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Funk Carioca de Berlim

capa do disco - divulgação - todos os direitos reservados

Veja só como as coisas acontecem/aconteceram. Tá tudo dominado, tá tudo em rede. Meu amigo Cláudio Manoel, fundador do Pragatecno entre outras excelentes atividades, ficou amigo da Stef, DJ alemã que morou (ainda mora?) em Salvador, que por sua vez conhecia o Daniel Haaksman, DJ e agitador cultural de Berlim. No final de 2003, entrei nesse circuito depois de receber email do Cláudio querendo me colocar em contato com o Daniel, que viria para o Rio "pesquisar o funk carioca". Dei sinal verde para a conexão, pois fiquei curioso: já tinha visto muitos gringos chegarem aqui no Rio para fazer pesquisas musicais, mas geralmente o interesse era samba e outros ritmos considerados mais autênticos. Pela primeira vez eu receberia alguém que queria ouvir apenas pancadão.

Dei uma entrevista para o Daniel, que durante a viagem arrumou tempo para escrever artigo sobre funk encomendado pela Groove, talvez a principal revista de música na Alemanha. Aproveitei o encontro também para entrevistá-lo: queria saber o que na nova música das favelas cariocas tinha chamado sua atenção. Fiquei mais surpreso ainda ao descobrir que seu repertório de informações sobre o Brasil ou a música brasileira era bem precário. Nunca tinha prestado atenção na MPB ou na Bossa Nova, não sabia direito nem reconhecer a voz de Caetano Veloso ou a de João Gilberto. Não tinha nada a ver com aquele gringo clássico que chegava aqui apaixonado pelo filme Orfeu Negro, ou o mais moderninho que tinha descoberto nossa música numa coletânea pós-tropicalista lançada por David Byrne. Seu negócio sempre tinha sido música eletrônica, e era atrás de música eletrônica que tinha cruzado o Atlântico. Daniel me disse que, quando ouviu funk carioca pela primeira vez, sua excitação estética foi comparável à que sentiu quando ouviu jungle também pela primeira vez. Estava tudo ali: a urgência, a crueza, a utilização criativa da tecnologia, a invenção de um novo estilo de bricolagem sonora de extrema potência dançante.

A viagem rendeu muitos bons frutos (além da nossa amizade, que se mantém até hoje). Daniel tinha uma pequena gravadora, a Essay Recordings, que já havia lançado maravilhas como a compilação da Bucovina Club, festa quentíssima que introduziu a nova música cigana para a geração pós-rave européia. Pela Essay saiu, em 2004, a Rio Baile Funk - Favela Booty Beats, primeira coletânea dedicada apenas ao funk carioca lançada fora do Brasil, criando até o nome internacional da música, que estrangeiros passaram a chamar de "baile funk". Foi a partir desse lançamento, reforçado pelas festas do Favela Chic parisiense e pela importantíssima adesão de Diplo e M.I.A. (já que falamos dela: a música nova, Bird Flu, é brilhante), que o pancadão conquistou popozões alucinados pelo planeta inteiro, entrando em cena via os clubes mais centrais e não via os periféricos-favelados.

O sucesso de vendas não foi estrondoso, mas Daniel gostou tanto do funk, e do Brasil bem particular recém-descoberto, que resolveu criar um novo selo - o Man Recordings - para, principalmente, ecoar mais alto a batida do tamborzão. Como nem tudo é tão linear assim - e é bom que seja quase nada linear - o primeiro lançamento do Man foi uma compilação de pós-punk paulistano do início dos anos 80! É por causa dessa não obviedade que considero o Daniel um dos melhores e mais ativos embaixadores que o Brasil jamais sonhou ter - deveria ganhar a medalha do mérito cultural do MinC.

Recebo de vez em quando, pelo velho e tradicional correio, um suculento pacote com pré-lançamentos das gravadoras do Daniel. A mais recente remessa chegou esta semana, com CDs contendo as faixas dos vinis que serão enviados paras as lojas européias em abril e maio. São as segundas edições de duas sensacionais séries de EPs da Man Recordings. Transculturais até a medula, como tudo o que eu realmente gosto.

