fronteiras musicais, que las hay, las hay...

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andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ
29/5/2008 · 110 · 4
 

Um fala que samba da zona sul não presta. Que samba de subúrbio é o autêntico. O outro fala que samba de raíz é o cacete, que o samba é de todo mundo, que ninguém é dono do samba. Pagodeiro diz que faz samba. Mas o samba não reconhece o pagodeiro como sambista. Tem público que adora ouvir o samba óbvio, o re-conhecido, pq não acha óbvio. Para os sambistas, isso é o samba de playboy, Para os playboys, isso é samba de raíz. Curiosamente uma gíria da moda no Rio é a palavra roots, pronunciada em inglês surfístico: rútz. Esse conceito de coisa de raíz está em alta por aqui...

O ponto de vista mais valorizado é sempre o do que se diz dono da raíz. No caso do samba o dono é o preto, o pobre, o cara do morro? Esse é o senso comum sobre o samba. Não deixa de ser verdade. Mas isso torna o samba propriedade de alguém?

Eu sempre pensei muito nisso, nesses terrítórios musicais, pq sempre andei em lugares que não eram originalmente meus e tive que me explicar. A música é um universo cheio de mundos. E eu compreendo a possessividade do genitor. Um bom mestre de bateria tem status de maestro no universo do samba. Ter uma vida dura, ter a escola de samba como núcleo social da sua comunidade, ter crescido ao som da bateria, ter batucado desde criança é um diferencial definitivo, é seu passaporte exclusivo para o posto. Ele não quer que tirem dele esse privilégio e o dividam com alguém que tenha chegado ao samba por pesquisa, por estudo ou mesmo por amor. Ele respeita quem respeita o samba, mas ele não quer entregar o samba na mão de qualquer um. Noel era do asfalto, branco. Cartola era do morro, preto. Os dois faziam samba. Eram amigos e parceiros. Mas tenho a impressão de que no imaginário popular, Cartola é sambista, Noel é poeta... Preconceito?

As fronteiras também servem pra definir conceitos. As comparações, idem. E mesmo que eu tenha saído do meu habitat musical natural, aquele que meu meio me apresentou, para pegar praia e trabalhar em searas variadas do samba ao funk, não posso negar que reconheço fronteiras: que las hay, las hay. A mistura entre tantos micromundos me parece interessante, necessária, até. Mas tem dias em que um fundamentalismo dentro de mim cantarola: xô, chuá, cada macaco no seu galho...

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Helena Aragão
 

Andrea, esse é um assunto que vem gerando muita discussão, pelo menos aqui no Rio. Acho que você foi feliz na tua reflexão, que foi bem sóbria, sem o tom apaixonado de quem defende um dos lados. Torço para que a questão só faça o samba se fortalecer ainda mais, independente do acesso por origem, por estudo, por pesquisa ou por amor. Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 30/5/2008 10:10
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Calu Baroncelli
 

Gostei muito da sua reflexão, Andréa, e concordo com a colega Helena sobre o samba se fortalecer, independente de conceito ou classificação.
Às vezes concordo com o que disse Tom Jobim certa vez "quem tem raíz é mandioca".

Calu Baroncelli · São Paulo, SP 30/5/2008 14:47
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Pedro Kirilos
 

busca o ideal quando termina com cada macaco no seu galho.

P.S O Noel realmente era um poeta ,mesmo fazendo um incrivel samba.

Pedro Kirilos · Rio de Janeiro, RJ 30/5/2008 19:59
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andrea dutra
 

helena, salve o samba, queremos samba!
calu, sou fã do tom, sabia tudo!
pedro, concordo

andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ 7/6/2008 04:30
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