Observatório

A história do Overmundo na memória de seus colaboradores
O Overmundo foi pensado para trazer à luz a cena cultural brasileira, independente da grande indústria cultural e que, justamente por ser independente, não costumava figurar com destaque nos grandes meios de comunicação. Algum tempo passado, constatamos que ainda há muito o que fazer e que, a cada dia – sobretudo com o advento da internet colaborativa e de ferramentas de autopublicação... leia

 
GALERIA POP ROCK GOSPEL
Pedro Rocha - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza (CE) · 15/9/2006 14:49 · 84 votos · 4 comentários ·  
 
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overponto
Bruno Macedo
Foto tirada do terceiro andar da Galeria Pedro Jorge
Imagens
Movimento no térreo da galeria
Chakal mostrando cds de white metal
Terceiro Andar da galeria em vespera de show dos Gladiators
Descendo a rua General Sampaio sentido sertão-mar, logo depois da praça José de Alencar, você pode quebrar a direita e entra na Galeria Pedro Jorge. Não tem errada. Amola-se faca, tesoura; conserta-se a arcada dentária, o liquidificador e a televisão quengada; vende-se o sanduíche, o caldo de cana, o pastel, a esfirra, o salgado com suco. Tem a bíblia pequena e grande, tem a gravata listrada, tem a camisa do exército de Deus. Rock? Lá em cima.

"Ééééégua, ainda tá aqui?! Rapaz em 80 e pouco eu comprava disco a ti", comenta um senhor que passa na galeria depois de muitos anos. "Esse aí não compra mais nada. É daquele que diz: 'Ah! Eu fui roqueiro'", quem fala é Tony Cochrane, pioneiro na galeria Pedro Jorge. Sua loja Opus chegou naquele prédio entre a General Sampaio e a Senador Pompeu em que predominavam escritórios de advocacia e contabilidade ainda em 1984, época em que os LPs de bandas de punk-rock e hard-rock eram escassos na cidade.

Antes, final de 1970, Tony fazia parte do movimento punk. Tomou conhecimento através da antiga revista Pop, que em 1977 lançou uma coletânea Pop apresenta o punk-rock com grandes nomes do estilo. Tony e outros punks se reuniam em inferninhos nos subúrbios - "boca quente pra caralho" - com uma fita na mão pedindo para tocar The Clash, Sex Pistols e Ramones. Os LPs de punk-rock não chegavam aqui. Era o jeito despachar uma carta com destino a São Paulo, onde os comprava de alguns contatos.

Tony, em sociedade com um amigo, juntou os vinis do acervo particular dos dois e subiu para o segundo andar da galeria, na época um centro comercial qualquer sem nenhuma tradição nesse meio. Além dos vinis, pendurou algumas camisetas e acessórios. "Na verdade eu tinha ido para São Paulo e tinha visto o começo da galeria lá. Eu andava lá desde a década de 70. Tinha o sonho de fazer isso. Não foi nada pesquisado. A gente conhecia muita gente, muito colecionador, vivia fazendo troca de vinil", fala Tony com a voz mansa, óculos e alguns cabelos brancos que lhe tingem a cabeça quase 30 anos depois. A loja é hoje uma das maiores da galeria, ocupando duas salas.

Chakal veio depois, foi também um dos pioneiros na galeria. Conta a história de um grupo de punk que pediu para lavar a cabeça no banheiro de sua loja. "Só que ele entrou meteu a cabeça no vaso sanitário e deu descarga e ficou lavando a cabeça. Aí depois foram no restaurante, compraram uma quentinha, viraram no chão e ficaram comendo com a mão na frente de todo mundo", diz rindo como que revendo a cena da galeria anos atrás.

De lá pra cá muito mudou. A notícia se espalhou e foi loja por cima de loja. O boom, segundo Ocean Gomes, vendedor há 12 anos na galeria, foi de 2001 pra cá. O que era algumas lojas no segundo andar, cresceu pros lados e pra cima, chegou no terceiro e hoje existem duas no quarto andar.

O público além de crescer se diversificou. "O público feminino é mais recente, cresceu bastante. Na década de 80 e começo de 90 não existia. A gente ia pra show não tinha menina. Umas duas. Só homem. Do meio de 90 pra cá é que começou mesmo a aparecer.", fala Ocean, vendedor da Opus atualmente.

As mulheres chegaram e hoje dividem pau a pau com os marmanjos. Camisetas baby look estampadas com símbolos e fotos dos integrantes de banda são comuns nas lojas.

