FSM 09/Belém

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Youngman · São Carlos, SP
11/2/2009 · 221 · 13
 

Segregacionismo, debates urgentes e mergulhos culturais durante uma semana na capital do Pará.

Cheguei em Belém no dia 25 de janeiro, ainda faltando 2 dias para o começo oficial do evento. A Universidade Federal Rural estava quase vazia, muito diferente dos dias seguintes, quando o número de pessoas alojadas por lá dobraria, triplicaria, e assim por diante, até se tornar uma pequena Babilônia. Um pouco mais afastada ficava a Aldeia da Paz, um reduto mais zen, para quem a princípio estava ali mais para um retiro espiritual e não para uma balada, como se tornou o outro espaço. Quando se viu, milhares de pessoas apertavam suas barracas perto de um campo recém descampado à beira da floresta e passariam a conviver em um protótipo de Woodstock, com um clima de liberdade expansiva e argumentos pacifistas a partir do tema de novas relações humanas possíveis e de críticas a um sistema que todos dizem estar fracassado. Mas, 40 anos depois, o que resta de um chamado movimento hippie parecia muito mais uma rave alienada de classe média, ou um “pic-nic de playboy”, como dizia no último dia o homem pelado que buscava chocar a todos que ali estavam, escancarando as fraquezas daquele microcosmo. Pra completar, a desorganização do Acampamento estava competindo com a do próprio Fórum para ver quem era mais contraditório, hipócrita e insensato. Estava na cara que tudo tinha sido feito de improviso. Nessa brincadeira, muitas pessoas da cidade (principalmente do bairro de Terra Firme) ficaram de fora de eventos de dentro da Universidade porque não estavam credenciadas, e muitas atividades foram canceladas, músicos não conseguiram entrar para fazer seus shows, entre muitos outros absurdos. Um policiamento mais do que especial foi armado na cidade toda, com armas de última geração e munições que eu não gostaria nem de saber o nome e muito menos o efeito. Algumas manifestações escancaravam tudo isso e buscavam aglutinar pessoas para resolver o problema, mas elas surtiram muito menos comentários e efeitos do que outras atividades de cunho mais político/lúdico, como por exemplo, a Marcha pela Legalização da Maconha.

Bom, esquecendo todas as críticas ao espaço de “convivência” entre os jovens do evento, muita coisa interessante aconteceu desde antes da Marcha pela Paz, que inaugurou oficialmente o evento na 3ª feira. Ao me credenciar como imprensa quando cheguei, logo conheci várias mídias independentes que viriam a participar em peso, principalmente as rádios comunitárias da região. Eles já estavam montando a Rádio Livre do Povo, que operou durante todo o evento, capitaneada principalmente por membros da ABRAÇO (Associação Brasileira de Rádios Comunitárias). Outra presença importante foi a da AMARC ALC (Associação Mundial de Rádios Comunitárias da América Latina e Caribe), que possuía uma grade de transmissão com programas em inglês, espanhol e português. Na cidade, muitas pessoas me falaram de várias outras rádios boas, principalmente a Cultura FM e a emissora da Universidade da Amazônia (UNAMA); e a cada dia, eu descobria novas mídias da cidade que estavam ativas, a maioria comunitária ou livre. É uma especificidade da região, esse viés comunicação coletiva de bairro; parece que existem mais de 200 rádios assim no estado, pelo que ouvi falar. Escutei também que na semana anterior, o governo havia fechado 8 emissoras, numa “medida preventiva” ridícula, assim como a proibição das famosas Aparelhagens de Tecnobrega, na busca “resguardar” nós estrangeiros estávamos chegando por lá.
No mesmo prédio em que funcionava a principal rádio livre do evento, ficava também o Fórum de TVs Livres, um espaço de edição compartilhada, em que as pessoas descarregavam seus materiais de vídeo ou encaravam a missão de construir pílulas de 3 a 5 minutos, que seriam exibidas na TV Cultura Local e ao longo da programação na TV Brasil. Essa sala ficava lotada quase o tempo inteiro, sempre na função de finalizar as matérias em ritmo de broadcasting.

