Furar o mundo

Thiago Camelo
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Bruno Maia / Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
28/7/2006 · 184 · 13
 

A mão é negra, o cartão é branco e a logo que você vê é, sim, do Mc Donald’s. Foi com este cartão que a vida do João mudou. Justo ele, que nunca entrara em uma das milhares de lojas da famosa rede de fast food, justo ele que não sabia o que era um Big Mac, que trabalhava num restaurante japonês em Brasília, que era nascido em Pernambuco, que tinha morado em Angola durante a guerra. Justo ele, veio parar na França assim.

João tem 24 anos e se aproximou de nós depois de reconhecer, em nossas vozes, o seu idioma materno, numa das pequenas ruas no entorno da Praça St. Michel, em Paris. “Vocês são brasileiros?”, veio perguntando. Apesar de ser natural do Recife, uma das cidades com um dos sotaques mais particulares no Brasil, o modo de falar nos deixou em dúvida, num primeiro momento, se o rapaz era nosso conterrâneo ou um estrangeiro com boas noções de português. Quando ele se revelou pernambucano, a pergunta foi imediata.

- Mas que sotaque é esse, rapaz??? Você é do Nordeste ou não?

João se defendeu, disse que era claro que tinha sotaque. Não percebemos de primeira, mas, com alguns minutos de conversa, saíram as ferrugens e apareceram aquelas acentuações e respirações típicas de quem nasceu e cresceu na Veneza brasileira. Não conseguindo fugir de um certo ranço burguês, de classe média etnocêntrica, perguntamos incrédulos:

- O que que você está fazendo em Paris??
- Rapaz, minha história é longa...
- Bom, então conta pra gente...

****

Como num filme em flashback, as perguntas são retroativas, cada vez mais se referindo a partes anteriores da vida de João. E a explicação é lógica: a cada resposta, a história parece mais incrível, no mais restrito significado deste adjetivo. Nascido no Recife e criado em Olinda, filho de um pastor da Igreja Evangélica, ele se prepara para iniciar o curso de Direito numa universidade francesa.

- Mas, cara, que que você veio fazer aqui?
- Eu vou começar a estudar Direito na universidade... Eu fazia REL (relações exteriores) na Católica de Brasília...
- Mas por que Direito?
- Eu quero seguir carreira diplomática...
- Mas você não disse que é de Recife? Quê que você estava fazendo em Brasília?
- Eu fui pra lá porque eu queria furar o mundo. Tinha jornada dupla, trabalhava num restaurante japonês do aeroporto de lá e estudava. Um dia, eu atendi um cliente no aeroporto e comecei a falar em francês com ele. Disse que a França era minha paixão e ele me ofereceu para vir morar aqui.

?????????

Entender sua vida seria uma tarefa difícil e isso estava claro. Rapidamente intervimos sobre a fala dele e perguntamos se podíamos entrevistá-lo, sob o pretexto de sermos jornalistas. Solicito e sorridente, aceitou sem dificuldades. Pegos de surpresa, não tínhamos nem papel, nem caneta, muito menos gravador - nos prendemos atenciosos aos detalhes e tudo que está aqui é fruto da memória. Seguimos.

Para explicar de onde veio sua paixão pela cultura francesa, João resolve contar mais partes de sua história. Diz que é o caçula de uma família de mais três irmãos e que, quando tinha treze anos, foi morar em Angola, já que o pai fora transferido para lá por conta do trabalho pastoral.

- Fomos com meu pai. Era muito difícil, o país estava em guerra. Não tinha esse negócio de ficar na rua de noite. Cinco horas, ia todo mundo pra casa. A gente teve problemas de malária. Eu tive mais de oito vezes. Meu pai, mais de vinte. Minha mãe, nove... Eu vi muitos brasileiros morrerem com a doença, principalmente o pessoal dos capacetes-azuis, da tropa da ONU... Muita gente do Rio de Janeiro, inclusive...

A relação com a cultura francesa começara pouco antes da ida para o continente africano. Ainda em Pernambuco, durante sua infância, seu pai costumava lançar perguntas em francês para os filhos e oferecia dinheiro para quem respondesse corretamente.