A galeria hoje abriga lojas de piercing, tatuagem, vestuário. Especializadas em reggae, rock, rap, skate... O quarto andar abriga a sede dois selos musicas independentes - Empire Records e Nocaute Discos - que rumaram para o prédio que também serve de espaço de intercâmbio para a cena independente do rock principalmente.

Rock e o comércio da fé
No térreo da galeria predomina o comércio da fé. A primeira foi a Casa da Bíblia. Vai completar 20 anos. O que antes era apenas uma loja, hoje são três: uma pequena, outra bem maior e ainda há uma locadora só de filmes evangélicos.

Quando descobriram a Opus, "os caras vinham aqui querendo me evangelizar. Dizendo que era coisa de demônio", diz Tony, comentando a convivência dos dois segmentos no mesmo prédio no passado. "Hoje em dia eles não são metaleiros também? São punk, são dark, são tudo. Modernizaram né, eles estavam perdendo a juventude, eles não admitiam a música nessa época. Então agora eles têm heavy metal, até black deth metal versão white. Falando de Jesus."

A palavra de Deus não está mais só nos tradicionais louvores - ainda os mais vendidos. Cds de bandas gospel dos mais diferentes estilos estão a venda nas lojas de baixo. Desde do Dj Alpiste, que faz um rap gospel, até a banda estadunidense P.O.D (Payable on Death), uma banda cristã que mistura hip-hop, hardcore, reggae e a batida pesada do metal.

João Paulo Xavier, vendedor da Bíblia & Opções e fiel da Igreja Pentecostal da Fé, lembra que a música gospel não necessariamente é a evangélica, mas confirma a pluralidade de estilos. "A gente tem reggae, rap, hip-hop, sertanejo, tem o brega mais antigo, tem tudo. Quando se faz um trabalho evangelístico, a gente aproveita todas as características das músicas. Tem até tipo cover do Raul Seixas, que é pra poder o som chegar àquelas pessoas que rejeitam o louvor. Eu mesmo quando ouvi o Catedral [banda de rock], foi uma das bandas que eu mais gostei, porque eu gostava do Renato Russo."

Nada de coisa do demônio. Carlos Alberto Souza "era ateu. Nem acreditava em Deus, nem diabo, em nada, só curtia o som e tudo mais." Isso até a conversão em 2001 ao neo-pentecostalismo. "É aquela coisa quando Deus chama, transforma o ateu em alguém que crer."

Carlos Alberto Souza, mais conhecido como Chakal. Aquele que contou a história dos punks. Meu amigo não acredita quando falo que ele se converteu. “O Chakal? Aquele bixo era doidão...”. Foi, se converteu.

Hoje a loja do Chakal na sala 225, ao lado da Opus, ainda mistura cds seculares com o gospel, mas isso tá diminuindo e ele começa a se especializar no ramo white.”Antigamente era muito difícil um cara que era roqueiro se evangelizar, porque era um espaço muito fechado. Só um cara que pegasse uma doença muito grave ia parar pra ouvir a palavra de Deus. Hoje em dia sem querer ouvir já estão ouvindo, as bandas estão chegando".

tags: Fortaleza CE musica rock pop gospel white-metal evangelizacao galeria


 
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Que loucura...
Adorei a abordagem e o jeito que você escreveu... Principalmente nos primeiros parágrafos, lí o título, comecei a ler e fui pensando...onde isso vai parar? Muito bacana mesmo...
Abraço!
Ana Cullen · Brasília (DF) · 13/9/2006 17:05 
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Velho, adorei a matéria. Como disse a Ana, curti muito seu estilo. Escrever é isso, liberdade.
Abratz,
Gustavo Lucas · Brasília (DF) · 15/9/2006 11:58 
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Ah! As fotos também estão muito legais. Parabéns!
Gustavo Lucas · Brasília (DF) · 15/9/2006 12:00 
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Gostei do foco nos "pioneiros" da Galeria e da maneira como você inseriu as lojas gospel do térreo na história. Engraçado mesmo, pensar que o Chakal se converteu. Mas por que não, né? :)

Semestre passado, eu e mais 3 amigas escrevemos sobre a Pedro Jorge pro nosso jornal, A Vaca. Foi uma das pautas mais legais de fazer, em meio a nossas incursões ao centro da cidade.
Débora Medeiros · Fortaleza (CE) · 20/2/2007 21:20 
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