Na 2ª feira, ainda fora da programação oficial, iniciou-se o Fórum Mundial de Mídias Livres. A partir de um primeiro encontro que aconteceu no Rio de Janeiro no meio do ano passado, muitas questões foram levantadas e surgiu a necessidade de se criar mais espaços de discussão articulada, como esse. O principal foco do evento foi a reflexão e conseqüente estímulo à reprodução dos seres-mídia, ou seja, à produção de comunicação por todo e qualquer cidadão. Há uma constatação mais do que natural de que os novos meios e fluxos da produção de informação levaram a um novo panorama. Entre vários blogs, sites, web rádios e outros novos veículos, exaltaram-se muito alguns meios autônomos inventivos, como o crítico “Jornal Pessoal” (feito por apenas um homem, em Belém), os indiosonline.org.br, a BusTv, o Canal do Motoboy, entre vários outros exemplos citados nos dias de discussão. Falou-se muito sobre a relação das mídias tradicionais (oligárquicas) frente à suposta crise mundial e de como se fortalecer os veículos novos, as iniciativas espontâneas. Participaram pessoas diversas organizações e mídias que tem como questionamento o próprio “fazer” da comunicação, como por exemplo, o Intervozes, a Carta Maior e o Overmundo, além de outros coletivos de comunicação, jornalistas, radialistas e muitos autônomos. O principal ponto que fez parte deste Fórum foi o lançamento do Prêmio para Pontos de Mídias Livres do Ministério da Cultura, uma iniciativa pioneira, que contemplará a princípio 60 iniciativas que já estão em atividade no país, a serviço da descentralização e democratização dos meios de comunicação, e da regionalização da produção. Sinceramente, na hora, o sentimento era de estar em um momento histórico e não foi difícil se emocionar com as possibilidades futuras que se abrem para quem está de verdade nisso.

Começado oficialmente o Fórum, a tal Marcha foi um dos momentos mais bizarros de todos, um Carnaval Social Mundial. Entre socialistas pantufas, movimentos sociais, partidos políticos, grupos de afirmação étnica, religiosa e sexual cantando seus gritos e carregando suas bandeiras, muitos estudantes e pessoas da cidade andavam pelo centro de Belém como se estivessem em uma micareta, com direito inclusive a um ônibus no meio das pessoas, com o estereotipo da “DJ Saynha” tocando para adolescentes que compraram o convite daquela festinha “poperô” privada, fechada no ar condicionado e com direito a laser, luz estroboscópica e tudo mais. Pra completar a confusão deste dia, um palco gigante armado no final da passeata serviu como espaço para uma cerimônia de abertura cheia de politicagens, clichês culturais e falta de conteúdo. E ainda pior, o La Pupuña que tocaria lá foi cancelado, ninguém sabe por que, muito menos os integrantes da banda. Uma estrutura gigantesca e uma concentração absurda de gente para nada. Ainda era o início da noite e cada um foi embora para um canto.

No dia seguinte, a mesma desorganização. Nos palcos espalhados pelas universidades, não se sabia a programação e tinha que se enfrentar horas de sol na cabeça plantado em algum lugar para garimpar alguma manifestação realmente interessante. Entre os diversos rituais latino-americanos anti-globalização, índios de crachá explicavam o que queriam dizer com seus gestos, e isso era traduzido em 4 línguas ao mesmo tempo, em uma espécie de pluralismo para gringo ver. Nas credenciais também, parecia muito fake a necessidade de colocar o país de onde cada pessoa vinha. Junto com os milhares de Nomes/Brasil, realmente encontrava-se pessoas de todo o mundo, mas o evento parecia necessitar explicitar dessa megalomania, que na verdade se tornava cada vez mais contraditória.

Mesmo assim, é claro que havia muita coisa interessante. Diversas tendas temáticas funcionando com atividades políticas, debates e grupos em busca de novos caminhos sustentáveis para a sociedade, exposições e reflexões sobre diversas culturas de todo mundo, e principalmente muita discussão sobre as configurações de um novo contexto mundial em meio às instabilidades do mercado financeiro, e toda uma preocupação de como isso atingiria os países mais carentes. Nesses momentos, era muito difícil achar alguém com a pulseira do Acampamento e ficava clara a participação de pessoas mais focadas na discussão, inclusive muitos moradores de Belém que realmente buscaram acrescentar algo dentro do tema de “Um Outro Mundo é Possível”. Mas, uma das grandes críticas a se fazer é que o evento se opõe ao Capitalismo em todas as instâncias, mas ao mesmo tempo acaba tendo ele como base da organização e do funcionamento; no dia a dia não se questionou as práticas desse sistema. Por exemplo, as barracas de livros, discos, artesanatos e comidas alternativas sempre estavam cheias, mas apenas algumas poucas adotaram a moeda complementar do evento, que promovia a lógica da Economia Solidária, algo que ganhou foco em algumas discussões, mas passou longe da prática na relação entre as pessoas. Aliás, muitas vezes tinha-se a sensação de se estar andando em círculos nos debates e não haver propostas mais deliberativas ou ações diretas a partir dos argumentos que a sociedade possui. Nesse sentido, a área de Comunicação realmente se destacava por estar na ativa de verdade. Outra discussão forte foi quanto à preservação da Amazônia. Muitas entidades que já realizam trabalhos nesse sentido estavam presentes, e muito se bateu nesta tecla; na verdade, este é um tema que todos se mobilizam, mas as conquistas verdadeiras só serão possíveis com um diálogo e com represálias verdadeiras aos conglomerados responsáveis pelas devastações. O pior é que de alguma forma eles também estavam por lá, por exemplo, na propaganda do governo pela construção de diversas hidroelétricas na região norte, algo que afetará a vida de muitas comunidades, mas que se esconde de todos na velha fantasia de desenvolvimento.

