Furacão de mudanças na imprensa carioca

Fotomontagem: myth
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Delfin · São Paulo, SP
12/5/2006 · 171 · 15
 

Quem veio ao Rio pela última vez há um ano iria pensar, certamente, que aconteceu algo muito sério quando chegasse hoje a uma banca e visse os jornais. Iria encontrar, é claro, um Jornal do Commercio, unificado às suas outras edições estaduais no início de 2005, e a valorosa Tribuna da Imprensa, intocada. De resto, no entanto, foram outras cores que dominaram os últimos 12 meses da imprensa carioca. E nem todas restaram para contar a história.

O torvelinho começou com o lançamento, no dia 19 de setembro, do jornal Meia Hora de Notícias (ou, simplesmente, Meia Hora), do grupo O Dia. Uma jogada de risco, pronta para atingir em cheio um público que não tem tempo para ler jornal, de classes mais baixas, que querem se manter informadas de, pelo menos, os assuntos que possam ser os mais comentados nas ruas. Foi uma resposta calculada, para abalar a estrutura do Extra, jornal das Organizações Globo destinado ao mesmo público. E abalou mesmo. Falar em números é difícil, mas basta dizer que os 70 mil exemplares iniciais do Meia Hora não foram suficientes para dimensionar o sucesso da empreitada.

Um jornal em formato diferenciado para o público carioca não é novidade. Bastaria lembrar d’O Pasquim, nos anos 60 e 70, feito em formato tablóide justamente para ser irônico consigo mesmo, já que os tablóides sempre tiveram a pecha de serem jornalecos ou impressos dirigidos a uma classe menos favorecida. Com o Meia Hora, no entanto, as notícias lidas telegraficamente, no melhor estilo USA Today (o jornal que revolucionou o jornalismo dos Estados Unidos, ao aliar o formato impresso ao texto sucinto da tevê) pegam o público em cheio. Público menos favorecido, num formato tablóide e, apesar das vendas, pasquinesco — num sentido não muito elogioso. Porém, antes do Meia Hora ser lançado, outro jornal já vinha sendo planejado. E estreou pouco tempo depois, em novembro. Seu nome: Q!

Com uma proposta tão ousada como seu nome, o Q! formou uma equipe que mesclava jovens nomes importantes do novo jornalismo impresso com personalidades formadoras de opinião da internet. O projeto gráfico, também ousado, aliava grande ênfase nas imagens com boa carga de informação. A principal ousadia: ser o primeiro vespertino carioca em décadas. Pelo menos um mês de números impressos como teste foram produzidos até que o jornal chegasse ao público, em meados de novembro de 2005. Porém, à medida que os dias passavam, os problemas se acumulavam. As bancas se recusavam a distribuí-lo porque não tinham como pegar o jornal à tarde. Os anunciantes não abraçaram a idéia, em momento algum. A distribuição feita com gazeteiros era fraca e quase sempre eles não tinham o jornal na hora que deveriam ter (5 da tarde). As notícias não eram tão quentes, pois o jornal fechava as matérias por volta de uma da tarde, devido à impressão terceirizada. Tantos senões foram criando um clima tenso na redação, que já sabia, semanas antes do fim oficial do jornal, em 6 de janeiro, que este teria um fim rápido e doloroso (aliás, a edição final do jornal foi distribuída, por um último erro, no dia anterior em vários pontos da cidade). A empreitada, encabeçada por Ariane de Carvalho, filha do fundador de O Dia, e empresas associadas (que formaram a Editora Casa da Gávea), teve como maior sucesso, segundo informações oficiais do próprio Q!, uma venda de 10 mil exemplares em um dia — muito aquém dos 60 mil inicialmente previstos.

O fim do Q! é obscuro. Há muita gente que se ocupou com teorias à época. Afinal, um investimento de meses terminar repentinamente, sem uma tentativa real de conserto de rumo, é de se estranhar. Quando o jornal terminou, Ariane de Carvalho informou que o site continuaria sendo atualizado diariamente e que a equipe seria mantida. Informações que apurei com diversas fontes dentro do Q! no mês de janeiro, no entanto, disseram que, assim que os avisos prévios vencessem, o site www.qonline.com.br também sairia do ar. De fato, desde fevereiro, quando se acessa o endereço eletrônico, o que entra é o site da MPB FM, também de propriedade de Ariane (e responsável pelos calhaus diários de propaganda que apareciam no Q!). Hoje, não se toca mais no assunto. Mas este é um que merecia.