A primeira série se chama Funk Mundial e é resultado sempre do encontro entre músicos brasileiros e europeus. O primeiro lançamento, Jece Valadão/Uepa, reunia Edu K. e Joyce Muniz com o produtor austríaco Stereotyp. No próximo disco a conexão é ainda mais improvável: do lado de cá do oceano temos o MC Thiaguinho, que foi do Bonde do Tigrão, e na Europa, diretamente das pistas de dança mais hypadas de Londres, participaram os produtores Sinden e Count of Monte Cristal (também conhecido como Herve). Sinden já fez remixes para Basement Jaxx e Lady Sovereign, entre outros. Herve para Bloc Party e Jimi Hendrix (!) Os dois juntos criaram uma base de speed garage para o MC Thiaguinho cantar. Isso mesmo: speed garage é um dos estilos precursores do dubstep e do grime - a proposta parece retrô mas tem muito futuro. O encontro de sonoridades distanciadas pela geografia e pela história cria algo incrivelmente bom de dançar.

A segunda série, Baile Funk Masters, apesar de ser produzida apenas por músicos brasileiros, não é menos transcultural ou repleta de novidades. O impulso europeu foi fundamental para o resultado, pois esse tipo de experimentação não tem lugar nos bailes cariocas, mais preocupados - como convém - com aquilo que vira sucesso imediato fazendo o público cantar. No seu primeiro lançamento, o DJ Sandrinho, que por algum tempo acompanhou o MC Catra, solta pancadões instrumentais e mostra que é craque no MPC. Como tudo que é lançado no Rio gira em torno dos vocais, são raras as oportunidades como essa de ouvir com detalhes a intricada e rica teia eletrônica das bases.

No EP do DJ Sandrinho tudo isso está na frente, totalmente evidente. É uma boa preparação para o segundo lançamento da série Baile Funk Masters, agora sim um tiroteio sonoro como o funk carioca nunca ouviu. O release preparado pela Man Recordings não exagera ao falar de "pós-baile-funk". É mesmo algo totalmente novo no gênero, que amadureceu esse tempo todo na cabeça e no sampler do DJ Sany Pitbull, o inventor das 5 faixas do novo EP. Escute logo (o site só tem 45 segundos da música, mas dá para começar a sentir o impacto) Tribos, onde o tamborzão convive com gongos japoneses e cantos indígenas. Não fica nada a dever ao que de mais radical e dançante o Kode 9 tocou no seu desnorteador set do festival Hipersônica. É a prova mais contundente que o funk carioca está na vanguarda da eletrônica mundial, não precisando baixar a cabeça para ninguém. E tem mais: o som de guindastes e trens em Funk Alemão, a homenagem ao Kraftwerk em Kraftfunk, tudo perfeito e avassalador...

Incrível que tenha sido um alemão, o Daniel Haaksman, que nos deu a oportunidade para ouvir essas coisas e pensar essas coisas. Por isso gosto de interferências estrangeiras em outras culturas: mesmo quando são equivocadas (o que não é o caso da intervenção funqueira da Man Recordings - muito pelo contrário, aquilo vem de um entendimento maior da importância artística do funk, coisa rara por aqui), nos fazem ver coisas que não percebíamos em nossas próprias culturas, chamando atenção para elementos que estavam invisíveis (como David Byrne fez ao relançar Tom Zé). E podem produzir no Brasil outros impulsos, para outras boas novidades.

Neste caso específico, a relação transcultural tem muito bons antecedentes: no Rio, a popularidade da polka, ritmo desenvolvido no Império Austro-Húngaro, foi acontecimento essencial para a invenção do maxixe, que por sua vez participou da invenção do samba urbano carioca e assim por diante. Em outros tempos, o amor de negros americanos pela música do Kraftwerk foi dar no hip hop do Bronx nova-iorquino, depois no Miami Bass, depois no funk carioca. Agora, a Alemanha dá o novo troco, nos ajudando a arquitetar - em rede - o futuro do pancadão. O Rio vai ter que criar novo significado para uma de suas gírias preferidas: para o funk, "alemão" definitivamente não é o inimigo. Tá mais para melhor amigo.

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