- Mas, então, seu pai falava francês?
- Não. Só algumas frases. Ele comprava uns livros em francês e decorava aquilo. Quando eu fui pra Angola, como não tinha muita coisa para fazer, eu comecei a querer estudar um pouco de francês. A primeira imagem que me lembro, acho que é a da Torre Eiffel, né?... aquela coisa grande...

Na volta ao Brasil, João foi morar no sertão pernambucano, na cidade de Afrânio. Concluiu o ensino médio por lá e depois foi estudar em Brasília. Sem familiares na capital, João recorreu a uma ex-namorada.

- Ela era de Petrolina e os pais eram separados. O pai morava em Brasília. Depois que nós terminamos, eu mantive o contato com ela, como amigo, já pensando que aquilo poderia ser útil um dia. Daí, um dia eu liguei pra ela e me disseram que ela estava passando férias lá com o pai. ‘Opa, melhor ainda’.

E com o pretexto de que precisava de um lugar para ficar, já que faria o vestibular naquela cidade, foi parar na casa do pai da ex. Ele jura que não reviveu o romance. Como em Faroeste Caboclo, a música da Legião Urbana, um João estava indo do Nordeste para Brasília. Mas acredite, aqui o final é bem mais feliz. Um mês depois de chegar, já estava morando numa república de estudantes.

- Fui pra lá porque eu queria furar o mundo. Primeiro trabalhei uns vinte dias na padaria, mas já estava esperando o resultado da entrevista pra esse trabalho no aeroporto. Logo em seguida, fui para lá. Parecia coincidência, mas sempre que tinha clientes franceses, eu acabava atendendo. Falava umas frases que eu sabia em francês para tentar agradá-los e ganhar mais gorjeta. O salário era de R$ 300, mas com a gorjeta chegava a R$1600 por mês e, com esse valor das gorjetas, eu podia pagar a minha universidade.

Numa dessas, João contou para mais um daqueles clientes franceses sobre seu sonho de morar no país. Prontamente, foi questionado:

- Mas o que te impede de ir?
- Ah, as condições financeiras....
- Eu estou indo para Paris, me liga na segunda-feira que eu vou te levar para realizar o seu sonho.

E foi assim que este cartão, que ele guarda até hoje na carteira e que você viu na foto lá em cima, chegou às mãos de João e lhe abriu as portas para começar a furar o mundo, de fato. Nos dias seguintes ao encontro no restaurante em Brasília, a alegria e incredulidade se misturavam com as dúvidas e as preocupações. Ao mesmo tempo em que o sonho tomava formas reais, algumas questões vieram à sua mente e de sua família:

- Acharam que ele era gay, que podia ser uma coisa ruim... Mas nós mantivemos contato via internet durante sete meses. Então ele me mandou uma carta de boas vindas da universidade onde ele tinha me matriculado para estudar o idioma... Ele não podia estar querendo me fazer mal, né?

João veio para Paris e passou a ser filho desta nova família. O senhor que lhe ofereceu o cartão é como um pai para ele e o trata de forma justa. “Nunca tive do que reclamar. Sou tratado da mesma forma como os outros filhos, tenho os mesmos direitos”. As diferenças ficam por conta dos costumes. Tirar a camisa em casa não é tão simples como no Brasil. A mãe da família, que não estava no encontro em Brasília, estranhou um pouco no início. “Mas é natural, já que, de repente, chegou alguém que ela não conhecia para morar na casa dela... mas depois de uns três meses, tudo já estava normal.” O fato de ser negro não interferiu em nada. “Eu acho que existe mais problema disso no Brasil do que aqui na França”.

Phillippe Tillaye é dono de três franquias da rede Mc Donald’s em Paris e, por isso, a logo no cartão. Hoje em dia, João já tem boas noções do idioma francês e trabalha num das lojas de Phillippe. Quando perguntado se almoça muito no trabalho, ele diz que sim. “Há nove meses, eu só como lá. Não quero nem pensar como está a minha barriga”. Apenas em Paris ele foi apresentado à maior rede de fast food do planeta. “Nunca tinha comido num Mc Donald`s. Quando eu estava em Recife, eu comia uns acarajés, mas não em Mc Donald’s”.

