Gerson Conrad: lenda injustiçada.

Divulgação
1
Elefante Bu · Brasília, DF
5/3/2008 · 172 · 9
 

Conhece o clássico “Rosa de Hiroshima”? Gosta da melodia, do violão? Pois quem foi o responsável por resgatar o poema de Vinícius de Morais e musicá-lo foi Gerson Conrad, justo o mais discreto e menos lembrado da revolucionária Secos & Molhados. O Elefante Bu teve o prazer de entrevistá-lo.

Elefante Bu - O que acho curioso é que muita gente relaciona os Secos & Molhados com os Beatles por causa do impacto da música e porque da relação de popularidade e números de vendagens que foi para outro patamar no Brasil. E fazendo uma brincadeira de relações entre uma coisa e outra, a impressão que tenho é que você foi o "George Harrison" da banda: o cara mais discreto e que fez uma das músicas mais bonitas e lembrandas. A coisa é por aí mesmo?

Gerson Conrad - Você não está errada, comparam mesmo, devido ao sucesso que fizemos, cativando um público imensurável de A a Z. Há de se lembrar, de que o grupo ficou com o estigma de divisor de águas referente ao mercado fonográfico. Isso, devido aos números de discos vendidos no chamado período de lançamento. Explico, em noventa dias após o primeiro LP ter chegado ao público consumidor, atingimos mais de 300.000 cópias vendidas. A média até então, "record" conhecida, era de 50.000 cópias durante o ano, no mercado nacional, e só alcançada pelo "Rei" Roberto Carlos. Nem mesmo a Bossa-Nova, Jovem Guarda e Tropicalismo conheceram tal número no período acima referido. Quanto à comparação de minha pessoa com George Harrison, o que sei, é que apesar de "Ariano, impetuoso Dragão, no horóscopo Chinês", eu sempre fui o mais comedido, entre o Leão (Ney) e o Escorpião (João Ricardo). Alguém tinha que ter os pés no chão. Sem falsa modéstia, eternizei um poema de Vinícius de Moraes, "Rosa de Hiroshima", que talvez, não tivesse alcançado a importância, inclusive internacional, se não fosse a música por mim composta.

Elebu - Havia muita troca de informação entre os músicos e os grandes nomes da música naquela época?

Conrad - Não! Acredito que hoje, haja mais essa troca, e esse contato entre artistas. Naquela época, encontrávamos ocasionalmente esses grandes nomes ou, nos bastidores das rádios e televisões durante a gravação ou participação de programas. Tivemos um breve contato, mais próximo, com os baianos. Mais Gal e Gil, durante nossa estadia em Salvador, em Fevereiro de 1974. Era uma época em que cada artista já consagrado estava preocupado em conservar seu lugar ao sol, e os "S&M" haviam chegado, fazendo muito barulho. Acredito que isso os assustou um pouco.

Elebu - Acha que aqueles que fazem parte da mídia especializada, pesquisadores e o público afim são justos na hora de contextualizar a importância dos S&M com as pessoas que fizeram parte dessa história?

Conrad - Não! Deixam muito à desejar nesse quesito. Eu, por exemplo, às vezes, nem sequer sou citado. Exemplo: Nelson Motta, durante a pesquisa de confecção de seu livro "Noites Tropicais" me contatou pessoalmente e também pessoas envolvidas com seu trabalho, colhendo informações, e pedindo autorização para uso de imagem, e no capítulo em que dedica aos Secos & Molhados, omite meu nome. Poderia citar outros exemplos assim, mas não vem ao caso.

Elebu - E você está há muito tempo sem lançar um disco seu. Não tem tesão de aproveitar as facilidades de hoje e lançar alguma coisa sua ou quem sabe mexer com produção?

Conrad - Estou mesmo, e explico: Durante muito tempo fui radicalmente contra a "produção independente" em nosso país. Questão de bom senso. Acho que contribuí o suficiente, e bem, para que, a industria fonográfica e cultural para que, as chamadas gravadoras, que tanto afirmam de que o mercado está mudado, me ouvissem. Não o fizeram. Criaram a expectativa de vendas que representasse a terça parte do que havia vendido o grupo e sem o menor marketing direcionado para isso, puro non-sense. Uma coisa era o grupo, outra, seus integrantes. Mas, elas continuam contratando e lançando gente e gêneros de toda a sorte. Confesso que o tempo passou sem que eu tivesse me dado conta. Mas, estou atuante com shows, ao longo desses vinte e poucos anos sem gravar. Fora da grande mídia, por razões óbvias. Esse ano devo entrar em estúdio mas, não tenho data definida. Tesão! sempre enquanto Deus "mo permitir".