Enquanto isso, o Meia Hora crescia e as Organizações Globo preparavam o troco. Ele chegou no começo de abril de 2006, com o lançamento do Expresso da Informação (ou, apenas, Expresso), nos mesmíssimos moldes (inclusive gráficos) do seu concorrente. O preço dos dois? Idêntico: R$ 0,50 durante a semana e R$ 1,00 aos domingos. Número de páginas regulares? 32. As pautas? Também muito similares. A idéia parece óbvia: absorver leitores do Meia Hora, tanto por similaridade como pelo saudável hábito da concorrência.

Enquanto o Globo se armava para a batalha pelos leitores das classes C e D, uma outra briga se arma em outro nível. Desta vez, envolvendo os jornais mais tradicionais da cidade. O torvelinho ameaçava virar um furacão.

Tudo começa com o lançamento do novo O Dia, a duas semanas da Páscoa. Uma reformulação gráfica total, que completava a reformulação editorial que já vinha se processando havia meses, de transformar o matutino num jornal com mais informação e análise, perdendo um pouco de seu cunho popular. Cores novas e ousadas, num projeto que destaca a nova marca do jornal e avisa: há mais uma força no jornalismo carioca querendo brigar pela liderança.

A primeira resposta veio duas semanas depois e também vinha sendo estudada há algum tempo: o novo Jornal do Brasil, que, agora, é publicado em formato berliner (que é o principal formato europeu e que é padrão em diversas regiões do sul do país). Ainda que os assinantes continuem a receber a versão regular do jornal, as bancas recebem apenas o berliner, que é mais ou menos um tablóide esticado ou um jornal standard reduzido em proporção. No caso do tradicional JB, no entanto, o projeto soa estranho. Não por causa das novas dimensões, mas, sim, do estranho aproveitamento que se tem do novo espaço físico, que, algumas vezes, beira o amadorismo. Muito ruim para quem está se comparando, por exemplo, ao Le Figaro francês.

Apesar de aparentemente alheio a esta movimentação, O Globo também muda algumas coisas. No fim de abril, por exemplo, reformulou o seu caderno de informática, tomando como mote os 15 anos do mesmo. Porém, se os resultados da concorrência mostrarem ganhos, fique certo de que ainda teremos mais capítulos nesta guerra pelo público leitor de jornais no Rio. Que aparentemente só ganha com isso, em termos de opções. Porém, o que se percebe é que o conteúdo temático nem sempre é tão diversificado assim. Às vezes olhar as novidades nas bancas é algo estranho. Como se fossem roupas novas para velhas senhoras.

Talvez o furacão realmente aconteça e mudanças mais venham. Ou talvez os ventos amainem e uma nova vaga de calmaria chegue por aí. Só se espera que o novo rearranjo do cenário seja mais interessante que o antigo para o leitor. Que bons ventos o conduzam.

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Thiago Camelo
 

Muito bacana o texto Delfin! Gostei mesmo! Fiquei pensando na época em que o Q! circulava se daria certo essa idéia de um jornal vespertino. Queria saber qual foi o argumento usado para defender a distribuição pela parte da tarde.... pq as notícias nem eram assim tão quentes para que não se pudesse esperar até o dia seguinte (ou até à noite, em qualquer jornal de tv) pra se informar.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 10/5/2006 16:39
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toru
 

excelente esse texto. duvido que algum jornal va' publicar um texto sobre a reformulacao da imprensa no rio, com uma visao panoramica como essa.

toru · Rio de Janeiro, RJ 10/5/2006 22:55
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Fabricio Noronha
 

Bom! Matou muito muitas das minhas curiosidades.

Fabricio Noronha · Vitória, ES 12/5/2006 01:53
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Edson Wander
 

Delfin, animal seu texto, parabéns !
E ó, acho que é possível pensarmos uma "pauta nacional" (de novo essa idéia maluca de boa que não conseguimos fazer até agora) com cada overmano em seu estado produzindo um texto nessa linha sobre como funciona o jornalismo impresso pelo Brasil. Quem é quem, como lida com governos e sociedade, concorrência e dando um toque especial sobre a cobertura cultural, bastidores ete e tal. Que tal ?
Abraço,
EW

Edson Wander · Goiânia, GO 12/5/2006 09:49
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Ana Murta
 

excelente texto. bem esclarecedor. parabéns!