O cartão mágico de Phillippe para João trazia, inevitavelmente em si, uma série de contradições e belezas: um pedaço de papel com uma das marcas norte-americanas que mais fortemente representam a noção de dominação cultural seria justamente o seu passaporte para Paris, cidade notoriamente conhecida como a capital européia da afirmação dos próprios costumes e, em especial, de resistência ao americanismo. No meio disso tudo, estava lá João, provando o gosto do Big Mac à medida que entendia mais a fundo seu interesse por lemas como liberdade, igualdade e fraternidade.

A chegada de João abriu portas para um intercâmbio cultural na família que, desde então, se inscreveu num programa de recepção de jovens do mundo inteiro. “Mas nesse caso, eles vêm na condição de hóspedes e a família recebe uma ajuda para mantê-los aqui. Não é como eu que sou da família”. O lugar parece perfeito para João se preparar para a carreira diplomática. “Eu tento fazer tudo muito certinho, para não desperdiçar esta oportunidade”. Questionado sobre como vai fazer para se preparar para o concurso para o Instituto Rio Branco, para o qual é preciso estar bem informado sobre coisas do Brasil, principalmente legislação, ele não se preocupa: “Tem Internet pra isso”.

Sair de Olinda-Recife para querer capturar o mundo com suas próprias antenas nos pareceu uma história familiar. A influência dos conceitos da geração MangueBit, especialmente de Chico Science, principal representante da cultura de Olinda, soava evidente. Contudo, quando perguntamos sobre isso, a resposta nos pega pelo pé.

- Science? – e repete como quem procura em algum lugar da mente – Science? Não conheço...
- Chico Science, um rapaz que misturava música moderna com maracatu, com coisas tradicionais, muito famoso. De Olinda – repetimos, tentando explicar da forma mais rasa e rápida possível.

Sobrancelhas franzidas e rosto balançando na horizontal indicam o total desconhecimento. Na tentativa de achar justificativas para aquilo, só ficamos satisfeitos quando calculamos que os anos em que o nome de Science mais brilhou foram exatamente os que João viveu em Angola, 1994 a 1998. Quando ele retornou ao país, Science não estava mais por aqui. Parece que as idéias estavam no ar.

Nos despedimos de João, mas, antes de deixar-nos ir, ele nos mostra, mais uma vez, seus olhos curiosos e atentos sobre o mundo e quer saber o máximo de informações possíveis sobre nós dois. Nessa hora, seu “pai” sai do prédio para passear com o labrador. Registramos o momento com a pequena máquina digital que nos acompanha. João nos apresenta, mas pouco depois nos repreende, sem perder o sorriso e a simpatia.

- Mas rapaz, você não pode sair fazendo essas fotos dele assim sem pedir não.

Como o “pai” já se foi, pedimos desculpas e que ele explique que, no Brasil, esse registro de encontros, de momentos como aquele, com pequenas máquinas, é comum. Prometemos que não vamos usar as fotos, já que não consultamos. João diz para relaxarmos, que não é nada sério, que só estava dando um toque. João já tem seu lado francês, mas lembra que é brasileiro. João só quer furar o mundo.

****
A colaboração acima é a primeira de uma pequena série de textos que pretendemos escrever a respeito da nossa estadia na Europa. Durante duas semanas viajamos juntos por França e Alemanha. As experiências vividas são descritas com o olhar de quem já estava no velho continente há dois meses - o Bruno Maia - e de quem tinha acabado de chegar por lá – o Thiago Camelo. Conhecemos pessoas e vivemos situações que, ao menos para nós, parecem de interessante relato aqui no Overmundo. Nada mais do que uma descrição despretensiosa da visão compartilhada de dois amigos brasileiros. Para encontrar mais textos sobre a nossa viagem, por favor, pesquisar pela tag viagem-europa.

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Felipe Vaz
 

muito bom! parabéns a ambos pela matéria!

Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 27/7/2006 15:59
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Balbino
 

"FURAR O MUNDO", que maravilha.......Agora, João, por favor almoçar biguiméqui todo dia vai derreter seu fígado mano. Bela matéria!

