Não sei em outras cidades mundanas, mas pelo menos no Recife e adjacências, o meio "Cult" (que tenta ser tão diferente) é igual ao resto dos populares, vive de certos modismos. Hoje a moda é ter uma banda com o cantor cantando escalonado e oitavando a melodia, ah! e ter uma banda cover de algo considerado interessante para ser estudado pela sociologia, como por exemplos: bandas antigas, cantores chamados de brega, e claro os grandes gênios da música Tupiniquim (minha mania agora é usar essa expressão). Voltando ao assunto inicial, um outro modismo, que vem do pós-Chico Science pra cá, e esse realmente me incomoda, é o do furto cultural, principalmente o da cultura popular.
Não é difícil hoje, chegar em um maracatu, caboclinho ou afoxé de Recife, e ver um indivíduo de barba, com óculos de soldador ou uma menininha com sainhas de renda, ou de chita e com muita tatuagem, querendo aprender um pouco sobre a bela cultura popular, aquela que corre em seu sangue. É esse mesmo indivíduo que depois sai pelo mundo vomitando cultura, e se sentindo o mestre de maracatu (quando não abre o seu), e outra coisa que também me revolta bastante (uma das milhares que vocês verão ao longe do texto), ele nunca dá nada em troca pelo que adquiriu. Não falo de ajuda fincanceira, ou coisas do tipo, é uma troca muito mais importante do que essa, uma troca que chega a transcender o físico.
Sei que os cults de plantão vão com certeza me criticar, vão usar de todos os argumentos para provar que eu estou errado e, também, vão reclamar da minha escrita, mas entendam pelo amor de algum ser superior que vocês creiam, todos sabemos que é necessário que essa cultura (não apenas a musical, mas a oral, a cênica e afins) seja disseminada na vida diária de todos nós, que temos que tentar despreconceiturar (sim, eu sou um fiel adepto do neologismo-sem-noção), mas é preciso ter respeito. Ter respeito pelo fundamento que aquilo é baseado, pelo tempo que as pessoas dispõem para tal, pelos antepassados que ali estão impregnados. E antes de tudo não brincar com coisa séria, tudo no mundo é energia, e trabalhar com energias que não se conhece, é complicado.
Eu sei, viajei, mas adoro essas coisas holísticas, adoro falar o que eu adoro.
Pois é, infelizmente não consigo exprimir tudo aquilo que eu penso, e isso me irrita profundamente (também). Outra coisa que me irrita (profundamente??) é aquele negócio que no Recife ou o cara é percussionista, ou é produtor ou é dj, isso quando o cara não é O FODA e é os três de uma vez só (assunto pra outra história).
Vô lá porque eu vou fazer uma programação com um samplear de um negócio que eu gravei de um cavalo marinho, sabe?? E depois vou ensaiar minha banda cover de 'Tayrone O Cigano', que sábado eu toco no Toca da Joana, e vou tomar uma no burburinho depois escutando um samba de Raíz.
Obrigado. E seje filiz.
Vocabulário: cult, não é relacionado a pessoas com vasto conhecimento, cult é simplesmente cult!
Alexandre Barros,
Com a colaboração de Malu Xavier.
em fortaleza, ser cult é curtir uma boa roda de samba - de preferência, em alguma casa de shows na área nobre da cidade. lá se reúnem os meninos e meninas detentores de vasta cultura e que se crêem, pasmem, do povão. acreditam estar umbilicamente ligados à periferia, de onde saiu o samba, por tocarem lá o seu pandeirinho.
Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 12/12/2006 15:13E qual é o problema também galera? As motivações e os apegos à cultura vão muito de cada um, não acham? Se o modo de lidar com a cultura de certa pessoa é botar um chapéu de sambista, ir pra Lapa (aqui no Rio, é a Lapa) e cair - neste sentido, artificial - no samba, vai fundo! Acho que o texto gera boas discussões. Bacana! Abraço!!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 12/12/2006 19:40
É o seguinte, eu acredito que você gostar de samba, de cultura de raíz é uma coisa muito boa, principalmente por que é algo que lhe ajudou de uma forma ou de outra historicamente na formação da pessoa que você é.
