1819-1900), escritor e crítico
PARA VIAJAR
Instituto Nacional de Meteorologia http://www.inmet.gov.br/
Observatório Astronômico Frei Rosário (UFMG) http://www.observatorio.ufmg.br/
Sociedade de Apreciação de Nuvens http://www.cloudappreciationsociety.org/
Vitor Hugo,
o nosso olhar para o céu hoje, quando se faz, é um olhar científico... Prescrutador. Já os observadores de nuvens - esses nefelibatas de fato - pisam fora da vida positiva em uma atitude de absoluta contemplação.
Até então não sabia que esses grupos existiam, mas gostei muito de saber!
Abraços!
Que massa... associação da apreciação de nuvens. Tô dentro!
Turbilhão Psicodélico · Cuiabá, MT 19/3/2009 22:03
Sem saber sou sócia desde sempre dessa comuna de "nefelibatas", mas sempre olho pra baixo.
Será porque vivo nas nuvens?
Küse
viajar,sonhar e apreciar.....
virtudes que não dispenso..
sim sou um admirador nato das nuvens!!!
abraz kiko
opa !...tb ando meio fora da "vida positiva" (o que quer que venha a ser isso...rs)
Vivas às nuvens todas, inclusive as pesadas cumulus-nimbus !...
Ecce Homo !...que faz do viver tudo o que bem entender !
Muito bom !
abs
V itor,
estou dentro dessa associação pois quando bato fotos, principalmente quando estou na praia,
destaco o mar, o infinito e a beleza do ceu,
que nada mais é do que nuvens.
E não é só carneirinhos, as vezes há magnificos castelos no ar.
bjs
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