Elebu - Que tipo de música você gosta de fazer hoje em dia?

Conrad - Minhas composições ou minhas músicas, refletem aquilo que filtro das informações do cotidiano. Tendências não sigo, pois minha obra é universal em sua forma de expressão. Talvez você possa defini-la como World Music, ou não. Faço, um "pop-rock em seu contexto, com pitadas de todas as influências que possa ter assimilado, e me prevaleço do fato de ser brasileiro...

Elebu - Do que é produzido hoje entre novas cantoras pop que fazem samba, bandas emo, a cena independente e etc, o que te agrada mais?

Conrad - É..., e está difícil! Difícil de responder porque, ao mesmo tempo em que se tem uma talentosíssima Ivete Sangalo, nos deparamos com aberrações de cunho indefinido, como esse acumulo de bandas "Axé" salvo, algumas exceções, e coisas do tipo, poluindo sem qualidade nossos ouvidos. E pior, sendo-nos imposto pela mídia televisiva. Ouvi-los já é difícil, vê-los, é sacanagem.

Elebu - Mal ou bem, o seu nome é obrigatório nas páginas da história da música popular brasileira. Como você se sente em relação a isso?

Conrad - Evidente que gratificado. Como o ditado popular, "Falem bem ou mal, mas falem de mim!" É sempre bom ser lembrado! Sem discutir talento ou sorte, estou diciorarizado, logo imortalizado, e isso é gratificante, sinal de que minha contribuição por meio de minha obra, teve seu valor e reconhecimento.

*Esta entrevista é parte integrante da matéria sobre os Secos & Molhados publicada no fanzine Elefante Bu n°31, de março 2008.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Andre Pessego
 

rapaz, estou contente por ter aberto a votação. Vou foltar pra reler. legal.
um abraço andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 3/3/2008 17:17
sua opinião: subir
touché
 

tentei votar,tb admiro o trabalho do Gerson Conrad, tenho um lp que ele gravou com a Zezé Motta, muito legal..tentei votar mas cliquei, e nada...

touché · Guarulhos, SP 4/3/2008 21:21
sua opinião: subir
Juliaura
 

Além de músico que adoro ouvir, é lindo o moço, né mesmo BU?
Muito bom esse teutrabalho. Grande sacada e espírito de elevação do que deve ser louvado.
Epahei!

Juliaura · Porto Alegre, RS 5/3/2008 01:30
sua opinião: subir
alcanu
 

Isso não é musica, è um hino, um mantra sagrado, ouvi-a pela primeira vez no primeir disco dos secos e molhados,em 1973, de lá pra cá aprendi a gostar dessa delícia !
Parabéns, meu amigo !
Alcanu

alcanu · São Paulo, SP 5/3/2008 17:36
sua opinião: subir
Luizao Ouro Preto
 

Gostei, mas achei breve. O gerson tem muito mais a dizer.

Luizao Ouro Preto · Ouro Preto, MG 5/3/2008 17:41
sua opinião: subir
Elefante Bu
 

Pois então Luizao Ouro Preto. Sei que é breve, mas essa entrevista foi concebida para encaixar num espaço determinado e na diagramação do fanzine Elefante Bu, que é em PDF. O Gerson tem um livro a dizer, sem dúvida nenhuma. Ele é um grande músico que fez um clássico histórico. Quantos conseguem isso? Mas da entrevista, é isso daí. Foi pensada e adequada para um fanzine, aliás, como é explicado no final da entrevista. Ela é parte de um todo que foi o especial feito a respeito dos Secos & Molhados que conta ainda com uma outra com o João Ricardo e o depoimento do Willy Verdaguer. É isso aí!

Elefante Bu · Brasília, DF 5/3/2008 20:55
sua opinião: subir
Luizao Ouro Preto
 

Entrei no blog do E-Bu e não consegui baixar a última edição versão pdf [estamos com um problema]; eu queria conferir a entrevista na fonte, mas, infelizmente...; por tabela baixei as edições anteriores e fiquei surpreso: is not mole não! Cada dia aprendo da vida um pouco mais. Um abração de Ouro Preto, Minas Gerais.

Luizao Ouro Preto · Ouro Preto, MG 6/3/2008 07:56
sua opinião: subir
Elefante Bu
 

O zine tb está disponível no Overmundo!

Elefante Bu · Brasília, DF 6/3/2008 10:57
sua opinião: subir
Elefante Bu
 

E o problema lá no arquivo do zine também já está resolvido. Valeu demais pelo alerta!

Elefante Bu · Brasília, DF 6/3/2008 11:07
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados