Ganhar dinheiro é preciso (e deve ser bom)

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Helcio · Fortaleza, CE
17/12/2006 · 117 · 8
 

Ontem os parlamentares brasileiros dobraram os próprios salários na maior cara de pau. Pilantragem da grossa. Um absurdo que se perpetua enquanto a gente não faz mais nada além de resmungar e depois testemunhar a reeleição dos mesmos sujeitos. A safadeza legitimada. Caramba, essa sensação de impotência é muito ruim.

Ontem também foi o único dia que consegui comparecer ao “A Cultura Além do Digital”, com mesas de debate em Recife e no Rio de Janeiro. Infelizmente era a última mesa e, por estar em São Paulo nas duas semanas passadas, eu havia perdido todas as apresentações anteriores. O tema dessa era “O Horizonte da Cibercultura”, com Arthur Leandro (artista e professor da UFPA), Cláudio Prado (Ministério da Cultura) e Gabriel Furtado (coletivo Media Sana) como debatedores.

Ah, antes de entrar de fato no tema, tenho que render todos os méritos aos que se prontificam a elaborar, participar e apoiar um evento como esse. Muito legal.

Retomemos.

A lamentar (pô, sempre tem que ter um “mas”...) ficou o curtíssimo tempo para debate por algum problema de liberação do auditório. Uma pena porque o debate tinha tudo para ser a melhor parte do encontro. Tudo por causa da intervenção de uma menina da platéia cujo nome nem desconfio. Ela levantou uma questão bem pragmática: “isso tudo é muito legal, mas... e a grana?”.

A reação da mesa foi meio que de susto, tipo “o que eu tenho a ver com isso?”. Max Weber deve ter morrido de rir seja lá onde ele estiver, afinal, o que mais sobressaiu ali foi a velha noção de que ganhar dinheiro é pecado (e que pecados não são bons). Ué, num evento em que uma das expressões mais utilizadas era “democratização dos meios de produção”, é imprescindível que se discuta formas de se tornar pequenas iniciativas auto-sustentáveis e, de preferência, lucrativas.

Ou então, como bem disse o único rapaz da platéia que ainda teve tempo para comentar o tema, as iniciativas continuarão sob o guarda-chuva de dinheiro público ou de fundações de bancos ou multinacionais, eternizando o antigo status quo com uma relação de mecenato marqueteiro, mantendo a mesma manjada dependência de alguns setores da produção cultural.

Oona Castroescreveu com muita propriedade nesse Overmundo de deus sobre a fertilidade de negócios num ambiente de cultura livre.

Pra apimentar o assunto, pego algumas falas dos debatedores dirigidas à menina para - sem citar os nomes porque seria uma covardia, já que eles não teriam como explicar melhor seus pontos de vista – servir de referência:

1)“Sou artista, não entendo de ganhar dinheiro” e “Se você produzir pensando em ganhar dinheiro, você trava seu processo criativo”.

A relação de artistas com as elites econômicas se deu durante toda a história nas mais diversas culturas. Nada mais normal. A produção artística tem desde sempre um espaço cativo no imaginário popular como talentos quase divinos, donos de técnicas de efeito fantástico, um modo diferente de ver o mundo, de perceber, incomodar, causar sensações, emoções, portanto, muitas vezes cercada de um caráter místico muito poderoso.

Ao mesmo tempo, pela história e nas mais diversas culturas, há artistas desvalorizados, não reconhecidos ou reconhecidos postumamente.

Em comum entre os que levam uma vida nababesca e os malditos está a necessidade de susbsistência e, queiramos ou não, não pode haver melhor situação para um artista do que viver da sua arte. Enquanto não inventarem forma mais nobre de subsistir do que através do trabalho, assim será.

Quanto a travar o processo artístico, duvido muito. Grande parte das obras mais valorizadas do planeta foram feitas sob encomenda. E nem precisa ser assim. O artista tem toda a liberdade de seguir seu processo criativo no caminho mais lúdico possível e, assim mesmo, conseguir um resultado com grande valor de mercado. Incontáveis são os exemplos.

2)“O artista tem outras formas de capitalizar nesse processo”

Não sou artista. Gostaria muito de ser.

Tenho um livro publicado e uma... sei lá, digamos HQ em movimento (ou webnovela, como alguns chamaram), ambos pela Internet e pagos com dinheiro do meu bolso, graças ao meu trabalho como jornalista. Nos dois casos não busquei nem muito menos alcancei lucro nenhum. Na verdade apenas gastei. Admito que valeu muito a pena, me senti recompensado.

Essa é apenas uma vertente e não corresponde à regra. A pergunta da menina recai sobre outra realidade, que é a de pessoas ou grupos, sem acesso a potenciais patrocinadores, que dediquem toda a sua força de trabalho à produção artística como forma de sobrevivência, e que enxergam na Internet uma possibilidade de aumento de receita. Ou ainda: subsistência.

É a pergunta da menina: “e a grana?”

3)“Não se preocupe com isso. O B Negão disponibilizou suas músicas de graça, hoje vive na Europa ganhando dinheiro como nunca imaginou. Conheço vários casos desse”.

Epa! Então a menina está certa. Ainda bem que tem gente ganhando dinheiro com sua produção artística via internet. Está provado que existem caminhos e eles devem ser aproveitados. Dá pra produzir e viver bem disso.

O mercado ainda existe, as relações de força é que estão mudando. No caso do BNegão, disponibilizar suas músicas viabilizou o processo. Que maravilha! Claro que há vários exemplos do gênero e o que a menina propôs, acredito eu, seja estudar estratégias bem-sucedidas como essa para, de forma mais sistemática, contextualizar, adaptar e aplicar modelos que permitam aos artistas divulgar e distribuir a sua produção. Tudo certo.

Por mais maravilhosa que seja, a Internet é uma ferramenta. Práticas como disponibilizar produtos sem custo para atrair consumidores existem desde sempre. O que muda é que agora, graças a essa ferramenta, todo ser conectado tem chance de mostrar o resultado do seu trabalho e disputar o mercado. Ver a indústria do entretenimento ter que rebolar pra lutar contra incontáveis indivíduos solitários (ou associados) é muito bom. E melhor ainda se esses indivíduos prosperarem com suas produções sem precisar dos “grandes tubarões”. Assim como o citado BNegão, muitos estão encontrando mecanismo interessantes. Eles ainda parecem ser infinitos. E é fundamental que sejam ocupados pelos indivíduos, e não mais uma vez pela “indústria cultural”.

4) “Sua preocupação com grana reflete uma influência da indústria cultural”

Minha percepção é contrária ao argumento. O conceito de indústria cultural a grosso modo diz que poucos detentores dos meios de comunicação empurram goela abaixo de populações inteiras, num eixo unilateral, como se vestir, o que comer, o que pensar, como comprar e comprar muito.

A Internet é uma ferramenta fantástica porque permite a contramão. Qualquer um conectado, em tese, pode ter voz. Isso permite que adolescentes de São Paulo até então desconhecidos fora de seus bairros participem de um concurso de bandas promovido pela rede inglesa BBC e fiquem em terceiro lugar contra grupos musicais do mundo inteiro. Permite muito mais.

Maravilhoso então se essa ferramenta permitir que um grupo de artesãos idosos melhore a remuneração do seu trabalho, que um grupo de meninos resolva fazer videoarte, consiga um bom resultado e tenha uma renda digna exibindo sua obra mundo afora, sem precisar de patrocínio de ninguém.

As principais lições sobre como utilizar a Internet para viabilizar economicamente produção cultural independente estão na própria Internet. Um monte de iniciativas exitosas já estão acontecendo. Grande parte delas prescinde de arrecadação de recursos externos e não têm esse objetivo. Ótimo. Outras tantas irão definhar e morrer caso não desvendem o desejado segredo da esfinge que a menina da platéia tanto corre atrás. E olha que ela ainda insistiu: “não quero fórmulas, apenas acho que esse debate é importante”.

PS. Após batucar esse textinho fui ao Largo da Carioca (centro do Rio) e vi o Dicró numa banquinha vendendo seus CDs independentes e autografados ao vivo por R$ 10,00. Ainda tem quem diga que é a galera do download que rouba os artistas.

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Fabinca
 

Dinheiro é um tabu: quem não tem é quem mais fala nele e de sua falta; quem tem finge que não tem ou que não dá importância.
Gostei muito do texto, mas não entendi o PS.

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 16/12/2006 13:08
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Alê Barreto
 

Hélcio, até hoje este é um dos melhores artigos que li no Overmundo. Sobre a questão da grana, na minha visão, há muita hipocrisia, falta de informação e pensamentos equivocados. Acho que as pessoas tem medo de se expor e falar o que está rolando. Eu comecei a trabalhar com cultura em janeiro de 2003. Na época, já com quase 30 anos, hoje com 34. Na época, uma pessoa que estudava administração de empresas e que não queria mais trabalhar sob o sonho de ter um bom emprego numa multinacional e ficar rico. Passados os meus primeiros 4 anos como produtor cultural independente, abri uma pequena empresa individual e tenho tido muita dificuldade para garantir o meu sustento. Penso que devo estar falhando em vários aspectos, motivo pelo qual busco ir aprimorando minhas práticas. Mas o interessante é que percebi que há uma polarização neste assunto: ou se acredita que o negócio é fazer qualquer coisa por dinheiro, e daí vale tudo, ou as pessoas acham que é pecado ganhar dinheiro, que daí não é cultura. Eu vivo, trabalho e luto acreditando que é possível sim viver de cultura em nosso país. Por isso busco sempre ampliar o meu diálogo com as pessoas que refletem sobre este assunto.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 16/12/2006 18:30
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etetuba
 

A missao francesa oficializa a arte produzida segundo o gosto do governante e relega à planos inferiores todas as demais produçoes artisticas fruto da diversidade cultural brasileira. A historia registra esse periodo como de grande esfervercencia cultural, mas analisada pela otica da dominaçao cultural a historia da arte brasileira torna-se ambígua. Se a politica oficial para a cultura registra em nossa historia alguns governantes como grandes incentivadores e financiadores das artes, a politica aqui aplicada, inclusive a cultural, também é responsavel pela imposiçao de uma identidade unica, hegemônica, dominadora e opressora.

etetuba · Belém, PA 22/12/2006 20:45
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etetuba
 

É comum ouvir relatos de artistas que dizem inscrever-se em salões de arte pela possibilidade de premiação, que os salva sazonalmente de colapsos financeiros, e até pela possibilidade de chamar a atenção de colecionadores, que são tão poucos que eu não considero essa possibilidade como real. Mas em ambos os casos é a sobrevivência que hoje move os artistas para esses eventos, e não mais a possibilidade de colocar sua produção em debate público, e talvez a necessidade de sobrevivência tenha criado fronteiras para a produção artística paraense.
ver mais em http://www.midiaindependente.org/eo/blue/2003/10/266310.shtml

etetuba · Belém, PA 22/12/2006 20:46
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etetuba
 

A ditadura militar fortaleceu economicamente a elite brasileira e instalou um aparato institucional para controle ideológico dos meios de comunicação, e fez o mesmo com a produção cultural, transformando a produção artística em aparelho ideológico para manter o conformismo na população e, com isso, atingir sem muito esforço a manutenção do poder político.
ver + em http://www.amapabusca.com.br/asp/noticias/news/news_item.asp?NewsID=2242

etetuba · Belém, PA 22/12/2006 20:47
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etetuba
 

Nessa lógica artistas se isolam em ateliês e o que é valorizado são as conquistas individuais, em outras palavras: a diretriz da politica que segue a logica do mercado valoriza a competição fazendo com que artistas se tratem com desconfiança e mantenham seus projetos em sigilo, reprimindo o debate, a interação e a colaboração entre produtores culturais. O argumento para as leis de incentivo é tirar do governo a decisao de escolha do que financiar e jogar essa decisao nas maos da sociedade, mas a compreensao do que seja “sociedade” para os governos brasileiros desde Collor de Mello, deixa essa decisao exclusivamente nas maos de empresas. Ora, nessa concepçao a decisao sai das esferas governamentais (investimento de interesse de governo) para o mercado – a lógica do lucro, e a negociação direta entre artistas e empresarios gera um problema preocupante: o financiamento unico e exclusivo de projetos cuja abordagem ou proposta artistica e estética agrade e beneficie o grupo detentor do capital de investimento, o que significa a imposição do gosto da elite econômica sobre a produção cultural, e o direcionamento para uma, digamos assim, estética burguesa.
ver + em http://aparelho.comumlab.org/node/537

etetuba · Belém, PA 22/12/2006 20:49
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etetuba
 

o fazer artístico se aproxima do que, nas "Teses sobre Feuerbach", Marx diz ser a "atividade revolucionária", "atividade crítica-prática"
ver + em http://www.overmundo.com.br/overblog/subverter-tudo-construir-tudo

etetuba · Belém, PA 22/12/2006 20:54
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etetuba
 

mas é necessario abrir o debate franco sobre o papel da produçao cultural na sociedade, que hoje pode ser considerada submissa ao poder, e da liberdade de criação, que hoje pode ser questionavel, para que os artistas e produtores culturais possam realmente se colocar em em pé de igualdade com agentes financiadores - quer sejam estatais ou do capital privado.

etetuba · Belém, PA 22/12/2006 20:57
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