Balbino · Cuiabá, MT 28/7/2006 11:05
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Tati Magalhães
 

Sou adepta daquele pensamento de que toda vida daria um romance, porque o romance é apenas uma maneira de contar uma história de vida. Isso vale para qualquer texto... mas vamos e venhamos, afora o talento de quem escreve, a história que o inspira é essencial para garantir o interesse de quem lê!
incrível como histórias como essa povoam nossos caminhos sem que, quase sempre, não nos demos conta (obrigações diárias, rotina, desconfiança, corre-corre do dia-a-a-dia). Parabéns a Thiago e Bruno pela "descoberta" e ao João pela oportunidade!

Tati Magalhães · Maceió, AL 28/7/2006 18:30
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Natacha Maranhão
 

Muito legal o texto, fantástica a história!! Esses personagens que surgem do nada costumam nos revelar grandes surpresas, né?
Parabéns Thiago e Bruno, adorei mesmo!

Natacha Maranhão · Teresina, PI 29/7/2006 10:23
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sofia
 

Poxa! Não vejo a hora dos próximos!
Muito Bacana!

sofia · Fortaleza, CE 30/7/2006 00:25
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Luciana Hernandes
 

putz...vou com balbino...também achei formidável essa de "furar o mundo".
o moço é um tremendo de um fura-bolo. entidade destemida que cutucou esse mundo balão.

Luciana Hernandes · Cuiabá, MT 30/7/2006 12:47
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Bruno Maia / Thiago Camelo
 

Obrigado a todos pelos comentários elogiosos. É o tipo de matéria que nao importa quem escreve, a história por si só já é suficiente. João é um cara fantástico, uma simpatia pura. A história ainda é mais bizarra se considerarmos o fato - que preferimos omitir na matéria - de que só estávamos naquela hora, naquele lugar, por causa de uma série de coisas imprevisíveis, de coisas que deram errados (inclusive um vôo que foi cancelado sem razão!) e de alguns desencontros. No final, tudo parece ser desenhado e fugir um pouco das nossas mãos. E é aí que fica maneiro. Só discordo da Tati Magalhães quando fala em "descoberta". Nao descobrimos o João, acho que ele é que descobriu que o mundo era dele. O máximo que chego é usar a palavra "encontro". Obrigado pelos elogios de todos, mas todas as reverências devem ser feitas, mesmo, ao João. Tomara que ele vire diplomata mesmo!

Bruno Maia / Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 30/7/2006 19:56
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Claudiocareca
 

Sensacional! O ser humano sensível capta tudo a sua volta, o mundo é pequeno demais e cada vez mais... Acreditar, seguir em frente buscar seus sonhos... "Um passo a frente e você já não está mais no mesmo lugar" Chico Science

Claudiocareca · Cuiabá, MT 31/7/2006 18:38
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ALDEEJAY
 

parabéns muito bom o texto,...e o que não faz a força de vontade não é....ninguém disse pra João que não poderia furar o mundo..e vai conseguir com certeza, as coisas acontecem porque tem que acontecer.

ALDEEJAY · Jaraguá do Sul, SC 4/9/2006 18:38
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André Dib
 

Realmente, um pernambucano de 24 que não conhece Chico Science...!! Só uma correção, o "malungo" morto precocemente era de Recife, a Manguetown..., e não Olinda, onde ele bateu o carro no poste fatal.

André Dib · Recife, PE 13/9/2006 02:51
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Thiago Camelo
 

Verdade. Valeu a correção André!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 13/9/2006 17:10
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Ana Cullen
 

Putz... sempre me arrepio com histórias de heróis... esses Joãos que temos pelo Brasil... e pelo mundo afora... se superando e não aceitando que ninguém diga até onde podem ir, porque podem tudo! Valeu Thiago e Bruno, por compartilhar...
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 26/12/2006 14:16
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J. Felipe Brito
 

Cara, histórias assim me renovam as esperanças de 'furar o mundo' também. Belo texto, bem escrito e gostoso de ler.

Parto para o restante da viagem agora....hehe

Abraços!

J. Felipe Brito · Rio de Janeiro, RJ 5/8/2008 22:04
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