Mas eu cito aí a questão do "Furto", simplismente sugar essa cultura, e dou um exemplo bem besta, mas que explica isso: aqui acontece muito, de neguinho aprender um pouco sobre essas manifestações e depois sair cobrando pra ensinar, e não fazer nenhuma referencia de onde aprendeu e tal. E ja convivi muito com isso, por morar em uma area menos abastarda do Recife, mas com uma produção imensa, e fui criado dentro dessas manifestações, e vejo como é o povo...
O que eu tentei exprimir foi mais ou menos isso, mas longe de mim achar que alguem é certo ou errado, cada um faz o que quer, é o livre arbitrio...
Cultura nunca é demais, claro.
O problema é quem não a absorve-utiliza da maneira mais devida.
Falo de valorizá-la. Infelizmente por aqui tem gente que só a utiliza para meios sem fim. Ela morre em si. E até chega a perder um pouco do seu valor.
Tem muita coisa que não merece ser banalizada!
Acho que existe aí um moralismo muito complicado. O Maracatu não precisa de defensores para continuar acontecendo, seja lá como for, onde quer que seja. Ele independe dessas opiniões que vocês estão defendendo: os "agentes do mal" que vão lá e "se aproveitam" dos "pobres e autênticos nativos"... depois dizem que fazem música de raiz, se aproveitando da cultura alheia, etc. O melhor seria o que exatamente? Que estabelecêssemos uma cultura geral de fronteira onde tudo estaria no seu lugar e funcionaria como deve? Onde toda a informação artística fosse correta e circulasse da melhor forma possível? Temos que tomar cuidado com isso, pois, atualmente, pelo menos em Belém, tenho visto mais esse papo em botecos cult do que na periferia.
Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 14/12/2006 16:01Concordo, q esse comentario existe mais no meio cult do que na periferia, apenas comentei algo que me incomoda como participante dessas coisas, e eu nao falo aí em necessidade de existir, eu apenas cito no texto que é necessario que haja uma troca entre eles, UMA TROCA! isso é o que eu vejo e o que eu convivo. Não vejo porque tomar cuidado, acho muito legal essa discussão, e não falo como dono da verdade, eu expresso mesmo a minha opnião... obrigado aos que comentam, e realmente peço desculpas se não conseguí imprimir no texto minha reais ideias...
Alexandre Barros · Recife, PE 14/12/2006 16:37
Ah nem cito aí, que meus comentarios vão fazer com que os maracatús ou seja qual for a manifestação continuem existindo, outra coisa, cito maracatú aí por ser uma forma mais conhecida de manifestação daqui, mas nem toco em maracatú...
Na minha verdade, achei o texto muito feliz e coeso. A panela de pressao ao contrario que existe no meio " Cult" de Recife, precisa urgentemente de uma explosao. Cover de brega, de icones passados, é a confirmacao da falta do que dizer, do fim de estoque. Quanto ao maracatu.....deixa pra la.....
Andre Intruso · Jaboatão dos Guararapes, PE 17/12/2006 18:57
Prova maior que as expressões de cultura sempre se mantêm vivas é o Maracatu cearense; não é tão louvado quanto o Maracatu pernambucano, mas ainda existe, capenga, mas existe.
Esse fato do 'furto' é interesssante - concordo com o Barros - mas talvez, esse próprio furto é proveitoso pra manifestação cultural. Aqui em Fortaleza, pouco se ouvia falar do Carimbó, mas os 'cults' de plantão retomaram esse gosto, logo, artistas como o Pinduca, voltaram a fazer shows e produzirem discos.
Houve uma troca de maneira involuntária. Que foi, de certa forma, proveitoso.
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