Uma das coisas mais interessantes na verdade era a própria cidade. Sempre que possível, era muito fértil se jogar para o centro de Belém e conhecer desde alguns museus, edificações e eventos que aconteciam paralelamente ao Fórum, o que mostrou que a cidade possui naturalmente uma vida cultural intensa e cada vez mais bem estruturada em seu cotidiano. A história de seus mais de quatrocentos anos é muito rica; ao conhecer as pessoas, os lugares e tudo mais, sente-se forte as marcas de uma resistência indígena (ou a tentativa disso), e de outros momentos históricos como Belle Époque que marca a arquitetura neoclássica, ou os resquícios do seringalismo, que trouxe uma riqueza momentânea e sensação de desenvolvimento para a sociedade na época. Cidade portuária, não é difícil se confundir o rio com o mar, já que toda a vida aquática está presente no dia a dia, seja no transporte, ou, principalmente na culinária.
Em relação ao contexto local de música, foi muito frutificante esse mergulho possível. Encantado desde antes com todo o significado do Carimbó, da Guitarrada e mesmo do Brega, ao passar por lá, senti de verdade como isso faz parte das pessoas e principalmente da cultura de quase todos os músicos. Conheci (e inclusive dormi um dia) no Casarão Cultural, o estúdio que diversos artistas como Juca Culatra e Power Trio, Floresta Sonora, Sevilha e MG Calibre compartilham para ensaio, criação e gravação de seus trabalhos. No mesmo espaço, ainda há um escritório onde eles se focam em escrever os projetos para captar recursos e finalizar os cds. Semanalmente eles também organizam uma festa para ajudar a pagar os gastos que o imóvel situado no centrão de Belém possui. Essas baladas sempre possuem um clima de jam session, com os músicos se revezando, tocando algumas de suas composições, mas sempre muito instigados por intervenções, e foi assim que durante grande parte da noite compartilhei o palco com os novos camaradas e manifestei um pouco do que estava sentindo em forma de palavras e vocalizações.

Outra coisa que descobri é que na 6ª feira aconteceria o Casa de Caba – Festival de Música Independente da Amazônia. Não pude deixar de conferir as mesas interessantíssimas sobre o papel das rádios públicas neste contexto atual, sobre a vida realista na música brasileira e sobre a cena do Pará, suas contradições, virtudes e etc. Além disso, ainda rolaram pocket-shows pra coroar o mini-evento. Mas a principal vivência, quando realmente bateu o sentimento de síntese da mistura entre o passado e o presente do estado foi na gravação do Dvd do Metaleiras da Amazônia. Manezinho do Sax, Pipira do Trombone e Pantoja do Pará se juntam àqueles músicos citados ali em cima em um espetáculo tropical, que espalha as melhores energias e vibrações pra quem vive essa música no dia a dia ou para quem é arrebatado no momento. Explosão de ritmos regionais, com arranjos belíssimos de sopro, muita ginga e instrumental fantástico. O único cuidado necessário era para não ser atropelado pela velhinha ensandecida que mandava beijos a todos da banda, dançava, cambaleava e pedia para que eu a segurasse, caso ela caísse. Mais tarde, junto com o Coletivo Radio Cipó, o Mestre Laurentino e Dona Onete trouxeram ainda mais brilho pra noite com suas lindas expressões e poesias, mostrando a verdadeira face do Pará, muito além daquelas grades das universidades, barreiras policiais e de qualquer debate infecundo que acontecia do outro lado da cidade. Acho que só assim foi possível partir de lá com alguma sensação de missão cumprida, ainda mais com a certeza de um retorno em breve. Já sinto saudades.

