Fragmentos da cultura e sociedade de Viçosa

Paulo Sacramento - www.paulosacramento.com.br
Viçosa/MG
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Paulo Sacramento · Viçosa, MG
3/11/2006 · 140 · 3
 

No interior de Minas Gerais, mais especificamente na região da Zona da Mata, encontra-se uma pequena cidade chamada Viçosa. Reconhecidamente um dos maiores pólos acadêmicos do país, nela residem cerca de 70 mil habitantes. Se o leitor pergunta a razão de um centro educacional importante estabelecer-se longe de qualquer aglomerado metropolitano de relevância, afirmo que a resposta pode ser encontrada na atuação política de um personagem histórico bem específico: Arthur Bernardes. Em 1926, o então presidente do Brasil, nascido em Viçosa, inaugurou a ESAV - Escola Superior de Agricultura e Veterinária. O primeiro diretor da escola, Peter Henry Rolfs, foi um dos maiores responsáveis pela concepção do centro de estudos em conforme com os moldes norte-americanos. A verdade é que o projeto rendeu tão bons resultados que em 1969 a instituição se tornou federal, principalmente em virtude da excelência alcançada na área agropecuária, tradição que persiste até os nossos dias.

Para se ter uma noção do que a instituição se tornou, os dados estatísticos de 2005 revelam que a atual Universidade Federal de Viçosa possui pouco menos de dez mil estudantes matriculados em seus trinta e sete cursos de graduação. A universidade oferece da mesma forma, diversos programas de estudos de pós-graduação e até uma escola de nível médio. É fato que o caráter estudantil da cidade de Viçosa tem se tornado mais marcante nos últimos anos devido à criação de novas faculdades particulares. Somados aos inúmeros cursinhos pré-vestibulares e às escolas técnicas, entendemos por que Viçosa atrai estudantes não só do Brasil como também do exterior.

Sabemos que uma parcela representativa do consumo econômico do município é proveniente de estudantes sustentados pela família, fator que pode determinar o baixo custo de vida na cidade. Encontramos um bom panorama da vida comercial de Viçosa na principal avenida da cidade. A avenida P.H. Rolfs é ocupada por lan houses, restaurantes self-service, xerocadoras e papelarias. Nestes ambientes, o estudante conhece um pouco mais o jeito de ser mineiro, repleto de “causos” e histórias de tempos passados.

Um espaço de interação com a cultura local que não poderia deixar de ser mencionado são as barbearias. Caso alguém queira se informar dos últimos acontecimentos, digo, saber quem morreu, casou-se ou foi preso, deve considerar uma visita a um desses estabelecimentos. Viçosa também possui alguns personagens famosos que sempre estão na boca do povo. Os chamados “malucos” da cidade são assunto constante e já possuem comunidades no Orkut e vídeos no Youtube. Alguns dos mais famosos são “Amendoim Torrado”, Rogerinho e Chapa Halls, que vocês podem conhecer através dos vídeos abaixo:
Amendoim Torrado
Rogerinho
Chapa Halls

Após o vestibular, a massa de alunos de graduação se vê polarizada em dois grandes grupos opostos: veteranos, que são aqueles que já concluíram o primeiro ano de curso, e calouros, apelido atribuído aos alunos que acabaram de entrar na universidade. O ingresso do estudante de graduação na UFV é pontuado por um ritual de iniciação denominado “trote”, prática corrente em entidades de ensino de todo o Brasil, inclusive. Durante o trote, veteranos munidos do pensamento “me encheram de tinta ano passado, agora é minha vez de dar o troco”, submetem calouros de seus cursos a diversas formas de brincadeiras constrangedoras. A recente política de repressão ao trote da instituição surtiu o efeito positivo de estimular propostas alternativas como o trote solidário, em que são realizados trabalhos voluntários, dentre outras atividades amigáveis de integração entre calouros e veteranos. Apesar disso, a realidade é que o trote não foi erradicado e que os tradicionais banhos de tinta sobrevivem. Creio que mais palavras sejam supérfluas, visto que os vídeos abaixo ilustram muito bem o que escrevo:

Trote de Engenharia de Produção - UFV - 2004

Trote da Nutrição UFV 2004
calourada da agronomia 2004 ufv
Trote arquitetura UFV 2006

A maioria dos estudantes mora em repúblicas, sendo que algumas são constituídas por pessoas advindas de uma mesma cidade, outras por integrantes que fazem parte de um determinado grupo religioso, e em alguns casos por alunos de uma mesma turma na universidade. Entretanto é muito freqüente a escolha da moradia por mera viabilidade orçamentária, ou seja, as despesas mensais decorrentes da opção de morar naquela república serem compatíveis com os recursos financeiros da família provedora.

Neste contexto, muitos dos que chegam a Viçosa para estudar nunca haviam morado longe de casa. Bem, é de se esperar que a experiência de ser o único responsável por si mesmo em uma cidade distante, ter que lidar com a saudade, e se integrar a um novo grupo de amigos, convide o jovem aos bares e às festas. Não creio estar exagerando ao afirmar que o álcool tem um papel central nos eventos comunitários que ocorrem em Viçosa. Este fenômeno é reforçado, inclusive, pela cultura da microrregião, cujos índices de alcoolismo são um tanto quanto elevados.

Contudo, tal fato não impossibilita que a vivência na cidade seja uma excelente oportunidade de conhecer traços da cultura que as pessoas dos mais variados estados expressam cotidianamente. É muito comum vermos capixabas, baianos, mato-grossenses e paulistas morando em uma mesma república, saindo para as festas ou se encontrando para realizar atividades de uma disciplina da universidade. Possuem diferentes sotaques, hábitos alimentares, religiões e preferências musicais, porém estão sempre em contato, estudando e se divertindo juntos. Em suma, a oportunidade de conhecer gente de diversos lugares diferentes, e de estudar em uma renomada instituição de ensino, associadas ao baixo custo de vida fazem da cidade de Viçosa um excelente lugar para quem busca conhecimento científico e cultural.

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ronaldo lemos
 

Uau, que artigo bacana. Lan-Houses e barbearias, acho que esse é bem o retrato das cidades do interior no Brasil atualmente. O que eu fiquei curioso é que tinha um "Chapa Halls" - que aliás achei que se escrevia "chaparral", ou algo do tipo - no Triângulo Mineiro também. Se alguém chamasse ele por esse nome, ele te tascava uma pedrada na cabeça. Será que "chapa halls" é um nome genérico para doidinhos no interior de Minas?

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 1/11/2006 14:15
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Paulo Sacramento
 

Hahaha... é curioso mesmo! Aqui em Viçosa também tem um cara que o pessoal chama de Lua. Dizem que se alguém chamar ele assim, ele bate na pessoa. Que doidera!

Paulo Sacramento · Viçosa, MG 1/11/2006 14:21
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apple
 

Não achei uma boa experiência morar em república. Foi muito sofrido...

O dinheiro contado de quem mora longe da família também não é animador.

Pensaria várias vezes antes de repetir a experiência.

apple · Juiz de Fora, MG 2/11/2006 13:23
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir

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