Ana Murta · Vitória, ES 12/5/2006 11:29
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Bruno Nogueira
 

Essas mudanças são muito positivas. Espero que um dia os jornais tenham menos medo de experimentar novos formatos. =)

Bruno Nogueira · Recife, PE 12/5/2006 16:51
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Fábio Fernandes
 

Excelente texto, Delfin. Estive no Rio na semana passada e vi a mudança no JB anunciada em outdoors, busdoors e o diabo. Aí fui checar e, de fato, tive essa impressão de um certo amadorismo no novo formato. Pode até ser impressão, mas como o JB andou mal das pernas por muito tempo não é improvável que os problemas financeiros continuem repercutindo na parte editorial. Parabéns pelo texto: ainda não li nada comentando essas alterações em outros veículos. O que só vem a provar o valor e a necessidade do Overmundo, aliás.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 12/5/2006 17:37
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Tiago Carvalho
 

muito bom esse texto. vale mencionar que o globo está se tornando um jornal ainda mais conservador do ponto de vista político e cada vez mais escrachado, do ponto de vista estilístico.

o escracho está nas fotos, nas manchetes e nos textos. a manchete da primeira matéria sobre a greve de fome de Anthony Garotinho, na capa, era "Bolinha para de comer". Na edição que trazia a cobertura do último encontro entre Evo Morales e Lula, a foto da capa trazia a imagem de Lula em primeiro plano, sorrindo de frente para a câmera, e a do presidente boliviano, em segundo plano, segurando o colega pela cintura com um sorriso, digamos, malicioso - como se estivesse carcando o presidente brasileiro. em cima da foto havia a legenda "muy amigo". fora de brincadeira, só pode ser de sacanagem.

Tiago Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 13/5/2006 01:13
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Tati Magalhães
 

Bacana mesmo o texto, Delfin. Interessante que, por aqui, a gente acaba sem saber desses furacões todos, mas tem uma coisa que achei interessante no teu texto é que vc fala que as mudanças não se referem ao conteúdo. Ou seja, a forma de se fazer e pensar o jornalismo parece continuar a mesma... me pareceu aquela coisa de mudar para deixar as coisas exatamente como estão, sabe? mas falo isso, como disse, a partir das impressões do teu texto, porque sequer vi essas mudanças na imprensa carioca...
Parabéns por diversificar ainda mais o conteúdo do overmundo!

Tati Magalhães · Maceió, AL 13/5/2006 15:53
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Andrea Thompson
 

Ótima sua visão, Delfin. No corre-corre de nossos dias atribulados, muitas vezes não refletimos acerca de tantas mudanças no jornalismo carioca. Senti de perto as dificuldades do Q!. Muitos amigos de minha época no JB foram para a nova empreitada da Ariane. Estreparam-se! Mas valeu a tentativa de mudança dos moldes cartesianos de nossa imprensa. Parabéns pelo apanhado geral e pela contribuição de grande valor!

Andrea Thompson · Rio de Janeiro, RJ 13/5/2006 22:19
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Liv Brandão
 

O Q! foi um projeto bastante arriscado e esquizofrênico. Um jornal que prometia trazer as notícias de amanhã em primeira mão, mas que só dava capas frias, estava fadado ao fracasso.

Comprei algumas edições para entender do que se tratava e continuei na dúvida.

Liv Brandão · Rio de Janeiro, RJ 15/5/2006 15:56
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Gabriela
 

gosto quando você escreve sobre essas coisas

Gabriela · Rio de Janeiro, RJ 16/5/2006 17:55
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Beta Sushi
 

Novos jornais(nem todos),formatos não tão novos assim e uniicolor...VERMELHO SANGUE!!!!
infelizmente as notícias nos facilitam ver somente esta coloração,mesmo que seja apenas nas entrelinhas!!!
Amei a matéria!

Beta Sushi · Rio de Janeiro, RJ 17/5/2006 15:18
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Marcelo Moutinho
 

Com todo respeito aos muitos amigos que trabalharam lá: o "Q!" foi de um amadorismo à beira do patético. Quanto ao JB, vejo com simpatia a mundança para tablóide, até porque o jornal anda precisando se mexer mesmo. Agora, Delfim, vc poderia fazer um texto desses sobre as linhas editoriais do cadernos de cultura, sobretudo a aparente mudança que vm sendo operada no Prosa & Verso. Que tal?

Marcelo Moutinho · Rio de Janeiro, RJ 18/5/2006 13:07
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Delfin
 

Taí, Moutinho, esse aí é um bom mote pra uma suíte :)

Delfin · São Paulo, SP 19/5/2006 00:06
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