* Muito mais do prisma musical paraense no Programa Independência ou Marte número#83, especial sobre o FSM, ao vivo na 2ª feira às 22h (Brasília), com reprise no sábado às 15h, no www.radio.ufscar.br ou para download no www.independenciaoumarte.blogspot.com

Rodrigo “Jovem” Palerosi

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Hermano Vianna
 

muito bom o relato!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2009 14:11
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ronaldo lemos
 

É quase inacreditável que as festas de tecnobrega tenham sido proibidas durante o Fórum Social Mundial. No mais, gostei muito do relato também!

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2009 21:47
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Tassio Lopes
 

Sempre muito bem afinadas as impressões sensorias, muito bom o relato caro Jovem.

Tassio Lopes · Uberlândia, MG 9/2/2009 12:09
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Rafa Rolim
 

ó lá.
critico, sincero, politico e beem interessante

Rafa Rolim · São Carlos, SP 9/2/2009 20:25
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Djalma Nery
 

Eita, Belém...
Brasil doido.

Djalma Nery · São Carlos, SP 10/2/2009 21:50
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Tetê Oliveira
 

Gostei muito de sua visão crítica (construtiva) do Fórum. Concordo com vc: Belém é rica histórica e culturalmente.
Parabéns pelo texto. Abs.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 11/2/2009 22:31
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Renan Marx
 

É, eu tava lá, pra desgosto próprio. Fico com os anarquistas que diziam: "o fórum social é capitalista", e que realizaram o anti-fórum, no centro comunitário do terra firme. Enfim, belo texto.

Renan Marx · Cuiabá, MT 12/2/2009 01:05
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clara arruda
 

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 12/2/2009 09:23
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victorvapf
 

Um novo mundo possivel e uma bela discursao...Mas com a globalizacao, politica que nos e imposta, ja deu um breque com a quebra das bolsas. Mundo bom e aquele em que cada um cuida do seu canto, porque meter no canto dos outros... Vejam o que esta acontecendo...Enquanto a Europa vai discriminando os brasileiros, aqui exige se ate as ultimas consequencias que aja igualdade, como se isto pode se imposto de uma hora pra outra, dando-se direitos abusivos, como a criacao ate de Nacoes indigenas que protegerao nossas reservas para serem pilhadas futuramente por quem nos discrimina agora, tanto na Europa quanto nos nossos amiguinhos do Norte.
Esta e uma boa politica^, pelo que fiquei sabendo, uma reserva que a Petrobras quer explorar no Ceara esta sendo questionada por uma ^comunidade^. E o cumulo do absurdo e ninguem, ^necas de pitibiriba^nao fala nada...

victorvapf · Belo Horizonte, MG 12/2/2009 09:42
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Oona Castro
 

Opa! Antes de falar, duas pessoas me confirmaram a proibição das festas de aparelhagem. E, depois de falar, duas paraenses me contestaram. Uma disse que não era verdade - e que "era só em alguns bairros" (justo nos que costuma haver festa?), e que quem era de lá "sabia o valor disso" (em função de violência). Parece que foi proibido também jogo de futebol em Terra Firme. O que me leva à pergunta óbvia: por que, em vez de proibir, não aumentar a segurança local?

Ouvi algo muito curioso que tenho contado por aí porque adorei: estava num táxi, atrasada pra chegar à UFRA, e passava o que havia restado da Marcha da Maconha. E eles gritavam "Maconha é natural, Big Mac é que faz mal". E o taxista me perguntou seriamente: big mac é o nome de uma lanchonete, né?

Achei genial como, para o motorista de táxi, a referência do McDolnalds é quase nula - Belém estaria assim inevitavelmente mais livre de amarras simbólicas e concretas de alimentação. O cara confunde o nome do sanduíche com o da lanchonete. McDonalds, pra pegar bem em Belém, tem que ter casquinha mista de açaí com cupuaçu!

Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 12/2/2009 10:08
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mrrodrigues
 

Muito massa! Importante a avaliação contínua para o evento continuar fazendo sentido! Parabéns!

mrrodrigues · São Carlos, SP 12/2/2009 14:30
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Marcos Paulo Carlito
 

Relato inteligente e amplo.
Forneceu uma visão iinteresante sobre o evento.

Marcos Paulo Carlito · , MS 13/2/2009 00:05
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Zezito de Oliveira
 

Também participei do FSM 09 e fiquei muito feliz de ler sobre o assunto aqui no site e gostei da forma como você escreveu, pontuando as dificuldades e não esquecendo de apontar as oportunidades que o FSM oferece.
Senti falta de uma presença mais ativa do Overmundo.
Abraço,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 13/2/2009 18:16
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