Na segunda ou terceira série, me perdi ao voltar para casa. Fui encontrado num campo de futebol, caminhando a esmo. Estava, sem saber, a poucos metros da casa da minha avó. Voltei na garupa da bicicleta de um amigo do meu pai. Lá o encontrei chorando. Estava visivelmente abalado, foi o que disseram. Noutro dia, ao sair da aula fui convidado a entrar num carro preto. O ocupante do assento do motorista insistia: “Seu pai está te esperando”. Eu corri. Não contei nada a ninguém. Foram os primeiros percalços da vida de estudante. Tudo isso aconteceu no final dos anos 1980.
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Fabiana tinha cabelos claros, quase louros. Era a garota mais cobiçada entre os meninos do Santa Inês. Michele era bonita. Menos que Fabiana, claro, mas ainda assim bonita. Karine era diferente, mais solta, usava muito batom e cabelos presos – eu já achava rabos-de-cavalo atraentes. Curioso, não lembro do rosto de Vanessa, apenas que atirou a minha mochila do primeiro andar da escola e em seguida me presenteou com um chute certeiro na canela. Tatiana era feia, descaradamente feia. Entre nós seu papel definiu-se de forma pouco honrosa ou pudica. De bom-grado, animava algumas de nossas brincadeiras no pátio da escola, longe das vistas da coordenadora. Era 1991.
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Ter pouca habilidade com uma bola de futebol e nenhuma disposição para enfrentar as fragorosas disputas que marcam a infância de qualquer garoto foram duas coisas mais ou menos determinantes na minha vida. Gostar exageradamente das meninas e, a um só tempo, temê-las mais que qualquer outra coisa foi, sem dúvida, algo ainda mais traumático. De uma forma ou de outra, toda essa passionalidade marcou grande parte das minhas memórias escolares e criou, até hoje, figuras mitológicas, deusas e ninfas que, mesmo com o passar dos anos, não perderam a graça de quando se tem dez anos e um mundo inteiro de descobertas pela frente.
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A casa da infância são muitas. Aquela era pequena com um quintal enorme. Tinha muro baixo, garagem para carro, jardim de inverno. No fundo do quintal, um cajueiro mirrado e algumas bananeiras plantadas por minha avó materna tinham conseguido furar o casco que era o chão de piçarra. Enquanto vivi por ali, brinquei muito. Era cruel, me divertia trucidando pintinhos e patos e atirando pedras nos meus irmãos, ainda menores que eu. Quase furei o olhinho da minha irmã. Minha mãezinha, por seu turno, quase furava o meu.
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No bairro, as ruas eram indicadas por letras e números. Quero dizer, letras ou números. A nossa era a B. Nela havia uma oficina mecânica, uma mercearia, um telefone público, uma casa de umbanda e a mulher de um caminhoneiro. Ele, como todo bom ou mau caminhoneiro, mantinha-se afastado de casa a maior parte do tempo. Ela, ao contrário, era gregária, nunca saía ou ia a festas. Alguns dos meninos da rua fizeram do seu quintal uma espécie de segunda morada. O cachorro que o casal criava era dócil, entendia as nossas razões.
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Sempre detestei estudar de manhã. Além de tímido, reservado e medroso, era preguiçoso, dormia além do horário. Mesmo assim, minha família continuava insistindo em que acordasse cedo. No Santa Inês foi diferente. Por alguma razão, matricularam-me à tarde. Deveria entrar à uma e deixar a escola às cinco. Durante um ano, foi uma das coisas que fiz por lá. A outra foi apaixonar-me pelo maior número de garotas possível. Obviamente, essas paixões se mantinham sempre restritas aos devaneios ou surtos líricos que marcavam a transição entre uma aula e outra e, num estágio quase patológico, entre uma frase e outra dos professores. As coisas que imaginava eram bem mais atraentes que qualquer polígono regular, cartilha de educação religiosa ou expressão numérica. Digo, as coisas que as meninas despertavam na minha imaginação.
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Por exemplo, alguns cheiros. Muitos deles preenchiam todo o espaço reservado ao conhecimento das coisas do mundo. O de creme para cabelos, por sua força e potencial dramático foi, por muito tempo, um dos meus prediletos. Claro, não qualquer creme, mas o que Fabiana usava para tornar os seus ainda mais resplandecentes.
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Estávamos na quarta ou quinta série do primeiro grau, hoje ensino fundamental. A classe tinha pouco mais de vinte alunos, quase todos filhos e filhas de garçons, cabeleireiras, mecânicos, taxistas, bombeiros hidráulicos etc. Usávamos fardamento novo. Afinal de contas, a escola era nova, instalara-se há alguns meses no bairro no exato local onde havia funcionado uma escola pública. Lá aprendi a humilhar e a ser humilhado. Principalmente, a ver que tudo começa muito cedo. E que muitas crianças são verdadeiros aprendizes de carrascos. Eu pertencia a esse grupo. Sempre desancava o filho do pedreiro. Um dia, me apaixonei pela vizinha dele. Ela era linda. Ao cabo de algumas conversas sobre ela, o filho do pedreiro acabou servindo de pombo-correio. A coisa não foi adiante, mas ele me ajudou. Eu fiquei desconcertado.
Quero sorver das outras partes deste texto... Como recria o paradgma aluno fundamental e professor fundamental?
Reticências... · Salvador, BA 19/11/2007 18:44
Quando escrever as outras partes me informa tá?
Reticências... · Salvador, BA 22/11/2007 14:44Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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