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Fred 04: a indústria fonográfica está ruindo

divulgação
Mundo Livre S/A. Fred 04 no meio.
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Pedro Rocha · Fortaleza, CE
4/12/2006 · 263 · 12
 

Fred Zero Quatro tem uma barba irregular com tufos de pelos espalhados desordenadamente. Chinela de dedo, calça que acaba pouco antes do tornozelo e uma camisa de botões onde os dois mais próximos do pescoço ficam abertos. Tranqüilo. Olhando assim, ninguém consegue imaginá-lo como tele-repórter, como o foi por dois anos, numa TV em Recife, acordando cedo, fazendo cerca de quatro pautas por dia, mandando matérias para o Boris Casoy. E ele realmente não o é mais. É sim, vocalista da Mundo Livre S/A, uma das bandas mais importantes do Manguebit, movimento que levantou a saia do Recife na primeira metade da década de 90, misturando de tudo um pouco: o rock com o maracatu, a tradição e tecnologia. Música, moda, cinema...

A banda chega a Fortaleza fez show no Buoni Amici´s Sport Bar, comemorando os cinco anos do projeto Farra na Casa Alheia. Depois de 22 anos do grupo, era de se esperar algo mais morno talvez, mas antes do show Fred disse: "Pela primeira vez, Fortaleza vai ver a versão completamente independente, autônoma, do Mundo Livre S/A. Uma banda que assumiu completamente as rédeas da própria carreira".

O sexto CD do grupo, Bebadogroove, lançado no fim de 2005, foi totalmente produzido de forma independente pelo selo próprio do grupo Ôia. De lá pra cá, foram cerca de três mil cópias vendidas de mão em mão, durante os shows, algo que Fred diz ser muito mais gratificante que nos tempo de Abril Music, gravadora pela qual o grupo lançou seu quatro CD, Por Pouco. A distribuição em lojas vai começar agora com uma parceria com a gravadora Monstro Discos.

Em entrevista, Fred fala de como está sendo se organizar independentemente, fala desse circuito que corre por fora dos grandes meios de comunicação e começa a se consolidar e conquistar seu espaço.

Vou começar com uma provocação Fred. Como é que vai a indústria fonográfica?

Eu precisaria de um monte de informação que eu acho que é meio sigilosa pra ter uma avaliação mais objetiva. O que a gente vê mais evidente é que um certo monopólio de marketing, divulgação, principalmente nos grandes veículos, foi completamente desconstruído nos últimos anos. Um certo controle que eles tinham em termos de padronizar a programação de rádio de norte a sul do país que era uma coisa muito comum de se vê quando tal artista de tal multinacional lançava um trabalho novo, no outro dia, de norte a sul, todas as rádios tavam tocando, e tal e tal. Há quanto tempo você não tem uma música que é o grande hit da temporada? Não tem. Hoje, cada vez uma parcela maior do público tá muito mais ligado no seu Ipod, baixando música na internet. A gente esse ano bateu o record de agenda de shows, tá fechando o ano no mínimo com 53, 54 shows, 20% a mais que a agenda de shows do ano passado. O tipo satisfação que a gente tem hoje, saber que já tem não sei quantos ingressos vendidos, vendendo nosso próprio trabalho autônomo é infinitamente mais legal.

Como foi conviver com esse esquemão?

O único período que a gente conviveu com esse esquemão mesmo foi de 98 a 2001, foi o tempo que a gente tava na Abril Music. O único disco que a gente produziu totalmente no esquema da Abril, que foi o Por Pouco, que foi um disco premiado e tal, foi uma experiência traumática. Foi uma novela até se conseguir entrar em um acordo para o produtor, outra novela maior ainda pra se conseguir entrar em acordo em termo de repertório. A gente fez uma demo com vinte e tantas músicas, dessas vinte só aproveitaram sete. Pela primeira vez a gente teve que gravar música fora do nosso repertório, mas óbvio que a gente não aceitou as imposições deles, mas acabou gravando Loirinha Americana de Mestre Laurentino, gravou Jorge Ben.

Até que ponto isso que você já se referiu como "guerrilha cultural", essa organização independente, afeta realmente estruturas de poder?

Eu tô lendo um livro bem bacana John Holloway, um cientista social que acompanhou durante um bom tempo os zapatistas (Exército Zapatista de Libertação Nacional, no México), passou um tempo em Chiapas e tal. Esse livro se chama Mudar o mundo sem tomar o poder, a princípio eu achei meio estranho e tal, mas depois fui aprofundando e caiu a ficha. De certa forma quem sentia o que era o ambiente cultural do Recife, 14, 13 anos atrás, quando a gente começou a fazer músicas, e vê o ambiente cultural hoje, como é, não só em termo de música, mas em termo de cinema, agora o Baixio das Bestas do Cláudio Assis, super premiado em Brasília, e tudo começou com Baile Perfumado que a gente fez a trilha, eu, Chico (Science), Siba... Se você vê o ambiente cultural de Recife hoje é completamente diferente, mudou não o mundo, mas mudou um comunidade completamente sem precisar tomar o poder.

Muitas de suas músicas são como crônicas sonoras da sociedade, fazendo crítica a partir de fatos midiáticos como o 11 de setembro, e também personagens como Ronaldinho, Luma de Oliveira, Laura Bush... Isso é a verve de jornalista formado, apesar de não exercer a profissão?

Ah! Total véio. Desde adolescente, eu ainda fazendo o ginásio no Colégio Militar do Recife, em plena ditadura, década de 70, tendo aula de OSPB (Organização Social e Política do Brasil) com militares. Meu pai querendo que eu fosse oficial do exército e o que me atraia, embora já em decadência, era o Pasquim. Desde então esse vírus da comunicação já começou a bater, dali eu já comecei a ter certeza que eu nem ia ser oficial como meu pai queria, muito menos uma dessas carreiras que ele poderia achar interessante, como Direito, Engenharia, Medicina. Eu prestei vestibular na Comunicação, pra desespero do meu pai, passei em primeiro lugar na UFPE em Comunicação e eu acho que desde o início, na fase de estudante ainda, eu canalizava isso tanto pro jornalismo, essa necessidade de trabalhar a comunicação, quanto para minhas composições. A gente trabalha com contra-informação e eu acho que tem a ver com a minha formação.

Falam muito da carga política das músicas do Mundo Livre S/A, mas ao mesmo tempo tem uma espontaneidade muito grande nas composições. Esse é o clima da banda?

Uma imagem que, segundo o Renato (Lins), foi eu que criei, que nessa fase de início de formatação dos conceitos do Mangue era tudo muito coletivo e ninguém se lembra de quem inventou o quê. Mas Renato jura que fui eu que inventei essa história da parabólica na lama, eu sempre fui fã de (Stanley) Kubrick esse poder de criar imagens sintéticas. E essa idéia tem a ver com isso, de conseguir sintetizar opostos. Você pega o disco do Mundo Livre, você tem justamente isso, tem uma música como Musa da Ilha Grande e tem uma porrada sobre Comandante Marcos (líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional) e tal e tal. A idéia é tentar romper a fronteira do gueto.

Matéria publicada no caderno Vida & Arte do jornal O Povo

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Bernardo Mortimer - www.sobremusica.com.br
 

Pedro, bem legal a matéria. Acompanho o mangue bit e seus desdobramentos há um tempão, e não me canso de descobrir coisas novas. Que loucura isso do colégio militar e do vestibular em primeiro lugar na Federal, né?
Se ainda der pra mudar, o link da Monstro Discos tá com um "n" faltando ali.
Um abraço,

Bernardo Mortimer - www.sobremusica.com.br · Rio de Janeiro, RJ 4/12/2006 12:36
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
ex-epígono
 

Fico pensando, o que será que o Fred 04 acha de quem baixa os discos do Mundo Livre S.A. pelos p2p... O bebogroove é um puta disco.....

ex-epígono · Pompéia, SP 4/12/2006 16:23
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[ds]
 

... do colégio militar pro primeiro lugar do vestibular: acho que é causa e consequência. O ensino dos milicos sempre foi muito bom. Eles só não sabiam que estavam treinando o "inimigo público número um". ahahah O Fred é uma grande figura. Só acho que nos últimos discos ele teem deixado a política invadir muito suas composições. Tem opinião de mais e música de menos. Bons tempos em que o Zapata convivia tranquilamente com a Musa da Ilha Grande.

[ds] · Recife, PE 5/12/2006 11:40
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Roberto Maxwell
 

O Pedro, tem mais nao? Q entrevista curtinha!!! Duvido que esse figura nao tenha falado pelo menos mais uma hora. Libera ae...

Roberto Maxwell · Japão , WW 8/12/2006 12:01
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Pedro Rocha
 

Tem Roberto, tem muita coisa ainda em audio aqui no meu computador, mas como nãp tinha muito espaço no jornal, só entrou isso mesmo. Vou vê se dá pra disponibilizar alguma coisa no banco de cultura.

Ficou de fora até uma conversa sobre o texto polêmico A nova decadência da cultura pernambucana do Bruno Nogueira.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 8/12/2006 12:11
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Pedro Rocha
 

Tem Roberto, tem muita coisa ainda em audio aqui no meu computador, mas como nãp tinha muito espaço no jornal, só entrou isso mesmo. Vou vê se dá pra disponibilizar alguma coisa no banco de cultura.

Ficou de fora até uma conversa sobre o texto polêmico A nova decadência da cultura pernambucana do Bruno Nogueira.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 8/12/2006 12:11
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Roberto Maxwell
 

Tipo, nao sei se vc ja leu algumas das entrevistas q eu fiz. Sao gigantes, mas eu coloco tudo. Na materia no jornal, nao da. Mas, acabo postando aqui. Eh material historico. E se vc puser em audio, melhor ainda. Abracao.

Roberto Maxwell · Japão , WW 8/12/2006 12:30
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Pedro Rocha
 

Pois é Roberto, o problema é só transcrever a entrevista toda, no meu caso tô com a corda no pescoço com uma porrada de coisa. Mas essa dimensão histórica da entrevista eu também acho muito importante, sempre que posso arregaço tudo.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 8/12/2006 12:32
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Roberto Maxwell
 

Verdade. Sei como eh. Bota em audio mesmo. Olha, o exigente! hahahahhaha

Roberto Maxwell · Japão , WW 8/12/2006 12:34
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Pedro Rocha
 

Errata.

O trecho do abre: "movimento que levantou a saia do Recife na primeira metade da década de 90, misturando de tudo um pouco: o rock com o maracatu, a tradição e tecnologia. Música, moda, cinema..." Tem uns erros de concepção do Manguebit que podem ser esclarecidos nessa entrevista aqui do AD Luna com o Renato L.: Mangue não é fusão p.... nenhuma!!

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 8/12/2006 12:42
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[ds]
 

Uma delícia o BebadogrooveVol.1 - remete aos primeiros discos do MLSA. Bom demais!! Sem falar da bela produção do videosclipes.
Volto aqui pois, ali acima, desci a lenha nos últimos lançamentos deles. Pois bem...

[ds] · Recife, PE 26/12/2006 12:23
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Guilherme Mattoso
 

muito boa a matéria! apesar de não curtir muito o som do mundo livre tiro o chapéu pro trabalho que eles fazem.

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 9/5/2007 14:34
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